sexta-feira, novembro 06, 2009

Como uma flor vermelha

À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, novembro 05, 2009

Ninguém

Saio à rua, ninguém fala comigo.
Entretanto, descuidado, não falo com ninguém.
Volto à casa, ninguém deixou recado.
Porém já é tarde, durmo, esqueço,
E não telefono para ninguém.

No cais, o lenço de ninguém se agita
Enquanto entre nós a distância se faz.
E eu, estranhamente, fico olhando o mar,
Sem atinar, sem acenar,
Sem adeus.

O trem chega, a distância se desfaz.
E, no meio de uma multidão indistinta
Que não me diz mais nada,
Distingo ninguém tentando me dizer alguma coisa.
Apesar disso, passo apressado sem escutar
Aquilo que ninguém queria me contar.

Por que será então que,
Mesmo eu não correspondendo a tanta fidelidade
E a tão exato desvelo,
A presença de ninguém persiste assim
Tão intensa e tão densa
Junto a mim?

Será que, qual ave preta
E tal como noutra história,
Ninguém se afastará de mim
Nunca mais?

Emílio Burlamaqui*

*poeta brasileiro

quarta-feira, novembro 04, 2009

Sábio

O sábio não é o homem que fornece as verdadeiras respostas; é quem faz as verdadeiras perguntas.

Claude Lévi-Strauss

O país de uma nota só Não pretendo nada, nem flores, louvores, triunfos. nada de nada. Somente um protesto, uma brecha no muro, e fazer ecoar, com voz surda que seja, e sem outro valor, o que se esconde no peito, no fundo da alma de milhões de sufocados. Algo por onde possa filtrar o pensamento, a ideia que puseram no cárcere. A passagem subiu, o leite acabou, a criança morreu, a carne sumiu, o IPM prendeu, o DOPS torturou, o deputado cedeu, a linha dura vetou, a censura proibiu, o governo entregou, o desemprego cresceu, a carestia aumentou, o Nordeste encolheu, o país resvalou. Tudo dó, tudo dó, tudo dó... E em todo o país repercute o tom de uma nota só... de uma nota só... Carlos Marighella* *poeta e político brasileiro, assassinado em São Paulo pela Junta Militar, em 4 de Novembro de 1969.

terça-feira, novembro 03, 2009

A Ambição Superada Certo dia uma rica senhora viu, num antiquário, uma cadeira que era uma beleza. Negra, feita de mogno e cedro, custava uma fortuna. Era, porém, tão bela, que a mulher não titubeou - entrou, pagou, levou para casa. A cadeira era tão bonita que os outros móveis, antes tão lindos, começaram a parecer insuportáveis à simpática senhora. (Era simpática). Ela então resolveu vender todos os móveis e comprar outros que pudessem se equiparar à maravilhosa cadeira. E vendeu-os e comprou outros. Mas, então a casa que antes parecia tão bonita, ficou tão bem mobilada que se estabeleceu uma desarmonia flagrante entre casa e móveis. E a senhora começou a achar a casa horrível. E vendeu a casa e comprou uma outra maravilhosa. Mas dentro daquela casa magnífica, mobilada de maneira esplendorosa, a mulher começou, pouco a pouco, a achar seu marido mesquinho. E trocou de marido. Mas mesmo assim não conseguia ser feliz. Pois naquela casa magnífica, com aqueles móveis admiráveis e aquele marido fabuloso, todo mundo começou a achá-la extremamente vulgar. Millôr Fernandes

segunda-feira, novembro 02, 2009

Didática Sobre a Morte
Tudo o que resta, o tempo para a morte que por isso é o espaço ancestral. Todo o tempo que resta - e é para a morte esse que nos falta em esperança. E assim nos restando a morte espera o que somos e em nós se desperdiça. Guardamos os guardados - e a vida. (E a morte nos toma o que guardamos.) Privamos da alegria, em sacrifício, o que vamos dedicar depois à morte em nosso campo de avaros a esse tempo subtraído depois ao desperdício que poderia ser vida se estivéssemos na vida mais lentos para a morte. Álvaro Pacheco* *poeta carioca

