How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
terça-feira, novembro 12, 2013
O Duo
Doloroso
Difícil o
vazio. Mais difícil
entre as
quatro paredes do intelecto.
Ali, entre
os sentidos, sob o teto
e o solo
onde começa o precipício,
o vôo,
impertinente, tinha início
a todo
instante e nunca era direto,
era oblíquo:
ora o gozo era suplício,
ora o
suplício mesmo era dileto...
O abismo era
metódico, seu método
audaz, mas
um se foi e outro esvaiu-se
como mais um
suspiro sem remédio.
Já o vazio,
o mais límpido exercício,
era um puro
palácio aritmético...
Mas e a vida? Ah, a vida era esse vício!
(poeta
carioca nascido a 12 de Novembro de 1940)
segunda-feira, novembro 11, 2013
Uma vida
esquecida
Para o
Fernando Alves dos Santos
Eu conheço o
vidro franja por franja
meticulosamente
à porta
parado um homem oco
franja por
franja no espaço
meticulosamente
oco uma porta parada.
Um relógio
dá dez badaladas ininterruptamente
dez
badaladas por brincadeira dança
um homem com
pernas de mulher
e um olhar
devasso no Marte
passo por
passo uma criança chora
uma águia e
um vampiro recuados no tempo
(poeta
lisboeta falecido faz hoje 60 anos, com apenas 25 de idade)
Hotel
Fraternité
Aquele que
não tem com o que comprar uma ilha
Aquele que
espera a rainha de sabá na frente de um cinema
Aquele que
rasga de raiva e desespero sua última camisa
Aquele que
esconde um dobrão de ouro no sapato furado
Aquele que
olha nos olhos duros do chantagista
Aquele que
range os dentes nos carrocéis
Aquele que
derrama vinho rubro na cama sórdida
Aquele que
toca fogo em cartas e fotografias
Aquele que
vive sentado nas docas debaixo das gaivotas
Aquele que
alimenta os esquilos
Aquele que
não tem um centavo
Aquele que
observa
Aquele que
dá socos na parede
Aquele que
grita
Aquele que
bebe
Aquele que
não faz nada
Meu inimigo
Debruçado
sobre o balcão
Na cama em
cima do armário
No chão por
toda parte
Agachado
Olhos fixos em
mim
Meu irmão
(poeta
alemão que hoje faz 84 anos)
Tradução de
Aldo Fortes. Música e interpretação de Arnaldo Antunes
Modelo da
teoria do conhecimento
Aqui tens
uma grande
caixa
com o
rótulo:
caixa.
Se a
abrires,
encontrarás
nela
uma caixa
com o
rótulo:
caixa
tirada de
uma caixa
com o
rótulo:
caixa.
Se a abrires
–
agora me
refiro
a esta caixa
não àquela
–,
encontrarás
nela
uma caixa
com o rótulo
etcetera;
e se
continuares
assim,
encontrarás,
depois de
infindáveis fadigas,
uma caixa
infinitamente
pequena
com um
rótulo
tão miúda
que, por
assim dizer,
se evapora
diante de teus olhos.
É uma caixa
que existe
só na tua imaginação.
Uma caixa
totalmente
vazia.
(poeta
alemão que hoje faz 84 anos)
(Tradução de
Kurt Scharf e Armindo Trevisan)
domingo, novembro 10, 2013
sábado, novembro 09, 2013
Outono
enfermiço
Outono
mortiço e adorado
Morrerás
quando o furacão soprar nos rosais
Quando nos
vergéis
Tiver nevado
Pobre outono
Morres em
brancura e em riqueza
De neve e de
frutos maduros
No fundo do
céu
Planam
gaviões
Sobre os
nixes ingénuos e anões de cabelos verdes
Que nunca
amaram
Nas orlas de
lá longe
Os veados
bramiram
Oh! estação
não sabes quanto gosto dos teus rumores
Os frutos
caindo sem serem apanhados
O vento e a
floresta que choram folha a folha
Todas as
suas lágrimas no outono
As folhas
Que pisam
Um comboio
Que passa
A vida
Que se vai
(Guillaume
Apollinaire faleceu faz hoje 95 anos)
Tradução de
Maria Gabriela Llansol
sexta-feira, novembro 08, 2013
quinta-feira, novembro 07, 2013
Inscrição
Quem se deleita em tornar minha vida impossível
por todos os lados?
Certamente estás rindo de longe,
ó encoberto adversário!
Mas a minha paciência é mais firme
que todas as sanhas da sorte:
mais longa que a vida, mais clara
que a luz no horizonte.
Passeio no gume de estradas tão graves
que afligem o próprio inimigo.
A mim, que me importam espécies de instantes,
se existo infinita?
(poetisa carioca nascida faz hoje 112 anos)
quarta-feira, novembro 06, 2013
terça-feira, novembro 05, 2013
Lá se foi à
Viola
Porque
perdeu a mamata,
o povo ficou
medonho:
quebrou os
copos e os pratos,
xingou,
pintou e berrou.
