sexta-feira, março 20, 2009

Quem são os terroristas, afinal?
Várias organizações internacionais sempre afirmaram que Israel tinha massacrado deliberadamente civis palestinos, facto negado pelas forças de ataque israelitas, secundadas por vários auto-intitulados intelectuais de esquerda europeus de ascendência judia, que se desdobraram em louvaminhas a um alegado “alto nível de comportamento moral das tropas israelitas”, salmodiando na imprensa dita de referência as posições dos altos comandos dos invasores e dos governantes do estado terrorista. Mas os massacres de Janeiro na Faixa de Gaza estão, de novo, nos media de todo o mundo, após o jornal israelita Haaretz ter publicado, ontem, algumas declarações de militares que tomaram parte no assassinato deliberado de civis palestinos, chegando um deles a afirmar que “a vida dos palestinos é algo muitíssimo menos importante do que as vidas dos nossos soldados”. Os comandos militares ordenaram, de imediato, uma investigação, que se está mesmo a ver que não vai “descobrir” seja o que for, já que generais na reserva se apressaram a afirmar que vai ser difícil encontrar provas; entretanto, o enviado da ONU, Richard Falk, disse que parece ter havido crimes de guerra da maior magnitude. O assunto atingiu tais proporções que, além de chamadas na primeira página nos grandes jornais dos Estados Unidos ( The Ney York Times, Washington Post e Los Angeles Times) e britânicos (Times e Guardian), até o circunspecto Financial Times lhe dedicou alguma atenção. Bem pode o TPI – se para tanto tiver coragem, do que tenho sérias dúvidas - emitir um mandato de prisão internacional contra os assassinos responsáveis (Olmert, Barak, Livni e outros) que ousem pôr o nariz em alguns países da Europa, que a Mossad vem cá buscá-los! Imagem: Escola do ensino básico destruída na Faixa de Gaza durante a invasão sionista - Tyler Hicks/The New York Times

quinta-feira, março 19, 2009

quarta-feira, março 18, 2009

Miopia, crueldade ou...?
Nos últimos tempos, cada vez que o Papa abre a boca, infelizmente nunca entra mosca, saindo sempre asneira. Foi o que aconteceu mais uma vez com a suas declarações a bordo do avião que o levou aos Camarões, na sua primeira visita ao continente africano, a qual incluirá, também, Angola. Como responsável máximo da Igreja Católica, o Papa tem todo o direito de expressar a sua oposição ao uso do preservativo com base em alegados princípios morais, embora haja muita gente dentro da igreja - padres, freiras e simples leigos, entre os quais me incluo - que consideram tal invocação uma completa aberração. Mas já não tem o direito de, por má informação ou má fé, distorcer as provas científicas sobre o valor dos preservativos na diminuição do alastramento da SIDA. Segundo os mais diversos meios de informação (pesquisando no Google pelas palavra pope, condoms e AIDS obtêm-se nada menos de 1.260.000 resultados), o Papa disse que o problema da SIDA “não se pode resolver com a distribuição de preservativos; pelo contrário, isso aumenta o problema”. A primeira parte da afirmação é, naturalmente, verdadeira, já que o uso de preservativos, por si só, não vai parar a disseminação do HIV. Para travar a doença será necessário um grande esforço educacional, campanhas para reduzir o número de parceiros sexuais e para a adopção de práticas sexuais mais seguras, e muitos outros programas, desde a pesquisa de novos medicamentos até à procura de uma possível vacina, incluindo a distribuição maciça de preservativos e a informação sobre a forma correcta de os utilizar. Mas a segunda parte da afirmação é, muito lamentavelmente, completamente errada, dado não existir nenhuma prova de que o uso do preservativo agrave a epidemia e existem numerosas provas de que os preservativos são vantajosos em muitas circunstâncias. Não posso deixar de me interrogar sobre o que se esconderá por detrás das intenções do Papa ao fazer tais declarações no início da sua primeira deslocação ao continente onde se encontram mais de 22 milhões de seres humanos portadores do vírus HIV, cerca de 2/3 dos infectados a nível mundial. Será que desconhece o retrocesso que houve no Uganda quando uma ministra da Opus Dei resolveu incentivar o programa bushista “só abstinência” ou o massacre de mais de 5 milhões de sul-africanos por causa das políticas de Thabo Mbeki e da sua ministra da saúde? Será que é tão ignorante como o falecido Trujillo, que afirmou que vírus passava através do preservativo? Será que acha que os seus pares devem enganar maliciosamente os crentes, ao afirmar que os preservativos transmitem a Sida, como li que fizeram o cardeal Obando y Bravo da Nicarágua, Raphael Ndingi Mwana’a Nzeki, arcebispo de Nairobi, o cardeal queniano Maurice Otunga ou o cardeal Wamala do Uganda? Ou será que pensa como o arcebispo do Maputo, que dizem ter afirmado “conheço dois países na Europa que fabricam preservativos contendo o vírus da sida. Eles querem acabar com os africanos, é o seu programa. Se nós não nos prevenirmos, seremos exterminados dentro de um século”? É difícil acreditar que uma pessoa tida como “intelectualmente brilhante” comungue de tais disparates. Uma coisa, no entanto, é certa: o Papa é um mau homem de negócios, já que África é o continente onde o Igreja Católica mais tem crescido, com um aumento de 40% nas últimas duas décadas, e os seus ditames, se acatados, contribuirão para um genocídio acelerado. Cartoon: Peter Brookes/Times

terça-feira, março 17, 2009

O grau zero da política Conheci uma velhinha, que apenas sabia ler mal e escrever o seu nome, mas tinha um grande saber de experiência feito, a qual , enquanto outros diziam “não faças aos outros aquilo que não gostavas que te fizessem a ti”, preferia dizer “não penses dos outros aquilo que não gostavas que pensassem de ti”. Vem isto a propósito de uma figura da nossa praça, já com idade suficiente para não dizer asneiras e que, mesmo antes de começarem as campanhas eleitorais, conseguiu arrastar a discussão para o grau zero - ou abaixo de zero - da política, ao afirmar repetidas vezes que “se o Sócrates ganhar as eleições, vai-se vingar daqueles que lhe fizeram frente”. E não digo isto porque tenha votado no partido do Primeiro Ministro ou pense fazê-lo enquanto regular relativamente bem da cabeça. Não, nunca votei em nenhum partido que tenha sido (ou partilhado o) poder, incluindo na altura em que fui obrigado a votar, em 1973, porque estava no serviço militar e as urnas estavam no quartel. Digo-o porque tem de haver um mínimo de decoro na política e não é admissível que uma líder partidária fale, num discurso escrito, pior do que aquele deputado do seu partido que, no calor do debate parlamentar, mandou um adversário para um lugar onde ele forçosamente não cabia, nem que o dito cujo fosse de elefante. Porque a frase do deputado, sem o desculpabilizar, não passou de um desabafo malcriado, ao passo que as palavras da líder são um processo de intenções da mais requintada desvergonha. Se a avó, ex-ministra e ex-quadro superior do Banco de Portugal, toma este tipo de atitudes, que esperar dos imberbes netinhos da jota? Será que um dia destes, em vez de um pinóquio em pé teremos cartazes de um pinóquio de rabo para o ar a ser sodomizado?

