sábado, agosto 21, 2010

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

quinta-feira, agosto 19, 2010

Sinto
 
Sinto
que em minhas veias arde
sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paixões no coração.

Mulheres, por favor,
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.

Federico García Lorca, in Poemas Esparsos

(tradução de Óscar Mendes)

quarta-feira, agosto 18, 2010

FRONTEIRA

Quando morrer
burlarei a alfândega das almas...
Vou levar comigo aquele beijo
que roubei de ti
enquanto dormias.


(poeta gaúcho)

terça-feira, agosto 17, 2010

O dom da persuasão
               
Para convencer alguém

você pode usar a marreta
ou a caneta

você pode usar a espingarda
ou a semente de mostarda

você pode usar a lei seca
ou ir a Meca

você pode usar a prisão
ou não

você pode usar a esmola
ou a escola

você pode usar a igreja
ou as poucas coisas que ela não deseja

você pode usar o infinito
ou o seu mito

você pode usar o palácio
ou o período cretáceo

você pode usar Rockefeller
ou escrever seu próprio best-seller

você pode usar o petróleo
ou o moinho do amor eólio

você pode ser o cínico
ou o mímico

você pode ser um mártir
ou desculpar-se e partir

você pode cortar cabeças
ou fazer novas promessas

você pode empunhar outro exército
ou a paz do golfo pérsico

você pode ter estudo
ou ser um novo analfabeto barbudo

você pode falar em espiral
etcétera e tal

É.
Acredite.
Ralé.
Elite.

Para convencer alguém
você pode (por um momento)
lembrar que, sobre cem,
a sua opinião não chega a um por cento?


(poeta carioca)

segunda-feira, agosto 16, 2010

Pavoneando-se pelo Pontal


Imagem: Sucheta Das/AP
A Vitalidade de uma Nação

Uma nação vive, prospera, é respeitada, não pelo seu corpo diplomático, não pelo seu aparato de secretarias, não pelas recepções oficiais, não pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas: isto nada vale, nada constrói, nada sustenta; isto faz reduzir as comendas e assoalhar o pano das fardas - mais nada. Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas. Hoje, a superioridade é de quem mais pensa; antigamente era de quem mais podia: ensaiavam-se então os músculos como já se ensaiam as ideias.

Eça de Queirós, in Distrito de Évora

Mais de 150 anos depois de este texto ter sido escrito, a grande maioria dos detentores do poder económico e político ainda não perceberam uma coisa tão clara e tão simples!

domingo, agosto 15, 2010

Depressa

onde fica a saída 
de incêndio do seu corpo? 

Gerson Murilo

poeta mineiro

sábado, agosto 14, 2010

Elogio da Dialéctica

A injustiça caminha hoje com passo firme.
Os opressores instalam-se pra dez mil anos.
A força afirma: Como está, assim é que fica.
Voz nenhuma soa além da voz dos dominadores
E nas feiras diz alto a exploração: Agora é que eu começo.
Mas dos oprimidos dizem muitos agora:
O que nós queremos, nunca pode ser.

Quem ainda vive, que não diga: nunca!
O certo não é certo.
Assim com está, não fica
Quando os dominadores tiverem falado
Falarão os dominados.
Quem se atreve a dizer: nunca?
De quem depende que a opressão continue? De nós.
De quem depende que ela seja quebrada? Igualmente de nós
Quem for derrubado, que se levante!
Quem estiver perdido, lute!
A quem reconheceu a sua situação, quem poderá detê-lo?
Pois os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
E do Nunca se faz: Hoje ainda!


(tradução de Paulo Quintela)

sexta-feira, agosto 13, 2010

Chagas de salitre

Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
a carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.

Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingênua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.

Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos de espesso deslizar
dos braços e das mãos do meu país.

Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.

Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga, in Cântico do Homem

quarta-feira, agosto 11, 2010

Definições para o ato de ler

Ler é arder no fogo das palavras.  

