sexta-feira, setembro 19, 2014

Lita Ford faz hoje 56 anos
Serenos e pulverizados continuamos

Aqui tens os teus mitos tu
um dia também terás notícias nossas
os nossos olhos não desistem de furar o asfalto
e crescer como flores proibidas

rastejando entre espingardas e vidros
furamos as paredes e o nevoeiro
rastejamos como vermes
mas nunca à maneira dos desesperados

um dia terás notícias nossas

podes pulverizar-nos
é quase certo que nos pulverizes
podes odiar-nos
é quase certo que nos odeias
podes destruir-nos
é indiscutível que seremos destruídos

mas um dia terás notícias nossas

porque através das paredes e do mar
e do vidro e da dinamite e do ódio
nós continuamos
serenos e pulverizados continuamos.


(escritora salaciense nascida a 19 de Setembro de 1935)

quinta-feira, setembro 18, 2014

Luiz Goes faleceu faz hoje 2 anos
Luísa Sobral faz hoje 27 anos
Paraíso Perdido

Outro, não eu, que desespero, ao cabo
de, em pedrarias de arte e versos de ouro,
ter dissipado todo o meu tesouro,
como os florins e as jóias de um nababo;

outro, não eu, que para o chão desabo,
esquecendo-te as culpas e o desdouro,
e a teus pés de marfim, como o rei mouro,
em torrentes de lágrimas acabo:

outro conspurca-te a beleza augusta,
cujo anseio de posse ainda me custa
como um verme faminto andar de rastros.

E mais deploro este meu sonho falso
ao recordar que andei no teu encalço
pelo caminho rútilo dos astros!


(poeta carioca falecido a 18 de Setembro de 1916)

quarta-feira, setembro 17, 2014

Negra Li faz hoje 35 anos


Anastacia faz hoje 46 anos
Marina Lima faz hoje 59 anos
Sabedoria

Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.


(José Régio nasceu faz hoje 113 anos)

terça-feira, setembro 16, 2014

Katie Melua faz hoje 30 anos
Victor Jara foi assassinado pelos terroristas faz hoje 41 anos
As Usinas

Desce o rio, lento, pesadão, molengo.

Mas, de repente,
se despenha no desespero do despenhadeiro.
É a cachoeira, a acachoar, zoando e retumbando no seio virgem da floresta virgem.

E, além, são as águas, que se refreiam,
                                   que se represam,
e é a luta esplêndida de mil cavalos imaginários
nos canos grossos,
nos tubos longos,
pelas turbinas adentro, - em turbilhão.

E, então, lá no alto, à luz do dia, apoteóticamente,
as fábricas gemem,
os teares cantam,
as serras guincham,

- e, à noite, como que num milagre, é a cidadela
toda esplendente de alampadários.

Henrique de Resende

(poeta mineiro falecido a 16 de Setembro de 1973)

segunda-feira, setembro 15, 2014

Clare Maguire faz hoje 27 anos
Signe Toly Anderson faz hoje 73 anos
Lembro-me de ti...

Lembro-me de ti
Nesse instante absoluto,
A vida conduzida por um fio de música.
Intenso e delicado, ele vai-nos fechando num casulo
Onde tudo será permitido.

Se é só isso que podemos ter,
Que seja forte. Que seja único.
Tão íntimo quanto ouvirmos a mesma melodia,
Tendo o mesmo - esplêndido - pensamento.


(poetisa gaúcha que hoje faz 76 anos)

domingo, setembro 14, 2014

Morten Harket faz hoje 55 anos
John Power faz hoje 47 anos
Lua congelada

Com esta solidão
ingrata
tranquila

com esta solidão
de sangrados achaques
de distantes uivos
de monstruoso silêncio
de lembranças em alerta
de lua congelada
de noite para outros
de olhos bem abertos

com esta solidão
desnecessária
vazia

se pode algumas vezes
entender
o amor.


(poeta uruguaio nascido faz hoje 94 anos)

sábado, setembro 13, 2014

Fiona Apple faz hoje 37 anos
COMO DIZER O SILÊNCIO?      

Se em folhagem de poema
me catais anacolutos
é vossa a fraude. A gema
não desce a sons prostitutos.

O saltério, diletante,
fere a Musa com um jasmim?
Só daí para diante
da busca estará o fim.

Aberta a porta selada,
sou pensada já não penso.
Se a Musa fica calada
como dizer o silêncio?

Atirar pérola a porco?
Não me queimo na parábola.
Em mãos que brincam com o fogo
é que eu não ponho a espada.

Dos confins, o peristilo
calo com pontas de fogo,
e desse casto sigilo
versos são só desafogo.

E também para que me lembrem
deixo-os no mercado negro,
que neles glórias se vendem
e eu não sou só desapego.

Raiz de Deus entre os dentes,
aí, pára a transmissão.
Ultrassons dessas nascentes
só aves entenderão.

