domingo, setembro 12, 2010

Voltei

Os passos me trouxeram de novo
ao começo. Falhei.
Voltei para que mostres o caminho,
sozinha não acertei na virada
do destino.

Há lugares onde os sonhos
acontecem. É de saudade
a voz que ouço chamar.

Voltei,
para quebrar os laços
da opressão e saborear
a eternidade em teus braços.

Voltei,
para te ler todo,
uma, duas, vinte vezes,
não como uma folha amarelecida
pelo tempo, mas sentindo
a cada leitura,
a cada instante,
a cada momento
uma nova mensagem guardada
nas tuas texturas,
em tuas entrelinhas.

Voltei,
para aprender contigo
nas coisas que dizes,
verdadeiras ou falsas,
estranhas ou fantásticas,
concretas ou abstratas,
guiado pela energia de
nossos desejos.

Voltei,
com o mapa de meu corpo
sôfrego, sem a leveza da pluma
como o deixas após
desvendar meus segredos.

Voltei...
e me entrego a tua boca,
as tuas mãos, ao teu peso,
ao teu cheiro e sabor,
ao teu calor que anseio.

Voltei,
eis-me esparramada, aberta,
no teu aguardo
num frenesi, como numa serenata!


(poetisa sul-mato-grossense que hoje completa 60 anos)

sábado, setembro 11, 2010

Lembranças

Teus retratos - figuras esmaecidas;
mostram pouco, muito pouco do que foste.
Tuas cartas - palavras em desgaste,
dizem menos, muito menos
do que outrora me diziam
teus silêncios afagantes...
Só o espelho da minha memória
conserva nítida, imutável
a projeção de tua formosura,
só nos folhos dos meus sentidos
pairam vívidas
em relevo
as frases que teu carinho
soube nelas imprimir.

Sou a urna funerária de tua beleza
que a saudade
embalsamou.

Quando chegar o meu instante derradeiro
só então, mais do que eu,
tu morrerás
em mim.

Gilka Machado

(poetisa brasileira)

sexta-feira, setembro 10, 2010

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


(poeta brasileiro que hoje completa 80 anos)

quinta-feira, setembro 09, 2010

A primeira vez

Há sempre uma primeira vez para tudo e a principal selecção nacional do chuto na bola na é excepção.

Nunca tinha perdido com a Noruega? Aconteceu na terça-feira.

Nunca tinha encaixado 4 do Chipre? Encaixou-os na sexta-feira?

Um responsável da FPF nunca tinha dito que o seleccionador não fazia falta, já que os jogadores sabem jogar em piloto automático? Disse-o o respectivo presidente na semana passada.

Um seleccionador nacional, mesmo que acarinhado pelos jornalistas e apelidado pomposamente de “professor”, nunca tinha usado publicamente - que se saiba - uma linguagem tão ordinária para com profissionais da medicina como afirmar que o respectivo chefe devia ir fazer o controlo anti-drogas para a genitália da progenitora, utilizando um dos palavrões mais asquerosos da língua pátria? Fê-lo Carlos Queiroz, em 16 de Maio.

Responsáveis de clubes, jogadores e políticos nunca tinham afirmado que o calão mais rasca é a linguagem corrente dos intervenientes no futebol, principalmente quando se referem a pessoas ausentes investidas de poder de controlo sobre o que é administrado aos futebolistas? Disseram-no vários, publicamente, nos últimos tempos.

Posto isto, que pensar do castigo aplicado ao sr. Queiroz? A pena por obstrução ao controlo, a julgar pelo que é escrito no acórdão, parece não fazer muito sentido, além de ser de um masoquismo a toda a prova. Mas, ao tomar conhecimento das palavras do seleccionador, qualquer Federação digna desse nome, após validar com o próprio a veracidade do que lhe era atribuído, apenas tinha como solução uma guia de marcha imediata, pois quem assim fala, mais a mais na calma das 8H00 da manhã, não tem estofo para estar à frente da selecção nacional. O que se tem confirmado pelas declarações posteriores. Seria a primeira vez que um treinador era despedido por excesso de linguagem? Que fosse e o Tribunal do Trabalho que decidisse se havia justa causa ou não.

