quarta-feira, maio 12, 2010

Ser ou não ser

Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.

Até quando? Até quando?

Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.

Melhorou um pouco

"Sempre se soube disso, mas hoje podemos constatar de maneira realmente aterradora: a maior das perseguições contra a Igreja não advém de inimigos externos, mas nasce do pecado no seio da Igreja, e a Igreja, portanto, tem uma profunda necessidade de reaprender a penitência, de aceitar a purificação, de aprender, por um lado, o perdão, mas também a justiça. O perdão não substitui a justiça."

Estas palavras de Bento XVI em resposta a uma pergunta que lhe foi feita no voo que o trouxe a Portugal são um forte desmentido às alegações de altos responsáveis do Vaticano de que havia uma campanha orquestrada contra a igreja a propósito da pedofilia e constituem a mais dura crítica interna escutada até agora. Falta passar das palavras aos actos, despadrar,  desbispar e descardealar os culpados e seus encobridores e entregá-los à justiça dos respectivos países.
Expectativa gorada

Afinal, as portas de Lisboa estavam abertas às 6H45, pelo que tive de puxar pelo cabedal durante o dia todo.

terça-feira, maio 11, 2010

Descanso?

Como o presidente da Câmara de Lisboa entregou a chave da cidade a Ratzinger, amanhã não posso entrar na cidade para trabalhar, pelo que também não vou ver o papa com a camisola do Benfica. Vou já telefonar a um representante do patrão para ir sacar o meu dia de ordenado ao patriarcado.
(In)decisão

Enquanto protelamos a vida passa por nós a correr. 
Séneca

Demasiado tarde e com custos grandemente acrescidos para toda a zona euro, nomeadamente para aqueles que se encontram em situação financeira mais crítica, os eternos irresolutos lá tomaram a decisão que poderá, espera-se, evitar o estrondoso fracasso de todo o projecto europeu. A dona de casa deixou-se convencer pelo saltinhos (e pelo espírito santo de orelha vindo do outro lado do Atlântico), mas o seu titubear de nada lhe serviu, já que os eleitores do maior Estado da Alemanha lhe deram uma lição nas urnas, retirando-lhe a maioria na Câmara Alta. Como diz o velho ditado, accepto damno januam claudere!

segunda-feira, maio 10, 2010

O saque e a crise

A brigada do reumático

Mais de trinta e seis anos depois e por entre as aclamações da imprensa do costume uma nova “brigada do reumático” dirigiu-se ao palácio de Belém. Desta vez constituída não por generais caquécticos mas por uma dúzia de economistas, a maioria senis e todos eles com fortes responsabilidades na situação a que chegou o estado das nossas finanças públicas.

De tão faustoso conclave nada saiu de útil, apenas o apoio ao agravamento das condições de vida da classe trabalhadora mas, amanhã e depois, vamos ver alguns deles a baterem com a mão no peito e a correrem pressurosos no encalço do senhor absoluto do Vaticano. Cui pudor non est, orbi dominator! Amém!

domingo, maio 09, 2010

leve sorriso

vi que nevava em galhos nus
sobre eles inclinava-se piedoso um rosto

subi ao silêncio

soava leve o seu sorriso
de criança muda

meu coração a procurar na abóbada das sombras
a sua morada

e havia luz na alegria
que deixei muito próxima
da fonte do bosque
onde bebi a água mais azul

Maria Costa*

*poetisa mafrense

sábado, maio 08, 2010

Maioria

Se toda a humanidade menos um fosse da mesma opinião, e apenas um indivíduo fosse de opinião contrária, a humanidade não teria maior direito de silenciar essa pessoa do que esta o teria, se pudesse, de silenciar a humanidade.

deusas de ruas  

nem bucólicas nem divinas
nem correm o risco de ser jovens
dormem nas ruas

parecem desenhar o frio
e o futuro

com uma mão entrelaçada ao colo
e outra peregrina do vazio

cópias estelares de virgens  

Maria Azenha*

*poetisa coimbrã

sexta-feira, maio 07, 2010

Liderança

Não é tarefa fácil dirigir os homens; empurrá-los, pelo contrário, é muito simples.

O Último Negócio

Certa manhã
ia eu pelo caminho pedregoso,
quando, de espada desembainhada,
chegou o Rei no seu carro.
Gritei:
- Vendo-me!
O Rei tomou-me pela mão e disse:
- Sou poderoso, posso comprar-te.
Mas de nada lhe serviu o seu poder
e voltou sem mim no seu carro.

As casas estavam fechadas
ao sol do meio dia,
e eu vagueava pelo beco tortuoso
quando um velho
com um saco de oiro às costas
me saiu ao encontro.
Hesitou um momento, e disse:
- Posso comprar-te.
Uma a uma contou as suas moedas.
Mas eu voltei-lhe as costas
e fui-me embora.