segunda-feira, março 16, 2009

Para a fotografia
Parece que o único resultado da reunião do passado Sábado entre os ministros das finanças (e respectivos assessores) dos G20, destinada a preparar a cimeira a realizar em 2 de Abril, foi a fotografia de conjunto. Com efeito, enquanto os Estados Unidos, a Inglaterra e o Japão puseram a tónica nos estímulos dos governos, na esperança de reavivar o consumo, a União Europeia e os europeus continentais mostraram-se desconfiados das medidas de despesa que aumentam o défice e pugnaram por uma maior regulação e supervisão para prevenir uma maior deterioração da economia global. Na minha modesta opinião, ao contrário do que sucede nos Estados Unidos (nada sei do Japão), na União Europeia há regulação mais do que suficiente da actividade financeira e órgãos de supervisão adequados. Parece é que a supervisão anda vendada e ninguém faz cumprir a legislação ou, nas poucas ocasiões em que o fazem, ficam-se por multas pouco mais do que simbólicas, que são aplicadas às empresa, não aos infractores. Quando, nos Estados Unidos, faliram a Enron e a Worldcom, os seus responsáveis levaram entre 15 e 25 anos de prisão. Pelo velho continente, não consta que ninguém tenha sido condenado, antes pelo contrário. Os responsáveis pelo afundanço do Northern Rock, na Inglaterra? Ninguém sabe. O responsável pelos milhares de milhões de perdas do Royal Bank of Scotland? Uma reforma de quase um milhão de euros/ano. Os responsáveis por uma filial na Inglaterra da AIG, que provocaram mais de cem mil milhões de prejuízos? Foram “penalizados” com quase cem milhões em bónus de desempenho - parece que a recompensa por prejuízos gigantescos faz parte dos contratos. Os responsáveis pela insolvência do Hypo alemão? Como diz que disse? Os responsáveis pelas crises do Fortis e do Dexia, que levou à necessidade de intervenção dos governos? Nicles! Face às suas homólogas europeias, até parece que a justiça portuguesa tenta funcionar. Pelo menos há um preso preventivo.
Um poeta maldito António Botto morreu no Rio de Janeiro há 50 anos, na maior miséria, vítima de acidente de viação. Homossexual assumido desde muito cedo, foi afastado, por isso, da função pública, decidindo em 1947 emigrar para o Brasil, para fugir á homofobia do botas e companhia. Como está convicto Eduardo Pitta, que actualmente dirige a reedição da sua obra completa, se Botto tivesse nascido nos Estados Unidos ou na Inglaterra “seria hoje estudado em todas as universidades”. Por cá, foi privado do seu emprego, obrigado a fugir e esquecido durante longos anos. Anda vem... Anda vem..., porque te negas, Carne morena, toda perfume? Porque te calas, Porque esmoreces, Boca vermelha - rosa de lume? Se a luz do dia Te cobre de pejo, Esperemos a noite presos num beijo. Dá-me o infinito gozo De contigo adormecer Devagarinho, sentindo O aroma e o calor Da tua carne, meu amor! E ouve, mancebo alado: Entrega-te, sê contente! - Nem todo o prazer Tem vileza ou tem pecado! Anda, vem!... Dá-me o teu corpo Em troca dos meus desejos... Tenho saudades da vida! Tenho sede dos teus beijos! António Botto

domingo, março 15, 2009

Diferenças Enquanto a primeira dama (a fingir) de um rico e poderoso país plantado no cu da Europa exibia as suas peles por ruas e eventos da Alemanha…
…a primeira dama (a sério) de um pequeno e pobre país encravado entre o Atlântico ocidental e o Pacífico oriental, vestia avental e calçava luvas para servir refeições a sem abrigo.
Perspectivas…

sábado, março 14, 2009

Encontro Procuro os que sabem de mim. Os que disseram ter me ouvido falar. Os que me encontram, quando me perco. Em quantos poemas estou presente? Em qual deles era verdade? Perco-me um pouco todo dia, para me encontrar em tantos outros. Não revelo, nem disfarço. Apenas passo. Mas há momentos em que me demoro. Celso Brito* *poeta brasileiro

sexta-feira, março 13, 2009

Públicas virtudes, vícios privados Uma das coisas que mais me enoja é a hipocrisia. Talvez por ter nascido numa família bastante pobre que, à míngua de meios materiais, tinha profundamente arreigados os valores da honradez e da franqueza; ou talvez por ter vivido a infância e a adolescência a ouvir os relatos das acções revolucionárias de um nazareno de há dois mil anos, que não perdia uma oportunidade para desancar a hipocrisia de escribas e fariseus, de tal forma que as palavras fariseu e hipócrita se tornaram sinónimos nas línguas latinas. Vem isto a propósito de um estudo, levado cabo por Benjamin Edelman, da Harvard Business School, sobre o consumo de pornografia nos Estados Unidos entre 2006 e 2008, nos lares com acesso a banda larga. Publicado no Journal of Economic Perspectives, o estudo mostra que os Estados tradicionalmente dominados pelos republicanos são mais propensos ao consumo de filmes pornográficos online. Ora, como se sabe, esses Estados são, precisamente, os mais conservadores e defensores dos valores familiares tradicionais, aqueles em que, porque a Janet Jackson mostrou uma mama na final da Super Bowl aqui há alguns anos, as pessoas obrigaram as grandes estações de televisão a transmitir os grandes espectáculos desse tipo com um diferimento de tempo suficiente para cortar as imagens que as “ofendem”. A análise das receitas de cartões de crédito de um grande fornecedor de pornografia colocou o ultra-conservador Utah no topo do consumo com 5,47 subscrições por 1000 lares com acesso por banda larga, contra 1,92 por 1000 no Montana, que ocupa o último lugar. Mas, como revelou a New Scientist, há uma tendência política mais ampla, já que 8 dos 10 Estados que mais consomem pornografia votaram John McCain (as excepções foram a Florida e o Hawai), enquanto 6 dos 10 Estados que consomem menos optaram por Barack Obama. E a contradição entre o que se defende publicamente e o que se pratica em privado é mais clara dado o estudo ter mostrado que quanto mais religioso é um Estado mais pornografia consome: Estados onde a maioria dos residentes concordou com a afirmação “eu tenho valores dos tempos antigos acerca da família e do casamento” efectuarem 3,6 mais subscrições por mil habitantes do que Estados onde a maioria dos residentes discordou da afirmação; uma diferença similar surgiu para a afirmação “a SIDA talvez seja um castigo de Deus pelo comportamento sexual imoral”.

quinta-feira, março 12, 2009

PÁRIAS Somos poucos cada vez menos Somos loucos cada vez mais Somos além dessa matéria óbvia que nos faz dizer - tá tudo bem Celso Borges* *poeta brasileiro

quarta-feira, março 11, 2009

Vestido de Armani e Confiança
O nata cá do burgo acha que fica bem dizer que não gosta de futebol, apesar de eu estar disposto a apostar, dobrado contra singelo, que a maioria dela, a cada jogo transmitido pela televisão, se senta no sofá a roer as unhas e a soltar impropérios perante tudo o que corre mal ao seu clube do coração. Pela minha parte, que nunca roí as unhas e não faço parte do escol (apesar de muitos conhecidos, pelo que me ouvem e porque sabem o que eu sei, jurarem a pés juntos que sou mais culto que grande parte dos integrantes da fina flor), não tenho pejo em afirmar que gosto de futebol. Não de qualquer jogo, mas de uma partida bem jogada, sem recurso a violência desmedida, com os participantes a darem o litro até ao apito final, com o árbitro a apitar estritamente o necessário e os treinadores a saberem ler o jogo. Naturalmente, gosto de vários outros desportos, quando praticados por actores de qualidade. De um contra-relógio individual ou de uma subida de montanha no ciclismo, de um jogo do torneio das nações no râguebi, de uma partida de basquetebol da NBA, de hóquei em patins, de hóquei no gelo, de várias modalidades de atletismo, patinagem e natação, e até da belíssima dança dos pés dos pugilistas profissionais, principalmente dos super-pesados. Infelizmente, tenho poucas oportunidades de ver bom desporto, porque não estou disposto a pagar as mensalidades dos canais desportivos da Cabo, pelo menos enquanto estiver no activo. Hoje deu-me para falar de futebol, a propósito do jogo do dia, que se desenrolará em Manchester, apesar de não o poder ver. Dos intervenientes no activo, há dois que merecem a minha consideração: um - o Luís Figo - pelo modo recatado como soube gerir a sua carreira excepcional e outro – o José Mourinho – pela sua qualidade e irreverência. Pode ser que um dia, se vier a ganhar juízo, o puto da Madeira venha a fazer parte da lista. Tempos houve em que julgava o José Mourinho arrogante, e tinha de fazer das tripas coração para lhe reconhecer razão quando trabalhava para o Pinto da Costa. Depois foi para o estrangeiro e, longe das lutas caseiras, deu para perceber que a aparente arrogância era algo de especial, de muito positivo. Pois o José Mourinho foi hoje notícia de relevo naquele que é o diário dos bem pensantes de Nova Iorque e, provavelmente, o jornal mais reputado do mundo, com três chamadas na primeira página da versão digital do jornal e três artigos do respectivo produtor do desporto: um relativamente extenso e encomiástico artigo intitulado Um Treinador Vestido de Armani e Confiança, uma extensa entrevista ao “Special One”, José Mourinho, e uma curta nota sobe o boneco que o imita no “Special 1 TV”, transmitido por um canal por cabo inglês. Eu gostei do que li.