Ler é beber do vinho, do veneno, da verdade.  

Ler é crescer para todos os lados.  

Ler é debater e debater-se. 

Ler é eleger o livro, o conto, o aforismo, jamais votar em branco.  

Ler é fender, sem ofender a ninguém.  

Ler é gemer, sentindo a dor que não dói, queimando de medo e de amor.  

Ler é haver, haja o que houver.  

Ler é incorrer, correndo para longe sem parar.  

Ler é jazer em vida.  

Ler é kaiser ser do meu pobre império.  

Ler é lazer que leva a ler melhor.  

Ler é mexer fundo no mais profundo de mim mesmo.  

Ler é nascer de novo.  

Ler é obedecer calado ao silencioso chamado.  

Ler é perder tudo e tudo ganhar nesta perda.  

Ler é querer, só não me pergunte o quê.  

Ler é rever, palíndromo ao lado de outros: reler, reter e reger.  

Ler é ser, e sequer outra coisa pode ser.  

Ler é tecer a manhã, estender a tarde, e à noite ter nas mãos um novo amanhecer.  

Ler é umedecer os meus lábios para enfim dizer.  

Ler é ver, e vender a alma a mim mesmo. 

Ler é webmaster ser da própria existência.   

Ler é xover com "x" para manter a ordem.

Ler é ynventar um verbo com "y" e ver no que vai dar.  

Ler é zíper a fechar e abrir.  

Ler, enfim, é percorrer as letras e nunca chegar ao fim. Porque o abecedário é pouco para tanta fome e sede de leitura.  

Ler é 1 dos muitos atos que nos fazem ler quem de fato somos.  

Ler é 2 livros ler ao mesmo tempo e neles se espelhar.  

Ler é 3 vezes mais do que qualquer outro prazer solitário. 

Ler é 4 paredes, entre as quais descobrimos quem é inferno ou paraíso para os outros.  

Ler é 5 dias no deserto para descobrir o errado, e o certo.  

Ler é 6 por meia dúzia, pequena quantidade incerta. 

Ler é 7 dias de trabalho, de sol a sol, de lua a lua.  

Ler é 8, ou oitenta.  

Ler é 9, fora e dentro de mim, viagem para o aquém e o além. 

Ler é 10, nota máxima, gesto musical do leitor compulsivo. 

Ler letra ou numeral é, em suma, um delito legal.


*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

terça-feira, agosto 10, 2010

Leitura

Quando por fim as árvores
se tornam luminosas; e ardem
por dentro pressentindo;
folha a folha; as chamas
ávidas de frio:
nimbos e cúmulos coroam
a tarde, o horizonte,
com a sua auréola incandescente
de gás sobre os rebanhos.

Assim se movem
as nuvens comovidas
no anoitecer
dos grandes textos clássicos.

Perdem mais densidade;
ascendem na pálida aleluia
de que fulgor ainda?
e são agora
cumes de colinas rarefeitas
policopiando à pressa
a demora das outras
feita de peso e sombra.

Carlos de Oliveira, in Pastoral

segunda-feira, agosto 09, 2010

Ocupamos a paisagem…

Ocupamos a paisagem
que, desocupada, se ocupa
de nós.
Tempo de ocupação, este.

Somos o estrangeiro
que o silêncio de paredes
brancas e esquecidas
perturbou.

Extasiado ao menor rumor
de um estio
duro e claro
- todo lâminas.

Perplexo da memória
destes dias
sufocados em tédio
e cal.

Da palavra para a pedra
arrastando-se aquáticos
- as mais sazonadas
as menos polidas.

Crestada que foi,
na raiz do tempo, toda
a subliminar tentativa
de retorno.

domingo, agosto 08, 2010

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

sábado, agosto 07, 2010

VERSO AVULSO

...O luar é a luz do sol que está dormindo...

