How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
terça-feira, outubro 22, 2013
ecologia
lírica
A incógnita
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor
até ao
limite
de olhá-la
como ela
é
O que é que
cicia
o mistério
(a essência)
desta
atmosfera
de sol do
meio dia
cuja
transparência
parece que
gera
o que a
terra cria
Todos os
mitos
imortais
cabem
subitamente
nos
alicerces
originais
da semente
A pétala
sabe
o destino
oculto
de todas as
coisas
onde o sol
começa
Criar
primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro
que voa
aquém da
casca
Mudar depois
as asas
da natureza
sem deixar
de ser ave
e ser flor
gerar o
movimento
assim eterno
da origem de
ser
o que já é
O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã
Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce
(poeta
português falecido faz hoje 25 anos)
segunda-feira, outubro 21, 2013
Soneto das
imagens interiores
Mistério das
imagens interiores.
Imersas
nestes mares de abandono
as sementes
de fogo geram flores:
rosas de pó
nas lâminas do outono.
Transfigurada,
a fria luz de sono
vela de
cinza a face dos pastores,
e os súditos
do tempo, e os reis sem trono,
sob o mudo
legado de outras dores.
Na áspera
latitude um rio corre
branco de
eternidade. As nebulosas
vão-se
formando, enquanto o sonho morre.
Há pássaros
absortos na obcecada
cisma da
solidão; e mãos ansiosas
abrem portas
de sombra para o nada.
(poeta pernambucano
falecido faz hoje 7 anos)
domingo, outubro 20, 2013
sábado, outubro 19, 2013
Aos Filhos
Já nada nos
pertence,
nem a nossa
miséria.
O que vos
deixaremos
a vós o
roubaremos.
Toda a vida
estivemos
sentados
sobre a morte,
sobre a
nossa própria morte!
Agora como
morreremos?
Estes são
tempos de
que não
ficará memória,
alguma
glória teríamos
fôssemos ao
menos infames.
Comprámos e
não pagámos,
faltámos a
encontros:
nem sequer
quando errámos
fizemos
grande coisa!
(Manuel
António Pina faleceu faz hoje 1 ano)
Acontecimento
Haverá na
face de todos um profundo assombro
E na face de
alguns, risos sutis cheios de reserva
Muitos se
reunirão em lugares desertos
E falarão em
voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o
milagre tivesse realmente se realizado
Muitos
sentirão alegria
Porque deles
é o primeiro milagre
Muitos
sentirão inveja
E darão o
óbolo do fariseu com ares humildes
Muitos não
compreenderão
Porque suas
inteligências vão somente até os processos
E já existem
nos processos tantas dificuldades...
Alguns verão
e julgarão com a alma
Outros verão
e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão
apenas dizer...
Será belo e
será ridículo
Haverá quem
mude como os ventos
E haverá
quem permaneça na pureza dos rochedos.
No meio de
todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando
verdades e mentiras
Mas não
dizendo nada.
Só a alegria
de alguns compreenderem bastará
Porque tudo
aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas
mais turvas contêm às vezes as pérolas mais belas.
(Vinicius de
Moraes nasceu faz hoje 100 anos)
sexta-feira, outubro 18, 2013
É preciso
É preciso um
novo tempo
que nas asas
do vento
transporte
esperança
às crianças
grandes, carentes...
É preciso
sorrir
e espantar a
tristeza
que esconde
a beleza
e faz a vida
escura
obscura,
destituída
de encantos...
É preciso
sonhar
e espantar
os pesadelos
que em
tétricos modelos
assombram no
espaço
os nervos de
aço
do destino
incerto...
É preciso
crer no amanhã
e buscar na
desventura
a invisível
ternura
de mãos
ocultas
e corações
errantes...
É preciso ir
andando
no meio fio
da existência
acumulando
experiência
para que na
hora final
o assombro
não seja tal
que nos
derrube no espaço...
É preciso um
novo tempo
e também
muito sentimento...
É preciso
sorrir
e também
muita alegria...
É preciso
sonhar
e também
muita poesia...
É preciso
crer
e também uma
crença pura...
É preciso
caminhar
e também
achar o caminho certo...
É preciso
tudo isso
e além
disso...
Muito peito
e valentia!
(escritora
paulista que hoje faz 63 anos)
quinta-feira, outubro 17, 2013
PONTO -
TRAÇO
Um ponto
negro - um traço
na planície
branca
e uma
pergunta no silêncio
resolve-se
na luz
de uma outra
folha inatingível
nudez de
evidência ou
de um
equilíbrio súbito suspenso
de um
contorno novo
uma prosa
branca
o desvio de
um sulco
ou haste
perpendicular
à lentidão do curso
o nome que
ascende e principia o fluxo
que não
cessa aqui.