domingo, novembro 01, 2009

Visita Fincado nos píncaros majestoso enigma espreita, de perfil Memórias de cordilheiras em meio à ubíqua neurose Incorruptível no secular vício da carniça observa o ciclo da caça Ruídos esganiçados não te assustam Parabólicas captam todas as aparências Excluído do olhar humano Impassível urubu urbano Elizabeth Lorenzotti* *poetisa paulista

sábado, outubro 31, 2009

O mundo é grande O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, outubro 30, 2009

Conselhos médicos.... O doutor, depois de ver a história clínica do paciente, pergunta: - Fuma? - Pouco. - Deve deixar. - Bebe? - Pouco. - Deve deixar. - Pratica desporto? - Não. - Pois deveria. - Sexo? - Muito pouco. - Pois deveria fazer muito. Ele vai para casa, conta à sua mulher o que o médico lhe disse e, imediatamente, vai tomar um banho. A mulher, esperançada, enfeita-se, perfuma-se, põe seu melhor baby-doll e fica à espera. Ele sai do banho, começa a vestir-se, a perfumar-se e a mulher, ciosa, pergunta-lhe: - Aonde vais? - Não ouviste o que o médico me disse? - Sim, mas aqui estou eu prontinha para ti. Então ele diz-lhe, cheio de paciência: - Ah, Francisca, lá vens tu de novo com a mania dos remédios caseiros!

quinta-feira, outubro 29, 2009

Braço de Mar O mar é sempre maior e o luar lhe faz a corte não há medida do homem entre a praia e o horizonte O mar já veio antes da onda inventar o tempo É ele quem trai o porto e ascende o pavio da bomba que puxa a noite do poço e corta os pulsos da sombra E mesmo no sol, o mar transa seu jogo de conveniências suas algas postas de molho sua escultura sem cabeça O mar é sempre começo

Nei Duclós

quarta-feira, outubro 28, 2009

Enigma

entre o som o sono o sonho a sombra e a sobra eu me decomponho em escombros em farpas e agulhas escarpas e fagulhas desfeito enfim em fogos de artifício feito estrelas de mim esfinge autoantropofágica que não se decifrou e que a si mesma se devorou Elmar Carvalho* *poeta brasileiro

terça-feira, outubro 27, 2009

Auto-retrato aos 56 anos Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas Casado duas vezes, tem sete filhos Altura 1,75. Sapato nº 41. Colarinho nº 39. Prefere não andar Não gosta de vizinhos Detesta rádio, telefone e campainhas Tem horror às pessoas que falam alto Usa óculos. Meio calvo. Não tem preferência por nenhuma comida Não gosta de frutas nem de doces Indiferente à música Sua leitura predileta: a Bíblia Escreveu “ Caetés” com 34 anos de idade Não dá preferência a nenhum de seus livros publicados Gosta de beber aguardente É ateu. Indiferente à academia Odeia a burguesia. Adora crianças Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antonio de Almeida, Machado de Assis Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz Gosta de palavrões escritos e falados Deseja a morte do capitalismo Escreveu seus livros pela manhã Fuma cigarros “ Selma” (três maços por dia) É inspetor de ensino, trabalha no “ Correio da Manhã” Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo Só tem cinco ternos de roupa, estragados Refaz seus romances várias vezes Esteve preso duas vezes É-lhe indiferente estar preso ou solto Escreve à mão Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano José Lins do Rego e José Olympio Tem poucas dívidas Quando prefeito de uma cidade do interior, Soltava os presos para construírem estradas Espera morrer com 57 anos.