Lembrou-se
então de Tibério,
pediu
justiça a Pilatos,
batendo o pé
e berrando.
O rei de
Roma acudiu,
se levantou
do caixão
e o papa fez
um aceno,
chamando
aquele rebanho
que vinha
com Caifaz.
A igreja
benzeu o povo
e excomungou
quem matou
a vaca que
dava leite.
Porém aquela
mamata
não quer
voltar nem a gancho.
Só pode ser
o demônio
quem mata a
vaca leiteira,
tirando o
leite do povo,
fazendo esta
desgraceira.
(poeta
baiano falecido faz hoje 45 anos)
segunda-feira, novembro 04, 2013
Poesia
Necessária
1
De palavras
novas também se faz país
neste país
tão feito de poemas
que a
produção e tudo a semear
terá de ser
cantado noutro ciclo.
2
É fértil
este tempo de palavras
em busca do
poema
que foge na
curva das palavras
usadamente
soltas e antigas
distantes
das verdades dos rios
do quente
necessário das brasas
do latejar
silencioso das sementes
dentro da
terra
quando
chove.
3
Proponho um
verso novo
para as
laranjas (por exemplo) matinais
e os
namorados
com que
havemos de encher todos os dias
os mercados.
4
Proponho um
verso novo
para as
guelra do peixe sem contar
para a
abundância da carne
e a
liberdade das aves desenhada
no amor das
escolas
dos campos
e das
fábricas.
5
Proponho um
verso novo
para o leite
obrigatório em cada dia
e a medalha
olímpica
que o riso
das crianças já promete.
6
Proponho um
verso novo
para o milho
a mandioca suculenta
o
amadurecido cacho de dendém
alegre na
fartura dos dedos
e das bocas.
7
Produzir na
palavra
É semear e
colher
É cumprir na
escrita
A produção.
8
Produzir na
palavra
É cantar no
poema
Todas as
raízes
Deste chão.
(poeta
angolano que hoje faz 72 anos)
domingo, novembro 03, 2013
Não me
deixes!
Debruçada
nas águas dum regato
A flor dizia
em vão
À corrente,
onde bela se mirava:
"Ai,
não me deixes, não!
"Comigo
fica ou leva-me contigo
"Dos
mares à amplidão;
"Límpido
ou turvo, te amarei constante;
"Mas
não me deixes, não!"
E a corrente
passava; novas águas
Após as
outras vão;
E a flor
sempre a dizer curva na fonte:
"Ai,
não me deixes, não!"
E das águas
que fogem incessantes
À eterna
sucessão
Dizia sempre
a flor, e sempre embalde:
"Ai,
não me deixes, não!"
Por fim
desfalecida e a cor murchada,
Quase a
lamber o chão,
Buscava inda
a corrente por dizer-lhe
Que a não
deixasse, não.
A corrente
impiedosa a flor enleia,
Leva-a do
seu torrão;
A afundar-se
dizia a pobrezinha:
"Não me
deixaste, não!"
(poeta
brasileiro falecido a 3 de Novembro de 1984)
sábado, novembro 02, 2013
Os Paraísos
Artificiais
Na minha
terra, não há terra, há ruas;
mesmo as
colinas são de prédios altos
com renda
muito mais alta.
Na minha
terra, não há árvores nem flores.
As flores,
tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara
tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.
O cântico
das aves - não há cânticos,
mas só
canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música
do vento é frio nos pardieiros.
Na minha
terra, porém, não há pardieiros,
que são
todos na Pérsia ou na China,
ou em países
inefáveis.
A minha
terra não é inefável.
A vida na
minha terra é que é inefável.
Inefável é o
que não pode ser dito.
(Jorge de
Sena nasceu faz hoje 94 anos)
sexta-feira, novembro 01, 2013
O Silêncio
Peço apenas
o teu silêncio,
como uma
criança pede uma flor
ou um velho
pedinte um bocado de pão.
Um silêncio
onde a tua
alma se embrulha, friorenta,
trémula, à
aproximação das invernias.
Um silêncio
com ressonâncias de antigas primaveras,
de outonos
descoloridos
e da chuva a
cair no negrume da noite.
- Vá,
motorista de táxi,
transporta-me
através das
ruas da cidade inextricável,
vertiginosamente,
buzinando,
buzinando,
abafando o
ruído de um outro silêncio!
(poeta
vila-condense nascido faz hoje 111 anos)
quinta-feira, outubro 31, 2013
Canto
Esponjoso
Bela
esta manhã
sem carência de mito,
E mel
sorvido sem blasfémia.
Bela
esta manhã
ou outra possível,
esta vida ou
outra invenção,
sem, na
sombra, fantasmas.
Umidade de
areia adere ao pé.
Engulo o
mar, que me engole.
Valvas,
curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas
constituídas.
Bela
a passagem
do corpo, sua fusão
no corpo
geral do mundo.
Vontade de
cantar. Mas tão absoluta
que me calo,
repleto.
