How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
sexta-feira, setembro 19, 2014
Serenos e
pulverizados continuamos
Aqui tens os
teus mitos tu
um dia
também terás notícias nossas
os nossos
olhos não desistem de furar o asfalto
e crescer
como flores proibidas
rastejando
entre espingardas e vidros
furamos as
paredes e o nevoeiro
rastejamos
como vermes
mas nunca à
maneira dos desesperados
um dia terás
notícias nossas
podes
pulverizar-nos
é quase
certo que nos pulverizes
podes
odiar-nos
é quase
certo que nos odeias
podes
destruir-nos
é
indiscutível que seremos destruídos
mas um dia
terás notícias nossas
porque
através das paredes e do mar
e do vidro e
da dinamite e do ódio
nós
continuamos
serenos e
pulverizados continuamos.
(escritora
salaciense nascida a 19 de Setembro de 1935)
quinta-feira, setembro 18, 2014
Paraíso
Perdido
Outro, não
eu, que desespero, ao cabo
de, em
pedrarias de arte e versos de ouro,
ter
dissipado todo o meu tesouro,
como os
florins e as jóias de um nababo;
outro, não
eu, que para o chão desabo,
esquecendo-te
as culpas e o desdouro,
e a teus pés
de marfim, como o rei mouro,
em torrentes
de lágrimas acabo:
outro
conspurca-te a beleza augusta,
cujo anseio
de posse ainda me custa
como um
verme faminto andar de rastros.
E mais
deploro este meu sonho falso
ao recordar
que andei no teu encalço
pelo caminho
rútilo dos astros!
(poeta
carioca falecido a 18 de Setembro de 1916)
quarta-feira, setembro 17, 2014
Sabedoria
Desde que
tudo me cansa,
Comecei eu a
viver.
Comecei a
viver sem esperança...
E venha a
morte quando
Deus quiser.
Dantes, ou
muito ou pouco,
Sempre
esperara:
Às vezes,
tanto, que o meu sonho louco
Voava das
estrelas à mais rara;
Outras, tão
pouco,
Que ninguém
mais com tal se conformara.
Hoje, é que
nada espero.
Para quê,
esperar?
Sei que já
nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é
só enquanto apenas quero;
Só de longe,
e secreto, é que inda posso amar...
E venha a
morte quando Deus quiser.
Mas, com
isto, que têm as estrelas?
Continuam
brilhando, altas e belas.
(José Régio
nasceu faz hoje 113 anos)
terça-feira, setembro 16, 2014
As Usinas
Desce o rio, lento, pesadão, molengo.
Mas, de repente,
se despenha no desespero do despenhadeiro.
É a cachoeira, a acachoar, zoando e retumbando no seio
virgem da floresta virgem.
E, além, são as águas, que se refreiam,
que
se represam,
e é a luta esplêndida de mil cavalos imaginários
nos canos grossos,
nos tubos longos,
pelas turbinas adentro, - em turbilhão.
E, então, lá no alto, à luz do dia, apoteóticamente,
as fábricas gemem,
os teares cantam,
as serras guincham,
- e, à noite, como que num milagre, é a cidadela
toda esplendente de alampadários.
Henrique de Resende
(poeta mineiro falecido a 16 de Setembro de 1973)
segunda-feira, setembro 15, 2014
Lembro-me de
ti...
Lembro-me de
ti
Nesse
instante absoluto,
A vida
conduzida por um fio de música.
Intenso e
delicado, ele vai-nos fechando num casulo
Onde tudo
será permitido.
Se é só isso
que podemos ter,
Que seja
forte. Que seja único.
Tão íntimo
quanto ouvirmos a mesma melodia,
Tendo o
mesmo - esplêndido - pensamento.
(poetisa
gaúcha que hoje faz 76 anos)
domingo, setembro 14, 2014
Lua
congelada
Com esta
solidão
ingrata
tranquila
com esta
solidão
de sangrados
achaques
de distantes
uivos
de
monstruoso silêncio
de
lembranças em alerta
de lua
congelada
de noite
para outros
de olhos bem
abertos
com esta
solidão
desnecessária
vazia
se pode
algumas vezes
entender
o amor.