Tudo o resto, incluindo a atitude incompreensível de um governante e as declarações de ex-jogadores, treinadores, dirigentes, políticos e jornalistas, não passa de vontade de tapar o sol com a peneira. 

quarta-feira, setembro 08, 2010

Bate, César

Por que é que a tua mão perversa bate no meu rosto?
Por que é que marcas o meu dorso magro com as estrias roxas
Do teu chicote cruel?
Por que é que as tuas unhas deixam manchas negras na minha pele?
Se é só porque eu disse aos que clamam que, um dia, tudo mudará,
Se é só porque eu afaguei as almas dos infelizes com o carinho da minha
[esperança
Continua a bater, porque eu não me calarei.

Por que escarras na minha barba suja de terra?
Por que esmagas a minha mão calosa com o teu tronco de ferro?
Por que mandas os teus carrascos esmagarem os meus pés com as
[patas dos teus cavalos?
Se é só porque eu disse que o pobres devem ter pão,
Que todos os homens são iguais;
Se é só por isso, continua a escarrar na minha barba suja de terra,
Continua a esmagar minhas mãos calosas no teu tronco de ferro.
Continua a mandar o teu carrasco
Esmagar os meus pés doloridos e roxos,
Porque eu jamais me calarei.

Dize tu, poderoso, dize tu, César,
Se alguém pode conter a tormenta que estala;
Se alguém pode deter a torrente dos rios
quando eles descem, como avalanches, das montanhas.

Dize tu se alguém pode deter o dia rubro que engole, como um dragão 
[de fogo, a noite negra,
E espalha ouro e carmim no horizonte infinito.
Como é que tu queres, com teus castigos desumanos,
Deter a torrente da revolta e a infinidade de esperanças que saltam do
[meu coração?

Bate, César... Maltrata... Esmaga... Tortura...
Mas eu ouço o tropel dos cavalos na noite.
Vejo sangue correr... Vejo a terra vermelha.
Vejo homens em luta. Ouço a música suave
Que adormece os infelizes e sobe ao céu com a fumaça das casas pobres dos proletários...

César, que mão alva é esta que estende pão às crianças famintas?
César... que tropel é este que ouço, dentro da noite?...


(poeta brasileiro)

terça-feira, setembro 07, 2010

Des­per­tá­cu­lo

Es­tou pron­to
pa­ra a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do:

bo­tei vi­gia nos sen­ti­dos
e ilu­di com com­pri­mi­dos
ou­tros se­res a meu bor­do.
Aban­do­nei o ví­cio
de es­tar sem­pre
a so­le­trar ru­í­nas,
dei li­ber­da­de a meus de­ten­tos
mi­nha pres­sa di­lu­iu nos pas­sos len­tos
e ras­guei
meu ca­len­dá­rio de ro­ti­nas.

In­ver­ti a or­dem.

Já não saio por aí
a de­vo­rar com­pro­mis­sos,
to­mei pos­se no go­ver­no de mim mes­mo
e der­ro­tei os meus omis­sos.

Ven­ci as ba­ta­lhas
de ter que es­tar sem­pre por per­to,
às ve­zes voo pa­ra den­tro
do meu so­nho a céu aber­to.

Es­tou pron­to:

eu já con­cor­do
com a guer­ra que en­con­tro
quan­do acor­do.


(poeta brasileiro)

segunda-feira, setembro 06, 2010

Solidão

Ó solidão! À noite, quando, estranho,
Vagueio sem destino, pelas ruas,
O mar todo é de pedra... E continuas.
Todo o vento é poeira... E continuas.
A Lua, fria, pesa... E continuas.
Uma hora passa e outra... E continuas.
Nas minhas mãos vazias continuas,
No meu sexo indomável continuas,
Na minha branca insónia continuas,
Paro como quem foge. E continuas.
Chamo por toda a gente. E continuas.
Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas.
Invento um verso... E rasgo-o. E continuas.
Eterna, continuas... Mas sei por fim que sou do teu tamanho!