Anoitecia e a sebe do jardim
estava toda florida.
Uma gentil rapariga
apareceu diante de mim, e disse:
- Compro-te com o meu sorriso.
Mas o sorriso empalideceu
e apagou-se nas suas lágrimas.
E regressou outra vez à sombra,
sozinha.

O sol faiscava na areia
e as ondas do mar
quebravam-se caprichosamente.
Um menino estava sentado na praia
brincando com as conchas.
Levantou a cabeça
e, como se me conhecesse, disse:
- Posso comprar-te com nada.
Desde que fiz este negócio a brincar,
sou livre.

Rabindranath Tagore, in O Coração da Primavera

(Tradução de Manuel Simões)

quinta-feira, maio 06, 2010

Espírito

Esta flor delicada,
De que me vale?
Só lhe devo o mal!

Esta flor delicada
Que não veio do sangue, nem da raça,
É a minha desgraça.

Quando eu nasci beijou-me a luz de um astro
Que se apagou na madrugada...

Ai de mim! E nasceu esta flor delicada.

Fim da 3ª via?

Cartoon: Peter Brookes/The Times

quarta-feira, maio 05, 2010

Filosofia

Hora de comer - comer!
Hora de dormir - dormir!
Hora de vadiar - vadiar!

Hora de trabalhar?
- Pernas pro ar que ninguém é de ferro!


*poeta pernambucano
Sócrates e Passos



terça-feira, maio 04, 2010

Certa vez

Certa vez... Vá, não cores desse jeito!
Eu era um estudante de direito,
Tu eras uma simples normalista:
Podíamos, portanto, meu tesouro,
Fazer, como fizemos, sem desdouro,
Essa loucura que hoje te contrista.

Com que emoção — recordas? — com que gozo,
Eu vinha te esperar, vibrante e ansioso,
Nessas novenas de plangências cavas.
E como um cavalheiro que se preza,
Timbrava em te levar, depois da reza,
Até ao portão da chácara em que estavas.

Certa vez... Vá, não cores desse jeito!
Era de noite. Arfava-nos o peito.
Ardia em nós um lânguido desejo,
Tomei-te as mãos... Sorriste... E aí, num assomo,
As nossas bocas, sem sabermos como,
Famintamente uniram-se num beijo!


* poeta paulista

segunda-feira, maio 03, 2010

Citações roubadas

Quem é original neste mundo? Quem tem o dom inimitável? Quem é capaz de dormir em paz, com a certeza de não ter copiado a palavra do outro, o pensamento do vizinho, a idéia do colega?  

Desisti dessa pretensão de dizer o que ninguém disse antes. De fazer a abordagem que não deixasse margem à dúvida de que eu (este eu que é meu!) penso por conta própria.  

Bela ilusão achar que vou achar um modo inconfundível de escrever. Bela vaidade de fugir à vaia que todos os plagiadores merecem, em meio a alguns aplausos... Bela pretensão que me provoca essa tensão diária, e que aumenta um pouco minha pobre auto-estima.  

Eu, com boas ou más intenções, não importa, sei perfeitamente o quanto é belo e inútil o meu esforço. O esforço de jamais repetir o que outros já produziram em verso e prosa é um esforço belo e inútil. Inútil e belo.  

No entanto, há um jeito que dê jeito nessa história mais ou menos bem contada. Se não posso ser original, que ao menos aproveite a originalidade alheia, com a consciência (pesada!) de quem sabe que nada vem do nada.  

Por isso eu aviso, e dispenso as aspas e o anticaspa. As citações abaixo foram roubadas, furtadas, arrebatadas de outros escritores, pensadores, de outros autores, de pessoas conhecidas ou anônimas.  

Foram roubadas de vocês, de todos nós:  

Cito, logo existo.  

A ocasião faz a citação.  

Só sei que não sei citar a mim mesmo.

Minha terra tem palmtops onde canta, como nunca, Michael Jackson.  

Citar os outros é pensar por conta alheia, e roubar citações sem dizer quem as inventou... é atuar por conta própria.  

Ler é ingressar num mundo de vitórias e derrotas, no qual os sentimentos mais variados vêm à tona.  

Escrever é lembrar-se... para enfim esquecer.  

Cuidado com o que você diz: as suas mentiras podem se tornar a verdade dos outros.  

A vida em sociedade obriga-nos à informação mútua, ou nos tornaremos uns espiões dos outros.  

A primeira coisa a entender com urgência é que não entendemos tudo.
Citar os outros é não citar a si mesmo, e citar os outros sem revelar autores... é recitar o mesmo.  

Caminhando e citando e perseguindo novas citações.  

Estamos condenados à citação.  

O inferno é a citação dos outros.  

Quem cita por último cita melhor. 


*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

domingo, maio 02, 2010

Ser cidadão

Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida. ..... Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!

sábado, maio 01, 2010

Elogio da dialéctica

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração: isto é
                                                           apenas o começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes.
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.

 Bertold Brecht