(Natália Correia nasceu faz hoje 91 anos)

sexta-feira, setembro 12, 2014

Leci Brandão faz hoje 70 anos
Geraldo Vandré faz hoje 79 anos
Frágil

Mar azul opala
Calmo sem ondas
Dourado pelo sol
Que se põe alhures...
Encontro da terra, da água e do céu,
Infinito de nós.

Na areia turbilhões de
Asas brancas confundem-se
Com a espuma do mar.

No ruflar das asas brancas
- em louco bálé -,
Morrer... plantas esmagadas
Pelo vai e vem das ondas...

Solitária na imensidão,
Como um borrão na paisagem
Caminhava, só...
Imensamente só!
Frágil como um cristal!


(poetisa sul-mato-grossense que hoje faz 64 anos)

quinta-feira, setembro 11, 2014

Peter Tosh faleceu faz hoje 27 anos
Richard Ashcroft faz hoje 43 anos
O outro 11 de Setembro


Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla,
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que congregar todos los odios
y además los aviones y los tanques,
para batir al hombre de la paz
tuvieron que bombardearlo hacerlo llama,
porque el hombre de la paz era una fortaleza.

Para matar al hombre de la paz
tuvieron que desatar la guerra turbia,
para vencer al hombre de la paz
y acallar su voz modesta y taladrante
tuvieron que empujar el terror hasta el abismo
y matar más para seguir matando,
para batir al hombre de la paz
tuvieron que asesinarlo muchas veces
porque el hombre de la paz era una fortaleza.

Para matar al hombre de la paz
tuvieron que imaginar que era una tropa,
una armada, una hueste, una brigada,
tuvieron que creer que era otro ejército,
pero el hombre de la paz era tan sólo un pueblo
y tenía en sus manos un fusil y un mandato
y eran necesarios más tanques más rencores
más bombas más aviones más oprobios
porque el hombre de la paz era una fortaleza.

Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla,
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que afiliarse siempre a la muerte
matar y matar más para seguir matando
y condenarse a la blindada soledad,
para matar al hombre que era un pueblo
tuvieron que quedarse sin el pueblo.

quarta-feira, setembro 10, 2014

Johnny Hickman faz hoje 58 anos
José Feliciano faz hoje 69 anos
Madrugada

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes


(poeta maranhense que hoje faz 84 anos)

terça-feira, setembro 09, 2014

Maria Rita faz hoje 37 anos
Lúcia Moniz faz hoje 38 anos
Ana Carolina faz hoje 40 anos
Otis Redding nasceu faz hoje 73 anos
Pubescência

Ei-la! Chega ao jardim, que estava triste,
Porque a sua alegria ausente estava,
E ela, que em vê-lo dantes se alegrava,
Agora a toda a tentação resiste.

Seria outra alma, pensa, que a animava?
Por que um desejo que a persegue insiste?
Qualquer cousa que ignora, mas que existe,
Pulsa-lhe ao coração que não pulsava.

Triste cismando segue, e em frente à fonte:
- Um sátiro, de cuja boca escorre
Um fino fio d'água transparente,

Ri-se dos cornos que lhe vê na fronte,
Os lábios cola aos dele, e porque morre
De sede, bebe alucinadamente...


(poeta alagoano falecido em Paris faz hoje 105 anos)

segunda-feira, setembro 08, 2014

Pink faz hoje 35 anos
Fernanda Abreu faz hoje 53 anos
Benjamin Orr faria hoje 67 anos
Não estou só

Não estou só, porque o piano invisível
Está repetindo a valsa clássica daquela noite, há muito tempo.

Não estou só, porque há palavras que foram ditas e não morreram de todo.

Não estou só, porque as amadas mortas ainda estão falando ao meu ouvido;
Mocinhas vestidas de branco das cidadezinhas tranquilas estão sorrindo para mim;
Comovendo minha estátua e o retrato em cima da mesa.

Não estou só, porque os olhos do retrato estão perdidos no passado e no presente.

A sala é pequena. O mundo parou. Tudo parou. Ainda assim não estou só,
Porque a noite chora sangue no pingo da estrela,
Parado, no rasgão da janela que dá para o mundo.


(poeta baiano nascido faz hoje 102 anos)

domingo, setembro 07, 2014

In Memoriam
António Antunes da Silva faleceu hoje aos 65 anos
Toni Garrido faz hoje 47 anos
Morris Albert faz hoje 63 anos
Os sons do ofício

É porque recolho o vário
no aviário das vértebras
e me há um silo de células
e me há um quase-aquário,
que o poema se me chega,
estuário.

Que me importa
a sina jugular das fases,
a vida conjugal das frases
e o semblante cínico
das fezes,
se não faço poemas
como quem defende teses.

Faço poemas
para que passem os dias
e pascem os rebanhos
e os oceanos pasmem
ante o naufrágio
de todas as datas
no calendário-lanho.

Ou seja, faço-os
como quem viceja
os laços do arremesso
como quem vislumbra
silêncio nos entulhos
e aprendeu a estrutura ideal
para montar barulhos
sob a língua mais banal.

