How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
segunda-feira, março 11, 2013
Solidão
Que venham
todos os pobres da Terra
os ofendidos
e humilhados
os
torturados
os loucos:
meu abraço é
cada vez mais largo
envolve-os a
todos!
Ó minha
vontade, ó meu desejo
- os pobres
e os humilhados
todos
se quedaram
de espanto!...
(A luz do
Sol beija e fecunda
mas os
místicos andaram pelos séculos
construindo
noites
geladas
solidões.)
(Manuel da
Fonseca faleceu faz hoje 20 anos)
domingo, março 10, 2013
O dom da vida
O dom da vida se imodera e precipita
com a ânsia tanta de se rever ao espelho
que denuncia o velho que me vou tornando.
Ocupo ainda o espaço que me foi dado,
descoheço os que vão chegando e já não
vejo os que ao meu lado me abandonaram.
Sou um estranho num mundo desordenado,
uma ave atrasada de seu bando, mas vivo
sem préstimo e sem comando, sem o fado
de súbito interrompido, menor ou corrido.
Ido passado que me agasta e resta, ida
aresta que me ilumina, lâmina e níquel.
Venho daquele tropel que me poupou a hora
da queda, trago a seda esvoaçante e nunca
rasgada em parte alguma, intacta figura
solitária. A lendária altura não me chamou,
o amor me doou.
(Dórdio Leal Guimarães nasceu faz hoje 75 anos)
sábado, março 09, 2013
Multiplicação
Dêem-me
minhas mãos,
que eu quero
semear a terra.
Com elas,
alumiarei o
cego,
afagarei a
face do leproso
e enxugarei
o suor do moribundo...
Violarei o
cofre do usurário
e saciarei a
fome do necessitado...
Eu quero
minhas mãos,
para aliviar
o laço do enforcado,
para guiar
os passos do ébrio,
para
estancar o sangue do esfaqueado...
Eu preciso
das minhas mãos,
para
libertar o detento,
para
socorrer o fugitivo,
para salvar
o afogado...
Dêem-me
minhas mãos,
que eu quero
colher flores,
para o leito
da noiva,
para o berço
do recém-nascido...
Eu quero
minhas mãos,
eu preciso
das minhas mãos,
para, com
elas, milagres propagar.
(poeta norte-rio-grandense nascido faz hoje 102 anos)
sexta-feira, março 08, 2013
quinta-feira, março 07, 2013
Construção
Construir-te
verso a
verso
Tijolo a
tijolo de saudade.
Palácio que
supus noutra cidade,
Conquista
que sofreu um vento adverso.
Cristal que
me cegou quando te quis,
Luxúria do
teu corpo onde não estive.
E só faltou
que tu fosses feliz
Nesse
intervalo breve em que te tive....
Fernando Tavares Rodrigues
(poeta
lisboeta nascido a 7 de Março de 1954 e falecido aos 52 anos)
quarta-feira, março 06, 2013
No Caminho,
com Maiakóvski
Assim como a
criança
humildemente
afaga
a imagem do
herói,
assim me
aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa
o que me possa acontecer
por andar
ombro a ombro
com um poeta
soviético.
Lendo teus
versos,
aprendi a
ter coragem.
Tu sabes,
conheces
melhor do que eu
a velha
história.
Na primeira
noite eles se aproximam
e roubam uma
flor
do nosso
jardim.
E não
dizemos nada.
Na segunda
noite, já não se escondem:
pisam as
flores,
matam nosso
cão,
e não
dizemos nada.
Até que um
dia,
o mais
frágil deles
entra
sozinho em nossa casa,
rouba-nos a
luz, e,
conhecendo
nosso medo,
arranca-nos
a voz da garganta.
E já não
podemos dizer nada.
Nos dias que
correm
a ninguém é
dado
repousar a
cabeça
alheia ao
terror.
Os humildes
baixam a cerviz;
e nós, que
não temos pacto algum
com os
senhores do mundo,
por temor
nos calamos.
No silêncio
de meu quarto
a ousadia me
afogueia as faces
e eu
fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do
juiz,
talvez meus
lábios
calem a
verdade
como um foco
de germes
capaz de me
destruir.
Olho ao
redor
e o que vejo
e acabo por
repetir
são
mentiras.
Mal sabe a
criança dizer mãe
e a
propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase
me arrastam
pela gola do
paletó
à porta do
templo
e me pedem
que aguarde
até que a
Democracia
se digne
aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não
estou amedrontado
a ponto de
cegar, que ela tem uma espada
a lhe
espetar as costelas
e o riso que
nos mostra
é uma tênue
cortina
lançada
sobre os arsenais.
Vamos ao
campo
e não os
vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo
da colheita
lá estão
e acabam por
nos roubar
até o último
grão de trigo.
Dizem-nos
que de nós emana o poder
mas sempre o
temos contra nós.
