How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
segunda-feira, outubro 19, 2015
A lenda da
maldição
A noite viu
a criança que subia a escada cheia de risos e de sombras
E pousou
como um pássaro ferido sobre as árvores que choravam.
A criança
era o príncipe-poeta que a música ardente fizera subir à última torre
E a noite
era a camponesa que amava o príncipe e o adormecia no seu canto.
Quando a
criança chegou ao ponto mais alto viu que a música era o riso embriagado
E que o riso
embriagado era das estátuas mortas que tinham no ventre aberto entranhas
murchas.
A criança
lembrou-se da noite cheia de entranhas e cujo riso era a poesia eterna
E a angústia
cresceu no seu coração como o mar alto nos penhascos.
O olhar cego
das estátuas levou o herdeiro do reino ao fosso negro - ó príncipe, onde estás?
- a voz dizia
E a água
subia, nos braços, no peito, na boca, nos olhos do amado da noite.
Depois saiu
do fosso um homem que era o poeta-amaldiçoado
E que
possuiu a noite chorando, adormecida.
A noite que
nada viu continua chamando o príncipe-poeta
Enquanto o
poeta-amaldiçoado chora nos braços das estátuas mortas...
(Vinicius de
Moraes nasceu faz hoje 102 anos)
domingo, outubro 18, 2015
Imitando Lao
Tsé
Trinta raios
reunidos num eixo
fazem uma
roda - mas é
o cavado que
existe no eixo que faz
com que se
possa utilizar a roda.
O oleiro vai
afeiçoando a argila
até que o
cântaro está pronto - mas é
o espaço
vazio no seu interior que faz
com que se
possa utilizar o cântaro.
Trespassada
por portas e janelas
está a casa -
mas é a circunstância de
a casa ser
oca o que faz
com que a
casa se possa utilizar.
Claro que
devemos usar
o que existe
- mas é
o que não
existe o que faz
com que se
possa utilizar o que existe.
(poeta
norueguês que hoje faz 76 anos)
Tradução de
Amadeu Baptista
sábado, outubro 17, 2015
O instante
do silêncio
Se puderes
aceitar a nudez
como uma
graça ou uma pobreza
talvez
encontres
as linhas de
força inexplicadas.
Se com o teu
peso irremediável,
proferires a
palavra que mal pousa
poderás
sustentar a magnética felicidade
desse
instante,
ameaçado mas
vivo,
do
indecifrável silêncio da nudez.
(António
Ramos Rosa nasceu faz hoje 91 anos)
sexta-feira, outubro 16, 2015
quinta-feira, outubro 15, 2015
Adormecer
Vai vida na
madrugada fria.
O teu amante
fica,
na posse
deste momento que foi teu,
amorfo e sem
limites como um anjo;
a cabeça
cheia de estrelas...
Fica
abraçado a esta poeira que teu pé levantou.
Fica inútil
e hirto como um deus,
desfalecendo
na raiva de não poder seguir-te!
(Manuel da
Fonseca nasceu faz hoje 104 anos)
quarta-feira, outubro 14, 2015
Gosto dos Amigos
Gosto dos
amigos
Que modelam
a vida
Sem
interferir muito;
Os que
apenas circulam
No hálito da
fala
E apõem, de
leve,
Um desenho
às coisas.
Mas, porque
há espaços desiguais
Entre quem
são
E quem eles
me parecem,
O meu agrado
inclina-se
Para o mais
reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua
última fraqueza;
O que menos
se preside à vida
E, à nossa,
preside
Deixando que
o consuma
O núcleo
incandescente
Dum silêncio
votivo
De que um
fumo de incenso
Nos liberta.
(poeta
bracarense naturalizado moçambicano, falecido faz hoje 15 anos)
terça-feira, outubro 13, 2015
segunda-feira, outubro 12, 2015
Escavacou
Escavacou
abismos,
Abriu-se à
realidade,
Morreu de
impaciência.
Viveu a
insignificância
Dos
contratempos,
Buscou-se no
que
Sobrou de si
mesmo.
Desentendeu-se,
Se foi,
serenamente,
Para a terra
dos
Esquecidos.
Entregou-se
às
Divergências,
Desacelerou-se,
Pensou nas
atitudes
Que o
reduziram
Às migalhas
De toda
solidão.
(poeta
norte-rio-grandense que hoje faz 48 anos)
domingo, outubro 11, 2015
O anjo Heurtebise
Com pés de
animal azul celeste,
Chegou o
anjo Heurtebise. Estou só
Todo nu sem
Eva, sem bigode
Sem mapa.