terça-feira, março 10, 2009

Contrastes “Se nós nos juntarmos e tirarmos esta nação das profundezas desta crise, se pusermos o nosso povo de regresso ao trabalho e religarmos o motor da nossa prosperidade, se confrontarmos sem medo os desafios do nosso tempo e convocarmos aquele espírito duradoiro de uma América que não desiste, então algum dia, daqui a anos, os nossos filhos podem dizer aos filhos deles que este foi um tempo em que fizemos, nas palavras esculpidas nesta própria Câmara, alguma coisa diga de ser lembrada” Barack Obama, discurso sobre o Estado da Nação, 23 de Fevereiro de 2009 “O país está de tanga! O país esta de taaangaa!!!” Durão Barroso, PM do rectângulo, Abril de 2002 “Os gajos do continente estão sempre a roubar a Madeira. O Sócrates é um ۺۻ∞∩╒≡♪שּׁאַﭫﭳﮯﺺگ !!♪♫ AJJ em todos as intervenções públicas dos últimos 4 anos “As obras públicas só dão emprego a cabo-verdianos e ucranianos”. “Seria escandaloso que o primeiro-ministro não participasse na Cimeira Europeia, onde se vai discutir a crise mundial, para estar numa festa do Partido Socialista”. “O governo só se preocupa com a imagem”. "O casamento é para procriar." Manuela Ferreira Leite – ideias dispersas para acabar com a crise (a Cimeira Europeia foi um lauto almoço em Bruxelas, à custa dos contribuintes) “Tenho muitas dúvidas de que a Coreia do Norte não seja uma democracia” Bernardino Soares, no Parlamento “Gosto de malhar na oposição de esquerda” Augusto Santos Silva, em reunião da JS “Não podemos deixar que vençam aqueles que fazem política com base na calúnia e nos ataques pessoais”. “É uma campanha negra!” José Sócrates, no Congresso do PS ( a festa da D. Manuela) “Experimentem pôr 2 coelhos numa toca e de certeza teremos coelhinhos, se lá puserem um coelho e uma coelha. Agora ponham 2 notas de 100 euros numa caixinha. Não acontece nada. O capital sozinho não produz nada” Francisco Louçã - RTPN - 7/02/2009 “Vai para o c***lho” José Eduardo Martins, deputado do PSD, invectivando o colega do PS, Afonso Candal

segunda-feira, março 09, 2009

Alcateia Eu, sendo crente, não aceito como meus pastores os lobos a que o amigo Samuel se refere aqui. Não conheço a Constituição brasileira, pelo que não sei se a mesma permite privar alguém da cidadania; mas, se o permitir, o Governo de Lula devia retirá-la ao execrável arcebispo José Cardoso Sobrinho e expulsá-lo do Brasil, por insurreição a soldo de estado estrangeiro. Ao que chegou uma arquidiocese que teve à frente um homem como Hélder da Câmara! Para cúmulo, o homem da cúria fazedor de bispos ainda veio apoiar a iniciativa. Não se pode capá-los?
Elegia para Charles Bukowski Ele dizia que um poema eram poetas egoístas, amargurados traduzidos em loucos recados Nove de março eu tomava um porre saudando outros que tomastes em vida Vomitei luas impossíveis Fui de tudo e fiquei sem nada A madrugada crescia na rua teus passos desapareciam de nós Vários porres pelo porre enquanto Bukowski morre Zeca de Magalhães* *poeta brasileiro

domingo, março 08, 2009

Cheiro O cheiro O sabor da tua boca A baunilha a camélia desfolhada A saliva a saber a leite morno Escutando o rumor das tuas asas Maria Teresa Horta
As minhas rosas Uma rosa Remembrance para a minha mulher Uma rosa Keep In Touch para a minha filhota Uma rosa Blusette para as amigas que me visitam
Uma rosa Seashell para todas as minhas amigas

sábado, março 07, 2009

Saudade A colcha caída, sem mãos para cobrir-me o corpo exausto de não viver repete: onde estas? O amor é feito de hojes Célia Lamounier de Araújo* *poetisa brasileira

sexta-feira, março 06, 2009

Se a moda pega...
O Eduskunta (Parlamento da Finlândia) aprovou uma lei polémica, pioneira na Europa, que autoriza as empresas e organismos públicos a investigar os registos de correio electrónico dos seus empregados para evitar a fuga de segredos industriais. Eu nunca quis ter um Nókia. Seria presságio? Notícia aqui
Adeus, Gucci! Eu chamei capitalismo Gucci à última era do capitalismo. Ele nasceu em meados da década de oitenta - filho bastardo de Roanld Reagan e Margareth Thatcher, com Milton Friedman como fada padrinho e Bernard Madoff como imagem de marca. Foi uma era em que as proposições fundamentais eram que os mercados se podiam auto-regular, os governos deviam ser liberalistas e os seres humanos não eram nada mais do que instrumentos racionais de maximização de lucros; um tempo em que era menos vergonhoso estar endividado do que não ter os últimos ténis Nike ou a última mala de mão Gucci. Para ler aqui, um interessante artigo da economista e escritora inglesa Noreena Hertz, uma das maiores especialista em globalização económica, cuja leitura julgo que será útil mesmo para os que pensam que não há volta a dar ao sistema e que um outro mundo é possível.

quinta-feira, março 05, 2009

Injustamente esquecido Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello morreu há 25 anos. Conheci-o no início da minha adolescência, na primeira metade da década de sessenta, quando se dava ao trabalho de divulgar o folclore português, sobretudo o minhoto, nas festas anuais dos concelhos do distrito de Viana do Castelo, seu distrito de adopção. Sempre com o seu inseparável cigarro (só não os acendia uns nos outros porque um aristocrata não faz isso) e o mesmo ar altivo que mostrava na TV, mas uma pessoa extremamente delicada e com a maior paciência do mundo para explicar o segredo do folclore aos putos. Autor de uma obra riquíssima, tem sido injustamente ignorado, talvez por alguma conotação com o regime pelo facto de ter sido membro dos Júris dos prémios do secretariado da propaganda nacional. Se teve mais alguma conivência, não sei nem me interessa muito. Lembro-me dele porque sempre o considerei um homem bom e porque me ensinou imensas coisas e, não tendo feito de mim um grande seguidor do folclore, tornou-me num indefectível da música de raízes celtas e de toda a música étnica de qualidade (a minha paixão pelo canto gregoriano, pela clássica, pelo rock e pelo jazz, sem esquecer tudo o que é música não pimba de fala portuguesa, veio doutras influências). Cisne Amei-te? Sim. Doidamente! Amei-te com esse amor Que traz vida e foi doente... À beira de ti, as horas Não eram horas: paravam. E, longe de ti, o tempo Era tempo, infelizmente... Ai! esse amor que traz vida, Cor, saúde... e foi doente! Porém, voltavas e, então, Os cardos davam camélias, Os alecrins, açucenas, As aves, brancos lilases, E as ruas, todas morenas, Eram tapetes de flores Onde havia musgo, apenas... E, enquanto subia a Lua, Nas asas do vento brando, O meu sangue ia passando Da minha mão para a tua! Por que te amei? - Ninguém sabe A causa daquele amor Que traz vida e foi doente. Talvez viesse da terra, Quando a terra lembra a carne. Talvez viesse da carne Quando a carne lembra a alma! Talvez viesse da noite Quando a noite lembra o dia. - Talvez viesse de mim. E da minha poesia... Pedro Homem de Mello
Mais dois Depois de Jean-Moise Braitberg ter solicitado a retirada do nome do seu avô do Museu Yad Vashem, foi a vez de os irmãos Michael Neumann e Ocha Neumann exigirem ao Presidente do estado de Israel e ao Director do Museu que de lá seja retirado o nome da sua avó, morta pelos nazis no campo de concentração de Theresienstadt. Depois dos resultados das eleições em Israel, com a extrema direita a ganhar uma relevância que não augura nada de positivo para a política da região, é reconfortante verificar que cada vez mais judeus se opõem às atrocidades de um estado pária gerado e criado a partir do sentimento de culpa da chamada civilização ocidental. Imagem: À esquerda, soldados nazis revistam judeus; à direita, soldados sionistas revistam palestinos.