(poeta
uruguaio nascido faz hoje 94 anos)
sábado, setembro 13, 2014
COMO DIZER O
SILÊNCIO?
Se em
folhagem de poema
me catais
anacolutos
é vossa a
fraude. A gema
não desce a
sons prostitutos.
O saltério,
diletante,
fere a Musa
com um jasmim?
Só daí para
diante
da busca
estará o fim.
Aberta a
porta selada,
sou pensada
já não penso.
Se a Musa
fica calada
como dizer o
silêncio?
Atirar
pérola a porco?
Não me
queimo na parábola.
Em mãos que
brincam com o fogo
é que eu não
ponho a espada.
Dos confins,
o peristilo
calo com
pontas de fogo,
e desse
casto sigilo
versos são
só desafogo.
E também
para que me lembrem
deixo-os no
mercado negro,
que neles
glórias se vendem
e eu não sou
só desapego.
Raiz de Deus
entre os dentes,
aí, pára a
transmissão.
Ultrassons
dessas nascentes
só aves
entenderão.
(Natália
Correia nasceu faz hoje 91 anos)
sexta-feira, setembro 12, 2014
Frágil
Mar azul
opala
Calmo sem
ondas
Dourado pelo
sol
Que se põe
alhures...
Encontro da
terra, da água e do céu,
Infinito de
nós.
Na areia
turbilhões de
Asas brancas
confundem-se
Com a espuma
do mar.
No ruflar
das asas brancas
- em louco
bálé -,
Morrer...
plantas esmagadas
Pelo vai e
vem das ondas...
Solitária na
imensidão,
Como um
borrão na paisagem
Caminhava,
só...
Imensamente
só!
Frágil como
um cristal!
(poetisa
sul-mato-grossense que hoje faz 64 anos)
quinta-feira, setembro 11, 2014
O outro 11 de Setembro
Para matar al
hombre de la paz
para golpear su
frente limpia de pesadillas
tuvieron que
convertirse en pesadilla,
para vencer al
hombre de la paz
tuvieron que
congregar todos los odios
y además los
aviones y los tanques,
para batir al
hombre de la paz
tuvieron que
bombardearlo hacerlo llama,
porque el hombre
de la paz era una fortaleza.
Para matar al
hombre de la paz
tuvieron que
desatar la guerra turbia,
para vencer al
hombre de la paz
y acallar su voz
modesta y taladrante
tuvieron que
empujar el terror hasta el abismo
y matar más para
seguir matando,
para batir al
hombre de la paz
tuvieron que
asesinarlo muchas veces
porque el hombre
de la paz era una fortaleza.
Para matar al
hombre de la paz
tuvieron que
imaginar que era una tropa,
una armada, una
hueste, una brigada,
tuvieron que
creer que era otro ejército,
pero el hombre de
la paz era tan sólo un pueblo
y tenía en sus
manos un fusil y un mandato
y eran necesarios
más tanques más rencores
más bombas más
aviones más oprobios
porque el hombre
de la paz era una fortaleza.
Para matar al
hombre de la paz
para golpear su
frente limpia de pesadillas
tuvieron que
convertirse en pesadilla,
para vencer al
hombre de la paz
tuvieron que
afiliarse siempre a la muerte
matar y matar más
para seguir matando
y condenarse a la
blindada soledad,
para matar al
hombre que era un pueblo
tuvieron que
quedarse sin el pueblo.
quarta-feira, setembro 10, 2014
terça-feira, setembro 09, 2014
Pubescência
Ei-la! Chega
ao jardim, que estava triste,
Porque a sua
alegria ausente estava,
E ela, que
em vê-lo dantes se alegrava,
Agora a toda
a tentação resiste.
Seria outra
alma, pensa, que a animava?
Por que um
desejo que a persegue insiste?
Qualquer
cousa que ignora, mas que existe,
Pulsa-lhe ao
coração que não pulsava.
Triste
cismando segue, e em frente à fonte:
- Um sátiro,
de cuja boca escorre
Um fino fio
d'água transparente,
Ri-se dos
cornos que lhe vê na fronte,
Os lábios cola
aos dele, e porque morre
De sede,
bebe alucinadamente...
