A vitória de Obama, por margem esmagadora em número de votos do Colégio Eleitoral e por margem bem confortável em termos de percentagem, representou a derrota da politica mais rasteira, violenta e hipócrita.
Seria utópico pensar que tudo mudou de repente, já que a evolução das mentalidades demora gerações e o povo dos Estados Unidos, como qualquer povo, não passou a ser sábio da noite para o dia e a ideologia continua bem viva.
Mas, se o novo Presidente do país mais poderoso do mundo conseguir que, a pouco e pouco, os Estados Unidos:
*Deixem de portar-se como donos do mundo e olhem para os outros países em pé de igualdade;
*Deixem de interferir na vida dos povos, em qualquer parte do mundo e sobretudo na América Latina, para que cada povo tome o rumo que melhor se adaptar aos seus anseios, em liberdade e em paz;
*Levantem o bloqueio a Cuba;
*Saiam tão cedo quanto possível dos lodaçais do Iraque e do Afeganistão;
*Resolvam diplomaticamente o problema do Irão;
*Convençam o aliado israelita de que a única forma de viver em paz é partilhar a terra com os palestinos;
*Reconheçam que a Rússia tem justas pretensões a desempenhar um papel relevante no mundo e que deve ser um parceiro, não um inimigo;
*Passem a respeitar os direitos humanos, que tanto apregoam, em todas as partes do globo e não apenas onde lhes dá jeito;
*Se submetam ao TPI;
*Comecem a prestar atenção às alterações climáticas;
*Encarem de frente a crise financeira mundial, começando por punir exemplarmente os predadores de Wall Street;
*E se tornem num país socialmente mais equilibrado, com garantias de acesso à educação e à saúde para todos os cidadãos....
...terá valido a pena ter concretizado um sonho de 40 anos.
How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
quarta-feira, novembro 05, 2008
Esperança
A vitória de Obama, por margem esmagadora em número de votos do Colégio Eleitoral e por margem bem confortável em termos de percentagem, representou a derrota da politica mais rasteira, violenta e hipócrita.
Seria utópico pensar que tudo mudou de repente, já que a evolução das mentalidades demora gerações e o povo dos Estados Unidos, como qualquer povo, não passou a ser sábio da noite para o dia e a ideologia continua bem viva.
Mas, se o novo Presidente do país mais poderoso do mundo conseguir que, a pouco e pouco, os Estados Unidos:
*Deixem de portar-se como donos do mundo e olhem para os outros países em pé de igualdade;
*Deixem de interferir na vida dos povos, em qualquer parte do mundo e sobretudo na América Latina, para que cada povo tome o rumo que melhor se adaptar aos seus anseios, em liberdade e em paz;
*Levantem o bloqueio a Cuba;
*Saiam tão cedo quanto possível dos lodaçais do Iraque e do Afeganistão;
*Resolvam diplomaticamente o problema do Irão;
*Convençam o aliado israelita de que a única forma de viver em paz é partilhar a terra com os palestinos;
*Reconheçam que a Rússia tem justas pretensões a desempenhar um papel relevante no mundo e que deve ser um parceiro, não um inimigo;
*Passem a respeitar os direitos humanos, que tanto apregoam, em todas as partes do globo e não apenas onde lhes dá jeito;
*Se submetam ao TPI;
*Comecem a prestar atenção às alterações climáticas;
*Encarem de frente a crise financeira mundial, começando por punir exemplarmente os predadores de Wall Street;
*E se tornem num país socialmente mais equilibrado, com garantias de acesso à educação e à saúde para todos os cidadãos....
...terá valido a pena ter concretizado um sonho de 40 anos.
A vitória de Obama, por margem esmagadora em número de votos do Colégio Eleitoral e por margem bem confortável em termos de percentagem, representou a derrota da politica mais rasteira, violenta e hipócrita.
Seria utópico pensar que tudo mudou de repente, já que a evolução das mentalidades demora gerações e o povo dos Estados Unidos, como qualquer povo, não passou a ser sábio da noite para o dia e a ideologia continua bem viva.
Mas, se o novo Presidente do país mais poderoso do mundo conseguir que, a pouco e pouco, os Estados Unidos:
*Deixem de portar-se como donos do mundo e olhem para os outros países em pé de igualdade;
*Deixem de interferir na vida dos povos, em qualquer parte do mundo e sobretudo na América Latina, para que cada povo tome o rumo que melhor se adaptar aos seus anseios, em liberdade e em paz;
*Levantem o bloqueio a Cuba;
*Saiam tão cedo quanto possível dos lodaçais do Iraque e do Afeganistão;
*Resolvam diplomaticamente o problema do Irão;
*Convençam o aliado israelita de que a única forma de viver em paz é partilhar a terra com os palestinos;
*Reconheçam que a Rússia tem justas pretensões a desempenhar um papel relevante no mundo e que deve ser um parceiro, não um inimigo;
*Passem a respeitar os direitos humanos, que tanto apregoam, em todas as partes do globo e não apenas onde lhes dá jeito;
*Se submetam ao TPI;
*Comecem a prestar atenção às alterações climáticas;
*Encarem de frente a crise financeira mundial, começando por punir exemplarmente os predadores de Wall Street;
*E se tornem num país socialmente mais equilibrado, com garantias de acesso à educação e à saúde para todos os cidadãos....
...terá valido a pena ter concretizado um sonho de 40 anos.
terça-feira, novembro 04, 2008
Rondó da Liberdade
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.
Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Carlos Marighella*
*poeta e político brasileiro, assassinado em São Paulo pela Junta Militar, em 4 de Novembro de 1969.
segunda-feira, novembro 03, 2008
Palavra
Uma palavra pode ser proferida
E esquecida com o tempo
Outra pode ser aquecida e sentida
Além da eternidade
Uma palavra pode ser mantida
Pode ser vencida
Pode ser transformada
Pode ser omitida
Pode ser deturpada
Pode ser lembrada
Uma palavra
Afasta o homem da ignorância
Aponta a saída do labirinto
Fantasiosa ou realista
Carrega vida em seu sentido
Uma palavra
Quando lançada
Não tem rumo
Não tem caminho certo
Trilha ao impulso do vento
E na velocidade do pensamento
Segue firme, vaga e veloz
Como uma flecha
Pode destronar uma certeza
E como uma chama
Pode transformar corações em brasa
Uma palavra
Simples e inútil
Pode mudar o mundo
Pode ultrapassar uma crença
Pode desatar nós e preconceitos
Pode vencer uma guerra
Aquela mesma palavra
Esquecida em meio a tantas outras
Na página amarelada de um livro qualquer
Pode ser a salvação
Ou a perdição
Na vida de alguém
Uma simples e imperfeita
Palavra
Bernardo Almeida*
*poeta brasileiro
domingo, novembro 02, 2008
E se insistir?
Dona Odualda recebeu um dinheirinho de herança e resolveu comprar uma casa no interior de Goiás, onde poderia criar com todo o cuidado suas duas jóias, Odarcy e Oderly, mocinhas de corpo bem feito, rostos bonitos e muita sensualidade esparramada pelo corpo inteiro. Viúva, com as duas filhas moças, ela não pôde escolher muito, comprou a primeira casa que lhe apareceu por preço razoável. Só tinha um detalhe: era a principal casa de prostituição da cidade.
Muitos fregueses das antigas moradoras apareciam todas as noites na casa da dona Odualda, a fim de dar uma trepadinha.
Um dia, apareceu na porta da casa uma plaquinha escrita com letras tortas:
“Casa de família.
Não insista.”
Mouzar Benedito
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
sábado, novembro 01, 2008
Dedicatória
Leões passeiam sua juba imponente
à frente de teu esquálido esqueleto.
És um pedinte que tem fome,
sarnento fraldiqueiro, um cão sem nome?
Serás um homem? Um caniço pensante?
Um bípede sem penas, ou um rinoceronte apenas?
Sofres de angústia existencial ou medo, simplesmente?
És um obreiro do transcendental
ou só um inocente?
Benedicto Ferri de Barros*
*poeta brasileiro
sexta-feira, outubro 31, 2008
Para ler e ouvir, sempre!
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 31 de Outubro de 1902.
Por mero acaso, deparei-me com este retrato falado, por ele próprio. Para mim, valeu mesmo a pena ouvir.
quinta-feira, outubro 30, 2008
Íncubo
Escorou-se na janela aberta para a rua e sentiu um calafrio esquisito percorrer-lhe a espinha. Estava escuro? Sim, todas as luzes estavam apagadas. Ela amava perambular em silêncio na escuridão da casa. Tatear o contorno dos móveis antigos, as linhas do próprio corpo... sim, ela amava despir-se diante das brumas da madrugada e da memória.
Contemplar as estrelas. Tão raro poder vê-las. As luzes da cidade ofuscam o encanto da noite assim como o mistério dos olhos. Diante da janela que emoldurava rubis e diamantes estelares afastou as pernas, alongou o pescoço, os braços, um para cada lado... também era uma estrela de cinco pontas pulsando na noite morna.
De repente, emerge da própria companhia para um sobressalto. Não tem coragem de voltar o olhar quando a porta do quarto bate. É o vento, faz o sinal da cruz. Na praia já havia passado por algo do tipo, benze-se outra vez, algo que tentava esquecer, quando interrompera aquela discussão e, descendo do mezanino, fora dormir na sala. Acomodou-se no sofazinho, de costas para a escada. A luz amarelada da varanda penetrando pelas frestas do telhado sem lambri. Com o rosto voltado para a parede abraçou a almofada e, pondo uma das quatro pontas entre os joelhos, cobriu sua nudez com uma manta cheirando a armário. Aconchegara-se na própria mágoa para esquecer os insultos que ouvira. Mas, na fronteira entre a vigília e o sono, ali, onde confundimos os mundos, percebeu alguém em pé, quase encostado no sofá, ao seu lado.
Mesmo sem olhar, sentiu a energia de um homem. Seria o seu? Arrependido das grosserias lhe beijaria as faces, os olhos vermelhos do choro sufocado, “me perdoa, gringa”, ela iria ouvir reconfortada e fariam as pazes e depois amor. Mas não houve palavra. Nem gesto. Alguém permanecia ali, imóvel, espiando seu corpo.