Faço-os
como quem lambe oásis no planalto,
deixado pelas bases
de um simples sobressalto.

É como se o ego
coubesse inteiro
na determinação de um prego
que me fixa exílios sob a carne
mas que também aciona
os gatilhos do alarme.


(poeta goiano que hoje faria 50 anos)

sábado, setembro 06, 2014

Dolores O'Riordan faz hoje 43 anos
Roger Waters (aqui com Sinead O'Connor) faz hoje 71 anos
Amizade

Ser-se amigo é ser-se pai
( - Ou mais do que pai talvez...)
É pôr-se a boca onde cai
A nódoa que nos desfez.

É dar sem receber nada,
Consciente da prisão,
Onde os nossos passos vão
Em linha por nós traçada...

É saber que nos consome
A sede, e sentirmos bem
O Céu, por na Terra, alguém
Rir, cantar e não ter fome.

É aceitar a mentira
E achá-la formosa e humana
Só porque a gente respira
O ar de quem nos engana.


(poeta portuense nascido faz hoje 110 anos)

sexta-feira, setembro 05, 2014

Bell Marques faz hoje 62 anos
Freddie Mercury nasceu faz hoje 68 anos
Rosto de luz

no horizonte projecta-se indelével
a face divina que escondes
na ânsia do sorriso prometido
à chegada

ver-te descomprometida com a realidade
entusiasma meu âmago
na versátil razão de ser dos mais sentidos
estados de alma

sonhar leva-me de volta à antiguidade
perco-me em tempos imemoráveis
quando a força da palavra comandava
o coração

a tempestade antes só prenunciada
pela força do amor temida
mas assumidamente enfrentável
surge
inevitável
cruel
omnipresente
promovendo a instabilidade

os sentimentos esses
são profundos e capazes de guardar-te
da fúria do vento e das águas
para lá do último oceano: onde se esconde
misteriosamente teu rosto de luz


(poeta brigantino que hoje faz 51 anos)

quinta-feira, setembro 04, 2014

Criança em Ruínas

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


(José Luís Peixoto faz hoje 40 anos)
David Garrett faz hoje 34 anos
Todas as Horas

Todas as horas, todos os minutos,
São para mim a véspera da partida.

Preparo-me para a morte, como quem
Se prepara para a vida.

Em qualquer parte eu disse que a Beleza
Não nasce só mas sim acompanhada.

Não são palavras minhas as que eu digo.
A minha boca pertence aos que me amam.

Mudos e sós.
À nossa volta todos os amantes
Sentir-se-ão tranquilos.
Um coração puro
É como o Sol:
Brilha todos os dias.



(poeta alvitense nascido 4 a de Setembro de 1920)

quarta-feira, setembro 03, 2014

Jennifer Paige faz hoje 41 anos
O MEDO GLOBAL

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho, os que não trabalham têm medo de nunca encontrar o trabalho.
Quem não tem medo da fome tem medo da comida.
Os automobilistas têm medo de caminhar e os pedestres têm medo de ser atropelados.
A democracia tem medo de recordar e a linguagem tem medo de dizer.
Os civis têm medo dos militares e os militares têm medo da falta de armas.
As armas têm medo da falta de guerras.
Medo da mulher à violência do homem, medo do homem das mulheres sem medo.
Medo dos ladrões, medo da polícia.
Medo da porta sem fechadura, do tempo sem relógio, das crianças sem televisão.
Medo da noite sem comprimidos para dormir, medo de dia sem comprimidos para acordar.
Medo da multidão, medo da solidão.
Medo do que foi e do que pode ser.
Medo de morrer, medo de viver.


(escritor uruguaio que hoje faz 74 anos)

terça-feira, setembro 02, 2014

A Nossa Casa
Na nossa casa amor-perfeito é mato
E o teto estrelado também tem luar
A nossa casa até parece um ninho
Vem um passarinho pra nos acordar
Na nossa casa passa um rio no meio
E o nosso leito pode ser o mar

A nossa casa é onde a gente está
A nossa casa é em todo lugar
A nossa casa é onde a gente está
A nossa casa é em todo lugar

A nossa casa é de carne e osso
Não precisa esforço para namorar
A nossa casa não é sua nem minha
Não tem campainha pra nos visitar
A nossa casa tem varanda dentro
Tem um pé-de-vento para respirar

A nossa casa é onde a gente está
A nossa casa é em todo lugar
A nossa casa é onde a gente está
A nossa casa é em todo lugar

(Arnaldo Antunes faz hoje 54 anos)
Hefesto

Um dia inteiro
para
em queda livre
beijar o solo.

No tempo mitológico
o dia é a vida.

Os filhos que ficam
grudados na mãe
passam toda a vida
caindo.


(poeta carioca que hoje faz 68 anos)

segunda-feira, setembro 01, 2014

Bill Kaulitz faz hoje 25 anos
O bolero do coronel

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada


(António Lobo Antunes faz hoje 72 anos)