Guerra na capoeira












Parece que rebentou a guerra no grupo de revisão constitucional do PSD, com acusações graves do constitucionalista Jorge Bacelar Gouveia. Entretanto, Pedro, em posição beatífica, reza ao Sr. dos Passos para que o ajude a tirar um Coelho da cartola. Amem!

domingo, setembro 05, 2010

Repouso

(tuas asas silentes levemente pousam
sobre meus olhos
e encobrem meus medos)

lá fora é a rua:
há um grito de cal
estridente como uma buzina
e cabeças passam
esfaqueadas pelo sol

aqui - tuas asas
enormes e vaporosas
apaziguam o clima...

há uma guerra lá fora:
o nosso amor contra a guerra?
- sangue jovem de pé
pelo nosso amor

ah, tuas asas tranquilas me protegem:
deixei de escutar as bombas...

Quando sair, amor
estarei mais forte para a batalha.


(poeta angolano nascido em 5 de Setembro de 1955)

sábado, setembro 04, 2010

Desconfortos

Os craques da selecção nacional de futebol, seguindo as indicações imperativas do “professor”, decidiram refugiar-se no conforto da genitália feminina preferida, à espera do que desse e viesse. E de cada vez que ousaram pôr o nariz de fora, para ver em que paravam as modas, lá apareceu, vestido de azul, um digno representante da genitália masculina cipriota a mandar uma trancada e a dizer: toma e aconchega, que esta é grega! Aparece, se quiseres mais, que estamos em Guimarães!!!

sexta-feira, setembro 03, 2010

Vem, serenidade!

Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.

Vem, serenidade!
faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.


(poeta nascido no Alvito e falecido em Lisboa a 3 de Setembro de 1984)

quinta-feira, setembro 02, 2010

As coisas

As  coisas  têm  peso,
massa,
volume,
tamanho,
tempo,
forma,
cor,
posição,
textura,
duração,
densidade,
cheiro,
valor,
consistência,
profundidade,
contorno,
temperatura,
função,
aparência,
preço,
destino,
idade,
sentido.
As coisas não têm paz.


(poeta e músico brasileiro que hoje completa 50 anos)

quarta-feira, setembro 01, 2010

O discurso

Havia a necessidade absurda de falar
para manter o equilíbrio da mesa
e preservar a reputação implícita
nos gestos.

Alguém chegou a reclamar a urgência
de um gravador para medir as vaias.
Outro, mais complacente, se preparava
para pedir bis. Um terceiro mastigou
ruidosamente a ponta da língua.

Neste momento solene... o poeta
burlou a vigilância das moscas
e deu um salto mortal no meio
do discurso.

E ante a curiosidade geral dos convivas,
fabricou um cavalo de miolo de pão
e fugiu a galope, levando à garupa
a garota que estava fingindo que não.

Gilberto Mendonça Teles

(poeta carioca)

terça-feira, agosto 31, 2010

O Asco da Imprensa

É impossível percorrer uma qualquer gazeta, seja de que dia for, ou de que mês, ou de que ano, sem aí encontrar, em cada linha, os sinais da perversidade humana mais espantosa, ao mesmo tempo que as presunções mais surpreendentes de probidade, de bondade, de caridade, a as afirmações mais descaradas, relativas ao progresso e à civilização.

Qualquer jornal, da primeira linha à última, não passa de um tecido de horrores. Guerras, crimes, roubos, impudicícias, torturas, crimes dos príncipes, crimes das nações, crimes dos particulares, uma embriaguez de atrocidade universal.

E é com este repugnante aperitivo que o homem civilizado acompanha a sua refeição de todas as manhãs. Tudo, neste mundo, transpira o crime: o jornal, a muralha e o rosto do homem.

Não compreendo que uma mão pura possa tocar num jornal sem uma convulsão de asco.

Charles Baudelaire, in Diário Íntimo

Mais de 150 depois de estas palavras terem sido escritas, o que é que mudou?

segunda-feira, agosto 30, 2010

domingo, agosto 29, 2010

Lajedo 

A noite caiu sobre a cidade
E adormeceu a memória.
A neblina adormeceu as luzes,
E além dos muros
As pessoas seguem seu destino comum.