Mario Quintana 
O adeus do mastim



























Despediu-se hoje, pelo menos oficialmente, o narco-assassino e ponta de lança do império na América Latina. A descendência garantiu a defesa do legado.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Geografia

Pertenço a esta
geografia, ao lume branco
da resina, ao gume
do arado. A minha casa
é esta: um leito
de estevas e uma rosa
de caruma abrindo
no tecto do orvalho.


(poeta português nascido no Fundão a 6 de Agosto de 1930)

quinta-feira, agosto 05, 2010

DEBAIXO DA PELE

Sobre a pele
outras peles
como armaduras;
sob a pele
outras peles
como tessituras
indeléveis. 

Como camadas
no solo ermo
de cebola ardida:
uma inscrição
inconformada. 

Quem é que habita as profundezas
do ser? Com certeza é outro
na superfície mais externa
de sua conformidade. 

É-se o quê? Sujeito a que desígnios? 

Vestir-se
de todas as peles, fantasiar-se
e desvestir-se de véus
como lâminas
acesas. 

Sujeito. 

Todos os que fomos
sobrevivem em nós
ostentando perdas e ganhos.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Os “cojones

A inefável ex-caçadora de alces do Alasca fez no passado Domingo umas declarações que deviam dar que pensar aos seus compatriotas, qualquer que seja o lado da barricada em que se encontrem. Ao elogiar a governadora do Arizona pela autoria da tristemente célebre lei da imigração, afirmou que “Jan Brewer  tem os “cojones” que o nosso presidente não tem...”.

Ora tal afirmação levanta problemas graves de segurança nacional e de credibilidade do partido republicano: de segurança nacional, porque a “leoa” do Alasca, sem ninguém se ter apercebido, conseguiu chegar tão perto do presidente Obama que pôde apalpar-lhe o abono de família para ver se ele tinha ou não “cojones”; e de credibilidade do partido republicano porque a sua ex-candidata à vice-presidência, heroína das hordas das festas do chã, conservadora até à medula e provável candidata à Presidência em 2012, sem qualquer justificação aparente dado não ser médica nem enfermeira, andou também a apalpar uma correligionária governadora de um Estado e confirmou que, tendo uns grandes “cojones”, ou é uma transexual ou uma impostora que durante toda a vida se fez passar por mulher. Tendo em conta os valores ultra-conservadores que defendem, ficaram as duas muito mal na fotografia.

terça-feira, agosto 03, 2010

Gazeio



























Hoje resolvi fazer gazeta no que respeita ao blogue, já que se trata de um dia especial. 

Daqui a nada vai um lombo de bacalhau assado no forno em azeite e alho, acompanhado de um alentejano do meio da tabela e, para rematar, um bolito de anos de chantili e morangos regado com um champanhe bruto Veuve Clicquot Ponsardin. Pobrete mas alegrete, enquanto os bancos e o fisco não me levam as já muito escassas poupanças.

domingo, agosto 01, 2010

Intransitivo

A carne anda cada vez mais fraca
e o silencio cada vez mais comprometedor
cômicos somos nós que estamos falando sério
e pobres são todos, de uma pobreza irremediável
de uma doença incurável, apesar de todos os esforços
da medicina, da psicoterapia, da parapsicologia
quando a única solução seria um sortilégio.

Há políticas bastantes para não pensarmos em nada
e condicionamento suficiente para termos a ilusão de que pensamos
de que somos livres e vivemos como queremos.
Temos vontades baratas: um novo par de sapatos
um pouquinho mais de espaço para alongar as pernas
e se possível mais tempo pra reclamar da vida.

Ah, deveríamos desobedecer secretamente a nós mesmos,
imitar um pouco mais os bichos
inventar qualquer forma mais pura
do que esta selvageria civilizada
do que este progresso cheio de violência
do que esta racionalidade que não deu certo.