As abelhas
de Salomão
Debandam,
porque me é difícil comer o mel
De tomilho
amargo, o meu mel dos Andes.
Em baixo,
esta manhã o mar copia
Cem vezes o
verbo amar. Anjos de algodão
Sujos,
indecentes
Mungem na
erva os úberes das grandes
Vacas
geográficas.
(Jean
Cocteau faleceu faz hoje 52 anos)
Tradução de Herberto
Hélder
sábado, outubro 10, 2015
Tu à Noite
Tu à noite
havias de escutar
A trovoada e
o ar ambulante.
Tu nessa
margem hás-de virar
Para onde
estão as intempéries dominantes.
Toda essa
honrada esperança
Ruirá na
ardósia,
E destroçará
o inverno
Que vocifera
a teus pés.
Se bem que
ardam os altares apaixonantes,
E que o sol
deliberado
Faça ladrar
a águia,
Tu avançarás
na corda bamba.
(Harold
Pinter nasceu faz hoje 85 anos)
sexta-feira, outubro 09, 2015
quinta-feira, outubro 08, 2015
Névoa
A Albano Nogueira
Abraçada à
noite,
a névoa
desce sobre a terra.
Imprecisamente,
como se a
névoa fosse dos meus olhos,
vejo o
casario e as luzes da outra margem do rio.
Mais à
direita, ao longe,
são já da
névoa a praia, o mar.
Ouve-se
apenas o ronco do farol
- um som
molhado.
Para o lado
dos pinhais,
anda a bruma
a fazer medo
e a pôr mais
pressa nos passos de quem foge.
Não há luar,
não há estrelas.
De novo,
olho para o rio.
Não sei se o
vejo:
anda a
névoa, já, com ele,
e os meus
olhos não dizem o que é bruma, o que é rio.
E ela não
pára,
avança ao
meu encontro.
Cerca-me.
E eu tenho,
só,
orvalho nas
árvores do jardim,
gotas de
água que se partem na alameda,
o ar húmido
que me trespassa,
o molhado
ronco do farol,
os cabelos
encharcados
e
pensamentos de névoa...
(poeta
portuense falecido faz hoje 23 anos)
quarta-feira, outubro 07, 2015
terça-feira, outubro 06, 2015
segunda-feira, outubro 05, 2015
Sem Abrigo
Só nos meus
poemas encontro morada
Abrigo
diferente não me foi cedido;
Ao próprio
lar nunca me vi atraído,
E a tenda p’lo
vento brutal foi levada.
Só nos meus
poemas encontro morada.
E, se tal
refúgio consigo nos matos,
Em estepes,
cidades ou sítios ingratos,
Miséria
nenhuma me afectará nada.
Ainda
demora, mas há-de chegar
O tempo em
que a força me abandonará
E em vão
doces ditos irá requerer
Com que eu
construía, e em que o chão irá
Guardar-me e
eu me inclino pra esse lugar
Onde há uma
cova no escuro a romper.
(poeta
holandês falecido a 5 de Outubro de 1936)
Tradução de
Fernando Venâncio
domingo, outubro 04, 2015
Em
celebração do meu útero
Tudo em mim
é um pássaro.
Adejo com
todas as minhas asas.
Queriam
extirpar-te
mas não o
farão.
Diziam que
estavas incomensuravelmente vazio
mas não
estás.
Diziam que
estavas doente prestes a morrer
mas estavam
errados.
Cantas como
uma colegial
Tu não estás
desfeito.
Doce peso,
em
celebração da mulher que sou
e da alma da
mulher que sou
e da
criatura central e do seu prazer
canto para
ti. Atrevo-me a viver.
Olá,
espírito. Olá, taça.
Fixar,
cobrir. Cobre o que contém.
Olá, terra
dos campos.
Bem-vindas,
raízes.
Cada célula
tem uma vida.
Há aqui
bastantes para satisfazer uma nação.
Chega que a
populaça possua estes bens.
Qualquer
pessoa, qualquer grupo diria:
Está tudo
tão bem este ano que podemos plantar de novo
e pensar
noutra colheita.
Uma praga
tinha sido prevista e foi eliminada.