quarta-feira, março 04, 2009

Nádegas a Declarar Gabriel o Pensador faz hoje 35 anos. Como seu fá desde o primeiro disco, aqui fica para ler e ouvir a excelente sátira Nádegas a Declarar, do seu disco com o mesmo nome lançado em 1999. Ordem e progresso, sua bunda é um sucesso Nádegas a declarar, nádegas a declarar Nádegas a declarar? Claro que não! Eu tenho opinião nesse papo de bundão E vou dizer, mas primeiro você, Fernanda Primeiro as damas, o que que cê manda? Aí, Gabriel, vou logo deixar claro, não é lição de moral Todo mundo tá sabendo que sambar é tropical No país do futebol e carnaval Mexer essa bundinha até que é natural No meu ponto de vista, sem quer ser feminista A bundalização é bastante estimulada Por essa cultura machista, cê sabe... tá cheio de porco-chauvinista Por isso que esse papo não é só pras menininhas É pra todos esses caras que dão força, que dão linha No concurso, na promessa de futuro No programa de TV e no rádio toda hora pra você A-aha! Arrebita a rabeta! A-aha! E me diz, meu bem, o que mais que você tem? A-aha! Arrebita a rabeta! Arrebita bem a bunda, vagabunda, que a bunda é tudo de bom que você tem O que que você tem de bom além do bumbum? Um talento, algum dom? Ou as suas qualidades estão limitadas ao balanço dessa bunda arrebitada? O que é que você tem além da bunda? Pense bem que a pergunta é profunda Não, não é isso menina! Eu não tô falando da sua virilha Que deve ser uma maravilha, mas seu cérebro é menor do que um caroço de ervilha Ô minha filha, acorda pra vida! A sua bunda tá em cima, mas sua moral tá caída A dignidade tá em baixa Você só rebola, só rebola, só rebola e se rebaixa E se encaixa no velho perfil: Mulher objeto em pleno ano dois mil E um, e dois, e três Sempre tem alguém pra ser a bunda da vez Te chamam de celebridade e você acredita Enche o rabo de vaidade e arrebita Você tira até retrato três por quatro de costas Pensa com a bunda e quando abre a boca só sai bos... Talvez você nem seja tão piranha Mas qualquer concurso miss bumbum que tem, você se assanha A-aha! E tira foto fazendo pose de garupa de moto A-aha! Vai sair na revista e o povo vai dizer que você é artista Porque agora bunda é arte, é cultura, é esporte É até filosofia, quase uma religião E se você tiver sorte pode ser seu passaporte para a fama Ou pra cama, pode ser seu ganha-pão Bunda conhecida, bunda milionária Bonitinha mas ordinária Que nem otária na TV, de perna aberta Queima o filme das mulheres e se acha muito esperta Vai, vai lá! Vai entrar na dança, vai usar a poupança Vai ficar orgulhosa sem saber o mau exemplo que tá dando pras crianças Adolescentes, adultas e adultos retardados Que idolatram um simples rebolado (Bando de bundão!!) Aplaudindo a atração (Não pelas idéias mas pelo burrão) (- "Ordem e progresso, sua bunda é um sucesso... - Ai, nádegas a declarar!") (Lombo ambulante, burrão ignorante!!) Sua bunda é alucinante A rabeta arrebenta mas beleza não é tudo Além da forma tem que ter conteúdo Senão você se torna descartável Que nem uma boneca inflável Então encare a realidade com o seu olho da frente E veja a vida de uma forma diferente Porque uma mulher decente pode ser muito mais atraente que uma bunda sorridente Então, garota sangue bom Se liga na missão, se liga nesse toque Ser ou não ser, eis a questão A vida é bem mais que um número no Ibope Deixe a sua mente bem ligada ou vai ficar injuriada Reclamando que não é valorizada Pára pra pensar, bota a bunda no lugar E a cabeça pra funcionar Solta essa bundinha, solta o verso Solta a rima minha filha, solta o verbo na cara do Brasil Que atrás de você virão mais de mil Eu também não sou chegado em celulite Mas eu vou te dar um palpite, exercite a tua mente E não se irrite se eu tô sendo muito franco Mas atualmente ela só pega no tranco Amanhã você vai olhar pra trás E vai ver que o seu colã já não entra mais Vai querer fazer uma lipo, vai querer meter silico E vai continuar pagando mico Ordem e progresso, sua bunda é um sucesso Nádegas a declarar, nádegas a declarar...

terça-feira, março 03, 2009

Sem rumo Há 3 semanas o conceituado jornalista francês Eric Le Boucher publicava, na edição francesa da Slate Magazine, uma coluna em que batia forte e feio na curteza de vistas dos políticos da União Europeia e na sua incapacidade de tomar medidas para fazer face à crise, chegando ao ponto de dizer: Será necessário recorrer ao FMI para meter na ordem a zona euro? Será necessário chegar a essa vergonha? A crise era a oportunidade para desenvolver um maior federalismo económico, orçamental e político. Isso pode ainda acontecer? Pessoalmente, já não acredito. Estamos à espera dos verdadeiros mestres da saída da crise: os Americanos e os Chineses. Mais de uma semana depois, uma tradução inglesa do artigo era publicada no sítio da Slate Magazine Americana com o “sugestivo” título Europa para a América: Nós Rendemo-nos. Pode pensar-se que os jornalistas do Tio Sam gostam de zurzir na Velha e (para eles) Conservadora Europa e alguns até gostam mesmo, ou por só verem o próprio umbigo ou por serem incapazes de entender o modelo europeu. Mas neste caso, para além do autor ser europeu, até penso que o título da tradução adere bem à realidade. Face à possibilidade de bancarrota de vários membros da União e com a Ucrânia perto de ter de suspender os pagamentos ao exterior (com o inevitável corte do gás russo), os dirigentes dos 27 apenas encontraram a alternativa de um lauto almoço em Bruxelas, certamente regado com bons vinhos oferecidos pelos “agricultores” franceses, que "mamam" mais de 40% do orçamento comunitário na famigerada PAC que ninguém tem a coragem de mandar desta para melhor. Depois de bem comidos e melhor bebidos, arrotaram para o umbigo uns dos outros, disseram umas banalidades para comunicação social ver e regressaram felizes aos seus quintais, para tratar dos seus nabos, das suas cebolas e dos seus tomates. Quando se derem conta, a crise comeu a hortaliça toda e já só existem urtigas. Depois queixem-se de que os Chineses vieram tomar conta disto!

segunda-feira, março 02, 2009

Palavra Forte respeitada temida, como o diabo postergada definidora de rumo marco nem sempre acertada incisiva acima de tudo doída como profunda ferida ácida, amarga tantas vezes embargada por lágrimas: adeus Cecília Quadros* *poetisa brasileira

domingo, março 01, 2009

Malabarismos Para um tripeiro, o cúmulo do malabarismo é pôr um pé no pináculo da Torre dos Clérigos, outro na antena de TV do Monte da Virgem, e lavar o cu no rio Douro. Para um alfacinha, o cúmulo do contorcionismo é pôr uma mão no zimbório da Basílica da Estrela, outra no nariz do Cristo Rei, e lavar os “tomates” no rio Tejo. Para alguns intelectuais pequenos burgueses, o cúmulo da desfaçatez é terem consumido grande parte da vida a defender ideias verdadeiramente de esquerda e acabarem por vender a pouca honra que lhes restava a troco de um lugar certo no Parlamento Europeu.

sábado, fevereiro 28, 2009

Tarólogos, astrólogos e mitólogos Parece que os portugueses, empresas e particulares, andam deprimidos. E vai daí, o canal público de televisão resolveu pedir perspectivas sobre o futuro a uma taróloga. A jovem Bandarra, manuseando as cartas, previu que o ano de 2009 ia ser mau. Ela até era bonita e simpática, mas eu, que sou velho, gordo e feio, não preciso de cartas nenhumas para prever o mesmo. Chega-me o saber de experiência feito que a recuperação das crises económicas começa onde as mesmas se iniciaram. Por maioria de razão, a primeira crise global apenas regredirá após o caldo de cultura onde começou ter sido devidamente “purificado”. E como o FED prevê o início da recuperação para os finais de 2009, a mesma só chegará a estas bandas lá para os idos de 2010. Do esforço desenvolvido pela televisão pública para divulgar a ciência da “adivinhação do futuro”, ficam-nos, pelo menos, algumas certezas caseiras: É homem e sofre de impotência? Vá ao congresso de medicinas alternativas de Montalegre e emborque uns cálices (ou copos de três, dependendo da minhoca) de uma bagaceira que lá existe chamada “levanta o pau”. Mas não se esqueça de levar uma túnica para vestir e alguém para o conduzir de regresso, pois o tamanho do “coiso” não lhe permitirá vestir calças nem chegar aos pedais da viatura. É mulher e sofre de frigidez? Vá ali à “santa da ladeira”, mas lembre-se de levar uma cesta de pensos “salva cuecas”. É que para lá não se vai a não ser levada, mas no regresso “vem-se” a toda a hora, mesmo sozinha. Sofre de lombrigas, lumbago, erisipela, dor de rins, falta de ar, flatulências, arrotos, mau olhado, espinhela caída, pé de atleta, joanetes, dor de dentes, hemorróidas, tosse, espirros frequentes, comichões, queda de cabelo? O professor Karamba resolve todos os seus problemas. Considera que os seus impostos estão a ser mal empregues na pasmaceira do canal público de televisão? Leia um bom livro ou oiça um bom disco, porque queixar-se ao paquete não resolve nada e a concorrência ainda é pior.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Motivo Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, - não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: - mais nada. Cecília Meireles* *poeta brasileira

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Lata não lhe falta A criminosa de guerra Tzipi Livni prometeu ao também criminoso de guerra Benjamin Netanyahu, primeiro ministro indigitado do criminoso estado racista e anti-semita chamado Israel, que lhe daria todo o apoio nas manobras contra o Irão e que “iria utilizar os seus muitos contactos nos Estados Unidos, na Europa e no Mundo Árabe, bem como a sua experiência e a de outros membros do Kadima, para conseguir o apoio da comunidade internacional contra o Irão”. A mesma criminosa avisou de que Israel lançaria um novo ataque genocida contra a Faixa de Gaza se o alegado fornecimento de armas do Irão ao Hamas continuasse. Imagem: À esquerda, soldados nazis controlam judeus; à direita, soldados sionistas controlam palestinos