E então, agora, a mesma impressão de estar sendo vigiada. Quando a porta do quarto bate, de morno, o ar fica gelado. Os pelos da nuca retesados conectam sua lembrança com o resto do episódio da praia quando, agarrada ao escapulário encarou um estranho, metido num capote preto até o chão, lá em cima um chapéu de abas enormes a ocultar, nas trevas, rosto e intenção. Pareceu-lhe ouvir seu respirar: lento e profundo como quando se está no domínio da situação. Pareceu-lhe mais, pareceu-lhe intensamente úmido e ainda mais salobro o ar.
A criatura tem algo nas mãos... uma pedra? Vai esmagar minha cabeça! Ao amanhecer estarei morta e o mundo nem vai ligar, no máximo uma notinha no jornal local “veranista é trucidada dormindo”, mas eu não estou dormindo, não estou, JOHNNY!, pensou ter gritado. E vai ver que gritou, de fato. Pois o grito dado ou pensado libertou-a do quebranto. FLASH SOBRE DUAS GARRAS VERDES, VISCOSAS, NAS PONTAS DO QUE SERIAM DEDOS, VENTOSAS, NÃO ESTOU DORMINDO, POR DEUS, AQUILO TRAZ UMA GAIOLA INFESTADA DE RATOS, AMARRADA NA CINTURA... OU... DO UMBIGO FAZ PARTE E FLUTUA!
Não quer lembrar o verão! Sai da janela, rápido, tateando até a cama; protege-se entre ursinhos de pelúcia, negações e travesseiros. Só que ele a espreita de novo e, a qualquer momento, sem qualquer ruído pode arrancar-lhe o lençol, seu esconderijo de pano. Sob as abas do chapéu, lá em cima, Johnny, a gente se salva no afeto ou na saliva densa de sede e fome?
Então, a criatura retirou de dentro da gaiola o maior deles. O mais peludo. Com seu rabo de chicote. Seu guincho de porco na degola. Retirou aquele rato bem do fundo e, lentamente, intimamente, levantando a manta com cheiro de armário forçou o bicho várias vezes até abrir caminho.
Foi quando a noite partiu-se ao meio. Com gemidos de quem sucumbe ao diabo, ou dele se liberta. Por espasmos da garganta ou da vagina.
Myrian Beck
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
“He's Not One of Us”
As John McCain's chances seem weakened or dead,
Republican rallies become mobs instead.
They have no civility left-not a shred.
They curse at Obama, their faces bright red:
"A traitor!" "A terrorist!" "Off with his head!"
"He's not one of us," Sarah Palin has said.
Lucky him.
Calvin Trillin
Publicado no The Nation
quarta-feira, outubro 29, 2008
O RIO NÃO MORRE
“También se muere el mar” (Garcia Lorca)
“Aquele rio era um cão sem plumas” (João Cabral de Melo Neto)
Não se mata um rio
como não se enterra
um morro
Como a fogueira
não se põe no bolso
Como um leão
não pede socorro
Um rio terminal
é a soma da baba
do rebanho
viscoso no que tem
de sono
aéreo no que tem
de sonho
O mar recebe o rio
feito de escombros
O mar pode morrer
(Netuno exangue)
Não por obra do rio
que guarda o sopro
Envenenado talvez,
mas nunca morto
Um rio sobrevive
sem suas vertentes
Um rio pode seguir
sem ser corrente
Um rio não é a escama
de nenhum peixe
Ele será sempre o rio
da minha infância
O Uruguai antes
do saque
touro frente à lua
surra de gigante
Nesse rio sem fim
mora meu povo
Cobre de minuano ao frio
Charrua de invencível
lança
Não se mata um rio
O sol não cabe
numa estante
A eternidade acampou
e faz a ronda
Nei Duclós*
*poeta brasileiro que hoje celebra 60 anos
O Homem Público N. 1
Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.
Ana Cristina Cesar*
*no 25º aniversário da sua morte, aos 31 anos de idade.
terça-feira, outubro 28, 2008
Peço desculpas
Estou gravemente enfermo. Gostaria de manifestar publicamente minhas escusas a todos que confiaram cegamente em mim. Acreditaram em meu suposto poder de multiplicar fortunas. Depositaram em minhas mãos o fruto de anos de trabalho, de economias familiares, o capital de seus empreendimentos.
Peço desculpas a quem assiste às suas economias evaporarem pelas chaminés virtuais das Bolsas de Valores, bem como àqueles que se encontram asfixiados pela inadimplência, os juros altos, a escassez de crédito, a proximidade da recessão.
Sei que nas últimas décadas extrapolei meus próprios limites. Arvorei-me em rei Midas, criei em torno de mim uma legião de devotos, como se eu tivesse poderes divinos. Meus apóstolos - os economistas neoliberais - saíram pelo mundo a apregoar que a saúde financeira dos países estaria tanto melhor quanto mais eles se ajoelhassem a meus pés.
Fiz governos e opinião pública acreditarem que o meu êxito seria proporcional à minha liberdade. Desatei-me das amarras da produção e do Estado, das leis e da moralidade. Reduzi todos os valores ao casino global das Bolsas, transformei o crédito em produto de consumo, convenci parcela significativa da humanidade de que eu seria capaz de operar o milagre de fazer brotar dinheiro do próprio dinheiro, sem o lastro de bens e serviços.
Abracei a fé de que, frente às turbulências, eu seria capaz de me auto-regular, como ocorria à natureza antes de ter seu equilíbrio afetado pela ação predatória da chamada civilização. Tornei-me onipotente, supus-me onisciente, impus-me ao planeta como onipresente. Globalizei-me.
Passei a jamais fechar os olhos. Se a Bolsa de Tóquio silenciava à noite, lá estava eu eufórico na de São Paulo; se a de Nova York encerrava em baixa, eu me recompensava com a alta de Londres. Meu pregão em Wall Street fez de sua abertura uma liturgia televisionada para todo o orbe terrestre. Transformei-me na cornucópia de cuja boca muitos acreditavam que haveria sempre de jorrar riqueza fácil, imediata, abundante.
Peço desculpas por ter enganado a tantos em tão pouco tempo; em especial aos economistas que muito se esforçaram para tentar imunizar-me das influências do Estado. Sei que, agora, suas teorias derretem como suas ações, e o estado de depressão em que vivem se compara ao dos bancos e das grandes empresas.
Peço desculpas por induzir multidões a acolher, como santificadas, as palavras de meu sumo pontífice Alan Greenspan, que ocupou a sé financeira durante dezanove anos. Admito ter ele incorrido no pecado mortal de manter os juros baixos, inferiores ao índice da inflação, por longo período. Assim, estimulou milhões de usamericanos à busca de realizarem o sonho da casa própria. Obtiveram créditos, compraram imóveis e, devido ao aumento da demanda, elevei os preços e pressionei a inflação. Para contê-la, o governo subiu os juros... e a inadimplência se multiplicou como uma peste, minando a suposta solidez do sistema bancário.
Sofri um colapso. Os paradigmas que me sustentavam foram engolidos pela imprevisibilidade do buraco negro da falta de crédito. A fonte secou. Com as sandálias da humildade nos pés, rogo ao Estado que me proteja de uma morte vergonhosa. Não posso suportar a idéia de que eu, e não uma revolução de esquerda, sou o único responsável pela progressiva estatização do sistema financeiro. Não posso imaginar-me tutelado pelos governos, como nos países socialistas. Logo agora que os Bancos Centrais, uma instituição pública, ganhavam autonomia em relação aos governos que os criaram e tomavam assento na ceia de meus cardeais, o que vejo? Desmorona toda a cantilena de que fora de mim não há salvação.
Peço desculpas antecipadas pela quebradeira que se desencadeará neste mundo globalizado. Adeus ao crédito consignado! Os juros subirão na proporção da insegurança generalizada. Fechadas as torneiras do crédito, o consumidor se armará de cautelas e as empresas padecerão a sede de capital; obrigadas a reduzir a produção, farão o mesmo com o número de trabalhadores. Países exportadores, como o Brasil, verão menos clientes do outro lado do balcão; portanto, trarão menos dinheiro para dentro de seu caixa e precisarão repensar suas políticas econômicas.
Peço desculpas aos contribuintes dos países ricos que vêem seus impostos servirem de bóia de salvamento de bancos e financeiras, fortuna que deveria ser aplicada em direitos sociais, preservação ambiental e cultura.
Eu, o mercado, peço desculpas por haver cometido tantos pecados e, agora, transferir a vocês o ônus da penitência. Sei que sou cínico, perverso, ganancioso. Só me resta suplicar para que o Estado tenha piedade de mim.
Não ouso pedir perdão a Deus, cujo lugar almejei ocupar. Suponho que, a esta hora, Ele me olha lá de cima com aquele mesmo sorriso irônico com que presenciou a derrocada da torre de Babel.
Frei Betto*
*escritor e teólogo da libertação brasileiro
Publicado originalmente no Adital
segunda-feira, outubro 27, 2008
FRATERNIDADE
Há quem venha como eu por estranhos caminhos
Há quem voe como eu por estranhos espaços
Há quem ande nas asas do vento
e quem suba mais alto
que o vôo mais alto
dos pássaros.
Repartir-se mais simples que o pão
dar-se lhano qual água
estendidas mãos magras tocar como quem colhe
um fruto
há quem saiba.
Nos descantos
da morte
acalanto
há quem cante.
Há quem vague como eu. Por desertos
navegue.
Quem se perca
por poucas doçuras. Desatinos
quem faça.
As amarras da terra, talvez, há quem parta.
Todo tédio do mundo
há quem desça até o fundo.
Há quem traga
também, como eu,
enterrado nos ossos
este humano cansaço.
Bernadette Lyra
domingo, outubro 26, 2008
Dinossauro Excelentíssimo
Houve velórios nos outeiros, altares à volta do retrato do Imperador. Discursos também, e muitos. Versos de despedida, lágrimas de sobreaviso. Os jornais anunciavam em letras de caixão alto que para grandes povos, grandes desastres.