Meu irmão, o absurdo somos nós.

sábado, julho 31, 2010

os fogos da fala

a fala aflora à flor da boca
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção para cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada do amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma

Geraldo Carneiro

(poeta brasileiro)

sexta-feira, julho 30, 2010

DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

Mario Quintana
In memoriam

O português fala de qualquer coisa com grande convicção, mesmo quando não percebe nada do está a falar.

O excelente actor, encenador e humorista não conseguiu, para seu mal e da cultura portuguesa, “matar o bicho a rir”, mas antecipou de forma certeira as declarações do Presidente da República de turno. Obrigado pelas gargalhadas que nos proporcionaste e requiescat in pace.

quinta-feira, julho 29, 2010

Aleivosias de Bolonha

Sempre me interroguei por que motivo não houve cá no burgo - ao contrário do que aconteceu noutros países, mormente no nosso vizinho do lado, manifestações de desagrado contra a gaguice do processo de Bolonha, até que concluí que tal se deveu ao facto de andar meio mundo distraído e o outro meio a dormir na forma.

O engenheiro Mariano, também conhecido por o Gago, parece não se ter preocupado nada com a sorte dos licenciados e bacharéis anteriores à adopção do tal processo, pelo que os antigos alunos que se esforçaram durante 5 anos para obter uma licenciatura estão, em termos de concursos para cargos públicos, em situação de inferioridade perante os mestres pós Bolonha, que estudaram os mesmíssimos 5 anos, de acordo com os fundamentos desta Petição, já assinada por mais de cem mil cidadãos.

Estão os candidatos a cargos públicos e vão passar a estar os que pretendem trabalhar na actividade privada sabendo-se, com se sabe, que os nossos ignorantes empresários tem o mau hábito de seguirem as asneiras cometidas pelo Estado. Por isso, convido-vos a ler o teor da Petição e a assiná-la no caso de estarem de acordo.

quarta-feira, julho 28, 2010

SEMELHANÇAS

Quanto olhar
de riso triste
na vida! ...

O pranto
- sabias ?

segue o rumo
das águas geladas
dos rios do sul.

Georgina Albuquerque

(poetisa brasileira)

terça-feira, julho 27, 2010

Choro!

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
as crianças violadas
nos muros da noite
úmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
- no exílio dos Rumos Decepados.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este sequestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
- onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos
para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria...

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro...

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas!

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insónias e de cardos,
neste ódio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor à Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
- num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!

José  Gomes Ferreira

Esta é a minha reacção ao pulular de encómios ao botas, quando passam 40 anos sobre o maior vendaval anti-poluente que varreu o país de norte a sul.

segunda-feira, julho 26, 2010

Justiça

Quando um homem quer matar um tigre, chama a isso desporto; quando é o tigre que quer matá-lo, chama a isso ferocidade. A distinção entre crime e justiça não é muito grande.

domingo, julho 25, 2010

Asas

Possui asas
Quem não vê distâncias
De sentir
Um mundo em cada gesto
E a magia de ser
Apenas um ser!

Porque há uma força
Em cada sonho criador
De cada mundo:
O que torna o homem mais pássaro
Com as suas penas
Com a sua garra
Com o seu canto
Na liberdade de ser
Apenas um ser.

Genildo Mota Nunes

Poeta sergipano

sábado, julho 24, 2010

Safra

Como um viticultor ocioso come
em pleno outono, uma por uma, as uvas
do cacho que ele viu nascer, pesar,
sob os olhos do sol e o próprio olhar;
e em que, mais demorando o paladar
na espera aberta entre o prazer e a fome,
já reconhece o gosto bom das chuvas
lavando os fornos do verão distante;
e, como uma saudade só, o sabor
da terra presa às mãos grossas de suor
- assim viver a vida, instante a instante.

