How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
sábado, junho 20, 2015
O Estranho
Não
entenderás o meu dialeto
nem
compreenderás os meus costumes.
Mas ouvirei
sempre as tuas canções
e todas as
noites procurarás meu corpo.
Terei as
carícias dos teus seios brancos.
Iremos
amiúde ver o mar.
Muito te
beijarei
e não me
amarás como estrangeiro.
(poeta
paraense nascido faz hoje 89 anos)
sexta-feira, junho 19, 2015
ARTE DE
FURTAR
O poeta
declarou que toda criação é tributária de outras
criações no
permanente processo de linguagem da poesia
O poeta
afirmou que todo criador é tributário de outros no
processo de
linguagem da poesia
O poeta se
confessou um criador tributário de outros na
linguagem de
sua poesia
O poeta não
esconde que sua poesia é tributária da linguagem
de outros
criadores
O poeta não
esconde que sua poesia é influenciada pela
linguagem de
outros criadores
O poeta não
faz segredo de que se utiliza da linguagem de
outros
poetas
O poeta fala
abertamente que se apropria da linguagem de
outros
poetas
O poeta é um
deslavado apropriador de linguagens
O POETA É UM
PLAGIÁRIO
(poeta
mineiro nascido faz hoje 87 anos)
quinta-feira, junho 18, 2015
quarta-feira, junho 17, 2015
a rectidão
da água; o crescimento
a rectidão
da água; o crescimento
das
avenidas, ao anoitecer, sob a nua
vibração dos
faróis;
o laço,
mesmo, das portas só
entreabertas,
onde a luz
silenciosa
se demora;
são
memórias, decerto, de um anterior
esquecimento,
uma inocente
fadiga das
coisas,
como os
corpos calados, abandonados
na véspera
da guerra, o teu
jeito para
o desalinho
branco das palavras,
altas as
asas de
nuvens no clarão do céu
em vão rigor
abrindo
o destinado
enigma: assim
desconhecer-te
cada dia mais
ausente de
recados e colheitas,
em assustado
bosque, em sombra
clareira,
ao risco dos
rios frívolos descendo
seixos
polidos, desinscritos,
imóveis
movendo
a luz do
dia;
a margem
recortada, aonde vivem
ausentes e
seguros, os luminosos
animais do
inverno;
assim são na
verdade os muros claros;
assim
respira o tempo, a terra intensa.
(poeta
viseense que hoje faz 71 anos)
terça-feira, junho 16, 2015
Paraíso
Deixa ficar
comigo a madrugada,
para que a
luz do Sol me não constranja.
Numa taça de
sombra estilhaçada,
deita sumo
de lua e de laranja.
Arranja uma
pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça
o estertor de uma gaivota...
Crepite, em
derredor, o mar de Agosto...
E o outro
cheiro, o teu, à minha volta!
Depois,
podes partir. Só te aconselho
que acendas,
para tudo ser perfeito,
à cabeceira
a luz do teu joelho,
entre os
lençóis o lume do teu peito...
Podes
partir. De nada mais preciso
para a minha
ilusão do Paraíso.
(David
Mourão-Ferreira faleceu faz hoje 19 anos)
Nós e as
nuvens
Nuvens somos
como somos
cromosssomos:
no parecer
iguais: seu volúvel
de volumes e
volutas
ou
reentrâncias.
Mal
nascemos, somos sonho,
mal
subtraímos já somamos.
Mal andados,
já tropeços.
A vida chega
cheia
de veias,
consciente.
E já
desaparece na noite,
à moita das
águas subterrâneas
dos crânios
ocos:
- Mal
cheirosa, mal sulfurosa,
semi-séria,
cemitéria...
As nuvens
quando
em bando
se distraem
e se
misturam com carbono
e com iodo,
com matéria de cometa...
Nuvens já
não somos.
(poeta
piauiense que hoje faz 82 anos)
segunda-feira, junho 15, 2015
domingo, junho 14, 2015
sábado, junho 13, 2015
O Silêncio
Quando a
ternura
parece já do
seu ofício fatigada,
e o sono, a
mais incerta barca,
inda demora,
quando azuis
irrompem
os teus
olhos
e procuram
nos meus
navegação segura,
é que eu te
falo das palavras
desamparadas
e desertas,
pelo
silêncio fascinadas.
.