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Soneto de Quarta-Feira de Cinzas Por seres quem me foste, grave e pura Em tão doce surpresa conquistada Por seres uma branca criatura De uma brancura de manhã raiada. Por seres de uma rara formosura Malgrado a vida dura e atormentada Por seres mais que a simples aventura E menos que a constante namorada Porque te vi nascer de mim sozinha Como a noturna flor desabrochada A uma fala de amor, talvez perjura. Por não te possuir, tendo-te minha Por só quereres tudo e eu dar-te nada Hei-de lembrar-te sempre com ternura. Vinicius de Moraes

terça-feira, fevereiro 24, 2009

É Carnaval Depois de ler, ontem, a “homilia” das segundas-feiras do “sacristão de serviço” ao Diário de Notícias, na qual bolçava impropérios sobre a escola pública a propósito do lançamento de um livro de um outro "padre falhado", Mário Pinto de seu nome, como ele professor catedrático da universidade do opus dei, tive uma enorme surpresa, digna da quadra que estamos a viver. Ao procurar no Google por “Mário Pinto” e “Universidade Católica”, fui logo direccionado para uma página intitulada Máquina dos peidos. Não percebi o motivo da façanha, pois não consegui refazer o percurso de novo. Deve ser uma daquelas ligações que aparecem só por momentos, mas que me deu um grande gozo, lá isso deu. Quem souber os números dos telemóveis de JCN e MP pode lá ir e enviar-lhes uma “sinfonia” da “orquestra de peidos”. Parece que é grátis, pelo menos para quem envia.

domingo, fevereiro 22, 2009

Crítica e Auto-Crítica Assim como o homem carrega o peso do próprio corpo sem o sentir, mas sente o de qualquer outro corpo que quer mover, também não nota os próprios defeitos e vícios, mas só os dos outros. Entretanto, cada um tem no seu próximo um espelho, no qual vê claramente os próprios vícios, defeitos, maus hábitos e repugnâncias de todo o tipo. Porém, na maioria das vezes, faz como o cão, que ladra diante do espelho por não saber que se vê a si mesmo, crendo ver outro cão. Quem critica os outros trabalha em prol da sua própria melhoria. Portanto, quem tem a inclinação e o hábito de submeter secretamente a conduta dos outros, e em geral também as suas acções e omissões, a uma atenta e severa crítica, trabalha na verdade em prol da própria melhoria e do próprio aperfeiçoamento, pois possui o suficiente de justiça, ou de orgulho e vaidade, para evitar o que amiúde censura com tanto rigor. Arthur Schopenhauer - in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida' Retirado do Citador

sábado, fevereiro 21, 2009

Compulsão à citação Há pessoas que precisam apoiar-se em citações o tempo todo. Alguns trazem esse hábito do berço... O pai citador transmite ao descendente essa mania - filho de peixe, peixinho é. Citações de provérbios, ou citações mais requintadas. Quando não lembra a citação, o citador sofre, sabendo, porém, como dizia Oscar Wilde, que "as nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros"... O citador vive entre aspas, coleciona as palavras alheias com reverência. Não teme a recriminação daqueles que, citando algum pensador, repetem: "Quem cita os outros jamais desenvolve suas próprias ideias". E daí? Mais vale uma citação na mão do que repetir, sem saber, e de modo menos genial, o pensamento que outros já formularam com exatidão. Quem cita pensa também. Citando com a consciência alerta, pensarei ao lado de grandes pensadores. Por exemplo, ao lado de Leonardo da Vinci, que escreveu: "Quem pouco pensa, muito erra." Não seria o caso de admitir que quem cita muito... muito acerta? E tem mais. O citador compulsivo nunca está sozinho. Dentro dele dialogam centenas de pessoas, com frases redondas, aforismos intrigantes. O citador é um solitário acompanhadíssimo. Dizia isso com outras palavras, sem desconfiar que se referia ao citador, o poeta Carlos Drummond de Andrade: "A solidão gera inúmeros companheiros em nós mesmos." Solitário, ensimesmado, o citador adora dicionários de citações. Passa horas em convívio intenso com centenas de pessoas que disseram algo relevante, mais ou menos inteiradas do poder de suas palavras. Montaigne mencionava os "doutores pela ciência alheia", mas talvez seja de fato impossível chegar ao "doutorado" de outro modo. Só Deus prescinde de citações, e todas as que Ele faz são citações por Ele mesmo inventadas! A mania de citar, à medida que aprofunda suas raízes na mente do citador, transforma o citador num pensador original. Seu talento consiste em aplicar em contextos diferentes as frases que nasceram em diferentes lugares e tempos. "Por toda a minha vida eu vou te amar" perderá suas aspas na declaração de amor que o citador fizer com a paixão que o primeiro poeta jamais teve. Citar é aceitar que alguém foi feliz em dizer algo que eu não disse antes. Mas é também aceitar outro fato. Ao citar tantos outros, poderei talvez, distraidamente, criar minhas próprias frases. Frases que, no futuro, outro citador compulsivo salvará do esquecimento. Gabriel Perissé Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Seios Permeio aos dedos bem cedo teus seios - anseios sem medos sem credo receios... Que veio! Que enredo! aos seios tão ledos tão cheios eu cedo! Cauneto* *poeta paranaense

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

O sorriso enigmático do espião
Os seus concidadãos estão em choque por causa de Ali al-Jarrah, um aparentemente pacato cidadão e homem de família libanês que trabalhava como administrador de uma escola e era um acérrimo defensor da causa Palestina. Preso há vários meses, terá confessado aos investigadores policiais a sua face oculta de espião de Israel, numa carreira espectacular pela sua duração de 25 anos e pelas suas características, atendendo às artimanhas que utilizava para enviar aos israelitas as fotografias e os relatórios sobre os grupos palestinos e libaneses cujos passos vigiava, recebendo, em troca, cerca de USD 300.000. Qualquer cidadão que trai os seus a troco de dinheiro, é um traste. Quem tem duas mulheres e vários filhos em locais diferentes e trai os seus em favor do pior inimigo, durante 25 nos e por um prato de lentilhas (mil dólares por mês, em média) é um triste traste. Toda a história aqui.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Os caimões

