sábado, junho 09, 2012

Choro!

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
as crianças violadas
nos muros da noite
úmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
— no exílio dos Rumos Decepados.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este sequestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
— onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria...

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro...

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas!

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insônias e de cardos,
neste ódio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor a Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
— num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!


(José Gomes Ferreira nasceu faz hoje 112 anos)

sexta-feira, junho 08, 2012

Mick Hucknall faz hoje 52 anos
Seu Jorge faz hoje 42 anos
O Cerimonial das Mãos

Mãe, onde foi que deixaste a outra metade,
a que anunciava o sol na turvação das noites,
a que iluminava a sombra no cerimonial das mãos?
Em que côncavo de rochas buscava abrigo
essa outra metade que eu via projectada
para fora de mim como um sonho evadindo-se
do círculo de medos em que a fúria se jogava?
Eu era gémeo de todos os assombros
e os meus segredos era com essa outra metade
que os partilhava à revelia das bocas
que em surdina me traçavam o destino.
Quanto de mim se perdia nessa metade
que me furtava o riso e me deixava a culpa,
que me feria o ventre e me fustigava a pele?
Quanto de mim me flagelava
sem que eu lhe conhecesse morada ou nome?
Mãe, eu pedia uma trégua ao vento
e um punhal à chuva e com ambos queria
separar de mim a metade incandescente
que à beira dos meus gestos
ganhava altura de nuvem e fulgor de estrela.
Mãe, eu vejo-me outro nesta cama
que guarda os instrumentos liquefeitos da insónia
e sei que não sou eu quem lá está,
que não sou eu que lá quero estar.


(José Jorge Letria faz hoje 61 anos)

quinta-feira, junho 07, 2012

Tom Jones faz hoje 72 anos
É tudo o que sinto

Inverno
É tudo o que sinto
Viver
É sucinto


(poeta paranaense falecido faz hoje 23 anos)
Charlie Simpson faz hoje 27 anos
Exegese

Interpreto o teu corpo,
descerro a castanha do metacarpo
em flor, tempestade e sensação.

Ouço o martelar dos cascos
sobre o zinco da vontade.

Sinceramente, estou morto.

Poeta -

o que não tem palavras.


(poeta gaúcho que hoje faz 39 anos)

quarta-feira, junho 06, 2012

Andar por aí

Uma semana com alguns amigos ali pelo País Basco, Astúrias, Cantábria e Castela e Leão.

Se a tecnologia o permitir continuarei por aqui, mas não poderei visitar as tascas amigas.
Eugénia Melo e Castro faz hoje 54 anos
ENVELHECENDO

Tomba às vezes meu ser. De tropeço a tropeço,
Unidos, alma e corpo, ambos rolando vão.
É o abismo e eu não sei se cresço ou se decresço
À proporção do mal, do bem à proporção.

Sobe às vezes meu ser. De arremesso a arremesso,
Unidos, estro e pulso, ambos fogem ao chão
E eu ora encaro a luz, ora à luz estremeço
E não sei onde o mal e o bem me levarão.

Fim, qual deles será? Qual deles é começo?
Prêmio, qual deles é? Qual deles é expiação?
Por qual deles ventura ou castigo mereço?

Ante o perpétuo sim, e ante o perpétuo não,
Do bem que sempre fiz, nunca busquei o preço,
Do mal que nunca fiz sofro a condenação.


(poeta brasileiro falecido faz hoje 94 anos

terça-feira, junho 05, 2012

Brian McKnight faz hoje 43 anos
Laurie Anderson faz hoje 65 anos
Surpresa

Morto ficou na rua
com um punhal no peito.
Não o conhecia ninguém.

Como tremia o farol,
mãe!
Como tremia o pequeno farol
da rua!

Era madrugada. Ninguém
pôde assomar-se a seus olhos
abertos ao duro ar.

Que morto ficou na rua,
que com um punhal no peito
e que não o conhecia ninguém.


(Federico García Lorca nasceu faz hoje 114 anos)

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

segunda-feira, junho 04, 2012


Jorge Palma faz hoje 62 anos
Nikka Costa faz hoje 40 anos
Gaiola de Vidro

Como paredes
através das quais
o mundo vemos pelo ser dos outros
quem vamos conhecendo nos rodeia
multiplicando as faces da gaiola
de que se tece em volta a nossa vida.

No espaço dentro (mas que não depende
do número de faces ou distância entre elas)
nós somos quem somos: só distintos
de cada um dos outros, para quem
apenas somos a face em muitas,
pelo que em nós se torna, além do espaço,
uma visão de espelhos transparentes.