As cabeças se perdem na névoa.

Soam uns passos profundos no lajedo.

Gil Cleber

poeta brasileiro

sábado, agosto 28, 2010

Jogos de sombras  

Sempre que me procuro e não me encontro em mim,
pois há pedaços do meu ser que andam dispersos
nas sombras do jardim,
nos silêncios da noite,
nas músicas do mar,
e sinto os olhos, sob as pálpebras, imersos
nesta serena unção crepuscular
que lhes prolonga o trágico tresnoite
da vigília sem fim,
abro meu coração, como um jardim,
e desfolho a corola dos meus versos,
faz-me lembrar a alma que esteve em mim,
e que, um dia, perdi e vivo a procurar
nos silêncios da noite,
nas sombras do jardim,
na música do mar...


(poeta carioca)

sexta-feira, agosto 27, 2010

Adopção



























Na Floresta de Macacos em Ubud, no Bali, um macaco de cauda comprida adoptou um gatinho que tinha sido abandonado, passando a tomar conta dele como e fosse uma cria sua. A fotógrafa Anne Young, que lá se encontrava de férias, registou os vários momentos, que podem ser vistos aqui.

quinta-feira, agosto 26, 2010

LAÇOS

Cordas feitas de gritos

Sons de sinos através da Europa
Séculos enforcados
Carris que amarrais nações
Não somos mais que dois ou três homens
Livres de todas as peias
Vamos dar-nos as mãos

Violenta chuva que penteia os fumos
Cordas
Cordas tecidas
Cabos submarinos
Torres de Babel transformadas em pontes

Aranhas-Pontífices
Todos os apaixonados que um só laço enlaçou

Outros laços mais firmes
Brancas estrias de luz
Cordas e Concórdia

Escrevo apenas para vos celebrar
Ó sentido ó sentidos caros
Inimigos do recordar
Inimigos do desejar

Inimigos da saudade
Inimigos das lágrimas
Inimigos de tudo o que eu amo ainda


(Tradução de Jorge de Sena)

quarta-feira, agosto 25, 2010

Pretexto

Por que não cai a noite, de uma vez?
- Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.

Por que não cai a noite, de uma vez?
- Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)


(Maria Alberta Meneres celebra hoje 80 anos)

terça-feira, agosto 24, 2010

Silêncio

De pedra ser.
Da pedra ter
o duro desejo de durar.
Passem as legiões
com seus ossos expostos.
Chorem os velhos
com casacos de naftalina.
A nave branca chega ao porto
e tinge de vinho o azul do mar.
O maciço de rocha,
de costas para a cidade
sete vezes destruída,
celebra o silêncio.
A pedra cala
o que nela dói.


(poeta mineiro, nascido a 24 de Agosto de 1955)

segunda-feira, agosto 23, 2010

Chuva de Pedra

O granizo salpica o chão como se as mãos das nuvens
quebrassem com estrondo um pedaço de gelo
para a salada de fruta dos pomares...

O cafezal, numa carreira alucinada,
grimpa as lombas de ocre
apedrejada matilha de cães verdes...

fremem, gotejam eriçadas suas copas
como pêlos de um animal todo molhado.

O céu é uma pedreira cor de zinco
onde estoura dinamite dos coriscos.

Rola de fraga em fraga a lasca retumbante
de um trovão.

Os riachos
correm com seus pés invisíveis e líquidos
para o abrigo das furnas.  No terreiro,
as roupas penduradas nos varais  
dançam, funambulescas, com as pedradas,
numa fila macabra de enforcados!


(poeta paulista)

domingo, agosto 22, 2010

Sandices

Vasily Boiko, que entendeu por bem mudar oficialmente o nome para BoiKo-Veliky, que significa “Boiko o Grande” é um magnata de aviário russo da área dos lacticínios, criado na chocadeira movida a vodka do sr. Boris Yeltsin.  Esta “ave”, não tão rara como isso, enviou um memorando interno aos cerca de 6.000 trabalhadores, informando-os de que quem  tivesse feito um aborto ou “vivesse em pecado” seria despedido, dando a data limite de 14 de Outubro - dia santo da Igreja Ortodoxa -  para que os que vivem em união de facto se casem como “mandam as regras”.