O que espanta no processo que levou à condenação do advogado inglês David Mills não são os quatro anos e meios de prisão que, certamente, não cumprirá, nem o facto de ser advogado de Sílvio Berlusconi, que se vangloriou o ano passado do seu historial com a justiça, dizendo:“eu sou o detentor do recorde mundial de processos em toda a história da humanidade – e também na de outros seres que vivem noutros planetas”. Afinal, advogados corruptos existem aos montes e a lábia do comendador é sobejamente conhecida. Aliás, ele não pôde ser julgado no mesmo processo (em que era arguido) porque fez aprovar legislação que garante a imunidade dos titulares dos cargos políticos em exercício de funções. O que, realmente, surpreende, é o modo como tudo começou, a turbulência que já provocou na política inglesa e a confirmação de que a corrupção e o poder andam de mãos dadas em todo o lado. O caso remonta ao ano 2000, quando Tessa Jowell e o marido, David Mills, pediram um empréstimo avultado contra uma segunda hipoteca de uma das suas casas, investindo os proventos num fundo especulativo sedeado num offshore e pagando o empréstimo no mês seguinte com uns míseros USD 600.000,00 que David recebeu como prenda, valor alegadamente esportulado por Berlusconi como suborno pelo facto do inglês lhe ter salvo o pelo em dois julgamentos, mentindo aos juízes. A transacção veio a público em 2004, altura em que Tessa Powell, actual Ministra para o Jogos Olímpicos no Governo de Tiago Castanho, era secretária de Estado da Cultura, Comunicação e Desporto no consulado do Toneca Pinóquio. Apesar de Tessa Jowell ter assinado os documentos do empréstimo e da amortização, alegou sofrer da Sindrome do BPN e ter “bases razoáveis para acreditar que se tinha tratado de uma prenda”, o que foi suficiente para o então primeiro ministro. Pelo sim pelo não, em 2006 pôs termos ao seu casamento de 27 anos com David Mills, trocando, aparentemente, um marido por um lugar no governo. Politiquices! Existe um outro processo em que o advogado inglês é acusado de ter ajudado Berlusconi em manobras de evasão fiscal e lavagem de dinheiro, o qual está suspenso devido à tal lei da imunidade. A Ministério Público lá do sítio contestou a legitimidade da lei, assunto que se encontra para decisão no Tribunal Constitucional. Por mera coincidência, há uma vaga para juiz do Tribunal Constitucional e Berlusconi está a pensar nomear para ela o seu advogado pessoal. O pobre homem até diz que não quer ser juiz, já que a advocacia é que lhe dá pica, mas não há nada como uns milhões para uma sinecura que possa fazer legitimar a lei do dono. A novela (ou a falta dela) segue dentro de momentos.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Os servos de ontem e de hoje Giordano Bruno, jovem e irreverente teólogo e filósofo italiano, foi queimado na fogueira da inquisição há 409 anos, por defender, entre outras “heresias”, que o universo seria infinito e povoado por milhares de sistemas solares. Da vasta obra que publicou na sua curta vida, há um livro de 1584 intitulado De Infinito, Universo e Mondi (Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos), escrito em forma de carta ao Cavaleiro Michel de Castelnau, então embaixador da França em Inglaterra, cujo preâmbulo mantém, ainda hoje, toda a pertinência: Se eu, ilustríssimo Cavaleiro, manejasse um arado, apascentasse um rebanho, cultivasse uma horta, remendasse uma veste, ninguém me daria atenção, poucos me observariam, raras pessoas me censurariam e eu poderia facilmente agradar a todos. Mas, por ser eu delineador do campo da natureza, por estar preocupado com o alimento da alma, interessado pela cultura do espírito e dedicado à actividade do intelecto, eis que os visados me ameaçam, os observados me assaltam, os atingidos me mordem, os desmascarados me devoram. E não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos. Se quiserdes saber por que isto acontece, digo-vos que o motivo é que tudo me desagrada, detesto o vulgo, a multidão não me contenta. Somente uma coisa me fascina: aquela em virtude da qual me sinto livre na sujeição, contente no sofrimento, rico na indigência e vivo na morte. Aquela em virtude da qual não invejo os que são servos na liberdade, sofrem no prazer, são pobres nas riquezas e mortos em vida, porque trazem no próprio corpo os grilhões que os prendem, no espírito o inferno que os oprime, na alma o erro que os debilita, na mente o letargo que os mata. Não há, por isso, magnanimidade que os liberte nem longanimidade que os eleve, nem esplendor que os abrilhante, nem ciência que os avive. Qualquer semelhança entre os servos de há 425 anos e os opinantes “de referência” dos nossos dias não é pura coincidência.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Diarreia mental Na sua habitual “homilia rasca ” das segundas-feiras no Dário de Notícias, o sacristão contabilista de serviço insurge-se, hoje, contra as censuras feitas por algumas figuras públicas, entre as quais Mário Soares, ao seu chefe mor. Devo dizer que não morro de amores por Mário Soares, em quem apenas votei uma vez, na segunda volta das presidenciais de 1986, realizadas há precisamente 23 anos, por considerar ser o meu dever face às alternativas então em confronto. Mas isso não me impede de o respeitar e de reconhecer que, apesar da sua fraca queda para os números e do seu estilo algo trapalhão, Mário Soares tem uma estatura intelectual e humanista a que João César das Neves nunca poderá aspirar, por mais que acredite em milagres de uma pastora analfabeta ou de um papa polaco. Mário Soares, que sempre se assumiu como ateu - chegando a afirmar “sou ateu, graças a Deus” - é o actual presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, e não é por ter chamado cardeal ao arcebispo Marcel Lefèvre que deixa de, muito provavelmente, perceber bem mais de religião do que o JCN, que apenas deve ter estudado a doutrina católica pelo velho Catecismo de Pio X, que era o que vigorava quando ele era catraio; pelo que escreve, nunca terá sequer manuseado o actual Catecismo ou então não percebeu patavina. Contrariamente ao que afirma JCN, não é o Williamson quem tem de ser criticado, pois o que ele afirma é tão cretino que apenas merece comiseração ou mofa, não contestação. Quem deve ser criticado é quem tem reputação de pessoa altamente inteligente e, em cada cavadela, tira um balde de minhocas. Foi isso que Mário Soares fez, ainda que com uma enorme benevolência, a meu ver.

domingo, fevereiro 15, 2009

Apaguem o nome do meu avô… ...em Yad Vashem Jean-Moise Braitberg, escritor e jornalista francês de ascendência judia, cujo avô, Moshe Brajtberg, foi assassinado nas câmara de gás de Treblinka, escreveu uma carta ao Presidente de Israel, publicada no Jornal Le Monde em 29 de Janeiro de 2009, na qual pede que o nome do avô e de outros familiares seja retirado do Yad Vashem, o Memorial construído em Jerusalém em homenagem às vítimas judias do nazismo e em cujo exterior se encontra uma alameda de árvores, cada uma dedicada a um benfeitor dos judeus, entre as quais uma com o nome de Aristides Sousa Mendes. Senhor Presidente do Estado de Israel, Escrevo-lhe para que intervenha junto de quem de direito, a fim de que seja retirado do Memorial de Yad Vashem, dedicado à memória das vítimas judias do nazismo, o nome do meu avô, Moshe Brajtberg, gaseado em Treblinka em 1943, assim como os dos outros membros da minha família mortos no decurso da deportação em diferentes campos nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Rogo-lhe que atenda o meu pedido, senhor presidente, porque o que se passou em Gaza e, de um modo geral, o destino dado ao povo árabe da Palestina desde há sessenta anos, a meu ver desqualifica Israel como centro da memória do mal feito aos judeus, e portanto, a toda a humanidade. Repare que vivi, desde a minha infância, rodeado de sobreviventes dos campos da morte. Vi os números tatuados nos braços, ouvi os relatos das torturas; conheci os lutos impossíveis e partilhei os seus pesadelos. Era preciso, ensinaram-me, que estes crimes jamais recomecem; que jamais um homem, considerando-se superior pela sua pertença a uma etnia ou a uma religião, despreze outro ou o atropele nos seus direitos mais elementares, que são uma vida digna em segurança, a ausência de entraves, e a esperança, por mais longínqua que seja, dum futuro de serenidade e de prosperidade. Ora, senhor presidente, vejo que, apesar das várias dezenas de resoluções tomadas pela comunidade internacional, mau grado a evidência gritante da injustiça cometida contra o povo palestino desde 1948, apesar das esperanças nascidas em Oslo e apesar do reconhecimento do direito dos judeus israelitas a viver em paz e segurança, muitas vezes reafirmado pela Autoridade palestina, as únicas respostas dadas pelos sucessivos governos do seu país têm sido a violência, o sangue derramado, o encarceramento, os controlos incessantes, a colonização, as espoliações. Dir-me-á, senhor presidente, que é legítimo, para o seu país, defender-se contra os que lançam foguetes sobre Israel, ou contra os suicidas que arrastam com eles numerosas vidas israelitas inocentes. A isto responder-lhe-ei que o meu sentimento de humanidade não muda conforme a nacionalidade das vítimas. Pelo contrário, senhor presidente, o senhor dirige os destinos de um país que não só diz representar os judeus no seu conjunto, mas também a memória dos que foram vítimas do nazismo. É isso que me diz respeito e que me é insuportável. Mantendo no Memorial de Yad Vashem, no coração do Estado judeu, o nome dos meus parentes próximos, o seu Estado retém a minha memória familiar prisioneira detrás do arame farpado do sionismo, para a tornar refém de uma auto-proclamada autoridade moral que comete todos os dias a abominação que é a denegação de justiça. Portanto, faça o favor de retirar o nome do meu avô do santuário dedicado à crueldade feita aos judeus, a fim de que ele não mais justifique a que é feita aos palestinos. Queira aceitar, senhor presidente, o testemunho da minha respeitosa consideração. Jean-Moise Braitberg Imagem: À esquerda, judeus sob o jugo nazi; à direita, palestinos de Gaza sob a tirania sionista.

sábado, fevereiro 14, 2009

Ficaram-me as penas O pássaro fugiu, ficaram-me as penas da sua asa, nas mãos encantadas. Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas. Uma lembrança e outros pequenos nadas. Passou o vento mau, entre açucenas, deixou-me só corolas arrancadas... Despedem-se de mim glorias terrenas. Fica-me aos pés a poeira das estradas. A água correu veloz, fica-me a espuma. Só o tempo não me deixa coisa alguma até que da própria alma me despoje! Desfolhados os últimos segredos, quero agarrar a vida, que me foge, vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos. Cassiano Ricardo* *poeta brasileiro

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Forte concorrência Nas vésperas de lançar a sua última acção de venda da banha da cobra, a que chamou “Fórum Portugal Verdade”, a líder do PSD viu aparecer, de uma penada, nada menos do que 30 fortíssimos concorrentes ao seu disputadíssimo lugar. Na verdade, foi anunciado no passado dia 9 que uma equipa de arqueólogos egípcios tinha descoberto um túmulo faraónico de há aproximadamente 4300 anos, contendo 30 múmias. O túmulo foi encontrado na zona de Gisr al Modir, a oeste da pirâmide de degraus de Saqqara, construída para o faraó Zhoser pelo arquitecto e médico Imhotep. Como sabe toda a gente com alguma informação sobre a antiga civilização egípcia, Imhotep, para além de óptimo arquitecto era um excelente médico e mumificador, que deixou a sua arte muito bem entregue aos seguidores, nada que se compare com o primeiro ministro de Portugal entre 1985 e 1995, que iniciou nas lides políticas Manuela Ferreira Leite. A dama que se cuide!