Dizem-nos
que é preciso
defender
nossos lares
mas se nos
rebelamos contra a opressão
é sobre nós
que marcham os soldados.
E por temor
eu me calo,
por temor
aceito a condição
de falso
democrata
e rotulo
meus gestos
com a
palavra liberdade,
procurando,
num sorriso,
esconder
minha dor
diante de
meus superiores.
Mas dentro
de mim,
com a
potência de um milhão de vozes,
o coração
grita - MENTIRA!
(poeta
niteroiense que hoje faz 77 anos)
terça-feira, março 05, 2013
Véspera
Seríamos
dois faunos sobre a praia,
Batidos pelo
vento e pelo sal,
Tendo por
manto apenas a cambraia
Da espuma
E, por
fronteira ,
O areal.
Gémeos de
corpo e alma,
Ver um era
ver o outro:
A mesma voz,
A mesma
transparência,
A mesma
calma
De búzio,
intacto, em cada um de nós!
Felicidade?
Não!
Inconsciência!
E as nossas
mãos brincavam com o lume
À beira da
impaciência
Ou do ciúme.
(Pedro Homem
de Mello faleceu faz hoje 29 anos)
Noite do
Roubo
A quem foram
roubar os pobres trapos:
A mim, que
sou humilde pobrezinho?
Olhem bem
que o valor desses farrapos
Está em ter
minha avó fiado o linho.
Ó rocas a
fiar, contos de fadas!
Eu
tinha-lhes amor e a simpatia
Que vem das
saudades de algum dia,
Longe, das
velhas noites seroadas.
Bragais de
minha casa, e as roupas feitas
Por mãos de
minha mãe, muito me assusta
Que os
tomassem perversas mãos suspeitas.
Ah! mãos do
furto, olhai, trazei-me à justa
Os meus
linhos — suor dumas colheitas —
E amor dos
meus que a mim muito me custa.
(poeta
coimbrão falecido a 5 de Março de 1958)
segunda-feira, março 04, 2013
domingo, março 03, 2013
Bandeira
Branca
E a estrela
perdeu-se na noite deserta...
Tentar
procurá-la, para quê, se era em vão?
Deixaram-me
em casa com a porta aberta
Mas eu bem
compreendo que estou em prisão.
Talvez que
pensassem mal imaginário
a mágoa de
uns olhos em rosto bravio
Mas eu bem
me sinto peixe em aquário
e sei a
amargura de sonhá-lo num rio.
Mas eu bem
compreendo o cruel desalento
dos gestos
frustrados, perdidos no ar.
Foi curta a
mensagem, findou meu tormento.
E não vale a
pena o que está por contar.
(poetisa
vianense nascida faz hoje 94 anos)
sábado, março 02, 2013
Poema de
destroços
Lembro-me de
tudo:
Um gesto a
abrir,
rosas branca
na haste,
o milagre do
pão,
a ternura
que deixaste
como um rio
desliza,
num silêncio
de gumes.
Os adeuses
digo,
único
passageiro no navio,
levo o
saibro das lágrimas,
e vou
sozinho.
A guitarra
da chuva persiste.
Se eu tinha
coração? De ouro...
Quase ia
dizendo puro,
uma árvore à
beira da vida.
Consumiu-o
depressa a labareda
neste
desolado cais.
No cais da
saudade, morre um sonho mais,
a esfumada
paisagem, porto solitário,
depois o
imenso, profundo oceano,
enquanto o
céu ainda é azul.
Comerei o
pão que deixaste
para a minha
fome,
uma esmola
para o pobre marinheiro.
Haverá um
sinal?
Apenas um
sinal no céu:
Os deuses
que tivemos devorámos.
Coração
apagado,
uma açucena na
estrumeira.
Pior é
morrer
culpado de
alguma culpa inocente.
E a noite. A
noite, por fim, indiferente.
(escritor
açoriano que hoje faz 69 anos)
sexta-feira, março 01, 2013
Este
ministro é um mentiroso
Este
ministro é um mentiroso
que agonia
quando ele discursa
e se fosse
só isso: bale sem jeito
às meias
horas seguidas – e não pára!
bem-aventurados
os duros de ouvido
a quem o céu
abrirá as portas
desliguem
p.f. o microfone
ou então
tirem o país da ficha
(Fernando
Assis Pacheco nasceu faz hoje 76 anos)
quinta-feira, fevereiro 28, 2013
Três coisas
Não consigo
entender
O tempo
A morte
Teu olhar
O tempo é
muito comprido
A morte não
tem sentido
Teu olhar me
põe perdido
Não consigo
medir
O tempo
A morte
Teu olhar
O tempo,
quando é que cessa?
A morte,
quando começa?
Teu olhar,
quando se expressa?
Muito medo
tenho
Do tempo
Da morte
Do teu olhar
O tempo
levanta o muro.
A morte será
o escuro?