Segundo declarações de um ex-empregado, o sr. Boiko nem sempre foi assim tão religioso e algumas das suas práticas nos negócios não são propriamente cristãs, acrescentando que, aparentemente, teve uma manifestação divina enquanto estava na prisão por alegadas fraudes.

Como as medidas anunciadas podem violar as leis do trabalho russas, aguardam-se novos desenvolvimentos,

sábado, agosto 21, 2010

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

quinta-feira, agosto 19, 2010

Sinto
 
Sinto
que em minhas veias arde
sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paixões no coração.

Mulheres, por favor,
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.

Federico García Lorca, in Poemas Esparsos

(tradução de Óscar Mendes)

quarta-feira, agosto 18, 2010

FRONTEIRA

Quando morrer
burlarei a alfândega das almas...
Vou levar comigo aquele beijo
que roubei de ti
enquanto dormias.


(poeta gaúcho)

terça-feira, agosto 17, 2010

O dom da persuasão
               
Para convencer alguém

você pode usar a marreta
ou a caneta

você pode usar a espingarda
ou a semente de mostarda

você pode usar a lei seca
ou ir a Meca

você pode usar a prisão
ou não

você pode usar a esmola
ou a escola

você pode usar a igreja
ou as poucas coisas que ela não deseja

você pode usar o infinito
ou o seu mito

você pode usar o palácio
ou o período cretáceo

você pode usar Rockefeller
ou escrever seu próprio best-seller

você pode usar o petróleo
ou o moinho do amor eólio

você pode ser o cínico
ou o mímico

você pode ser um mártir
ou desculpar-se e partir

você pode cortar cabeças
ou fazer novas promessas

você pode empunhar outro exército
ou a paz do golfo pérsico

você pode ter estudo
ou ser um novo analfabeto barbudo

você pode falar em espiral
etcétera e tal

É.
Acredite.
Ralé.
Elite.

Para convencer alguém
você pode (por um momento)
lembrar que, sobre cem,
a sua opinião não chega a um por cento?


(poeta carioca)

segunda-feira, agosto 16, 2010

Pavoneando-se pelo Pontal


Imagem: Sucheta Das/AP
A Vitalidade de uma Nação

Uma nação vive, prospera, é respeitada, não pelo seu corpo diplomático, não pelo seu aparato de secretarias, não pelas recepções oficiais, não pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas: isto nada vale, nada constrói, nada sustenta; isto faz reduzir as comendas e assoalhar o pano das fardas - mais nada. Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas. Hoje, a superioridade é de quem mais pensa; antigamente era de quem mais podia: ensaiavam-se então os músculos como já se ensaiam as ideias.

Eça de Queirós, in Distrito de Évora

Mais de 150 anos depois de este texto ter sido escrito, a grande maioria dos detentores do poder económico e político ainda não perceberam uma coisa tão clara e tão simples!

domingo, agosto 15, 2010

Depressa

onde fica a saída 
de incêndio do seu corpo? 

Gerson Murilo

poeta mineiro

sábado, agosto 14, 2010

Elogio da Dialéctica

A injustiça caminha hoje com passo firme.
Os opressores instalam-se pra dez mil anos.
A força afirma: Como está, assim é que fica.
Voz nenhuma soa além da voz dos dominadores
E nas feiras diz alto a exploração: Agora é que eu começo.
Mas dos oprimidos dizem muitos agora:
O que nós queremos, nunca pode ser.

Quem ainda vive, que não diga: nunca!
O certo não é certo.
Assim com está, não fica
Quando os dominadores tiverem falado
Falarão os dominados.
Quem se atreve a dizer: nunca?
De quem depende que a opressão continue? De nós.
De quem depende que ela seja quebrada? Igualmente de nós
Quem for derrubado, que se levante!
Quem estiver perdido, lute!
A quem reconheceu a sua situação, quem poderá detê-lo?
Pois os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
E do Nunca se faz: Hoje ainda!


