sexta-feira, fevereiro 26, 2010

A candura

Vê tu, disse eu comigo lendo o Poeta,
quanto é rica e feliz a ingenuidade
e quanto é pobre e vã a sapiência.
Onde a idade ensinou a acautelar-nos
decresceu a fortuna e estreita a vida,
e facilmente desditosa e inerte
basta a nuvem sombria para a deter.
E onde a candura virgem não sonhou
conselhos timoratos da experiência,
logo a vida é perene e esparge bênçãos.
quer o céu brilhe no fulgor do sol,
quer tormentosas nuvens o escureçam.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Na corda bamba

Decorre desde as 10 da manhã (hora de Washington) de hoje uma espécie de cimeira entre Democratas e Republicanos, presidida por Obama e televisionada para todos o país, com vista a encontrar uma solução para a prestação de cuidados de saúde, uma das bandeiras da campanha do actual Presidente.

Goste-se ou não de Barack Obama, é necessário reconhecer que é muito o que está em causa, não só para os Estados Unidos mas também para o resto do mundo.

Por um lado, os Estados Unidos já gastam 17% do seu PIB na prestação de cuidados de saúde, o que corresponde a mais do dobro da média dos países desenvolvidos, e continua a ter perto de 50 milhões de cidadãos fora do sistema, aparecendo no 37º lugar na lista da OMS em termos de cobertura dos cidadãos. Na mortalidade infantil, por exemplo, caíram da 12ª posição, em 1960, para a 30ª, em 2005. Se não for encontrada uma solução que aumente drasticamente a eficiência, prestando cuidados de saúde a muitas mais pessoas com custos significativamente reduzidos, poderá estar em causa a bancarrota de centenas ou milhares de empresas (os males da GM e da Chrysler tiveram a sua origem, em grande parte, na incapacidade de fazer face aos custos com cuidados de saúde contratualmente garantidos aos seus empregados) e, em última instância, do próprio país, o que só alguém completamente louco e fanático poderá desejar.

Por outro lado, se Obama não conseguir fazer aprovar legislação significativa neste particular, dificilmente conseguirá fazê-lo noutras áreas fulcrais da governação, desde o emprego à regulação bancária, passando pela energia, pela responsabilidade orçamental ou outras políticas macro económicas. E todos estamos a sentir na pele aquilo a que pode conduzir a desregulação das instituições financeiras.

O economista e colunista britânico Anatole Kaletsky dá-nos, no Times de hoje, uma panorâmica do que pode estar em causa a nível global se a cimeira de hoje falhar. Para ler e meditar.
Sentir

Amor não é paixão
Às vezes vem de lá
Às vezes, não.

Paixão não é amor
Às vezes chega lá
Às vezes, não.

Sexo não é paixão nem amor
Às vezes toca lá
e às vezes, não.


*poetisa, compositora, escritora, jornalista e intérprete brasileira

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

A cavalo no vento 

A cavalo no vento sobrevoo
o destino sombrio deste porto,
aonde um rio vem morder o vulto
do mar confuso.
                           Ó mar despedaçado,
mordido em tanto flanco, o sobressalto
dos teus ombros nervosos já sacode
a terra toda!

E para quê mais portos
agressores, estaleiros rancorosos,
onde em surdina e sombra se conspira
contra a vida. . .?

. . . Contra a vida do mar e o seu poder
que só um corpo nu deve merecer!

terça-feira, fevereiro 23, 2010

A palavra

A palavra gatinha
Sem nada por cima
A palavra rompe
              investe
                    perfura
Comprida a palavra perde-se
Em redor da mesa reveste-se organiza-se
A palavra precisa de ternura

Excesso insuportável de palavras inúteis



Pedro Tadeu, no Diário de Notícias de hoje.

Até há poucas semanas nunca tinha ouvido falar de Pedro Tadeu. Continuo a desconhecer em absoluto quem é, a não ser que escreve, esporadicamente, umas crónicas no DN. Mas está carregado de razão, neste país de necrófagos.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Perguntas

Onde estavas tu quando fiz vinte anos
E tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
Nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
Para com elas fazer posters cinzeiros  e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
Mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo tempo que víamos Música no Coração
Mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
Retalhados na Coreia e no Vietname
Nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylon
Virando também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram vivas
Mulheres e crianças em nome
De uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
Foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Alende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
Às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém te encontrou em lugar algum.