(Eugénio de
Andrade faleceu faz hoje 10 anos)
Fantasmas
bateram à
porta - não abriste
estavas a
convocar nesse instante a brancura
dos dados
por lançar e o corvo do sr. poe mais
o maléfico
negrume dos mares de melville e
as mulheres
da patagónia que estão sentadas
ao fim da
tarde
à beira de
insondáveis glaciares
seguias
absorto o percurso daquele que comprava
revistas
tabaco souvenirs e via os comboios
sumirem-se
na gare de munique - mais a rua onde
te encontro
e te perco rapaz
a quem se
esqueceram de dizer que tinha um corpo
de papel bom
para amachucar com os dentes
é verdade -
bateram à porta
mas não
podias abrir
nesta casa
só sobrevive a memória turva
dos poemas
amados - mais ninguém mais nada
além da
parede de lodo e da caixa de sapatos
cheia de
sílabas preciosas - e uma mesa pequena
com um
albatroz empalhado para te vigiar a alma
a um canto
da sala o cigarro continua a arder
na ponta dos
dedos do teu retrato escondido
atrás do
sofá - virado parar a parede
como tu
coberto de
bolor de sustos e de aborrecimentos
(Al Berto
faleceu faz hoje 18 anos)
Enigma
No fundo de
tudo quanto pensamos
Há a caverna
do que nós vemos
Sonhos lhe
bóiam na sombra aberta.
Uma árvore
vela-a com rede-ramos
Terá de
ramos luzindo pomos
Pomos-estrelas
na noite deserta.
Por trás das
costas do visto mundo
Por trás de
nós se sonhamos ver,
Fogem de um
onde ladeando estar,
Ramos sem
sede cruzando o fundo
Do
pensamento e caverna ser
Com sonhos
boiando no cavernar.
Quadro -
boiando do fundo da alma,
Com pomos
luzindo na árvore-parte,
Com o
segredo por trás de aquém...
Brilha um
instante na luz sem calma
Como um
relâmpago de ‘standarte,
E em tudo
isto não há ninguém.
(Fernando
Pessoa nasceu faz hoje 127 anos)
sexta-feira, junho 12, 2015
quinta-feira, junho 11, 2015
quarta-feira, junho 10, 2015
Arte
Poemas são
palavras e presságios,
pardais
perdidos sem direito a ninho.
Poemas casam
nuvens e favelas
e se
escondem depois no próprio umbigo.
Poemas são
tilápias e besouros,
ar e água à
beira de anzóis e riscos.
São begônias
e petúnias,
isopor ou
mármore nas colunas,
rosas
decepadas pelas hélices
de vôos
amarrados ao chão.
Cinza do que
foi orvalho,
poema é
carta fora do baralho,
milharal
pegando fogo
pelo berro
do espantalho.
(poeta
carioca nascido a 10 de Junho de 1952)
terça-feira, junho 09, 2015
segunda-feira, junho 08, 2015
A
Sofreguidão de um Instante
Tudo
renegarei menos o afecto,
e trago um
ceptro e uma coroa,
o primeiro
de ferro, a segunda de urze,
para ser o
rei efémero
desse amor
único e breve
que se dilui
em partidas
e se
fragmenta em perguntas
iguais às
das amantes
que a
claridade atordoa e converte.
Deixa-me
reinar em ti
o tempo
apenas de um relâmpago
a incendiar
a erva seca dos cumes.
E se tiver
que montar guarda,
que seja em
redor do teu sono,
num êxtase
de lábios sobre a relva,
num delírio
de beijos sobre o ventre,
num assombro
de dedos sob a roupa.
Eu estava
morto e não sabia, sabes,
que há um
tempo dentro deste tempo
para
renascermos com os corais
e sermos
eternos na sofreguidão de um instante.
(José Jorge
Letria faz hoje 65 anos)
domingo, junho 07, 2015
Prosa de
Domingo
A máquina do
corpo, resumida nos sentidos,
dissolve a
tempestade num cheiro de chuva:
recorda-me,
qual súbita visagem
(sutilmente
engastada
no tempo
presente),
a dor de ser
sem ter
sido.
Nada
(nem cheiro
nem
tempestade),
mesmo que
reviva,
num segundo
abençoado,
a sensação
de uma outra vida (frágil
como a
própria infância, dor secreta do poema),
pode, fugaz,
dar-me a garantia de ter vivido.
(poeta
gaúcho que hoje faz 42 anos)
sábado, junho 06, 2015
Tática
moderna
Dobradiça de
mola e parafusos,
Abre a porta
da escola à da caserna
E, em casos
complicados e confusos,
Com a
tarimba o gabinete alterna.
Dirige a
pasta conhecendo os usos
E os
segredos da tática moderna;
Governa a
sós, não atendendo a intrusos,
Mas a
vaidade, às vezes, o governa.
Tem serviços
e estudos às centenas.
Bravo, se o
instinto do guerreiro o guia,
Tem na paz
qualidades não pequenas.
Porém, ó
raio da burocracia!
Sendo Faria,
o que ele faz é apenas,
Como
ministro, o que qualquer... faria.
(poeta
brasileiro falecido faz hoje 97 anos)
sexta-feira, junho 05, 2015
Gazel do
Amor Imprevisto
O perfume
ninguém compreendia
da escura
magnólia de teu ventre.