Longe, em Cu de Judas, os camponeses excursionistas sabiam que iam ser chamados ao funeral e punham um olho no calendário, outro nas sementeiras, interrogando-se se viria em má altura. Nas repartições públicas suspirava-se fundo: desgraça por desgraça, ao menos que a morte calhasse em tal dia assim e assim para haver ponte de fim de semana. Os comerciantes inquietavam-se: feriados de luto nunca beneficiavam senão os da capital. Os presos sonhavam com amnistias e as beatas com embaixadas de estrangeiros em missas de grande pompa.
José Cardoso Pires, excerto de Dinossauro Excelentíssimo.
sábado, outubro 25, 2008
Irmão
carruagens alucinantes
de heroísmos rebeldes e sadios
heroísmos emprestados à vingança cobarde
de sermos Irmãos.
ouviste? Irmãos!
vidros partidos
pés
escoriações
pés
vidros partidos
plantas de
pés
rasgadas
por detalhados e pequenos pedaços de
vidros partidos
cheios de esquinas
lanças
facas afiadas
de corte ancestral.
ouviste? Irmão
os pés sangram a tua ausência desconhecida
os pés sangram todas as vitórias
todos os heroísmos rebeldes
cobardes
de vingança embebida
cujo suco não partilhámos...
ouviste? Irmão
os pés sangram por ti...
Álvaro Seiça Neves*
*poeta aveirense que hoje completa 25 anos
sexta-feira, outubro 24, 2008
Tarde piou!
Tendo estado à frente da Reserva Federal durante 18 anos, o outrora “sábio” Alan Greenspan reconheceu ontem, perante o Congresso, que cometeu um erro ao confiar que os livres mercados se podiam auto-regular e que tinha falhado ao não prever o poder auto-destrutivo da desenfreada política de crédito hipotecário.
Embora nunca seja tarde para reconhecer um erro, há erros e erros. E o do celebrado “maestro” provocou danos que dezenas de milhões já sentiram e muitas centenas de milhões mais ainda vão sofrer. Mais um “ídolo” com pés de barro. Será que estes “monstros sagrados” conseguirão dormir descansados sobre a miséria de incontáveis seres humanos?
quinta-feira, outubro 23, 2008
Dardos
Já tinha sido distinguido, há dias, pelo amigo dos bonstempos hein?! com o prémio dardos e agora veio nova distinção do outro lado do Atlântico, pela mão da helen e do seu videversos, pelo que, como mandam as normas, aqui deixo a minha escolha, um tudo nada influenciada pela tentativa de não repetição:
Inflorescências
Grilinha
Jardim de luz
Sorumbático
Crítica: Blog
O tempo das cerejas
As bodas de Fígaro
Coisas de vidas
O vento contra a cara
Anacruzes
Blue Velvet
Esquerda Republicana
Bloco de notas
Ana de Amsterdam
Insónia
Façam o favor de continuar a acertar no alvo!
Já tinha sido distinguido, há dias, pelo amigo dos bonstempos hein?! com o prémio dardos e agora veio nova distinção do outro lado do Atlântico, pela mão da helen e do seu videversos, pelo que, como mandam as normas, aqui deixo a minha escolha, um tudo nada influenciada pela tentativa de não repetição:
Inflorescências
Grilinha
Jardim de luz
Sorumbático
Crítica: Blog
O tempo das cerejas
As bodas de Fígaro
Coisas de vidas
O vento contra a cara
Anacruzes
Blue Velvet
Esquerda Republicana
Bloco de notas
Ana de Amsterdam
Insónia
Façam o favor de continuar a acertar no alvo!
quarta-feira, outubro 22, 2008
Memórias
Anteontem fui ao psiquiatra, pois está na moda. Aliás, foi um psiquiatra quem resolveu o grande problema de minha vida: fugiu com minha noiva...
Depois de mil blá-blá-blás, ele disse que eu era um pouco complexado (frase realmente inédita de um psiquiatra) pois que me preocupava muito com mulher bonita (o que, cá entre nós, é sempre melhor do que ser complexado por preocupar-se com mulher feia...), concluindo, que eu acabaria ficando louco. E quase fiquei mesmo quando vi a conta: Quinhentos contos! Doutor, - disse eu – vim aqui para resolver os meus problemas, não os seus...
Na verdade meu grande complexo é o de sentir que os meus lindos e coloridos complexos preocupam mais aos outros que a mim próprio.
Sou pequenininho, feio e narigudo, mas, apesar disto, nunca tive reclamações. Tenho um metro e sessenta e quatro vírgula três (o vírgula três é importante. Afinal é o meu record!) Mas para a minha namorada digo que sou da estatura mediana, ao que ela insiste em dizer medi anã... Mas isto é relativo. No Japão por exemplo, quando me apresentei, uma japonesinha falou para outra: - Quem é aquele loiro alto, lá na porta?
A grande massa (feminina entende-se. Pois muito homem junto, no máximo dá torcida de futebol ou alistamento militar) insiste em dizer que se eu tivesse mais 20 cm e mais 20 milhões, seria o homem ideal. Ora, se eu tivesse mais 20 milhões, não precisaria dos 20 cm, claro!
Sou compositor por motivação. Fiz para as minhas namoradas, uma modinha de amor, cada vez que alguma me traía. Num total de 645 composições. Muita gente acha graça, mas o importante não é ser traído. O importante é que a mulher da gente seja bela. Pois é sempre melhor dividir um prato de morangos com os amigos que comer sozinho uma prato de merda...
Muitos leitores podem escandalizar-se com a palavra merda. Mas não vejo porquê. AFINAL A SITUAÇÃO DO PAÍS NÃO ESTÁ OUTRA COISA... Há dez anos atrás a palavra provocava grande impacto. De aí então o Brasil foi evoluindo... evoluindo...
Segundo a Medicina, sei que vou morrer louco (já fiz até meu epitáfio: Juca Chaves – nasceu como um covarde puxado por ferros e morreu como um herói, no campo de batalha, nos braços da mulher amada). Então, resolvi deixar algumas memórias (agora na internet, uma maravilha) como algumas dívidas também.
Juca Chaves
(Compositor, músico e humorista brasileiro que hoje celebra 70 anos)
terça-feira, outubro 21, 2008
Imagens interiores
Mistério das imagens interiores.
Imersas nestes mares de abandono
as sementes de fogo geram flores:
rosas de pó nas lâminas do Outono.
Transfigurada, a fria luz de sono
vela de cinza a face dos pastores,
e os súditos do tempo, e os reis sem trono,
sob o mudo legado de outras dores.
Na áspera latitude um rio corre
branco de eternidade. As nebulosas
vão-se formando, enquanto o sonho morre.
Há pássaros absortos na obcecada
cisma da solidão; e mãos ansiosas
abrem portas de sombra para o nada.
Waldemar Lopes*
*poeta pernambucano
segunda-feira, outubro 20, 2008
Discriminação
Os estrangeiros que sejam portadores do vírus da SIDA (ainda) não podem entrar nos Estados Unidos, o que coloca o país “exportador” da democracia e dos direitos humanos na interessante companhia da Arábia Saudita, da Líbia e do Sudão.
A proibição surgiu no fim dos anos oitenta, no meio da histeria e falta de informação que rodeou o aparecimento do HIV/SIDA. E, apesar de, pouco tempo depois, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) ter reconhecido que o vírus não se transmitia através de contactos sociais, o medo irracional levou a que o Congresso transformasse a proibição em lei.
Como consequência, refugiados, investigadores e estudantes seropositivos têm sido proibidos de entrar nos Estados Unidos, o que levou a que, durante 15 anos, não se realizasse no país nenhuma conferência científica importante sobre HIV/SIDA. Acresce que mesmo os estrangeiros que têm autorização de residência, se contraírem o vírus vêm ser-lhes automaticamente negado qualquer pedido de cidadania. Ainda há pouco tempo li um artigo de um escritor inglês, residente legalmente nos Estados Unidos há mais de 20 anos, que diz não conseguir obter a cidadania apesar de ser um dramaturgo muito representado porque, entretanto, contraiu o vírus.
No fim de Julho, O Congresso acabou com a proibição para os estrangeiros seropositivos que queiram visitar os Estados Unidos ou emigrar para lá, mas tudo continua na mesma pois o HHS ainda não teve tempo de (ou não quis) rever as regras.
Assim vai o país das liberdades no final de 2008.
domingo, outubro 19, 2008
O rio
Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.
Um rio nasceu.
Vinicius de Moraes
sábado, outubro 18, 2008
O picheleiro
“Quem anda à chuva, molha-se” e “apanha-se mais depressa um mentiroso do que um coxo”, são ditados portugueses que assentam como uma luva ao candidato republicano à presidência dos Estados Unidos e ao novo herói da direita estado-unidense, um tal “Joe the Plumber”.
Samuel Joe Wurzelbacher era, até há uma semana, um modesto operário funileiro que vive nos arredores de Toledo, no Ohio mas, no passado fim de semana, interpelou Barack Obama durante uma visita para se queixar das propostas do candidato democrata sobre impostos, perguntando-lhe se acreditava no sonho americano e afirmando que estava consternado com a perspectiva de ter de pagar impostos mais elevados como dono de um pequeno negócio.
Com a cobertura mediática que rodeia a campanha, o Joe tornou-se uma estrela dos republicanos, de tal forma que McCain o citou vezes sem conta (houve quem contabilizasse pelo menos duas dúzias de referências) no último debate entre candidatos, mais parecendo que o Joe the Plumber tinha substituído Palin na corrida à vice-presidência.
Mas, segundo outro velho ditado, “não há bela sem senão” e a nova estrela passou a ser alvo de um escrutínio cerrado que veio revelar algumas coisas interessantes. Afinal, Joe nunca teve uma licença de picheleiro, a qual é obrigatória para exercer a profissão em Toledo e nos municípios vizinhos, não pertence à Associação dos Picheleiros Unidos local, nunca completou um curso de aprendizagem e não pertence ao sindicato dos picheleiros, que apoia Obama. Além disso, de acordo com especialistas em impostos, não é provável que, quer os seus impostos pessoais quer os do negócio onde trabalha, vejam os seus impostos aumentar, antes pelo contrário. Como Joe trabalha com o dono de uma pichelaria que apenas tem os dois como empregados, mesmo que o rendimento do negócio, após despesas, fosse dividido pelos dois, ambos veriam os seus impostos baixar.