Joaquim Pessoa, in Os dias da Serpente - 1981

(no seu 62º aniversário)

domingo, fevereiro 21, 2010

Manifestações

Houve ontem duas manifestações, separadas por algumas horas, mais de 300 quilómetros de distância e grandes diferenças em número de manifestantes, mas cujos objectivos se distinguiram por uma letrinha apenas: uma, na capital, com a finalidade de discriminar todos aqueles que não vêem o casamento como uma instituição cujo único fim é procriar; a outra, na invicta e convocada expressamente para os média, promovida por jogadores, equipa técnica e dirigentes de um clube de futebol, com vista a descriminar os seus jogadores que se portam dentro do campo e seus anexos como se estivessem a actuar nas noites brancas.

Por mim, não vou à bola nem com uns nem com outros.

sábado, fevereiro 20, 2010

Vómitos

Vómito cor de rosa, chamou-lhe o saudoso Mário Castrim quando o defunto Comércio do Funchal, com pergaminhos na luta contra a ditadura, passou a ser dominado pelos defensores da revolução a todo o vapor, do grande educador da classe operária e companhia, objectivamente postos ao serviço dos homens de monóculo.

Hoje vivemos rodeados de vómitos de muitas cores: o da cor do sol, o expressamente dito, o descaradamente público, o que é entregue pelos CTT com o correio da manhã, o que dura 24 horas, os que trazem escândalos mascarados de notícias, o da uma, o das treze, o das vinte, o da noite, o tele qualquer coisa, o jornal das tantas. Gómitos, golfadas, vomições e nós sem antieméticos.
Ratos

Tem sempre um chato
em cada canto
multiplicando-se
hipócrita
falso santo.

Tem sempre um tonto
em cada sala
multiplicando-se
perdida bala
babando sangue.

Tem sempre um chato
multiplicando-se
como rato tonto

Frederico Barbosa

(no 49º aniversário do autor)

Retirado do seu sítio pessoal

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Jornalismo

O jornalismo é uma catapulta imensa, posta em movimento por ódios mesquinhos.

Honoré de Balzac
DIDÁTICA

A poesia é a lógica mais simples.
Isso surpreende
Aos que esperam ser um gato
Drama maior que o meu sapato.
Ou aos que esperam ser o meu sapato,
Drama tanto mais duro que andar descalço
E ainda aos que pensam não ser o meu andar descalço
Um modo calmo.

(Maior surpresa terão passado
Os que julgam que me engano:
Ah, não sabem o quanto quero o sapato
Nem sabem o quanto trago de humano
Nesse desespero escasso.
Não sabem mesmo o que falo
Em teorema tão claro.

Como não se cansariam ao me buscar os passos
Pois tenho os pés soltos e ando aos saltos
E, se me alcançassem, como se chocariam ao saber que faço
A lógica da verdade pelos pontos falsos).

Jose Carlos Capinan

(no seu 69º aniversário)

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Disparates

Afirma com energia o disparate que quiseres, e acabarás por encontrar quem acredite em ti.

Virgílio Ferreira, in "Escrever"
Quadra

Eu não sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.

António Aleixo

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Ignorância

Ignorância e arrogância são duas irmãs inseparáveis, com um só corpo e alma.

Giordano Bruno,  teólogo, filósofo, padre e escritor italiano queimado na fogueira da inquisição há 410 anos, no dia 17 de Fevereiro de 1600.
A poesia que desce ao poeta

Poeta, ser estranho, ser enigmático entre os seres!
Vejo-o, isolado das cores, das formas e das idéias,
Isolado, nessa crepuscular solidão que o acompanha.

E é então que vejo descer sobre ele
Uma como sombra de celestiais eflúvios:
- A Poesia, a Poesia de inesperadas ressonâncias,
A grande Poesia, que é uma exalação indefinível,
Que é um som infinito, vindo de outras esferas,
Que é a comunicação miraculosa de outros seres
e de outras regiões.

Múcio Leão*

*poeta brasileiro

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Carnaval

Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se.

Virgílio Ferreira
CHAMA

Um menino
cruzou o meu caminho.
Despido de tudo,
até quase de vida,
restava-lhe, apenas,
no fundo dos olhos,
uma chama pequena,
quase apagada,
de pura inocência.
Dei-lhe um sorriso,
velho e surrado,
de esmola
e fui procurar
a minha chama
perdida...

Luiz Carlos Amorim*

*poeta brasileiro que hoje comemora 57 anos

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Carnaval a dois

Cartoon: Peter Brookes/Times
Meio-dia

Choque de claridades
Palmas paradas
Brilhos saltando nas pedras enxutas.
Batendo de chofre na luz
as andorinhas levam o sol na ponta das asas!

Ronald de Carvalho