Mas o que nos distingue não existe


(Jorge se Sena faleceu faz hoje 34 anos)

domingo, junho 03, 2012

Suzi Quatro faz hoje 62 anos
Kelly Jones faz hoje 38 anos
DOS POEMAS 

Não de vento os formei, mas do meu barro.
Não lhes dei sentimento, mas meu sangue.
Acolhe-os, pois, ainda que sejam turvo
rio a cruzar as terras que erigiste
no teu sonho maior, mesmo que sejam
somente um vago eco, um arfar penoso
de barro, solidão, de cinza e sangue.


(poeta mineiro nascido faz hoje 94 anos)

sábado, junho 02, 2012

Maroon 5 - This Love
Nada, Esta Espuma

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco 
quero tanto os seios da sereia.


(poetisa carioca que hoje faria 60 anos)

sexta-feira, junho 01, 2012

Alanis Morissette faz hoje 38 anos
Brandi Carlile faz hoje 31 anos
A Rosa de Hiroxima - canta Ney Matogrosso
Diálogo

Levarás
pela mão
o menino
até ao rio. Dir-lhe-ás
que a água é cega
e surda. Muda,
não. Que o digam
os peixes, que em silêncio
com ela sustentam
seu diálogo
líquido, de líquidas
sílabas
de submersas
vogais.

Albano Martins

quinta-feira, maio 31, 2012


Jason Mraz - I Won't Give Up
Prêntice faria hoje 56 anos, mas faleceu aos 49.
Cai-me no colo Amor...

Cai-me ao colo Amor de súbito
Um susto, um esgar, um bramido.
Estertor de tudo – desamor Amor ao avesso?
Quero-vos lúmpen, maltrapilha, campesina
Quero-vos riacho e manso açude.
Amor, entanto, vocifera pontiagudo
Mural de rochas e lascas e espelhos e cardumes
A fingir do Amor – casta figura? –
O Desamor em pêlo, às turras,
Aos vozeios, facas, murros, unhas
A alvoroçar o silêncio de agulhas.


(escritor paranaense falecido faz hoje 2 anos)

quarta-feira, maio 30, 2012

Tom Morello faz hoje 48 anos
POESIA DA VIDA EM MARCHA

A poesia da vida em marcha
tem ritmo diferente.

Ritmo irregular e desigual
de milhões de martelos
batidos descompassadamente
por milhões de mãos;
de milhões de enxadas
movidas desordenadamente
por milhões de braços;
de milhões de pés
andando desesperadamente
não se sabe para onde.

A poesia da vida em marcha
tem música diferente.

Música sem som
das sirenes das oficinas,
dos apitos das locomotivas,
dos roncos dos motores,
dos gritos das revoltas interiores
dos homens que sofrem nas oficinas,
queimam os pulmões nas caldeiras das locomotivas
e morrem de fome nas fábricas de motores.

A poesia da vida em marcha
tem rimas diferentes.

Rimas sem música,
sem versos que terminam em sílabas iguais.
Rimas de palavras diferentes,
com o mesmo sentido na boca dos que sofrem.

Rimas de palavras que rimam
apenas na idéia,
no pensamento.
Rimas estranhas
de tirania com sofrimento,
de sofrimento com união.

De união com liberdade.

A poesia da vida em marcha
tem  cadência diferente.

Cadência de passos trôpegos
das crianças sem pão,
das mulheres sem lar,
dos homens sem trabalho.
Cadência brutal
das patas de cavalos pisando carne,
de patas de cavalos pisando sangue
dos homens sem trabalho,
das mulheres sem lar,
das crianças sem pão.

Cadência violenta
de braços se estirando num esforço cada vez maior
como quem empurra qualquer coisa.
Cadência confiante, enérgica,
de punhos cerrados batendo,
batendo,
batendo,
de uma só vez,
simultaneamente,
compassadamente,
como quem derruba qualquer coisa.


(Mário Lago faleceu faz hoje 10 anos)

terça-feira, maio 29, 2012

Jeff Buckley faleceu faz hoje 15 anos, com apenas 30 de idade
Noel Gallagher faz hoje 45 anos
Diante do mar

Oh, mar, enorme mar, coração feroz
de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas.

Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
“Piedade, piedade para o que mais ofenda”.

Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.

Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.

Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.

Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria…
Ah, eu sonhava ser como tu és.

Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todos;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.

Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
Ar do mar!… Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.

E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a e engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!

Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança…
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.