(tradução de Paulo Quintela)

sexta-feira, agosto 13, 2010

Chagas de salitre

Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
a carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.

Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingênua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.

Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos de espesso deslizar
dos braços e das mãos do meu país.

Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.

Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga, in Cântico do Homem

quarta-feira, agosto 11, 2010

Definições para o ato de ler

Ler é arder no fogo das palavras.  

Ler é beber do vinho, do veneno, da verdade.  

Ler é crescer para todos os lados.  

Ler é debater e debater-se. 

Ler é eleger o livro, o conto, o aforismo, jamais votar em branco.  

Ler é fender, sem ofender a ninguém.  

Ler é gemer, sentindo a dor que não dói, queimando de medo e de amor.  

Ler é haver, haja o que houver.  

Ler é incorrer, correndo para longe sem parar.  

Ler é jazer em vida.  

Ler é kaiser ser do meu pobre império.  

Ler é lazer que leva a ler melhor.  

Ler é mexer fundo no mais profundo de mim mesmo.  

Ler é nascer de novo.  

Ler é obedecer calado ao silencioso chamado.  

Ler é perder tudo e tudo ganhar nesta perda.  

Ler é querer, só não me pergunte o quê.  

Ler é rever, palíndromo ao lado de outros: reler, reter e reger.  

Ler é ser, e sequer outra coisa pode ser.  

Ler é tecer a manhã, estender a tarde, e à noite ter nas mãos um novo amanhecer.  

Ler é umedecer os meus lábios para enfim dizer.  

Ler é ver, e vender a alma a mim mesmo. 

Ler é webmaster ser da própria existência.   

Ler é xover com "x" para manter a ordem.

Ler é ynventar um verbo com "y" e ver no que vai dar.  

Ler é zíper a fechar e abrir.  

Ler, enfim, é percorrer as letras e nunca chegar ao fim. Porque o abecedário é pouco para tanta fome e sede de leitura.  

Ler é 1 dos muitos atos que nos fazem ler quem de fato somos.  

Ler é 2 livros ler ao mesmo tempo e neles se espelhar.  

Ler é 3 vezes mais do que qualquer outro prazer solitário. 

Ler é 4 paredes, entre as quais descobrimos quem é inferno ou paraíso para os outros.  

Ler é 5 dias no deserto para descobrir o errado, e o certo.  

Ler é 6 por meia dúzia, pequena quantidade incerta. 

Ler é 7 dias de trabalho, de sol a sol, de lua a lua.  

Ler é 8, ou oitenta.  

Ler é 9, fora e dentro de mim, viagem para o aquém e o além. 

Ler é 10, nota máxima, gesto musical do leitor compulsivo. 

Ler letra ou numeral é, em suma, um delito legal.


*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

terça-feira, agosto 10, 2010

Leitura

Quando por fim as árvores
se tornam luminosas; e ardem
por dentro pressentindo;
folha a folha; as chamas
ávidas de frio:
nimbos e cúmulos coroam
a tarde, o horizonte,
com a sua auréola incandescente
de gás sobre os rebanhos.

Assim se movem
as nuvens comovidas
no anoitecer
dos grandes textos clássicos.

Perdem mais densidade;
ascendem na pálida aleluia
de que fulgor ainda?
e são agora
cumes de colinas rarefeitas
policopiando à pressa
a demora das outras
feita de peso e sombra.

Carlos de Oliveira, in Pastoral

segunda-feira, agosto 09, 2010

Ocupamos a paisagem…

Ocupamos a paisagem
que, desocupada, se ocupa
de nós.
Tempo de ocupação, este.

Somos o estrangeiro
que o silêncio de paredes
brancas e esquecidas
perturbou.

Extasiado ao menor rumor
de um estio
duro e claro
- todo lâminas.

Perplexo da memória
destes dias
sufocados em tédio
e cal.

Da palavra para a pedra
arrastando-se aquáticos
- as mais sazonadas
as menos polidas.