Geir Campos*

*poeta carioca

sexta-feira, julho 23, 2010

A Palavra

A palavra é matéria
A palavra tem forma física
A palavra tem som
A palavra de Adélia Prado,
A palavra de Drummond,
A palavra do direito,
A que libertou navios negreiros ...
A palavra universal, que fez
poemas clássicos, prosas sociais,
romances realistas.
A palavra apalavrada, silenciada,
a que continua no coração do poeta.
Palavra ! Oh ! Palavra ! Concedei-me a permissão,
honrosa concessão, para utilizar-me de ti, sem restrições.
Sob tua forma quero falar um pouco da minha solidão.

Gabriela Cunha Melo Cavalcanti*

*poetisa brasileira

quarta-feira, julho 21, 2010

Ela não escolhe idade

Chamava-se Tiago Alves, tinha 18 anos e era judoca, ganhou em Abril a medalha de bronze na Taça da Europa de Esperanças, na Estónia, onde conseguiu os mínimos para os Europeus e Mundiais, quando já começava a sentir que algo corria mal.

Em 21 de Junho foi-lhe diagnosticado um cancro no estômago e resolveu criar o IPPONforLIFE, blogue onde dizia da sua vontade de lutar e da sua esperança de cura. Apesar de submetido a cirurgia, a morte levou-o ontem.

Descansa em paz, Tiago

terça-feira, julho 20, 2010

Merda quente e merda fria

Em finais dos anos sesenta, o grande poeta e romancista Charles Bukowski escreveu um artigo na coluna Escritos de um velho indecente de que era autor na revista contracultural Open City, no qual se refería aos dois principais candidatos às eleições presidenciais estado-unidenses de 1968: Richard Nixon, pelo Partido Republicano, e Hubert H. Humphrey, pelo Partido Demócrata. Entre muitas outras coisas, Bukowski dizia: “Que te dêem a oportunidade de escolher entre Nixon e Humphrey é como se te dessem a possibilidade de escolher entre comer merda quente ou comer merda fria”.

Se mudarmos o cenário estado-unidense de há quatro décadas para a actualidade portuguesa e substituirmos os nomes de Hurbert Humphrey e Richard Nixon pelos de José Sócrates e Pedro Passos Coelho ou, o que é quase o mesmo, pelos projectos políticos do PS e do PSD, teremos o mesmo menu que anunciava Bukowski para os Estados Unidos de 1968: prato único. Apenas varia a temperatura, servindo-se um quente e o outro frio, não se sabendo muito bem qual é o quente e qual é o frio.

segunda-feira, julho 19, 2010

E então, que quereis?...

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?

O mar da históriaé agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

domingo, julho 18, 2010

Fiat

Vestir a pele inconsútil da cariátide
e vencer o inseto obscuro
na noite definitiva.

Sorver a verticalidade nua
e transpirar o sol da estátua antiga
que a virtude não concebe.

Retalhar-se em moléculas de gozo
e consumir-se na luz.

Gabriel Archanjo de Mendonça*

*poeta brasileiro

sábado, julho 17, 2010

Filhos em série

Desde o primeiro filho, seu Rozendo foi dando nomes a eles sempre começados pela letra N: Nílton, Neusa, Nivaldo, Nilse, Nélson, Nelma...

Um vizinho recém-chegado da zona rural soube dos nomes dos filhos dele e foi lá dizer que ambos tinham algo em comum:

- Meus fio tamém têm os nomes começados por uma letra só. Mas é pela letra A: Tonho, Cida, Belardo, Tamiro, Nésio.


Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

sexta-feira, julho 16, 2010

CONSCIÊNCIA

Cada minuto uma questão
Mil fronteiras que venço ou que não venço
Mas nenhuma de mais dura e duradoura combustão:
ser o que penso

quinta-feira, julho 15, 2010

Rascunhos

Esta noite voltei a sonhar com meus lagartos
e as mesmas pedras onde costumam dormitar
em minha Catedral Submersa.

Aqueles mesmos sons de sino e carrilhões
desfilaram pela nave deserta
como procissões extintas
sopradas das cinzas da memória.