(poetisa argentina nascida faz hoje 120 anos)

(Tradução de José Agostinho Baptista)

segunda-feira, maio 28, 2012

Colbie Caillat faz hoje 27 anos
Kylie Minogue faz hoje 44 anos
John Fogerty faz hoje 67 anos
Grito Negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.


(José Craveirinha nasceu faz hoje 90 anos)

domingo, maio 27, 2012

SaReGaMa - Kalimba solo for Lotus
Neil Finn faz hoje 54 anos
Resistência

Não. Digo à explosão de ameaça
e à rapada paisagem do desterro.
E não. Digo à minha carcaça
encalhada em bancos de ferro
e ao cordame dos nervos, fustigado,
a ranger no silêncio a sós:
Por cada nervo quebrado
que se inventem mais nós.


(Luís Maria Leitão nasceu em Moimenta da Beira faz hoje 100 anos)

sábado, maio 26, 2012

Kevin Moore  faz hoje 45 anos
Steve Nicks faz hoje 64 anos
Peggy Lee nasceu faz hoje 92 anos
Nós Duas

Parecemo-nos muito; assim dizem - e eu o creio.
Além do mesmo sangue, almas iguais nós temos;
pois, pelo mesmo ideal e com o mesmo anseio,
dentro da vida, nós lutamos e sofremos.

Vemos na arte um refúgio, um oásis, um esteio
para a nossa inquietude, e num barco sem remos
vagamos à mercê do próprio devaneio,
sabendo que jamais à enseada chegaremos...

E, apesar de ela ter todo um sol na cabeça
e o nevoeiro do inverno a minha já embranqueça,
da angústia de minha alma a sua compartilha.

Ela pensa, eu medito... Ela sonha, eu me lembro...
Nossa pobreza é igual de Dezembro a Novembro.
Quem somos, afinal? Apenas, mãe e filha.


(poetisa brasileira nascida faz hoje 130 anos)

quinta-feira, maio 24, 2012

Patti LaBelle faz hoje 68 anos
Alessandro Cortini faz hoje 36 anos
Bob Dylan faz hoje 71 anos
Tempo

no início era o começo.
o depois veio vindo devagar.
o antes veio depois do depois.
só quando esse se estabeleceu.
no princípio era o agora.
isso demorou até que
tudo virou antes e depois.
então uma revolução peluda
o agora voltou ao trono.
antes e depois viraram
falta do que fazer.
e tanto fizeram
que o agora virou tudo
e o tudo, nada.
de volta ao princípio
o agora congelou.
o antes fica pra depois.


(poeta carioca que hoje faz 61 anos)

quarta-feira, maio 23, 2012


Patrick Hadley – A Simple Song
Joe Pass faleceu faz hoje 18 anos
Jewel faz hoje 38 anos
Vida

Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
que eu nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também já decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
e amigos que eu nunca mais vi.

Amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
e quebrei a cara muitas vezes!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial
(e acabei perdendo).

Mas vivi!
E ainda vivo!
Não passo pela vida.
E você também não deveria passar!

Viva!!

Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é MUITO para ser insignificante.


(poeta rondoniano que hoje faz 32 anos)

terça-feira, maio 22, 2012



Morrissey faz hoje 53 anos
Charles Aznavour faz hoje 88 anos
Os Cantos do Crepúsculo

Desde que eu meu lábio levei ao copo plenamente cheio,
Desde que eu minhas mãos coloquei em minha fronte pálida,
Desde que eu respirei às vezes o sopro suave
De tua alma , perfume de tua sombra enterrada,
Desde que me era dado ouvir um ao outro me chamar
As palavras que se derramam no coração misterioso,
Desde que eu vi chorar , desde que eu vi sorrir
Sua boca em minha boca e seus olhos em meus olhos;
Desde que eu vi brilhar em minha cabeça encantada
Um raio de tua estrela, ai! sempre escondida,
Desde que eu vi desabar nas ondas de minha vida
Uma folha de rosa arrancou os teus dias,
Eu me coloco agora a contar os rápidos anos:
- Passam! Passam sempre! Eu não tenho mais a idade!
Vou partir para que tuas flores desbotem todas;
Eu tenho na alma uma flor que ninguém pode colher!
Suas asas batendo não farão que nada se derrame
Do vaso d’água que bebo e que eu bem enchi
Minha alma não tem mais fogo do que vós possuís em cinzas!
Meu coração não tem mais amor do que vós possuis esquecimento!


(Victor Hugo faleceu faz hoje 126 anos)