Crestada que foi,
na raiz do tempo, toda
a subliminar tentativa
de retorno.

domingo, agosto 08, 2010

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

sábado, agosto 07, 2010

VERSO AVULSO

...O luar é a luz do sol que está dormindo...

Mario Quintana 
O adeus do mastim



























Despediu-se hoje, pelo menos oficialmente, o narco-assassino e ponta de lança do império na América Latina. A descendência garantiu a defesa do legado.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Geografia

Pertenço a esta
geografia, ao lume branco
da resina, ao gume
do arado. A minha casa
é esta: um leito
de estevas e uma rosa
de caruma abrindo
no tecto do orvalho.


(poeta português nascido no Fundão a 6 de Agosto de 1930)

quinta-feira, agosto 05, 2010

DEBAIXO DA PELE

Sobre a pele
outras peles
como armaduras;
sob a pele
outras peles
como tessituras
indeléveis. 

Como camadas
no solo ermo
de cebola ardida:
uma inscrição
inconformada. 

Quem é que habita as profundezas
do ser? Com certeza é outro
na superfície mais externa
de sua conformidade. 

É-se o quê? Sujeito a que desígnios? 

Vestir-se
de todas as peles, fantasiar-se
e desvestir-se de véus
como lâminas
acesas. 

Sujeito. 

Todos os que fomos
sobrevivem em nós
ostentando perdas e ganhos.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Os “cojones”

A inefável ex-caçadora de alces do Alasca fez no passado Domingo umas declarações que deviam dar que pensar aos seus compatriotas, qualquer que seja o lado da barricada em que se encontrem. Ao elogiar a governadora do Arizona pela autoria da tristemente célebre lei da imigração, afirmou que “Jan Brewer  tem os “cojones” que o nosso presidente não tem...”.

Ora tal afirmação levanta problemas graves de segurança nacional e de credibilidade do partido republicano: de segurança nacional, porque a “leoa” do Alasca, sem ninguém se ter apercebido, conseguiu chegar tão perto do presidente Obama que pôde apalpar-lhe o abono de família para ver se ele tinha ou não “cojones”; e de credibilidade do partido republicano porque a sua ex-candidata à vice-presidência, heroína das hordas das festas do chã, conservadora até à medula e provável candidata à Presidência em 2012, sem qualquer justificação aparente dado não ser médica nem enfermeira, andou também a apalpar uma correligionária governadora de um Estado e confirmou que, tendo uns grandes “cojones”, ou é uma transexual ou uma impostora que durante toda a vida se fez passar por mulher. Tendo em conta os valores ultra-conservadores que defendem, ficaram as duas muito mal na fotografia.

terça-feira, agosto 03, 2010

Gazeio



























Hoje resolvi fazer gazeta no que respeita ao blogue, já que se trata de um dia especial. 

Daqui a nada vai um lombo de bacalhau assado no forno em azeite e alho, acompanhado de um alentejano do meio da tabela e, para rematar, um bolito de anos de chantili e morangos regado com um champanhe bruto Veuve Clicquot Ponsardin. Pobrete mas alegrete, enquanto os bancos e o fisco não me levam as já muito escassas poupanças.

domingo, agosto 01, 2010

Intransitivo

A carne anda cada vez mais fraca
e o silencio cada vez mais comprometedor
cômicos somos nós que estamos falando sério
e pobres são todos, de uma pobreza irremediável
de uma doença incurável, apesar de todos os esforços
da medicina, da psicoterapia, da parapsicologia
quando a única solução seria um sortilégio.

Há políticas bastantes para não pensarmos em nada
e condicionamento suficiente para termos a ilusão de que pensamos
de que somos livres e vivemos como queremos.
Temos vontades baratas: um novo par de sapatos
um pouquinho mais de espaço para alongar as pernas
e se possível mais tempo pra reclamar da vida.

Ah, deveríamos desobedecer secretamente a nós mesmos,
imitar um pouco mais os bichos
inventar qualquer forma mais pura
do que esta selvageria civilizada
do que este progresso cheio de violência
do que esta racionalidade que não deu certo.

Meu irmão, o absurdo somos nós.