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Bicentenário

No dia em que se celebra o segundo centenário do nascimento do Grande Cientista, considero que não faria sentido, como leigo, escrever sobre ele, quando há tantos especialistas a darem o seu testemunho; não querendo, no entanto, deixar passar em claro o evento, remeto para “quem sabe da poda”, através de uma agradável coluna publicada hoje no jornal The New York Times, da autoria da cientista inglesa Olivia Judson, autora do celebérrimo “Consultório Sexual da Dra. Tatiana para toda a Criação”. Imagem: Estátua de Charles Darwin, no Museu de História Natural de Londres, fotografada por César Garcia

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Uma excrescência do fascismo
Em 11 de Fevereiro de 1929, cumprem-se hoje 80 anos, nasceu um novo estado, parido pelo Tratado de Latrão, que foi assinado pelo ditador fascista Benito Mussolini, então chefe do Governo italiano, e pelo cardeal Pietro Gasparri, secretário de Estado da Santa Sé. Para os meus correligionários de mente aberta, deixo aqui uma reflexão sobre o assunto, da autoria do Professor espanhol Luis Ángel Aguilar Montero, que advoga o encerramento do Vaticano, a venda das suas riquezas e a entregue do dinheiro aos pobres. Parece-me uma ideia a aprofundar, não só porque a Sé, que dizem Santa, podia muito bem existir sem o minúsculo estado, mas também porque se extinguiria essa espécie bizarra chamada Núncio Apostólico, que mais não é do que um representante religioso em estados pretensamente laicos, com as prerrogativas dos membros do Corpo Diplomático.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Obscurantismo e (falta de) inteligência Diz-se que Bento XVI é um homem muito inteligente, mas não parece, tal o rol de decisões altamente questionáveis que tem tomado ao longo do seu ainda curto papado. Agora foi a vez de abrir as portas a uns trogloditas que parecem viver no século XIX e de promover ao episcopado um austríaco de uma indigência mental de meter medo ao susto. Quanto aos primeiros, excluídos da Igreja em 1988 por terem sido ilegitimamente sagrados bispos pelo ultra-reaccionário arcebispo francês Marcel Lefebvre, criador e mentor da FSSPX, não é a negação, por parte de um deles, da existência de câmaras de gás nos campos de concentração nazis, aquilo que mais me preocupa. Negar a existência do holocausto é revelador de uma indigência moral esdrúxula e uma enorme estupidez, mas a estupidez ainda não paga impostos. E não é menos cretino punir como crime a negação do holocausto, como fazem alguns países europeus. Por mim, não sei se foram seis milhões de judeus (ou mais ou menos umas centenas de milhares). Foram vários milhões, dizimados nas câmaras de gás, assassinados a tiro, enforcados ou simplesmente deixados morrer de fome ou doença. Que foram acompanhados na sua sorte por vários outros milhões (fala-se em 5 milhões, que são normalmente esquecidos) de ciganos, comunistas, homossexuais, deficientes, etc, tudo pelo simples facto de não pertencerem à raça perfeita idealizada pelos nazis. O que me preocupa é que o mesmo Grande Inquisidor que silenciou e continua a silenciar centenas de teólogos que lutam por uma Igreja mais aberta à sociedade e irmanada com os mais desfavorecidos decida abrir as portas a indivíduos que não reconhecem a validade do Concílio Vaticano II, não admitem a liberdade religiosa, tratam com desprezo os crentes de outras confissões (sejam cristãos, judeus ou muçulmanos) e os não crentes, consideram que a liturgia deve ser sempre celebrada em latim e acham que as mulheres não devem usar calças nem frequentar as universidades. Basta dar uma espreitadela aos vários sítios da tal Fraternidade ou passar os olhos por algumas das cartas de Richard Williamson. Para cúmulo, dizem que Bento XVI não estava a par do negacionismo de Williamson. Como diz que disse? Então um papa que lança um canal próprio no YouTube não tem um gabinete de imprensa que o mantenha informado do que se vai passando? Ou será que o seu magistério pastoral se situa ao nível da participação de Dias Loureiro na administração do BPN? Como uma desgraça nunca vem só, poucos dias depois um padre austríaco, Gerhard Maria Wagner de seu nome, foi nomeado bispo auxiliar de Linz. Pois este cavalheiro tem uma noção muito peculiar de algumas realidades. Em 2001 tinha condenado os livros do Harry Potter, de JK Rowlings, por “espalharem o satanismo”. E em 2005 afirmou que a destruição de Nova Orleãs pelo furacão Katrina era uma “punição divina” pela atitude libertina da cidade relativamente à promiscuidade sexual e à homossexualidade. “Não é, seguramente, por mero acidente que as cinco clínicas de Nova Orleãs que praticavam o aborto, assim como os clubes nocturnos, foram destruídos”, escreveu; e acrescentou: “não foi apenas uma velha cidade que ficou submersa, mas a cidade dos sonhos das pessoas, com os melhores bordéis e as mais bonitas prostitutas”. Palavras de que quem, certamente, sabe daquilo que fala!

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Chamamento rouba da gaivota ao vôo a musicalidade e na cidade faz a partitura de tuas dores criatura com mãos de todos os andores encharcadas de suor, de mil licores constrói a nova poesia guarda a solidão da praça vazia no bolso do casaco e com pés e direitos feridos, abre estradas amadas, demais amadas, marcadas como versos na rocha rouba aos olhos todos os rancores que os senhores não abaterão teu brio teu amanhã será depois de amanhã e não ficarás na outra margem do rio. Carvalho Neto* *poeta brasileiro

domingo, fevereiro 08, 2009

Prioridades Na Televisão Pública, o jornal das 13H00 começou com futebol, 16 minutos de futebol, logo no início. Foram 9 minutos para o Porto - Benfica, com directos e entrevistas a treinadores, jornalistas e outros “especialistas”, seguidos de mais 3 minutos para Sporting – Braga e, ainda, mais 4 minutos para outras insignificâncias. Eu até gosto de ver um bom jogo de futebol, mas o que é demais, enoja. Há fogos incontroláveis na Austrália, com temperaturas a atingirem 48 graus numa das principais cidade e mais de 700 casas ardidas e 84 mortos nos seus arredores? Tomem lá futebol! Há milhares de jovens a beberem “shots” em excesso e a porem em causa todo o futuro de um país? A bola é que está a dar! Cai um avião na Amazónia e morrem algumas dezenas de pessoas? O Quique Flores repreende o Reyes publicamente e isso não se faz! Houve uma manifestação em Badajoz contra a instalação de uma refinaria que vai pôr em causa parte da agricultura da Estremadura e da Andaluzia e reduzir a escombros os projectos para o maior lago artificial da Europa? O Cristian Rodrigues marca golos do caraças! O Amorim quer despedir mais de 200 trabalhadores? O Porto joga sempre à zona e não vai alterar o tipo de jogo por causa do Swazo! Uma empresa portuguesa criou um novo tipo de tecido que é quente quando faz frio e é frio quando está calor? O Liedson não joga! Há 5 minhotas que todos os dias atravessam a fronteira para desempenharem cargos de chefia numa grande empresa galega? Sai uma entrevista ao Maniche! A Administração da RTP e a Direcção de Programas não batem bem da bola e não fazem a mínima ideia do que deve ser um serviço público? Dêem-lhes mais bola e o Tony Carreia, que eles ficam extasiados! E assim se acabou uma hora de pretenso serviço público que terá custada um balúrdio aos contribuintes? Chamem a polícia, gaita!

sábado, fevereiro 07, 2009

(dis)Semelhanças - I
À esquerda, crianças judias num campo de concentração nazi e, à direita, crianças de Gaza num campo de concentração sionista.
Apelo Oiçam, por favor, antes que seja demasiado tarde! Durante os últimos quarenta anos a história provou que o conflito Israelo-Palestino não pode ser resolvido pela força. Todo o esforço, todos os meios e recursos de imaginação e reflexão possíveis, devem , agora, ser utilizados para encontrar um novo caminho. Uma nova iniciativa que mitigue o medo e o sofrimento, reconheça a injustiça que foi feita e conduza à segurança de Israelitas e Palestinos, de igual forma. Uma iniciativa que exija a todos as partes uma responsabilidade comum: assegurar direitos e dignidade iguais a ambos os povos e assegurar o direito de cada pessoa a ultrapassar o passado e a aspirar a um futuro. Este apelo, cujo primeiro signatário é o reputado músico e maestro Daniel Barenboim, foi subscrito por dezenas de intelectuais de todo o mundo (cineastas de primeiro plano, escritores galardoados com o Nobel da literatura, compositores, filósofos, cantores, actores, etc) e divulgado esta semana num diário de Jerusalém. A lista completa dos subscritores pode ser encontrada aqui.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Convivências…Cunbibências! Acabei de ouvir que o Porto é sócio honorário do Benfica. Parece que a “coisa” vem desde a inauguração do antigo campo de Contumil, em 1950, com a presença de Sexa., o Presidente da (des)República) e de Sexa., o Presidente do (des)Conselho e da inauguração do antigo campo de Carnide, em 1952, com a presença dos mesmos Sexas. Pró pintinho e pró orelhas, o amor está no ar, penso eu de que!
Fruto e Canto É a polpa da claridade e o sonho oscilante do som que pousam fundo em nós. Como visões imaginárias vindas da inexistência do longe real. Violados os obscuros universos - o fruto e o canto - só nos restam o frio da luz e a resignação dos mortos. Carvalho Filho* - in Poemas Terminais, 1999 *poeta brasileiro