(António
Ramos Rosa nasceu faz hoje 89 anos)
quarta-feira, outubro 16, 2013
A implosão da mentira - Fragmento II
Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.
Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial?mente,
mente partidária?mente,
mente incivil?mente,
mente tropical?mente,
mente incontinente?mente,
mente hereditária?mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
- diária/mente.
Affonso Romano de
Sant'Anna
(poeta mineiro)
terça-feira, outubro 15, 2013
segunda-feira, outubro 14, 2013
Como os
outros
Como os
outros discípulo da noite
frente ao
seu quadro negro que é
exterior à
música dispo o reflexo
sou um e
baço
dou-me as
mãos na estreita
passagem dos
dias
pelo café da
cidade adoptiva
os passos
discordando
mesmo entre
si
As coisas
são a sua morada
e há entre
mim e mim um escuro limbo
mas é nessa
disjunção o istmo da poesia
com suas
grutas sinfónicas
no mar.
(poeta
bracarense naturalizado moçambicano, falecido faz hoje 13 anos)
domingo, outubro 13, 2013
O impossível
carinho
Escuta, eu
não quero contar-te o meu desejo
Quero
contar-te apenas a minha ternura
Ah se em
troca de tanta felicidade que me dás
Eu te
pudesse repor
- Eu
soubesse repor -
No coração
despedaçado
As mais
puras alegrias de tua infância!
sábado, outubro 12, 2013
Tempo
Tempo de
pouca poesia,
Tempo de
angústias,
De sonhos
desfeitos,
De silêncios
introspectivos,
De
conhecimentos mortos,
De
necessidades arrasantes,
De dores
variadas,
De caminhos
inexistentes,
De
necessidades corrompidas,
De ocos no
espírito,
De saudades
doentias,
De vidas sem
amor.
Aroldo Ferreira Leão
(poeta norte-rio-grandense
que hoje faz 46 anos)
sexta-feira, outubro 11, 2013
Litania
O teu rosto
inclinado pelo vento...
A feroz
brancura dos teus dentes,
As mãos, de
certo modo, irresponsáveis...
E contudo
sombrias, e contudo transparentes.
O triunfo
cruel das tuas pernas,
Colunas em
repouso se anoitece.
O peito
raso, claro, feito de água,
A boca
sossegada onde apetece...
Navegar ou
cantar, ou simplesmente ser
A cor d'um
fruto, ou peso d'uma flor,
As palavras
mordendo a solidão,
Atravessadas
de alegria e de terror,
São a grande
razão... são a única razão...
(escritor
brasileiro falecido faz hoje 9 anos)
quinta-feira, outubro 10, 2013
Deus abençoe
a América
Lá vão eles
outra vez,
Os Ianques e
as suas blindadas paradas
Entoando as
suas baladas de alegria
A galope
pelo vasto mundo
Louvando o
Deus da América.
As sarjetas
estão entupidas de mortos
Dos que não
puderam alistar-se
Dos outros
que se recusam a cantar
Dos que
estão a perder a voz
Dos que
esqueceram a música.
Os
cavaleiros têm chicotes que ferem.
A tua cabeça
rola para a areia
A tua cabeça
é uma poça no lixo
A tua cabeça
é uma nódoa no pó
Os teus
olhos apagaram-se e o teu nariz
Fareja
apenas o fedor dos mortos
E todo o ar
morto está vivo
Com o cheiro
do Deus da América.
(Harold
Pinter nasceu faz hoje 83 anos)
quarta-feira, outubro 09, 2013
Convite
Poesia
é brincar
com palavras
como se
brinca
com bola,
papagaio, pião.
Só que
bola,
papagaio, pião
de tanto
brincar
se gastam.
As palavras
não:
quanto mais
se brinca
com elas
mais novas
ficam.
Como a água
do rio
que é água
sempre nova.
Como cada
dia
que é sempre
um novo dia.
Vamos
brincar de poesia?
(poeta
paulista falecido faz hoje 15 anos)
terça-feira, outubro 08, 2013
Interferência
A Cecília
Meireles
Quem veio
bater a minha porta? Quem?
Quem me fez
abrir a janela e a noite morta?
O caminho
estava deserto e o seu silêncio tinha horas.
Vento? Esta
noite tem a paz e o sossego da morte.
Só eu e as
estrelas sentíamos a solidão fantástica...
Nos ouvidos
e na ansiedade guardei o rumor que me chamou,
as minhas
mãos tiveram a carícia doutras mãos perdidas,
e uma
companhia invisível acendeu uma luz na minha alma...
Alguém terá
pensado em mim, longe?
(poeta
portuense falecido faz hoje 21 anos)
segunda-feira, outubro 07, 2013
Requiem
(ao menino
morto, eu próprio)
A tarde
declina com uma luz ténue.