(poeta
alagoano falecido em Paris faz hoje 105 anos)
segunda-feira, setembro 08, 2014
Não estou só
Não estou
só, porque o piano invisível
Está
repetindo a valsa clássica daquela noite, há muito tempo.
Não estou
só, porque há palavras que foram ditas e não morreram de todo.
Não estou
só, porque as amadas mortas ainda estão falando ao meu ouvido;
Mocinhas
vestidas de branco das cidadezinhas tranquilas estão sorrindo para mim;
Comovendo
minha estátua e o retrato em cima da mesa.
Não estou
só, porque os olhos do retrato estão perdidos no passado e no presente.
A sala é
pequena. O mundo parou. Tudo parou. Ainda assim não estou só,
Porque a
noite chora sangue no pingo da estrela,
Parado, no
rasgão da janela que dá para o mundo.
(poeta
baiano nascido faz hoje 102 anos)
domingo, setembro 07, 2014
Os sons do
ofício
É porque
recolho o vário
no aviário
das vértebras
e me há um
silo de células
e me há um
quase-aquário,
que o poema
se me chega,
estuário.
Que me
importa
a sina
jugular das fases,
a vida
conjugal das frases
e o
semblante cínico
das fezes,
se não faço
poemas
como quem
defende teses.
Faço poemas
para que
passem os dias
e pascem os
rebanhos
e os oceanos
pasmem
ante o
naufrágio
de todas as
datas
no
calendário-lanho.
Ou seja,
faço-os
como quem
viceja
os laços do
arremesso
como quem vislumbra
silêncio nos
entulhos
e aprendeu a
estrutura ideal
para montar
barulhos
sob a língua
mais banal.
Faço-os
como quem
lambe oásis no planalto,
deixado
pelas bases
de um
simples sobressalto.
É como se o
ego
coubesse
inteiro
na
determinação de um prego
que me fixa
exílios sob a carne
mas que
também aciona
os gatilhos
do alarme.
(poeta goiano que hoje faria 50 anos)
sábado, setembro 06, 2014
Amizade
Ser-se amigo
é ser-se pai
( - Ou mais
do que pai talvez...)
É pôr-se a
boca onde cai
A nódoa que
nos desfez.
É dar sem
receber nada,
Consciente
da prisão,
Onde os
nossos passos vão
Em linha por
nós traçada...
É saber que
nos consome
A sede, e
sentirmos bem
O Céu, por
na Terra, alguém
Rir, cantar
e não ter fome.
É aceitar a
mentira
E achá-la
formosa e humana
Só porque a
gente respira
O ar de quem
nos engana.
(poeta
portuense nascido faz hoje 110 anos)
sexta-feira, setembro 05, 2014
Rosto de luz
no horizonte
projecta-se indelével
a face
divina que escondes
na ânsia do
sorriso prometido
à chegada
ver-te
descomprometida com a realidade
entusiasma
meu âmago
na versátil
razão de ser dos mais sentidos
estados de
alma
sonhar
leva-me de volta à antiguidade
perco-me em
tempos imemoráveis
quando a
força da palavra comandava
o coração
a tempestade
antes só prenunciada
pela força
do amor temida
mas
assumidamente enfrentável
surge
inevitável
cruel
omnipresente
promovendo a
instabilidade
os
sentimentos esses
são
profundos e capazes de guardar-te
da fúria do
vento e das águas
para lá do
último oceano: onde se esconde
misteriosamente
teu rosto de luz
(poeta
brigantino que hoje faz 51 anos)
quinta-feira, setembro 04, 2014
Criança em
Ruínas
na hora de
pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a
minha mãe, as minhas irmãs
e eu.
depois, a minha irmã mais velha
casou-se.
depois, a minha irmã mais nova
casou-se.
depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de
pôr a mesa, somos cinco,
menos a
minha irmã mais velha que está
na casa
dela, menos a minha irmã mais
nova que
está na casa dela, menos o meu
pai, menos a
minha mãe viúva. cada um
deles é um
lugar vazio nesta mesa onde
como
sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de
pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um
de nós estiver vivo, seremos
sempre
cinco.