Graciliano Ramos

segunda-feira, outubro 26, 2009

Dinossauro Excelentíssimo

No gabinete, entre o discurso e a caça às palavras é que o Dinossauro cumpria o seu reinado. Escrevia e vigiava, à sombra do retrato oficial que tinha em cima da secretária e sempre guiado pela sua voz dentro dele. Mas se abrisse a porta podia continuar a ouvir-se, desdobrado pelos altifalantes que havia nos corredores a na sala ao lado onde estava a estátua que era ele mesmo em corpo histórico.

Havia um frio de eternidade naquela teia de circuitos, uma aragem de zumbidos metálicos, e o Dinossauro, atrás da secretária dourada, sua varanda, suas patas leoninas, parecia um sonâmbulo pousado num sonho desértico. Não dormia há séculos, dizia-se dele; outros garantiam: repousa vivo à margem da morte, que é a linha de onde se vê mais claro. De quando em quando as nervuras da teia estremeciam, suspendendo uma gota metálica: TINHA CAÍDO UMA PALAVRA.

José Cardoso Pires, excerto de Dinossauro Excelentíssimo.

domingo, outubro 25, 2009

Duas velas

Levo o infortúnio de não ter - como os relógios - horas eternas... Nem a felicidade que têm os faróis de ficar à deriva, indefinidamente... Sou uma Embarcação - atracada - querendo voar com as gaivotas. Elíude Viana* *poetisa brasileira

sábado, outubro 24, 2009

Sem papas na língua

A comunidade internacional está a perder dinheiro e a derramar o seu sangue no Afeganistão para apoiar um governo de criminosos corruptos e misóginos, de acordo com os interesses dos Estados Unidos.

Malalai Joya

Malalai Joya é uma mulher de armas e já foi considerada a mulher mais corajosa do Afeganistão. Refugiada desde os 4 anos de idade em campos do Irão e do Paquistão, regressou ao seu país com 20 anos, sob o regime dos talibãs.

Em 2003, com 25 anos de idade, foi eleita para o Loya Jirga, convocado para ratificar a Constituição do Afeganistão. Em 2005 foi eleita Membro do Parlamento, do qual foi suspensa 2 anos depois com o argumento de que tinha insultado alguns dos seus pares num programa de televisão. Apoiada por intelectuais e parlamentares de todo o mundo, apelou da sua suspensão (o processo ainda segue os seus trâmites), ao mesmo tempo que discursava nos mais diversos locais (incluindo o Parlamento Europeu).

Esta semana deslocou-se a Madrid para receber o prémio o prémio Juan Maria Brandés para a Defesa do Direito de Asilo e Solidariedade com os Refugiados, tendo dado uma entrevista ao jornal Publico (o espanhol, que o de cá não liga a essas coisas), cuja leitura recomendo a quem quiser entender de que lado estão e o que pensam sobre a intervenção da NATO as verdadeiras forças democráticas do Afeganistão. A propósito: o que andam os nossos a fazer por lá?

sexta-feira, outubro 23, 2009

As malhas que o império tece Logo após o ataque terrorista de Pishin, no sudeste do Irão, que matou 42 pessoas, entre as quais 6 altas patentes da Guarda Revolucionária, o Irão acusou a Inglaterra, os Estados Unidos e o Paquistão de darem apoio aos bombistas, acusações essas que se intensificaram depois de a autoria do atentado ter sido reivindicada pela Movimento de Resistência do Povo Iraniano, mais conhecido por Jundallah. Claro que as acusações do Irão foram logo catalogadas pelos média de referência como paranóicas, mas o circunspecto e conservador Times diz que as mesmas podem não ser tão imaginárias como parecem e chama a atenção para um extenso artigo do reputado jornalista estado-unidense Seymor M. Hersh, publicado em 7 de Julho de 2008 no The New Yorker, o magazine da intelectualidade nova-iorquina. Vale a pena ler artigo preparando o campo de batalha para se perceber como, enquanto o candidato democrata prometia o diálogo, os líderes da maioria democrata se mancomunavam com Bush para financiar a desestabilização do Irão e de outros países do Médio Oriente. Afinal, quem é quem no apoio ao terrorismo internacional?