Pelos vistos, a expressão de McCain na fotografia acima é mais provocada pelo mentir do que pelo coxear. É que o picheleiro saiu-lhe pior do que o José e a Maria ao Portas.
sexta-feira, outubro 17, 2008
Um mundo
É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo.
António Ramos Rosa - in Acordes
(no dia do 84º aniversário)
quinta-feira, outubro 16, 2008
A tempestade de gelo e outras histórias
Onde se fala do horror dos islandeses por terem passado, da noite para o dia, de país rico a país falido, num conjunto de acontecimentos digno de um novo romance Kafkiano; da agitação dos londrinos com o desastre do outro lado do Atlântico, que lhes traz de volta a recordação dos bombardeamentos da II Guerra Mundial e que já consumiu parte das suas reformas; do espanto dos irlandeses, que se interrogam sobre o que aconteceu ao Tigre Celta e sobre se o sua riqueza alguma vez existiu; e da calma com que os alemães encaram a tempestade que vai varrendo as economias, um pouco por todo o lado.
Cá no rectângulo, a avaliar pelas reacções ao OE, tudo vai bem...
quarta-feira, outubro 15, 2008
terça-feira, outubro 14, 2008
Falta de ética e prepotência


Uma investigação conduzida por uma Comissão de Inquérito (dominada pelos republicanos) do Senado e da Câmara dos Representantes do Estado do Alasca, cujos resultados foram divulgados na sexta feira, dia 10, considerou que a governadora Sarah Palin infringiu a ética governativa do Estado, abusando do seu poder de governadora para levar a cabo uma vingança pessoal contra o ex-cunhado que se tinha divorciado da irmã num disputado processo judicial. Quando foi eleita para o cargo, a governadora tentou que o comissário da polícia estadual despedisse o ex-cunhado, um elemento da policia montada do Alasca. Como o comissário não se curvou à sua vontade, foi demitido. O inquérito, que alguns republicanos tinham tentado bloquear (o que o Supremo Tribunal do Alasca recusou), concluiu que a Governadora, para além da sua própria pressão junto do comissário, autorizou abusivamente o seu marido a usar recursos estaduais, tais como o gabinete da Governadora e os seus recursos, incluindo o acesso a vários empregados estaduais (num total de 7) para conseguir a demissão do ex-cunhado, num claro processo de vingança pessoal. De realçar que a Governadora, depois de se ter comprometido a colaborar no inquérito, quebrou a sua promessa após ter sido escolhida como candidata à vice-presidência. Depois do incitamento ao ódio racial contra Obama e de ter levado turbas ululantes a gritar “traidor”, “mentiroso”, “terrorista”, “matem-no” e “cortem-lhe a cabeça”, mais uma “flor” no ramalhete de uma sacripanta fundamentalista e pseudo-defensora da moral e dos bons costumes. Cáspite!
segunda-feira, outubro 13, 2008
Auto-retrato
Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.
Manuel Bandeira
domingo, outubro 12, 2008
Transuniversal
As constelações do Zodíaco
estarão no roteiro das viagens.
Iremos a Aldebarã,
afrontando as aspas de ouro
de Tauro.
Na balança estelar de Libra,
buscará equilíbrio
nosso lastro de sonho.
Áries e Capricórnio
darão marradas de luz
nas cosmonaves.
As setas de Sagitário
transpassarão os atrevidos invasores.
A precisão objetiva da viagem
perturbará os presságios dos signos.
Iremos a Aldebarã.
Helena Kolody*
*poetisa brasileira
sábado, outubro 11, 2008
Existem católicos e católicos
Divulgou-se recentemente o atual número de católicos no mundo: algo em torno de 1,13 bilhão, o que corresponde a cerca de 17% da população mundial. Sabemos, contudo, que há católicos e católicos. Arrisco a classificação de pelo menos quatro tipos.
Primeiramente, o famoso católico não-praticante. Milhões de pessoas batizadas, sem grande contato com a religião. Não têm vida sacramental estável, não são contra nem a favor das regras do jogo, porque as desconhecem. Católicos para quem as epístolas foram as irmãs dos apóstolos... Não-praticante do catolicismo, este católico pratica um pouco de tudo, e vai levando. Sua vulnerabilidade espiritual pode levá-lo a aderir a qualquer coisa, até mesmo a movimentos católicos...
Temos o não-católico praticante. Aquele que pratica a caridade sem saber que é virtude teologal. Que acredita em Deus sem saber que no Deus Uno e Trino acredita. Atira onde não vê e acerta onde não espera: tem na esperança outra virtude oculta. O não-católico pode seguir outras religiões, pode considerar-se adversário do catolicismo. Talvez seja até melhor, para ele, não saber que é canonizável. Está a salvo da vaidade de querer ser santo. A prática longe da instituição, longe da Igreja, mas perto de Deus.
O praticante não-católico é uma aberração interessante. Missa diária, terço diário, confissão semanal, mortificação, Bíblia, conhecimentos teológicos, apologética, liturgia, proselitismo, mas esquecimento do essencial. É capaz de humilhar o irmão, achando que recebeu do Pai autorização para tanto. Beija a mão do papa... e depois abraça o demônio. Despreza o não-praticante, o agnóstico, e fica imaginando como pode Deus ser tão descuidado, deixando hereges e ateus soltos por aí.
E há o católico por um triz, desconfiado de sua própria catolicidade. Pratica o que manda a consciência, mantendo um olho no padre e outro na missa. Procura ser menos papa do que o Papa. Basta um. Quer separar o joio do trigo, mesmo que digam ser tudo trigo. Quer descobrir o trigo no meio do joio, mesmo que digam ser tudo joio. Os sacramentos o alimentam, mas está sempre com fome. Reza sabendo que Deus sabe mais.
Não sei como o Vaticano vai lidar com esses e outros tipos de católicos. Os números escondem a realidade. Cristo disse: "Sou o caminho". Mas não se tratava de uma rodovia. O caminho no meio do deserto não tem muretas nem semáforos.
Gabriel Perissé*
*professor e escritor
Publicado no jornal digital Correio da Cidadania
sexta-feira, outubro 10, 2008
HOMEM SÓ
Além da janela, os ramos verdes
e um resto de tarde se apagando.
Mulheres de branco, os rostos parados e frios,
passam.
Algumas colhem flores friamente,
como se não colhessem flores,
Homens tristes e abandonados descem do alto da rua.
Vem do trabalho que ficou lá no fim da cidade,
e trazem para suas mulheres suor, pão quente e amor.
Sempre há amor nos homens quando as tardes findam.
E sempre haverá mulheres de branco apanhando flores,
quando as tardes findam.
Há amor também no homem só
que está por trás da janela
e se embala numa rede azul.
Um azul que vai e vem e que arranca do homem
uma canção que se apaga com a tarde
e que vai enchendo de noite
o entardecer do quarto.
Berilo Wanderley*
*poeta brasileiro
quinta-feira, outubro 09, 2008
Executado há 41 anos
Os olhos de sombra olham mas não vêem
As bocas de fogo falam mas não dizem
Outubro traz um luto sem remédio
Com seus pássaros em círculo dentro das crateras
Sua chuva de cinzas sobre as sílabas da América.
Manuel Alegre (in Che – Caminho 1997)
quarta-feira, outubro 08, 2008
apPAlLINg
Esta mulher é aterradora, tenebrosa e perigosa, muito perigosa.
Aterradora porque, com o ar mais seráfico e beatífico deste mundo, comporta-se como uma autêntica rainha da desinformação, espalhando, com falsa simplicidade, mentiras que conseguem convencer e levar ao delírio turbas ululantes. Ao acusar, repetidamente, Obama de andar a confraternizar com um terrorista, citando um artigo do The New York Times e tirando conclusões que a leitura do referido artigo desmente, ainda aproveita a oportunidade para um autêntico ataque racista ao afirmar que “este não é um homem que vê a América da mesma forma que vós e eu vemos a América”.
Tenebrosa porque não olha a meios para atingir os seus fins, pisando amigos e inimigos como o comprova a sua carreira política e, quando os atinge, não hesita em levar a cabo a mais crua vingança. E nem tampouco teve engulhos em utilizar o seu bebé com Sindroma de Down para encobrir a gravidez da filha mais velha durante a sua consagração na convenção republicana!
Muito perigosa porque, considerando a idade de John McCain, tem grandes possibilidades de vir a assumir o poder total sobre o maior arsenal militar do mundo. A sua ignorância, o seu populismo estudado, a sua capacidade de dissimulação e a sua superficialidade, aliados à sua crença na verdade literal da Bíblia, Livro do Apocalipse incluído, constituem uma seriíssima ameaça ao futuro da humanidade. Afinal de contas, se decidir que a vontade de Deus é carregar no botão das armas nucleares, fá-lo-á convicta de que ela e os “bons” vão para o “paraíso”, ao passo que os "maus" irão para o “inferno”. Não soa a nada familiar?
Esta mulher é aterradora, tenebrosa e perigosa, muito perigosa.
Aterradora porque, com o ar mais seráfico e beatífico deste mundo, comporta-se como uma autêntica rainha da desinformação, espalhando, com falsa simplicidade, mentiras que conseguem convencer e levar ao delírio turbas ululantes. Ao acusar, repetidamente, Obama de andar a confraternizar com um terrorista, citando um artigo do The New York Times e tirando conclusões que a leitura do referido artigo desmente, ainda aproveita a oportunidade para um autêntico ataque racista ao afirmar que “este não é um homem que vê a América da mesma forma que vós e eu vemos a América”.
Tenebrosa porque não olha a meios para atingir os seus fins, pisando amigos e inimigos como o comprova a sua carreira política e, quando os atinge, não hesita em levar a cabo a mais crua vingança. E nem tampouco teve engulhos em utilizar o seu bebé com Sindroma de Down para encobrir a gravidez da filha mais velha durante a sua consagração na convenção republicana!
Muito perigosa porque, considerando a idade de John McCain, tem grandes possibilidades de vir a assumir o poder total sobre o maior arsenal militar do mundo. A sua ignorância, o seu populismo estudado, a sua capacidade de dissimulação e a sua superficialidade, aliados à sua crença na verdade literal da Bíblia, Livro do Apocalipse incluído, constituem uma seriíssima ameaça ao futuro da humanidade. Afinal de contas, se decidir que a vontade de Deus é carregar no botão das armas nucleares, fá-lo-á convicta de que ela e os “bons” vão para o “paraíso”, ao passo que os "maus" irão para o “inferno”. Não soa a nada familiar?
terça-feira, outubro 07, 2008
SÓ
Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alva
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demónio, ante meus olhos.