Por isso
muitas mulheres cantam em uníssono:
uma numa
fábrica de sapatos amaldiçoando a máquina,
uma no
aquário cuidando da foca,
uma
aborrecida ao volante do seu FORD,
uma
cobradora na portagem,
uma no
Arizona enlaçando um bezerro,
uma na
Rússia com uma perna de cada lado do violoncelo,
uma trocando
panelas num fogão no Egipto,
uma pintando
da cor da lua as paredes do quarto,
uma no seu
leito de morte mas recordando um pequeno almoço,
uma na
Tailândia deitada na esteira,
uma limpando
o rabo ao seu bebé,
uma olhando
pela janela do comboio,
no meio do
Wyomming e uma está
em qualquer
lado e algumas estão em todo o lado e todas
parecem
estar cantando, embora haja quem
não possa
cantar uma nota sequer.
Doce peso
em
celebração da mulher que sou
deixa-me
levar uma echarpe de três metros,
deixa-me
tocar o tambor pelas que têm dezanove anos,
deixa-me
levar taças para oferecer
(se é isso o
que me toca).
deixa-me
estudar o tecido cardiovascular,
deixa-me
calcular a distância angular dos meteoros,
deixa-me
chupar o pecíolo das flores
(se é isso o
que me toca).
Deixa-me
imitar certas figuras tribais
(se é isso o
que me toca).
Pois o corpo
preciso disso,
que me
deixes cantar
para a ceia,
para o
beijo,
para a
correcta
afirmação.
(poetisa
estado-unidense falecida faz hoje 41 anos)
sábado, outubro 03, 2015
Nous
dormirons ensemble
Que ce soit
dimanche ou lundi
Soir ou
matin, minuit, midi
Dans l’enfer
ou le paradis
Les amours
aux amours ressemblent
C’était hier
que je t’ai dit
Nous
dormirons ensemble
C’était hier
et c’est demain
Je n’ai plus
que toi de chemin
J’ai mis mon
coeur entre tes mains
Avec le tien
comme il va l’amble
Tout ce
qu’il a de temps humain
Nous
dormirons ensemble
Mon amour,
ce qui fut sera
Le ciel est
sur nous comme un drap
J’ai refermé
sur toi mes bras
Et tant je
t’aime que j’en tremble
Aussi
longtemps que tu voudras
Nous
dormirons ensemble
(Louis
Aragon nasceu a 3 de Outubro de 1897)
sexta-feira, outubro 02, 2015
Fugaz
Passagem por
uma paisagem,
lugar do
onde, do ontem, do quando,
quantas
palavras ficaram faltando
na boca
cheia de imagens.
O outro é
aquele que ficou à margem,
no espanto
de um pronome,
no corpo de
uma brisa suave;
o outro é
como uma fome,
pluma à
deriva, a distância, ou quase.
Estranho em
sua própria viagem,
garrafa com
uma mensagem,
olhar
durando numa flor,
sem nome,
secreta, selvagem.
Desterro,
água bebida num trem,
peça
incompleta, festa adiada, vertigem,
a cabeça
sempre em alguém,
eu outro, eu
todos, ninguém.
(poeta
paranaense que hoje faz 50 anos)
quinta-feira, outubro 01, 2015
Vontade
Uma vontade
de viver os
seus cabelos,
de respirar
os seus olhos,
de perseguir
a direcção dos seus movimentos…
Uma vontade
de ser chama
numa casa abandonada,
de ser água,
gota de água,
ao instante
da sua lágrima,
ao instante
da sua sede…
Uma vontade
de ser o mundo
em poucas
palavras…
Uma vontade
de ser poesia
na folha que
desmaia Outono…
(poetisa lisboeta que hoje faz 28 anos)
quarta-feira, setembro 30, 2015
A Água
Despe, na
solidão da tarde,
Tua roupagem
manchada de quotidiano,
E deixa que
a chuva molhe teus cabelos
E vista teu
corpo de escamas de prata.
Pousa, em
teus ombros, o manto dos lagos
E colhe no
cântaro de tuas mãos
A música dos
dias que adormeceram
No fundo de
teu ser.
Mármores
líquidos moldarão teu corpo.
Nuvem,
Penetrarás a
carne da manhã.