(José Luís
Peixoto faz hoje 40 anos)
Todas as
Horas
Todas as
horas, todos os minutos,
São para mim
a véspera da partida.
Preparo-me
para a morte, como quem
Se prepara
para a vida.
Em qualquer
parte eu disse que a Beleza
Não nasce só
mas sim acompanhada.
Não são
palavras minhas as que eu digo.
A minha boca
pertence aos que me amam.
Mudos e sós.
À nossa
volta todos os amantes
Sentir-se-ão
tranquilos.
Um coração
puro
É como o
Sol:
Brilha todos
os dias.
(poeta
alvitense nascido 4 a de Setembro de 1920)
quarta-feira, setembro 03, 2014
O MEDO
GLOBAL
Os que
trabalham têm medo de perder o trabalho, os que não trabalham têm medo de nunca
encontrar o trabalho.
Quem não tem
medo da fome tem medo da comida.
Os
automobilistas têm medo de caminhar e os pedestres têm medo de ser atropelados.
A democracia
tem medo de recordar e a linguagem tem medo de dizer.
Os civis têm
medo dos militares e os militares têm medo da falta de armas.
As armas têm
medo da falta de guerras.
Medo da
mulher à violência do homem, medo do homem das mulheres sem medo.
Medo dos
ladrões, medo da polícia.
Medo da
porta sem fechadura, do tempo sem relógio, das crianças sem televisão.
Medo da
noite sem comprimidos para dormir, medo de dia sem comprimidos para acordar.
Medo da
multidão, medo da solidão.
Medo do que
foi e do que pode ser.
Medo de
morrer, medo de viver.
(escritor
uruguaio que hoje faz 74 anos)
terça-feira, setembro 02, 2014
A Nossa Casa
Na nossa
casa amor-perfeito é mato
E o teto
estrelado também tem luar
A nossa casa
até parece um ninho
Vem um
passarinho pra nos acordar
Na nossa
casa passa um rio no meio
E o nosso
leito pode ser o mar
A nossa casa
é onde a gente está
A nossa casa
é em todo lugar
A nossa casa
é onde a gente está
A nossa casa
é em todo lugar
A nossa casa
é de carne e osso
Não precisa
esforço para namorar
A nossa casa
não é sua nem minha
Não tem
campainha pra nos visitar
A nossa casa
tem varanda dentro
Tem um pé-de-vento
para respirar
A nossa casa
é onde a gente está
A nossa casa
é em todo lugar
A nossa casa
é onde a gente está
A nossa casa
é em todo lugar
segunda-feira, setembro 01, 2014
O bolero do
coronel
Eu que me
comovo
Por tudo e
por nada
Deixei-te
parada
Na berma da
estrada
Usei o teu
corpo
Paguei o teu
preço
Esqueci o
teu nome
Limpei-me
com o lenço
Olhei-te a
cintura
De pé no
alcatrão
Levantei-te
as saias
Deitei-te no
banco
Num bosque
de faias
De mala na
mão
Nem sequer
falaste
Nem sequer
beijaste
Nem sequer
gemeste,
Mordeste,
abraçaste
Quinhentos
escudos
Foi o que
disseste
Tinhas
quinze anos
Dezasseis,
dezassete
Cheiravas a
mato
À sopa dos
pobres
A infância
sem quarto
A suor, a
chiclete
Saíste do
carro
Alisando a
blusa
Espiei da
janela
Rosto de
aguarela
Coxa em
semifusa
Soltei o
travão
Voltei para
casa
De chaves na
mão
Sobrancelha
em asa
Disse: fiz
serão
Ao filho e à
mulher
Repeti a
fruta
Acabei a
ceia
Larguei o
talher
Estendi-me
na cama
De ouvido à
escuta
E perna
cruzada
Que de olhos
em chama
Só tinha na
ideia
Teu corpo
parado
Na berma da
estrada
Eu que me
comovo
Por tudo e
por nada
(António
Lobo Antunes faz hoje 72 anos)
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