Edgar Allan Poe
segunda-feira, outubro 06, 2008
Galinha de Cabidela
André em seu cubículo. Amontoando bituca na xícara. O bico de luz pendurado na ponta do fio como uma flor seca. O ar empestado de roupa usada a corromper-lhe o olfato. Precisa largar dos vícios, sair um pouco, dizia a mãe no mínimo uma vez por dia batendo na porta a resmungar não sei o que mais.
André num puxadinho dos fundos, adestrando a manada dos pensamentos no computador. A luz do monitor reflete um acinzentado de ectoplasma – seda japonesa, poemas de Rimbaud e muita tesão/ no momento deixo assim a decisão/guardo um pouco mais meu arco-íris e, rápido/ passo a chave no porão.
Ao perceber a pobreza das rimas teve vontade de torcer-lhe o pescoço. Um suspiro de inveja das letras do Renato Russo enquanto deletava o poema. Torcer o pescoço daquela safada, aquele pescocinho que tanto cobrira de beijos. Na curva da orelha o interruptor do desejo. Quantas vezes quis mergulhar no seu rabo e pronto, mas estava sempre atento aos prelúdios de Vanessa - diz como! - a criatividade masculina posta à prova para tornar mais prazerosas as brincadeiras de tortura - diz quando! - é verdade que se fartava, mas com todo carinho do mundo e agora... Aquela vagabunda! Pois, agora, iria sangrar seu gogó do mesmo jeito que a mãe fazia.
Espiou pela fresta da memória e viu-se agarrado à ponta do avental, lá em cima a boca materna tensa no dever de desnucar galinha. Depois, duas mãos com cheiro de pena e de titica dando um jeito em seu topete descomposto de poeira e estripulia, o sol fazendo brilhar o visgo vermelho escuro colhido na bacia, a vida se esvaindo ao compassado do estrebucho da franguinha. Cabidela. Quando guri, não lhe parecia cruel o prato. Pelo contrário. Ao terminá-lo, lambia.
Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Dependendo da causa, sacrifícios valem a pena. Deu um tempo na Legião e vazou pra rua. Em cada canto pode-se comprar um pouco de inspiração. A manha é ir fundo. De plantão no postinho da esquina, o mensageiro da coragem. Acomodou algumas gramas no bolso esquerdo do jeans, o que não tinha furo. Pensou na mãe doente ao subir de dois em dois os degraus do prédio da frente. Em cada casa sempre tem alguém de cama.
O ouvido de André colado na porta. - Você fica tão, tão pilhado...Caraca, que nariz enorme seu lobo - Vanessa ria, ria alto, a vadia. Os olhos esbugalhados de André na fechadura. Ela no troço do vizinho e o vizinho no teco. Ela. A galinha.
Tanta desenvoltura só quando se ama. O que entra pelas pupilas, arde feito lava incandescente. Com dois golpes certeiros risca a cena do mapa. Estátuas e cofres e paredes pintadas. Será que todo sangue fica preto à luz da lua? Depois, vai pela Venâncio até o amanhecer do dia. Quando perversidades dão lugar à moda nas vitrines.
Myrian Beck
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
domingo, outubro 05, 2008
Um poema simples
Amanhece. Debruçada
à janela ,vejo o movimento
dos pescadores.
Há contagiante energia.
A monotonia, se passa,
não encontra onde estacionar.
Por alguns minutos,
sonho pertencer
a tão vibrante universo.
Integro-me, desatando os nós
que me prendiam
à opacidade dos meus dias.
Belvedere Bruno*
*poetisa brasileira
sábado, outubro 04, 2008
O boi do Orfeu
Como sempre fazia, Jocelínio foi cobrar o aluguel de uma casa justamente na hora em que o inquilino não estava lá. Mas a Carmesinda, esposa dele, estava. E era o que interessava. Há meses ele só ia cobrar o aluguel no horário de trabalho do Agenor, aceitava o cafezinho que e Carmesinda fazia na hora para ele e tentava algumas intimidades maiores. Ela não topava, ele saía doidão de lá.
Pois, dessa vez, ela estava bem mais acessível. Conversa vai, conversa vem, em vez do café, ela ofereceu um licorzinho de jabuticaba, tomou um cálice junto e, para resumir, pouco tempo depois estavam na cama, peladinhos da silva.
Mas, justamente nesse dia, o pedreiro Agenor resolveu parar o trabalho mais cedo, não estava com saco para ficar rebocando paredes. Foi para casa, com intenção de ficar à toa o resto da tarde. Entrou quieto, não viu a mulher na sala, nem na cozinha, foi para o quarto de casal, de onde vinham alguns ruídos, e deu de cara com aquela cena.
Se já tinha raiva de Jocelínio por ter que lhe pagar um aluguel que achava injusto, ali tinha mais um motivo para dar-lhe uma surra. E deu. Encheu o Jocelínio de porretadas, deixando sobrar algumas para a Carmesinda. Apesar dos ferimentos doloridos, a grande preocupação do Jocelínio era outra, aquela do “que é que eu vou dizer lá em casa”.
- Dita, olha só o que aquele maldito boi do Orfeu fez comigo – inventou para a esposa. – Eu vinha vindo da roça e ele me pegou de jeito. Desgraçado, eu ainda mato aquele boi...
Ela fingiu que acreditou. Mas, desse dia em diante ninguém se lembra mais do nome do Jocelínio, pois ele só é conhecido pelo apelido, boi do Orfeu.
Mouzar Benedito
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
sexta-feira, outubro 03, 2008
700.000.000.000 de dólares
Setecentos mil milhões de dólares é um balúrdio de massa. Um sete seguido de onze zeros!
Se eu fosse cidadão estado-unidense, a esta hora estava pior do que estragado pois, à segunda tentativa e numa jogada que conseguiu inverter a habitual ordem das aprovações (é usual votar primeiro a Câmara dos Representes e só depois o Senado), o Mr. W. conseguiu levar os Representantes a aprovar o plano Paulson que tinham recusado na segunda feira e que representa a privatização dos lucros e a socialização dos prejuízos.
Como cidadão português sem quaisquer responsabilidades políticas, considero que, para já, os contribuintes estado-unidenses já comeram as favas todas e as perspectivas de aí vir uma abada para nós comermos ficaram substancialmente reduzidas.
Como diria o outro, é a vida!
Mas, mesmo assim, não vejo motivos para festejar. É que o cónego Sarkozy pretende fazer o mesmo na EU.
quinta-feira, outubro 02, 2008
Luta pela sobrevivência
Tim Downing é um escritor e jornalista com reputação de ter um requintado sentido de humor e a sua coluna de hoje, no Guardian, é uma prova disso.
No meio da crise financeira que domina a cena internacional e a campanha presidencial dos Estados Unidos, analisa a intrigante luta pela sobrevivência entre dois velhos adversários: o urso polar e a candidata à vice-presidência pelos republicanos, Sarah Palin.
Utilizando uma fina análise SWOT (forças, fraquezas, oportunidades e ameaças), percorre as várias componentes da luta, desde o habitat até à maior ameaça à sobrevivência, passando pelo estado de conservação, pelo arsenal predatório, pelo impacto nas mudanças climáticas e pelos maiores apoiantes de cada um dos oponentes.
Para saborear com gosto, aqui.
Tim Downing é um escritor e jornalista com reputação de ter um requintado sentido de humor e a sua coluna de hoje, no Guardian, é uma prova disso.
No meio da crise financeira que domina a cena internacional e a campanha presidencial dos Estados Unidos, analisa a intrigante luta pela sobrevivência entre dois velhos adversários: o urso polar e a candidata à vice-presidência pelos republicanos, Sarah Palin.
Utilizando uma fina análise SWOT (forças, fraquezas, oportunidades e ameaças), percorre as várias componentes da luta, desde o habitat até à maior ameaça à sobrevivência, passando pelo estado de conservação, pelo arsenal predatório, pelo impacto nas mudanças climáticas e pelos maiores apoiantes de cada um dos oponentes.
Para saborear com gosto, aqui.
quarta-feira, outubro 01, 2008
Mas o que é a escola?
A escola não é ilha isolada no oceano social. Não é lugar para guardar crianças, ou reformá-las, embora possa ajudar, orientar e até alimentar. A escola não é paraíso. Nem inferno. A escola não está aí por acaso. A escola salvará a sociedade se a sociedade salvar a escola.
Os professores na escola não são mágicos, não são heróis (embora heroísmo não falte a muitos deles), não são gênios (muito menos da lâmpada), não são mercenários, não são santos, não são famosos, não são poucos, não são suficientes, não são muitos, não são o que pensamos que são.
Os professores são pessoas cuja profissão é ajudar na humanização de outras pessoas, os alunos. Cabe aos professores avaliarem os alunos. Avaliação não é punição. Não é acusação. Não é vingança. Não é fatalismo. Não é perseguição. Não é condescendência.
Cabe aos pais acompanharem os filhos. Conversar com os filhos sobre a escola. Conversar com a escola sobre os filhos. Conversarem pai e mãe entre si sobre a escola que os filhos freqüentam.
Cabe aos alunos entenderem a escola. Cuidarem dela. Defendê-la. A escola não é ponto de tráfico de drogas. A escola não é a sede do tédio. Não é apenas lugar de encontro. Mas o que é a escola mesmo?
A escola não é uma idéia vaga. Não é um lugar onde há ou não há vagas. Não é vagão de trem onde entramos e do qual saímos quando chega à próxima estação.
A escola não é a sua quadra de esportes, não é um conjunto de salas de aula, não são suas paredes (sujas ou limpas), janelas (abertas ou fechadas), portas (com cadeados ou não), armários (vazios ou cheios), escadas (perigosas ou seguras), computadores (novos ou obsoletos), bibliotecas (reais ou fictícias). A escola não é o que vemos.
A escola não é arquivo morto. A escola não é cabide de empregos. Não é moeda de troca política. Não é campo de batalha. Não é um curso de idiomas. Não é empresa competitiva. A escola não é clube, não é feira, não é igreja, não é partido.