Estou grave
e calmo.
E não
preciso de ninguém
Nem a luz da
tarde me comove: entendo-a.
Até as
imagens me são inúteis porque contemplo tudo.
Os ventos
rodam, rodam, gemem e cantam
E voltam.
São os mesmos.
Como os
conheço desde a infância!
E a terra
húmida das tapadas da quinta...
O estrume da
égua morta quando eu tinha seis anos
Gira
transparente nesta brisa fria...
(Na noite
gotas de orvalho sumiam-se sob as folhas das ervas)
Oh, não há
solidão, nas neblinas de inverno
Pela erma
planície...
E foi engano
julgar-te morto e tão só nas tapadas em silêncio...
Agora sei
que vives mais
Porque
começo a sentir a tua presença, grande como o silêncio...
Já me não
vem a vaga tristeza do teu chamamento longínquo
Já me
confundo contigo.
(poeta
lisboeta que hoje faria 80 anos)
domingo, outubro 06, 2013
Rosa dos Ventos
O vício se
alastra noite dentro
e a cidade
se rende ao rumor de vozes
Todavia não
era mais este o tempo sombrio
em que cada
um se fecha dentro da sua dor
ou finge
sorrir dentro da falsa alegria
Contornado o
vazio da memória
apenas os
pássaros enlouquecidos buscam agora
o rumo
perdido da rosa dos ventos.
José Vicente Lopes
(escritor
cabo-verdiano que hoje faz 54 anos)
sábado, outubro 05, 2013
sexta-feira, outubro 04, 2013
Quando o
homem entra na mulher
Quando o
homem
entra na
mulher,
como a
rebentação
batendo na
costa,
uma e outra
vez,
e a mulher
abre a boca de prazer
e os seus
dentes brilham
como o
alfabeto,
Logos
aparece ordenhando uma estrela,
e o homem
dentro da
mulher
ata um nó,
de modo que
nunca mais
possam
voltar a separar-se
e a mulher
trepa a uma
flor
e engole o
seu pecíolo
e Logos
aparece
e solta os
seus rios.
Este homem,
esta mulher
com o seu
duplo desejo
tentaram
atravessar
a cortina de
Deus
e
conseguiram-no por um instante,
embora Deus
na Sua
perversidade
desate o nó.
(poetisa
estado-unidense falecida faz hoje 39 anos)
tradução de Jorge Sousa Braga
quinta-feira, outubro 03, 2013
Enigma
Um grande
campo de linho azul entre as uvas pretas
Quando para
mim se inclina a estremecer ao vento
Um grande
campo de linho azul espelho do céu
Faz o meu
sangue vibrar até à última gota
Adivinha
Um grande
campo de linho azul revelado ao dia
Onde por
muito tempo o vapor dos sonhos se arrasta
Onde receio
levar pássaros que não existem
Cuja sombra
alada ao longe obscuramente alastra
Adivinha
Um grande
campo de linho azul da cor das lágrimas
Aberto a um
país que só conhece o amor
Onde tudo é
perfumado poderoso e sedutor
Como se
beijos nele sempre se passeassem
Adivinha
Um grande
campo de linho azul feito do espanto
Por
descobrir sempre uma água pura e profunda
Que
milagrosamente encobre com o seu manto
Talvez um
lago o mar as espáduas do mundo
Adivinha
Um grande
campo de linho azul que fala chora e ri
Onde
mergulho e me perco diz-me se adivinhas
Que semente
nele espalhou a alegria e a dor
E porque nos
inebria e nos mata o seu amor
Adivinha
(Louis
Aragon nasceu a 3 de Outubro de 1897)
Retirado daqui
quarta-feira, outubro 02, 2013
CANÇÃO DAS
MUSAS
a noite
arrasta seus cascos
abrindo
clareiras no acaso
que precede
o som.
até
as estrelas,
atrás,
estão mais
acesas
se por
tristezas
a morte que
acusas
não couber
em belezas
linha por
linha
arrastem-nos
como a um cão
de espumas
levem-nos a
parte alguma.
(poeta
paranaense que hoje faz 48 anos)
terça-feira, outubro 01, 2013
Folha caída
No coração
uma sombra do dia que passou.
Nele não
existe além da memória e da saudade.
Promete-me
que não ficarás acordada
quando tudo
dorme ao nosso redor
memória,
promete-me isso!
No corpo e
na pele dos dedos
vestes o
beijo,
perfumas o
tempo,
soltas os
cabelos
e descansas
onde só há tempestade.
Promete-me
que não ficarás acordada
enquanto o
sono é o fato menor
memória,
promete-me isso!
Mafalda Chambel
(poetisa
lisboeta que hoje faz 26 anos)
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