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Gestão pública e gestão privada Os nossos aprendizes neo-liberais defensores do “menos estado, melhor estado”, costumam alicerçar a sua curteza de vistas no argumento de que o estado não está vocacionado para gerir determinado tipo de negócios. Vai daí, privatizem-se a posse da terra e os recursos naturais, a actividade financeira, a saúde, a educação, a justiça, a água e até o ar que respirámos: Repartam-se os ganhos pelos privados que exploram aquilo quer devia ser público e se houver prejuízos, socializem-se os prejuízos fazendo-os pagar a todos os contribuintes. É o chamado “socialismo limão” em todo o seu esplendor: os contribuintes suportam os custos se as coisas correrem mal, mas os accionistas e os executivos ficam com os benefícios quando as coisas correm bem. Para esses vendedores da banha da cobra, que tal uma leitura atenta da coluna que o economista liberal e prémio Nobel da Economia 2008, Paul Krugman, publicou no The New York Times do passado dia 2, significativamente intitulada Resgates para Trapalhões?

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

(dis)Semelhanças À esquerda, crianças judias num campo de concentração nazi e, à direita, crianças de Gaza num campo de concentração sionista
Para poder morrer Para poder morrer Guardo insultos e agulhas Entre as sedas do luto. Para poder morrer Desarmo as armadilhas Me estendo entre as paredes Derruídas. Para poder morrer Visto as cambraias E apascento os olhos Para novas vidas. Para poder morrer apetecida Me cubro de promessas Da memória. Porque assim é preciso Para que tu vivas. Hilda Hilst* *poetisa brasileira falecida há 5 anos

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Idiotice vergonhosa Os Estados Unidos ficaram em polvorosa quando um relatório do Auditor de Contas do Estado de Nova Iorque revelou que os executivos de Wall Street, responsáveis pelo caos em que se encontra a economia mundial e beneficiários de centenas de milhares de milhões de dólares do dinheiro dos contribuintes, tinham oferecido a si mesmos quase 20 mil milhões de dólares em bónus. Desde programas de televisão a colunas nos jornais, passando pela venda de camisolas com a frase “eu odeio Wall Street”, os clamores da revolta são mais do que muitos. “Isso é o cúmulo da irresponsabilidade”, disse o Presidente Obama. “É vergonhoso. Parte daquilo de que necessitamos é que as pessoas de Wall Street que estão a pedir ajuda mostrem alguma contenção, mostrem alguma disciplina e mostrem algum sentido de responsabilidade”. “Tempos virão em que eles obterão ganhos e tempos virão para eles terem bónus. Mas, agora, não é esse tempo. E esta é a mensagem que tenho a intenção de lhes enviar directamente, e espero que o Secretário Geithner a envie a eles. Por sua vez, a senadora democrata do Missouri, Claire McCaskill, fez um diagnóstico ainda mais cru dos “Senhores do Universo” sem vergonha e sem senso: “Essas pessoas são uns idiotas” O caso mais aberrante é o da Merril Lynch que, numa manobra pouco usual, decidiu pagar, ainda em Dezembro, mais de 4 mil milhões de dólares em bónus, num trimestre em que teve perdas de 21 mil milhões. Jon Stewart, no “The Daily Show”, passou um vídeo do CEO da Merril Lynch a defender os bónus como forma de manter “as melhores pessoas”. No fim, Jon Stewart gritou: “vocês não tem ‘melhores pessoas’! Vocês perderam 27 mil milhões de dólares. Vocês vivem num Mundo à Parte”? Não se infira disto que eu sou contra os bónus de desempenho, pois não sou. Mas tudo tem um limite e muito mais quando não há lucros. Na minha opinião, os bónus exagerados são um erro crasso, porque levam à assumpção temerária de riscos muito elevados. E o erro passa a ser indesculpável quando são atribuídos em função dos objectivos de curto prazo, com menosprezo dos objectivos de médio/longo prazo, pois os executivos dedicam-se a “comprar crescimento” em vez de se concentrarem em “construir crescimento”. Não será por acaso que, cá no burgo, o grupo financeiro (grandinho) que mais tem sofrido com a crise é aquele que, até há poucos anos, reservava 10% dos resultados para bónus ao conselho de administração.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Perplexidades A nossa justiça anda extremamente mediatizada, pelo que não percebo a decisão tomada por Cândida Almeida (e autorizada por Pinto Ribeiro) de ir à RTP1 falar com a Judite de Sousa sobre o caso Freeport (ou Fripor, em inglês técnico). A Sra. até é simpática e disse algumas coisas interessantes. Não tendo a cara de pau da Maria José Morgado, também não tem o mesmo poder de encaixe, mas teve sorte porque a Judite, desta vez, decidiu bater a bolinha baixa. Enquanto o Ministério Público e os Juízes fizerem finca pé numa presença constante nos media, a justiça apenas anda a reboque dos (maus) jornalistas. Marinho e Pinto (gosto imenso do e, pois dá uma sensação de compadrio) arrotou umas postas de pescada numa cerimónia qualquer e disse que são inadmissíveis as buscas aos escritórios dos advogados, tudo gente honesta. O bastonário falou com a prosápia de um extra-terrestre acabado de chegar da nebulosa de Andrómeda, perfeitamente consciente da sua superioridade intelectual e moral relativamente aos pobres terráqueos. Só assim se compreende que nunca tenha ouvido falar de um tal Vale e Azevedo (outros vez o e - serão familiares?) e de outros que tais. Na mesma cerimónia, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça disse que o sigilo profissional era um entrave ao poder judicial. Mas não disse quem iria autorizar o acesso às contas dos Juízes, incluindo as dele e dos seus pares. Eu, no lugar dele, também andava chateado com os bancos. Então não é que os malandros conseguem guardar segredo das contas dos clientes, coisa que o sistema judicial não consegue fazer? Como não estou no lugar dele, acho muito bem a existência do sigilo bancário, pois os nossos bancos são muito mais confiáveis do que o nosso sistema de justiça.

domingo, fevereiro 01, 2009

Choque Hoje estava preparado para escrever sobre outro assunto mas, face a uma notícia do telejornal das 13H00 da RTP1, não posso deixar de manifestar a minha estupefacção, aqui e agora. Eu já sabia que o neo-colonialismo dos países do Norte os levava ao aliciamento de especialistas do Sul, principalmente na área dos cuidados de saúde onde, anualmente, milhares de médicos e enfermeiros são “sangrados” às antigas colónias da África e da América Latina. Pois a tal notícia deu conta de uma campanha de aliciamento de médicos da América Latina e de língua castelhana para virem colmatar as faltas do nosso Serviço Nacional de Saúde, deficiência essa da exclusiva responsabilidade da Ordem dos Médicos e dos Ministérios quem têm tutelado o ensino superior em Portugal, ao permitir que a primeira estabeleça o inexplicável numerus clasus e o segundo ao não limitar o acesso à medicina aos que revelem aptidão para a profissão. Ao longo dos anos, a milhares de jovens tem sido negado o acesso ao curso de Medicina, com base nas premissas de médias absurdas e dos limites impostos pela Ordem, tendo como corolário o acesso ao curso de alunos com altas classificações mas sem qualquer aptidão, muitos dos quais desistem pelo caminho ou se transformam em médicos cujo único fito é ganhar dinheiro à custa das saúde dos cidadãos. Sempre pensei que, em algumas profissões, era necessário um exame vocacional, e medicina e enfermagem são duas delas. Eu, por exemplo, nunca conseguiria ser um bom médico ou um bom enfermeiro, apenas um medíocre em qualquer dos papeis. A única diferença para muitos desses pseudo-profissionais, é que consegui reconhecê-lo antes de tentar a profissão. Mas conheço muita pessoas que dariam óptimos médicos, mas não conseguiram entrar no curso porque tiveram, apenas, uma média de 18 valores, quando o exigido passava pelos 19. Quem me conhece sabe que eu sei do que falo.