A escola, o que é? Sabe a escola nos dizer o que ela é? Alguém sabe?
A escola é um problema insolúvel.
A escola é uma probabilidade.
A escola é uma experiência.
A escola é uma esperança.
Gabriel Perissé*
*professor e escritor
Publicado no jornal digital Correio da Cidadania
terça-feira, setembro 30, 2008
(Con)junções
A gente se gosta
A gente se goza
A gente se encanta
A gente se espanta
A gente se beija, se cheira, se junta
A gente se entende.
A gente se ama?
na cama no carro no banheiro no sofá
A gente se deita, se cai, se levanta
A gente se briga, discute, se irrita
A gente se escreve, a gente se amansa
se toca, se alisa
A gente se brisa
A gente se chove
A gente se cobre, se ouro, se prata
(a gente se lua ingrata)
- vomita besteiras, escreve asneiras e pede desculpas -
A gente se lua de novo
E se perde,
de novo,
no imenso encantamento manso.
Beatriz Galvão*
*poetisa brasileira
segunda-feira, setembro 29, 2008
Confissões de uma viúva moça
Há dois anos tomei uma resolução singular: fui residir em Petrópolis em pleno mês de Junho. Esta resolução abriu largo campo às conjecturas. Tu mesma nas cartas que me escreveste para aqui, deitaste o espírito a adivinhar e figuraste mil razões, cada qual mais absurda.
A estas cartas, em que a tua solicitude traía a um tempo dois sentimentos, a afeição da amiga e a curiosidade de mulher, a essas cartas não respondi e nem podia responder. Não era oportuno abrir-te o meu coração nem desfiar-te a série de motivos que me arredou da Corte, onde as óperas do teatro Lírico, as tuas partidas e os serões familiares do primo Barros deviam distrair-me da recente viuvez.
Esta circunstância de viuvez recente acreditavam muitos que fosse o único motivo da minha fuga. Era a versão menos equívoca. Deixei-a passar como todas as outras e conservei-me em Petrópolis.
No centenário do falecimento de Machado de Assis, para saborear o seu gostoso conto Confissões de uma viúva moça.
domingo, setembro 28, 2008
sábado, setembro 27, 2008
O retrato nas paredes
As casas como as pessoas
guardam cicatrizes
expostas no rosto do tempo.
Às casas sempre voltamos
nelas a vida anda por trás do que passou
existem na existência indo embora.
As casas onde morei para viver
na afoitosa e lúdica adolescência
abrem rugas na face branca das paredes.
De dentro delas saltam sonhos
que não querem envelhecer
e o menino açoitando o vento nas curvas do rio
que se arrasta na carne azul da paixão.
Barros Pinho*
*poeta brasileiro
sexta-feira, setembro 26, 2008
Faz bem....faz mal...
Acho a maior graça. Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere...
Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos.
Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.
Prazer faz muito bem.
Dormir me deixa 0 km.
Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias.
Brigar me provoca arritmia cardíaca.
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano.
E telejornais... os médicos deveriam proibir - como doem!
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo, faz muito bem! Você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.
Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde!
E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda!
Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca!
Conversa é melhor do que piada.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Economia é melhor do que dívida.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor do que nada!
Luís Fernando Veríssimo*
*no dia do 72º aniversário do autor
quinta-feira, setembro 25, 2008
Mãos
No deserto da insônia
a mão, triste, me acena
nua de anéis e luvas.
Dedos gesto de adeus
anunciam o abandono
da matéria efêmera.
Dos campos do sono
a mesma mão me chama
cintilante de estrelas.
Tento alçar-me da cama
no encalço do convite
mas a carne me amarra.
E enquanto o corpo dura
fico entre a dor da perda
e o desejo do encontro.
Astrid Cabral*
*poetisa brasileira
quarta-feira, setembro 24, 2008
Vocação de rédea
Deu um passo ágil e certeiro feito um bote, se não ficaria para trás. Foi a última a entrar no elevador. Cheio que nem compota. Foi a única a ficar de costas para a porta que, ao fechar, mergulhou-a ainda mais naquele caldo de ruídos e odores. O constrangimento da proximidade imposta disfarçada em olhares que passeiam pela ventilação no teto, pelas luzinhas dos botões que marcam os andares - térreo, por favor.
Restava encarar o compacto grupo de frente. Vibra um celular. Parece uma cigarra aprisionada no bolso de alguém. É do homem que está com a gravata rubra, o cara alto com a gravata impecavelmente disposta sobre o peito. Vibra, de novo. Ele se espreme, pede licença - ela, pois não -, dá um passo a frente, tira o aparelho do bolso, atende.
A distância, antes de um palmo e meio, fica nenhuma. O homem fala, ele fala discretamente, é verdade, mas não tira os olhos de mim, será? Claro, ele está falando com alguém e me encarando, mesmo sem eu devolver o olhar posso sentir, igual à avidez dos operários da construção civil que estendem um tapete de frases toscas enquanto se vai passando. Depende das oscilações hormonais, essas coisas arrepiam a alma ou a pele da gente.
O homem da gravata rubra exposta sobre o tórax, distinto como diria minha avó, ali sussurrando com a boca encostada no aparelho “... a gente pode...” uma pausa mínima potencializa a próxima fala “...te pego depois ...” e foi dizendo outras coisas que não deu pra escutar bem... Nisso, uma bolinha de rimel colou minha pestana de cima na pestana de baixo fazendo-as grudar feito as asas de uma borboleta molhada. Com os dedos em pinça, rápido, pus a pálpebra no lugar, mas ao tentar voltar a mão - desculpa aí, gente, licença -, ao tentar relaxar o cotovelo, cadê espaço? os tornozelos buscando novos pontos de equilíbrio sobre o salto dez que acabou virando, e a mão? a mão teve que firmar-se e fez isso no tecido. Suave. Vermelho. Nele. Por vergonha ou desejo repentino quase me desfaço. Uma fisgada no peito enquanto a saliva desce meio areia na garganta. De repente, meus sonhos recorrentes de ser folha e voar entre os edifícios espionando performances que a madrugada esconde, atravessa que nem espada na mente.
O homem sorriu e pôs o aparelho de volta no bolso interno do casaco. Com os dedos foi subindo da ponta mais alargada da gravata até o pescoço e ficou ali brincando com o nó, o exibido, com aquela gravata descarada, bem na minha frente, gostando de ser tocada, então é isso, um pano desses nasceu pra ser rédea, é isso o que ele quer, uma ou duas voltas bem firmes nas minhas mãos, prontas pra doma. Pois ela ergueu o queixo, decidida, e sustentou aquele olhar de baio.
Desceu na sobreloja. De dois em dois degraus ganhou a rua. Oxigênio. Ao chegar em casa alisou a careca do marido, seu cão doméstico de unhas mal cortadas e patas mal acostumadas sobre a mesinha do centro. Uma coleção de latas de skol decorando o ambiente ao som do futebol.
Tomou um valium e deitou quietinha, só esperando que lhe invadisse o torpor de folha perdida. Mas, naquela noite, sobrevoando a cidade num grande tapete púrpura, mergulhou ao encontro do crepúsculo que incendiava o Cais. Nos galpões do Porto, espremia-se uma multidão, alheia às chamas vertidas do cálice de Tanat que somente ela provara. Aterrissou, então, na Caldas Júnior, enrolada no tapete púrpura para arderem juntos no fogo que consumia os quartos do Grande Hotel.
Pela manhã, rompeu o casulo de edredon. Renascida, feito borboleta.
Myrian Beck
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
terça-feira, setembro 23, 2008
Sê
Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser uma ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.
Pablo Neruda
segunda-feira, setembro 22, 2008
Vida madrasta
A palavra "madrasta" vem do latim vulgar matrasta. Tem a ver com "mãe" (mater), mas no sentido de "mulher do pai", mãe que não é mãe, mulher que se tornou mãe "postiça" na ausência da mãe verdadeira.
A madrasta existia quando a mãe da criança falecia. A madrasta surgia na vida de um órfão como segunda mãe. O mesmo com relação ao padrasto.
Hoje, dado o número de separações conjugais, existem muitos órfãos com mães e pais vivos. A nova esposa é chamada de madrasta de maneira pouco apropriada. Outro expediente é chamar a madrasta de "tia", o padrasto de "tio", o que nada ajuda.
Antigos provérbios pintam a imagem perversa: "Madrasta e enteada sempre andam em batalha", "madrasta, diabo arrasta", "madrasta, o nome lhe basta". Quando alguém quer se queixar da vida diz que a vida lhe foi madrasta. E existirá também a morte madrasta? No caso de padrasto, há um provérbio interessante: "Mais vale pai ruim do que bom padrasto".
A noção é tão forte que virou adjetivo masculino, ampliando a idéia original: "mercado madrasto", "mundo madrasto", "futuro madrasto".
Nas histórias que contamos aos nossos filhos, a madrasta é malvada, irascível, vingativa. A mulher má por definição, a gargalhada sádica ressoando nos ouvidos, a vontade de perseguir. As madrastas cruéis fazem dos contos infantis verdadeiras histórias de terror.
A madrasta da Branca de Neve inveja a beleza da menina. Decide assassiná-la. A megera, para cúmulo do azar, é feiticeira e não tem um pingo de compaixão. Quando manda o caçador matar a menina no meio da floresta, exige que lhe traga como prova do trabalho realizado os pulmões e o fígado da vítima. Sua idéia é cozinhá-los e comê-los!
A madrasta da Cinderela explora a força de trabalho da pobre enteada e não lhe permite conhecer novas oportunidades. Para completar o quadro, a madrasta tem duas filhas que humilham sistematicamente a Gata Borralheira. É preciso que outra figura, a madrinha, venha em auxílio com os poderes mágicos do amor. Madrinha também substitui a mãe ausente, mas é substituta do bem.
Seria grande injustiça apresentar a madrasta como vilã de todas as histórias. Não é certamente um papel fácil. Requer generosidade. Generosidade significa gerar. Gerar um vínculo que não existia antes. Criar com a criança, com o jovem, com a jovem, uma relação de respeito... Para começar.