(poeta
mineiro nascido faz hoje 111 anos)
quarta-feira, outubro 30, 2013
Ela, em meu
Sonho
Ela vivia
num palácio mouro...
Nas harpas,
os seus dedos a espreitarem
como pajens
curiosos, a afastarem
os
cortinados todos fios de ouro.
As suas
mãos, tão leves como as aves,
ora fugiam
volitando, frias,
ora pesam,
trêmulas, suaves,
nas cordas,
a sonharem melodias...
E os sons
que ela tangia, aos seus ouvidos
chegaram,
receosos de senti-la,
voltavam a
não ser nunca tangidos.
É que ela,
as suas mãos, as harpas de ouro,
não eram
mais do que um supor ouvi-la
e o meu
julgá-la num palácio mouro.
(poeta
português nascido faz hoje 122 anos)
terça-feira, outubro 29, 2013
Areia
Do Leste
veio o sol devolvendo abril
no início da
estação que está no fim
amor que
começou e amarga o exílio
sabor que se
perdeu antes de mim
O céu
capricha azul depois da chuva
borracha
sobre a dor, separação
corpos que
secaram ainda úmidos
palavra
recém dita e sem perdão
Devia te
deixar fazer o escrito
prometido no
verão do verbo aflito
e não pedir
em vão teu desperdício
Agora colho
o grão de uma colheita
lonjura em
comunhão com a ventania
pareço um
paredão chorando areia
(poeta
gaúcho que hoje faz 65 anos)
segunda-feira, outubro 28, 2013
A morte de
calar
As viagens
que sou prenderam-se em redomas
Ao corpo das
palavras. À morte de calar.
Do alfabeto
meu ignoro as cristalinas
Formas de
aladas letras nestes versos finais.
São
fantasmas de sol. São fantasmas de sede
Que chegam
alta noite para nenhum lugar.
Decifro nas
entranhas das trevas migradoras
O solstício
da vida além da morte clara.
Mas quem me
vem cegar, com setas voadoras
Nega-me
agora a paz das secretas paisagens.
Meus Irmãos
de astronaves, guiadas por um morto,
Que me
esperam e estão, que me cantam e falam.
Que na vazia
Cruz crucificam meu corpo
E abandonam
a flor, mesmo a meio da sala.
À janela
rasgada, para as cinzentas águas,
Encostam-me,
sem olhos, e deixam-me ficar.
Não tenho
nada mais a escrever sobre as ondas.
E mesmo que
tivesse, ninguém leria o mar.
Natércia Freire
(poetisa
benaventense nascida a 28 de Outubro de 1920)
domingo, outubro 27, 2013
sábado, outubro 26, 2013
Infinitude
Noite negra
- teu vulto funeral
nunca me
evoca a morte:
evoca a vida
imemorial e universal!
Meu coração,
na sombra, é a lente-forte,
o espelho de
uma equatorial
onde
aprofundo
o caos
profundo,
a leste, a
oeste, ao sul, ao norte!
Noite - mãe
da Verdade misteriosa!
Noite -
estudo contigo a Vida prodigiosa,
a
desdobrar-se luxuriosa em toda a parte,
nublada em
Vênus, regulada em Marte,
decadente na
Lua ou nascente em Saturno!
Noite -
estudo contigo o segredo noturno
de universos
maiores, a milhões de milhas,
das ilhas do
éter - dessas miríficas ilhas -
maravilhas
de luz,
grandeza e sons que não sei conceber!
Noite -
estudo contigo e ponho-me a tremer!...
É a mais
santa emoção:
é um orgulho
(perante o ritmo fundo,
o prodígio
perpétuo da criação)
orgulho de -
inda sendo átomo vão -
ter sido,
ser e sempre ser de um mundo...
no Mundo!!
(poeta
brasileiro nascido a 26 de Outubro de 1894)
sexta-feira, outubro 25, 2013
Dor
Quisera esta
tarde divina de outubro
passear pela
beira longínqua do mar;
Que a areia
de ouro, e as águas verdes,
e os céus
puros me vissem passar.
Ser alta,
soberba, perfeita, quisera,
como uma
romana, para concordar
com as
grandes ondas, e as rocas mortas
e as largas
praias que apertem o mar.
Com o passo
lento, e os olhos frios
e a boca
muda, deixar-me levar;
ver como se
rompem as ondas azuis,
contra os
granitos e não pestanejar;
ver como as
aves de rapina se comem
os peixes
pequenos e não despertar;
pensar que
puderam as frágeis barcas
Afundar-se
nas águas e não suspirar;
Ver que se
adianta a garganta ao ar,
O homem mais
belo não desejar amar…
Perder o
olhar, distraidamente,
perde-lo e
que nunca o volte a encontrar:
E figura
erguida entre céu e praia
sentir-me o
esquecimento perene do mar.
(poetisa
argentina falecida faz hoje 75 anos)
Tradução de
Maria Teresa Almeida Pina
quinta-feira, outubro 24, 2013
quarta-feira, outubro 23, 2013
terça-feira, outubro 22, 2013
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