Acho que o sol era só deles,
lagartos quase jade,
figuras esculpidas no limo verde-escuro das rochas.

Seus olhos, no entanto, abriam-se para nosso espanto
e para o espanto deles próprios
(lagartos).

Fred Souza Castro*

*poeta brasileiro

quarta-feira, julho 14, 2010

Soneto ao Dicionário

Não faço versos com sentimentos :
São as palavras a matéria-prima.
Pouco importam métrica e rima,
Fundamental é suscitar fonopsia.

A fonética, arcano da fonologia,
Multifaceta as regras da prosódia.
Veja como é fácil fazer poesia
Quando se tem um bom dicionário :

Em lugar de perplexo, escrevo vário.
O leitor entenda como quiser.
Quiçá, fecundo, faça fé.

Pedante, paragógico, paramnésico,
O elóquio elíptico emascara o elo.
Eloqüente um barroco tenho ao pé.

Fred Matos*

*poeta brasileiro

terça-feira, julho 13, 2010

Tipo assim

Tipo assim, as pessoas fazem tipo, entendeu? Não é artificial não, vem de dentro, ou vem de fora, vem da sociedade, dos astros, mas também tem essa coisa inconsciente, entendeu? Ou vem da genética, sei lá.  

Há vários tipos, tipezas, tipões, tipinhos e tipaços.  

Deixa eu te falar - tem gente que faz tipo intelectual e lê o texto meio que com nojo, catando piolho, catando regência verbal incorreta, frase errada, vírgula indevida.  

Tem gente, ao contrário, que faz mais o meu tipo que eu estou fazendo agora, tipo oralidade sem muito compromisso, tipo deixa rolar, é claro que eu prefiro ser tipo assim.  

Agora, tem gente que faz mais tipo conservador atualizado, tipo gente séria que está sempre flagrando falta de ética dos outros, e está sempre denunciando as perversões alheias, e está todo dia de olho na TV e na internet para ver o que a TV e a internet estão mostrando de pervertido. Tipo assim.  

E tem o tipo vale-tudo, o cara ou a cara que não tem repressão, e come de tudo e de todos, ou pelo menos faz tipo assim um discurso do tipo "eu faço tudo e daí?", tipo "eu já vi de tudo" e não topa o tipo outro que fica no pé dele com o topete de quem tudo sabe, de tudo entende, entendeu?  

Tem também o tipo duplo, tipo faz e cala, pensa mas não diz nada, tipo assim, tipo sonso, tipo taca tudo debaixo do tapete, tipo tapa a boca mas depois é fake no orkut, tipo não tem porém tem, tudo bem.  

Por outra parte, o tipo abertura total, alma escancarada, diz o que pensa e o que não pensa, tipo franco, tipo dá a cara para bater, e grita no ponto, e parte para o tapa.  

Tem o tipo que quer chegar ao topo, custe o que custar, mate quem matar, se mata, se mete em tudo, pisa, posa, paga, vende, topa tudo por quase nada...  

Tem o tipo que apronta e pinta o sete.  

Tem o tipo que curte a sorte, aposta em todos os dados.

Tem o tipo que quer viver no mato, comendo tomate e abacate.  

Tem o tipo poeta, alheio ao burocrata, que é tipo assim poeta do carimbo.  

Cada tipo no seu trilho, entendeu?  

Tipos de todos os topes - tu e eu.


*professor e escritor

Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

segunda-feira, julho 12, 2010

Talvez

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

sábado, julho 10, 2010

Poeta

Deixa cair todo este orvalho puro
sobre os teus ombros doloridos.

Vê como é suave a terra:
mesmo nos galhos mais bruscos,
olha: há carícias amigas.

Tudo é mais coração, porque és mais coração.

Orvalho... Orvalho... Parece
que em tua vida alguma cousa amadurece.

Deixa cair, deixa rolar teu poema
como um fruto maduro, pelo chão.