Gabriel Perissé*
*professor e escritor
Publicado no jornal digital Correio da Cidadania
domingo, setembro 21, 2008
Medo de caminhão
A mula do Zeca era muito boa mesmo, mas tinha uma coisa: não podia ver caminhão que empacava, tinha um baita medo de caminhão.
Numa viagem de Santa Rita a Ventania, Zeca ia tranqüilo em sua mula, num caminho de cavalos e carros de bois. Numa certa altura ela empacou, Zeca correu a espora na sua virilha e nada, não saía do lugar. Zeca se irritou:
- Que é isso... você só empaca quando vê caminhão e não tem caminhão nenhum nessa pastaria! Vamos lá – passava a espora na mula e ela nem se mexia, ficava bufando, de orelhas retesadas.
E o Zeca conta o que tinha acontecido:
- Apeei pra ver o que era, andei um pouco pelo caminho e vi um pedaço de jornal velho lá na frente. Peguei o jornal e descobri o que que era: a mula tinha visto lá de longe – vista boa danada! – uma fotografia dum caminhão no jornal! Ela só atravessou aquele pedaço depois que eu tirei o isqueiro do bolso e queimei o jornal!
Mouzar Benedito
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
sábado, setembro 20, 2008
Do Tempo
No flanco das rochas
a marca de carneiros
emancipados
O giro das cirandas
travando a liberdade das esferas
E na eclosão das uvas, mães do vinho
a saudação telúrica dos pâmpanos
As aranhas tecendo mandalas
os relógios registrando ausências
enquanto a mariposa adeja sem rumo
tentando frustrar a arrogância dos ventos
num incontido descaso do amanhã
Cumprem-se as sentenças do Universo
e o Tempo se traja de compromissos.
Aymar Mendonça*
*poeta brasileiro
sexta-feira, setembro 19, 2008
A realidade da ilha
A costa estava debruada de palmeiras. Subiam erectas ou inclinadas, ou reclinadas contra a luz, e adejavam no ar a sua coma verde a uma altura de trinta metros. O terreno a seus pés era um talude coberto de uma ervagem áspera, retalhado a toda a largura pelas vicissitudes de troncos derrubados de mistura com cocos sorvados e rebentões de palmeira. Por trás de tudo isto havia a escuridão própria da floresta e a mancha branca da clareira. Rafael quedou-se, com uma das mãos apoiada num tronco pardo, e franziu mais uma vez os olhos contra a água rebrilhante. Lá fora, talvez a uma milha de distância, salseiros de espuma babujavam uma ilha de coral, e mais além o vasto mar era de um azul-ferrete. Dentro do arco irregular de coral, a lagoa era ainda como um lago das montanhas - azul de todos os matizes, verde-sombreado e púrpura. A praia entre o terraço de palmeiras e a água era uma fina aduela, aparentemente interminável, pois à esquerda de Rafael, as perspectivas do palmar, da praia e da água reduziam-se a um ponto de infinidade; e sempre, quase visível, havia o calor.
Saltou do terraço. A areia era grossa sob os sapatos pretos e o calor vergastou-o. Deu-se conta do peso da roupa: num sacão, vigorosamente, descalçou os sapatos e arrancou as peúgas com a liga de elástico num só movimento. Em seguida subiu para o terraço, despiu a camisa e quedou-se no meio dos cocos em forma de caveira, com as sombras verdes das palmeiras e da floresta a deslizarem-lhe sobre a pele. Desapertou a fivela do cinto em feitio de serpente, tirou as calças e as cuecas e ficou ali, nu, a mirar a praia e a água faiscantes.
Era já um rapazinho espigadote, doze anos e alguns meses, para ter perdido o estômago proeminente da infância, mas não tinha ainda a idade suficiente para a adolescência o ter tornado desajeitado. Poderia ver-se agora que talvez viesse a ser um pugilista, a julgar pela arca do peito e a largura dos ombros, mas havia uma suavidade na linha dos lábios e nos olhos que não prenunciava o demónio. Acariciava brandamente o tronco da palmeira e, forçado por fim a acreditar na realidade da ilha, tornou a rir deliciado e fez o pino. Pôs-se agilmente de pé, correu ao longo do areal, ajoelhou-se e atirou duplos punhados de areia contra o peito. Depois sentou-se e ficou a olhar para a água com os olhos brilhantes e exaltados.
William Golding
In “O Deus das Moscas” - Colecção Mil Folhas - 2002
quarta-feira, setembro 17, 2008
Contemplação de Apolo
Que sou eu para a poesia?
Um ser oblíquo
a contemplar o cais,
sem nunca ter partido?
Uma voz rouca
que já não canta;
que já não grita
contra a insensatez
de uma existência louca?
Um semideus;
que se consome;
que se consuma
a cada verso;
em cada verso;
sem o menor sentido?
Que sou eu para a Poesia;
senão este ruflar de asas
incendido nas palavras?
João Carlos Taveira*
*poeta brasileiro
No dia do seu 61º aniversário
terça-feira, setembro 16, 2008
O vôo da garça pequena
No final do dia abandonava a guarda. Encostava a arma no muro, limite entre a paisagem e o posto, para sacar a máquina escondida na mochila. Dava as costas para o pátio onde os detentos abasteciam-se de um pouco de luz, pitavam baganas gritando truco, coçavam o saco tramando fugas. Dava as costas ao portão por onde a esperança pouca das esposas circulava e firmando o fuzil entre os tijolos e a coxa – o calo do mingo latejando na botina – fotografava os restos do dia.
O contorno alaranjado dos armazéns no cais. As embarcações talhando as águas em linhas paralelas afastarem-se sempre mais. Fotografava as ilhas. A densidade da vegetação escondendo os casebres e os casebres escondendo uma gente sem sustento. Sem consolo. Merda de vida. Foi há tanto tempo. Era moleque, ainda, quando a tia Cida entendeu por bem fazer negócio com a caçula. Três gurias, como é que eu faço? Vai tu que és a mais ajeitadinha, com essa pinta de atriz em cima da boca, esses tornozelos finos, diz que égua de tornozelo fino é boa de lida, e segurando-a pelas pontas dos dedos, óia que formosura, a fez girar em torno de si mesma. Vai, vai com o moço de chapéu branco, tens sorte, dono de tantos anéis, pode que seja de garantir futuro.
Ela não disse sim. Nem disse não. Como de costume, obedeceu. Cravou os olhos no chão e desceu os cinco degraus que protegiam o barraco contra as cheias no quintal. Sentada no banco traseiro da caminhonete nem fez sinal, nenhum adeus, eu já tinha dezesseis anos, era o irmão mais velho, covarde, não mexeste um dedo pra impedir.
Fotografava o rosa e o violeta contra o azul em degradê no céu. A ponte todinha rebordada de faróis. Nunca mais a vira. Nenhuma notícia. Em março ela completa 25 anos, se estiver viva... por que não evitaste a partida? Já não eras um rapaz? Um verme, isso sim... Daria qualquer coisa para reencontrá-la, poder sentar sob os eucaliptos e chupar laranja do céu, depois segurar firme sua mãozinha e correr até o trapiche, saltar sobre as águas, a garça pequena ensaiando o vôo, VOAR... De noite rir, baixinho / contra a luz da vela projetar sombras nas tábuas carcomidas / rir, apesar do frio que rompe as nossas peles desnutridas / rir, apesar da precocidade das feridas / rir, que rir é sina de criança mal nascida.
De repente, tiros e gritaria devolvem-no ao presente. Parece que um dos detentos venceu o muro farpado e correu na direção do rio. Foge, por caridade, bate as asas pra bem longe do que te condena, volta pra casa! Deslizou as costas no muro, lentamente, até sentar sobre o cimento. Minha garça pequena. Dela guardo uma fotografia três por quatro: Atenção, olha o passarinho! Faltam estes dois dentes aqui na frente, mas se eu espremer um pouco a boca, assim, acho que ninguém percebe, né? Minha menina sem caninos.
Beijou a imagem desgastada trancando de novo aquele tempo entre as dobras da carteira. Com os olhos apertados como quem reza por perdão, esperou a calmaria. Mais alguns minutos e haverá a troca da guarda. Um último registro: o diretor encarando-o, furioso. Close nas sobrancelhas de marandová.
Myrian Beck
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
segunda-feira, setembro 15, 2008
Tão sutilmente ...
Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.
Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.
Lya Luft*
*poetisa e romancista brasileira
domingo, setembro 14, 2008
Visão, tempo e identidade
No espaço de oito dias, perdi os óculos não sei onde, o relógio não sei quando e a carteira de identidade não sei por quê. Se poeta eu fosse, diria ter perdido a visão, o tempo e o meu próprio "eu".
Como sou um "homem idiota", no sentido socrático da expressão, homem comum do qual só se pede a verdade, o certo seria providenciar uma segunda via da carteira de identidade, comprar outro relógio, mandar fazer outros óculos...
Sem a visão, porém, deixei de ler e escrever. A linguagem escura me envolveu. Caverna sem fim, passagens estreitas, escorregão, queda, tropeço, queda.
Como reencontrar a visão sem a visão necessária?
A perda do tempo foi num minuto. As horas demoradas ou a década veloz, tudo parou de passar. Tudo não passa, não chega, não vem. O futuro não passa. O presente não se futuriza. O tempo não há. Sequer posso contemporizar...
Como poderei agora reclamar do tempo, seja fugaz ou interminável? Tempo perdido, perco a noção do certo e do errado. Meus passatempos perdem sua função. Não há mais atrasos ou adiantamentos. Não preciso sofrer se o minuto de dor é longo, se a semana de prazer é num piscar de olhos...
Sem tempo, esqueço a frase "estou sem tempo". O tempo se foi, sumiu, aquela algema no pulso esquerdo foi retirada sem eu perceber.
A identidade era de 1978, rosto imberbe, seriedade adolescente. O que aconteceu comigo nesses últimos 30 anos? As idéias começam a ficar grisalhas. Trocaram de pele.
Vou, no entanto, poupar meu tempo e buscar outra identidade. As impressões digitais são as mesmas. Mudaram as impressões mentais, são outras as tentações, as opiniões, as desilusões.
Em algumas horas, ganhei novo tempo, nova identidade. Resta-me buscar nova visão. Hoje, em qualquer esquina, existem mil olhos à venda, pontos de vista ao alcance do bolso, horizontes bons e baratos.