quinta-feira, outubro 22, 2009

Paisagem Na atmosfera violeta A madrugada desbota Uma pirâmide quebra o horizonte Torres espirram do chão ainda escuro Pontes trazem nos pulsos rios bramindo Entre fogos Tudo novo se desencapotando. Oswald de Andrade
Patacoadas Anda por aí um certo senhor, que dirige os destinos da CIP e já esgotou o seu prazo de validade há muito, a dizer cada vez mais palermices. Primeiro, aconselhou o partido mais votado nas legislativas sobre com quem devia e não devia fazer acordos; mais recentemente, veio clamar que devia haver congelamento do salário mínimo (e, por arrastamento, de todos os salários) para 2010 já que, sem inflação, os sindicatos não têm quaisquer bases para reivindicar aumentos salariais; depois, veio pedir um abaixamento dos impostos, esquecendo-se de dizer que queria a eliminação dos escalões mais elevados do IRS e a redução das contribuições das empresas para a Segurança Social; proximamente, virá, certamente, exigir que o tempo gasto pelos trabalhadores para irem à casa de banho seja compensado pelo quíntuplo em trabalho adicional gratuito, a fim de os empresários fazerem face aos custos do papel higiénico (onde o há), da água, da luz e da limpeza (quando é feita). Parece-me que o senhor van Zeller é capaz de ter alguma razão, considerando que em Portugal os pobres estão muito bem quando comparados com os ricos. Pelo menos é isso que diz o relatório do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas recentemente divulgado, que classificou as economias avançadas com base no Coeficiente de Gini, o qual determina o fosso entre os mais ricos e os mais pobres, significando zero uma absoluta igualdade e 100 uma desigualdade absoluta. Como era expectável, os países escandinavos estão no fundo da tabela, acompanhados do Japão e da República Checa (por enquanto). Portugal ocupa um honroso quinto lugar, apenas atrás de Hong Kong, Singapura, Estado Unidos e Israel, e à frente da Nova Zelândia, Itália, Grã-Bretanha, Austrália, Irlanda e Grécia, para só falar dos 10 mais desiguais (onde não aparecem o Canadá, a França, a Holanda, a Bélgica, a Suíça, a Espanha e o Luxemburgo). Ah grande van Zeller! Vá-se aos malandros dos trabalhadores que ainda chega vivo ao primeiro lugar! Além de que terá uma virgem à sua espera no paraíso por cada trabalhador ou pensionista pobre que por cá deixar. Com o seu ar, não sei o que irá fazer com mais de dois milhões de virgens, mas isso será problema seu.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Soneto das nuvens e da brisa Os pássaros nostálgicos... Errantes mágicos do crepúsculo, soprando das longas asas trêmulas o brando vento da tarde; e logo, em céus cambiantes, alvos blocos de pluma vão distantes e efêmeras imagens modelando: sereias e hipocampos, entre o bando de carneiros, e rosas, e elefantes, cães e estrelas, dragões, ou aguçadas torres, na superfície roseoviva por onde voga, acesa, a caravela e as longas asas captam, retesadas, a poesia da tarde, fugitiva, mas eterna no instante em que foi bela. Waldemar Lopes* *poeta pernambucano

terça-feira, outubro 20, 2009

Laboratório O cego insone ouve o ressoar do rio sob o silêncio dos ventos e inventa um verso invisível. O aleijado viaja além de terras e mares e diante da via láctea acolhe a estrela cadente que o incandesce. O matemático enfrenta o indecifrável teorema e descobre a chave do poema. O poeta lapida silêncios em chamas e ao provocar a fissão de uma voz unitonal faz explodir a flor da palavra e desvenda o enigma. Mas a razão, volátil e fugaz, volta ao estado de pedra. O homem das cavernas retoma a busca da fórmula perdida. Alexandre Marino* *poeta mineiro