Em teu olhar
me procuro
(Paulo
Mendes Campos nasceu faz hoje 91 anos)
quarta-feira, fevereiro 27, 2013
As velas da memória
Há nos silvos que as manhãs me trazem
chaminés que se desmoronam:
são a infância e a praia os sonhos de partida
Abrir esse portão junto ao vento que a vida
aquém ou além desta me abre?
Em que outro mundo ouvi o rouxinol
tão leve que o voo lhe aumentava as asas?
Onde adiava ele a morte contra os dias
essa primeira morte?
Vinham núpcias sem conto na inconcebível voz
Que plenitude aquela: cantar
como quem não tivesse nenhum pensamento.
Quem me deixou de novo aqui sentado à sombra
deste mês de junho? Como te chamas tu
que me enfunas as velas da memória ventilando: «aquela
vez...»?
Quando aonde foi em que país?
Que vento faz quebrar nas costas destes dias
as ondas de uma antiga música que ouvida
obriga a recuar a noite prometida
em círculos quebrados para além das dunas
fazendo regressar rebanhos de alegrias
abrindo em plena tarde um espaço ao amor?
Que morte vem matar a lábil curva da dor?
Que dor me faz doer de não ter mais que morrer?
E ouve-se o silêncio descer pelas vertentes da tarde
chegar à boca da noite e responder
(Ruy Belo faria hoje 80 anos)
terça-feira, fevereiro 26, 2013
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
Esse homem
que vai sozinho
Esse homem
vai sozinho
Por estas
praças, por estas ruas,
Tem consigo
um segredo enorme,
É um homem.
Essa mulher
igual às outras,
Por estas
ruas, por estas praças,
Traz uma
surpresa cruel,
É uma
mulher.
A mulher
encontra o homem,
Fazem ar de
riso, e trocam de mão,
A surpresa e
o segredo aumentam
Violentos.
Mas a sombra
do insofrido
Guarda o
mistério na escuridão.
A morte
ronda com sua foice.
Em verdade,
é noite.
(poeta
paulista falecido a 25 de Fevereiro de 1945)
domingo, fevereiro 24, 2013
A Guerra
E tropeçavam
todos nalgum vulto,
quantos iam,
febris, para morrer:
era o
passado, o seu passado - um vulto
de esfinge
ou de mulher.
Caíam como
heróis os que não o eram,
pesados de
infortúnio e solidão.
(Arma
secreta em cada coração:
a tortura de
tudo o que perderam.)
Inimigos não
tinham a não ser
aquela
nostalgia que era deles.
Mas
lutavam!, sonâmbulos, imbeles,
só na
esp'rança de ver, de ver e ter
de novo
aquele vulto
- imponderável e oculto -
de esfinge,
ou de mulher.
(David
Mourão-Ferreira nasceu faz hoje 86 anos)
sábado, fevereiro 23, 2013
Encantatória
Custa é
saber
como se
invoca o ser
que assiste
à escrita,
como se
afina a má-
quina que a
dita,
como no
cárcere
nu se evita,
emparedado,
a lá-
grima
soltar.
Custa é
saber
como se
emenda a morte,
ou se a
desvia,
como a tecla
certa arreda
do branco
suporte
a porcaria.
(poetisa
lisboeta falecida faz hoje 24 anos)
sexta-feira, fevereiro 22, 2013
Perguntas
Onde estavas
tu quando fiz vinte anos
E tinha uma
boca de anjo pálido?
Em que sítio
estavas quando o Che foi estampado
Nas
camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil
ou gruta esconderam as suas armas
Para com
elas fazer posters cinzeiros e emblemas?
Onde te
encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de
quê te ocultavas quando
Mataram
Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo
tempo que víamos Música no Coração
Mastigando
chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde
andavas que não viste os corações brancos
Retalhados
na Coreia e no Vietname
Nem ouviste
nenhuma das canções de Bob Dylon
Virando
também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram
vivas
Mulheres e
crianças em nome
De uma
pátria una e indivisível?
Que caminho
escolheram os teus passos no momento em que
Foram
enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Allende
terminou o seu último discurso?
Ainda
estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou
as últimas palavras?
E nem uma
vez por acaso assististe
Às chacinas
do Esquadrão da Morte?
Fugiste de
Dachau e Estalinegrado?
Não puseste
os pés em Auschwitz?
Que diabo
andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém
te encontrou em lugar algum.
(Joaquim
Pessoa faz hoje 65 anos)
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
Epitáfio
para um Tirano
Perfeição,
de algum modo, era o que ele buscava,
E a poesia
que inventava era fácil de entender;
Conhecia a
loucura humana como as costas da sua mão,
E
interessava-se muito por exércitos e flotilhas;
Quando ria,
respeitáveis senadores rompiam em gargalhadas,
E quando ele
chorava pequenas crianças morriam pelas ruas.
(poeta
anglo-americano nascido a 21 de Fevereiro de 1907)
Subscrever:
Mensagens (Atom)