(poeta
paulista que hoje faz 89 anos)
terça-feira, setembro 29, 2015
segunda-feira, setembro 28, 2015
Poema de
amor
quando eu
voltar a ver a luz do sol que me negam
amor
iremos
de paz
vestidos
entretecer
um sorriso de flores e frutos
abraçados
por
caminhos-serpentes ágeis
trepando dos
montes às estrelas
e aos sonhos
cintilantes
iremos
cantando
também, cantando
todas as
canções que sabemos e não sabemos.
quando eu
voltar a ver a luz do sol que me negam
amor
iremos
pois iremos
breves chorar
nas
sepulturas sem fim dos homens sem fim
que partiram
assim
sem óbito
nem combaditocua
sem
esperança da luz do sol que nos negam
iremos, amor
dizer-lhes
voltei e
voltamos
porque nos
amamos
e amamos
as
sepulturas sem fim dos homens sem fim.
quando eu
voltar a ver a luz do sol que me negam
lábaros
erguidos:
- a
liberdade é fruto da colheita -
amor
iremos
colher
maçarocas e cores
aos mortos
ofertar ressurreição e flores
aos vivos a
pujança da nossa vida
amor
iremos
desenhar no
papel celeste um arco-iris
para nosso
filho brincar:
chuva vem
chuva vai
senhora da
conceição
chuva pra
lavra do pai
manda sol
não
iremos, sim,
amor iremos
quando eu
voltar
- as
grilhetas desfeitas -
e cingidos
faremos
a vida
irrefragável medrar
na dádiva
serena das colheitas
no pipilar
dos pássaros maravilhados
no caminhar
dos homens regressados
nos hossanas
das chuvas na terra renascida
nos
confiantes passos da gente decidida
amor.
vestirá a
terra fímbria de nova cor
de beijos e
sorrisos a vida teceremos
e entre
algodoais sem fim
e batuques
de alacre festim
iremos
amor.
(poeta
angolano nascido faz hoje 91 anos)
domingo, setembro 27, 2015
A Vida
A longa
espera...
A chegada...
A partida...
Eis toda a
minha primavera,
toda a
felicidade sonhada,
toda a
tristeza... A Vida!
Uma tarde (e
como canta a saudade daquela
tarde
fecunda, tarde solene de verão!),
nos céus
distantes cada uma
das duas
palavras de amor acordava uma estrela,
enquanto em
minha alma, num voo de pluma,
criava a
tortura de nova Ilusão...
Agora esta
vida é uma noite sombria
de um vento
soturno de desolação!
Para onde
levaste as estrelas que estavam na noite brilhando?
Sem tuas
palavras a noite está fria, minha alma está fria!
(poeta
paulista nascido faz hoje 118 anos)
sábado, setembro 26, 2015
Quem Sabe?
Diz a
mecânica quântica
que as
partículas atômicas
se comportam
de um jeito
quando são
observadas
e de outro
quando estão sós
(como,
aliás, todos nós).
E quem nos
assegura
que o
Universo que está aí
não é como
aí está
quando
ninguém está olhando?
E que quando
os astrônomos
se viram do
telescópio
para a
prancheta
o Universo
não faz
uma careta?
O corpo e a
mente
têm
biografias separadas,
cada um sua
memória própria,
seu próprio
jogo de charadas,
Meu corpo
tem lembranças
- cheiros,
tiques, andanças -
que a mente
não registrou
e o corpo
não tem as marcas
de metade do
que a mente passou
(Pior que
uma mente insana
num corpo
sem muito assunto
é um corpo
que já foi ao Nirvana
sem que a
mente tenha ido junto.)
Cada um tem
um passado
do qual o
outro não tem pista
(como um
bilhete amassado)
e nem o
Mahabharata
explica uma
mente anarquista
num corpo
socialdemocrata.
Compartilham
bioplasmas
e o gosto
por certas atrizes,
mas não tem
os mesmos fantasmas
nem as
mesmas cicatrizes.
Das duas,
uma, gente:
ou toda
mente é de outro corpo
- ou todo
corpo mente.
(Luís
Fernando Veríssimo faz hoje 79 anos)
Êxtase
mesmo que
seja imprescindível chorar
guardarei
comigo a marca do sorriso
registrada
no sonho
para que o
choro seja inaudível
mesmo que
seja inaudível o riso
guardarei
comigo o timbre do choro
na internet
da memória
para que a
tristeza seja invisível
mesmo que
seja inevitável ouvir
guardarei
comigo o silêncio das horas
retendo no
imenso de mim
porta-jóia
de intensa saudade
mesmo que
seja inesquecível o teu amor
farei de
conta que nada existe
mas cá
dentro guardarei
palavras
gestos carinhos e desejos
no êxtase da
palavra lembrada
flutuo nas
ondas do som
dimensão
mística me transcende
ouço o
inaudível apesar de tudo
e além de mim
(poetisa
mineira que hoje faz 75 anos)
sexta-feira, setembro 25, 2015
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