Ninguém
sabia que martirizavas
entre os
dentes um colibri de amor.
Mil pequenos
cavalos persas dormem
na praça com
luar de tua fronte,
enquanto eu
enlaçava quatro noites,
inimiga da
neve, a tua cinta.
Entre gesso
e jasmins, o teu olhar
era um
pálido ramo de sementes.
Procurei
para dar-te, no meu peito,
as letras de
marfim que dizem sempre,
sempre,
sempre; jardim em que agonizo,
teu corpo
fugitivo para sempre,
teu sangue
arterial em minha boca,
tua boca já
sem luz para esta morte.
(poeta
andaluz nascido faz hoje 117 anos)
Tradução de Óscar
Mendes
quinta-feira, junho 04, 2015
Ode para o
Futuro
Falareis de
nós como de um sonho.
Crepúsculo
dourado. Frases calmas.
Gestos
vagarosos. Música suave.
Pensamento
arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens
deslizando na distância.
Éramos
livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos
serena e docemente.
Uma angústia
delida, melancólica,
sobre ela
sonhareis.
E as
tempestades, as desordens, gritos,
violência,
escárnio, confusão odienta,
primaveras
morrendo ignoradas
nas encostas
vizinhas, as prisões,
as mortes, o
amor vendido,
as lágrimas
e as lutas,
o desespero
da vida que nos roubam
- apenas uma
angústia melancólica,
sobre a qual
sonhareis a idade de oiro.
E, em
segredo, saudosos, enlevados,
falareis de
nós - de nós! - como de um sonho.
(Jorge de
Sena faleceu faz hoje 37 anos)
quarta-feira, junho 03, 2015
Na Mesa
Sobre a
toalha, o pão,
o bule, as
xícaras, o café,
confabulam.
Que dizem
no seu
silêncio de coisas
tocadas de
esperança,
da latente
esperança
da manhã?
Dir-se-ia
que se
sentem ligados
à vida - ou
que na vida
se irmanam,
se confundem,
pousados
sobre a mesa
como em seu
próprio mundo,
pousados no
silêncio
como se tudo
fosse,
para eles, a
dádiva
fascinante,
translúcida.
A um canto,
solitária,
uma faca os
espia.
(poeta
mineiro nascido faz hoje 97 anos)
terça-feira, junho 02, 2015
segunda-feira, junho 01, 2015
A Cidade do Sonho
Sofres e choras? Vem comigo! Vou mostrar-te
O caminho que leva à Cidade do Sonho...
De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
Mas o íngreme trajecto é florido e risonho.
Vai por entre rosais, sinuoso e macio,
Como o caminho chão duma aldeia ao luar,
Todo branco a luzir numa noite de Estio,
Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.
Se o teu ânimo sofre amarguras na vida,
Deves empreender essa jornada louca;
O Sonho é para nós a Terra Prometida:
Em beijos o maná chove na nossa boca...
Vistos dessa eminência, o mundo e as suas sombras,
Tingem-se no esplendor dum perpétuo arrebol;
O mais estéril chão tapeta-se de alfombras,
Não há nuvens no céu, nunca se põe o Sol.
Nela mora encantada a Ventura perfeita
Que no mundo jamais nos é dado sentir...
E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,
A própria Dor começa a cantar e a sorrir!
Que importa o despertar? Esse instante divino
Como recordação indelével persiste;
E neste amargo exílio, através do destino,
Ventura sem pesar só na memória existe...
(poeta limiano nascido a 1 de Junho de
1849)
domingo, maio 31, 2015
sábado, maio 30, 2015
sexta-feira, maio 29, 2015
A viagem
definitiva
Ir-me-ei
embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o
meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço
branco.
Todas as
tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão,
como esta tarde estão tocando,
Os sinos do
campanário.
Morrerão os
que me amaram
E a aldeia
se renovará todos os anos.
E longe do
bulício distinto, surdo, raro
Do domingo
acabado,
Da
diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto
secreto do meu jardim florido e caiado
Meu espírito
de hoje errará nostálgico...
E ir-me-ei
embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem
poço branco,
Sem céu azul
e plácido...
E os
pássaros ficarão cantando.
(poeta
andaluz falecido faz hoje 57 anos)
quinta-feira, maio 28, 2015
quarta-feira, maio 27, 2015
Segredo
Lá, na
última das celas
nódoa negra
de açoites,
não há dias,
não há noites
porque as
noites têm estrelas.
Lá, só na
sombra que dói.
Sombra e
brancura de um osso
que o preso
remói, remói
no fundo do
seu poço.
Lá, quando o
vierem buscar
amanhã,
depois ou logo,
terá na alma
mais um fogo,
mais uma
chama no olhar.
(poeta moimentense
nascido faz hoje 103 anos)
terça-feira, maio 26, 2015
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