No começo, é difícil aceitar a nova identidade, essa outra visão, esse maldito... bendito tempo. Jamais serei o mesmo depois desses oito dias de liberdade, cegueira e anonimato.
Identificado, de novo, sei que serei eu a dizer "eu", sem heterônimos a me ajudarem, sem pseudônimos a me protegerem, sem homônimos a me substituírem.
De novo cronometrado, de novo correndo contra o tempo. De novo no caminho longo-curto. Correndo no túnel do tempo. Até o instante final.
Gabriel Perissé*
*professor e escritor
Publicado no jornal digital Correio da Cidadania
sábado, setembro 13, 2008
O voo do pinhão
O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Voltou a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, livrou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista!
Precipitado tão de alto do pinheiro solitário, balançou-se um instante e ensaiou um voo oblíquo. A meio caminho volteou, rodopiou, viu as nuvens ao largo, a terra em baixo e, saracoteando a fralda, desceu em espiral. Poisou em cima duma fraga, ligeiro como um tira-olhos. Mas novo pé-de-vento atirou com ele para a banda, quase de escantilhão, e a aleta, tomando-se de imprevisto fôlego, arrebatou-o para mais longe. Foi cair numa mancheia de terra, removida de fresco pelos roçadores do mato, e ali permaneceu à espera que pancada de água ou calcanhar de homem o mergulhasse no solo, dado que um pombo bravo o não avistasse e engolisse.
Aquilino Ribeiro
In A Casa Grande de Romarigães - Círculo de Leitores - 1983
sexta-feira, setembro 12, 2008
Retrato de si
"Tenho quarenta e seis anos, moreno, cabelos pretos, com meia dúzia de fios brancos, um metro e 74 centímetros, casado, com três filhas e um genro, 86 quilos bem pesados, muita saúde e muito medo de morrer. Não gosto de trabalhar, não fumo, durmo com muitos sonhos, e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades do sol, se faz calor, tenho saudades da chuva. Vou ao futebol, e sofro como um pobre diabo. Jogo tênis, pessimamente, e daria tudo para ver meu clube campeão de tudo. Sou homem de paixões violentas. Temo os poderes de Deus, e fui devoto de Nossa Senhora da Conceição. Enfim, literato da cabeça aos pés, amigo de meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Não sou mau pagador. Se tenho, pago, mas se não tenho, não pago, e não perco o sono por isso. Afinal de contas, sou um homem como os outros. E Deus queira que assim continue."
José Lins do Rego, escrevendo sobre si próprio em Dezembro de 1947
quinta-feira, setembro 11, 2008
Conservar a memória
Há 35 anos Salvador Allende foi barbaramente assassinado a mando do torcionário Augusto Pinochet, o tal "democrata" elevado ao poder através de um golpe de estado patrocinado pela também "democrática" CIA.
Perante a certeza da morte, deixou uma mensagem de coragem e esperança, consubstanciada nas suas últimas palavras transmitidas por rádio durante o cerco ao palácio de La Moneda:
"Não vou renunciar. Colocado no caminho da História pagarei com a minha vida a lealdade do povo. E digo que tenho a certeza de que a semente que deixamos na consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser ceifada definitivamente. Eles têm a força, poderão submeter-nos, porém não deterão os processos sociais nem com crimes nem com a força. A história é nossa e é feita pelo povo".
Depois de muitas dezenas de milhares de mortos e muitos mais desaparecidos, o futuro deu-lhe razão. Pena que o seu carrasco não tenha sido devidamente castigado.
quarta-feira, setembro 10, 2008
Sapatos novos
A Situação estava razoavelmente sob controle: se minha condição de extramensalista do IAPC me sujeitava a um salário baixo, o cartão falso de estudante, que me permitia almoçar no Calabouço por dois cruzeiros, aliviava a barra. Uma vaga de quarto na pensão da rua Carlos Sampaio não custava muito. E ainda havia os trocados que pingavam da colaboração eventual no suplemento literário do Correio da Manhã ou do Diário de Notícias. O meu único terno, comprado a prestações num alfaiate da rua do Resende, estava pago. O problema grave no momento eram os sapatos, cujos solados gastos já me deixavam sentir diretamente no pé a aspereza das calçadas do Rio. Em bom português: estavam furados.
Por isso mesmo, não resisti ao ver, na vitrine de uma sapataria da Lapa, um par de sapatos por 150 cruzeiros. Maravilha! Hoje, após tantos cortes de zeros no cruzeiro e até a mudança do nome da moeda, será difícil para o leitor avaliar o preço desses sapatos. Mas eram baratos, sem dúvida alguma. Entrei, experimentei-os e decidi que devia comprá-los, embora estivessem um pouco apertados. Um pouco, foi o que disse a mim mesmo, porque aquela pechincha era minha salvação.
Estavam de fato muito apertados, tanto que, ao chegar à redação da revista do IAPC, onde trabalhava, ali na rua Alcindo Guanabara, meus pés ardiam em brasa. Com alívio, tirei-os dos pés e calcei de novo os sapatos furados que, providencialmente, trouxera comigo. Fui até o banheiro, molhei bem os sapatos novos e deixei-os ali, certo de que, quando secassem, estariam mais macios. Era verão e foi sob um sol de fogo que caminhei até o Calabouço para almoçar aquele dia. À tarde dei uma volta pelas livrarias, só pra ver os livros, e à noite tomei o meu cuba-libre com os amigos no então famoso Vermelhinho, em frente à ABI. Dormi pensando em meus sapatos novos.
Acordei pensando neles. Certamente ia poder calçá-los agora. Quase aflito, rumei para o IAPC, subi de elevador, abri a porta da repartição, dirigi-me ao banheiro onde deixara os sapatos sobre a pia. E lá estavam eles, secos, melhor dizendo: ressequidos, isto é, duros, rijos como casco de burro. Mesmo assim, tratei de calçá-los, o que só consegui com enorme esforço. "Pronto", disse, terminando de lhes amarrar o cordão. Meu pé soltava faísca espremido ali dentro. Senti que não conseguiria dar um passo. Só há um jeito, pensei, e fui logo à prática: bati violentamente com o pé calçado no chão para forçar o couro a alargar-se. Foi uma patada só e o sapato explodiu.
Ferreira Gullar*
*crónica retirada do sítio do autor, no dia do seu 78º aniversário
terça-feira, setembro 09, 2008
A vitória do Napoleão
- Ô Dengo, vem beber uma cerveja aqui com a gente, estamos comemorando a vitória do Napoleão – gritou Tonho Rafante de dentro de uma venda, ao lado de Tião Péia.
– Vitória do Napoleão? Que vitória?
– Ele morreu ontem.
– E isso é lá vitória?
– É sim, uai, ele sofreu do coração a vida inteira e morreu de cirrose.
Mouzar Benedito
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
segunda-feira, setembro 08, 2008
SER E NÃO SER
Ser vaga
nuvem
ou pássaro liberto
ter espumas
asas
ou condensações de infinito
possuir todas as praias
todos os espaços
poder voar bem alto
poder erguer os braços
poder erguer a voz
poder lançar um grito
ou fosse apenas canto
prece
ou gargalhada
amar só por amor
só por amar
mais nada
ser nauta
vagabundo
menestrel
cigano
ou mesmo
- que não mais -
um cavaleiro andante
poder viver um ano inteiro em cada instante
e um século de vida viver em cada ano
Não ser jamais algoz de um sonho
ou de um anseio
fazer da vida um fim e não somente um meio
de alcançar um fim por todo meio incerto
não ser jamais estéril e árido deserto
onde não floresce
sequer
a flor selvagem
não ser árvore seca despida de folhagem
por onde o vento passe a murmurar baixinho
onde a ave pouse e possa ter um ninho
de onde brote o fruto rubro
sumarento
Não ser jamais a pedra fria do convento
que mesmo ouvindo preces permanece fria
não ser jamais a rocha abrupta
sem harmonia
não ser jamais o ódio
a inveja
o desengano
poder ouvir no mar uma eterna sinfonia
e no soprar dos ventos escutar um hino
ser um pouco da terra para ser divino
e ser dos céus um pouco para ser humano.
Augusto Severo Netto*
*poeta brasileiro
domingo, setembro 07, 2008
Camilo Pessanha: os mitos destruídos
Que as histórias de vida de nossos grandes poetas sempre andaram mal contadas, ninguém duvida. Que muitos foram vítimas de historiadores literários apressados, que preencheram com a imaginação as lacunas que a falta de documentos deixava, também já se sabia. Agora, que outros foram alvo de picuínhas ou vinganças tardias de que já não puderam se defender só o tempo, senhor da razão, vai deixando perceber.
No dia do aniversário do nascimento do autor da Clepsidra vale a pena ler este interessante artigo do jornalista, pesquisador e escritor brasileiro Adelto Gonçalves, especialista em Literatura Portuguesa.
sábado, setembro 06, 2008
A sombra das palavras
As palavras nos recriam.
Às vezes, belas, nos reconciliam
com o vôo das cousas em mistério
ou o magistério
da solidão das nuvens do Sião.
Elas guardam a prenhez
de lobas solitárias. A lividez
das cousas fontanárias.
E as albas e os montes
cobrindo o descolor de velhos horizontes.
Ou de nossas feridas e súbitas partidas
para o nunca mais.
E tudo nelas é um velho cais
onde tentamos amar. E ancorar.
Podemos ir a Tebas, dançar em Babilônia,
ou ter uma alma dórica ou jônia.
E partir para o desconhecido.
Ou sermos apenas um gemido
por não havermos beijado os seios da Donzela
em sua cidadela.
As palavras são fendas
de onde vemos palomas descerem sobre lendas
e canções emoldurarem as moças nas varandas,
ou as plumas da tarde, as cousas mais brandas
e as pedras sagradas
em que se escondem as cartas das Amadas.
Em ritmo e verdade celebram a desventura
de nosso desviver e a incessante loucura
do entardecer fatal da Poesia.
Às vezes, têm o cristal puríssimo do dia,
mas chegam com leveza de pés de bailarinas
ou de róseas algas vespertinas
dormindo sobre espumas. E são brumas
abrindo-se no verso como rosas,
frágeis e formosas,
quais luzes de estrelas num rondó.
E mesmo poucas e loucas
estão nos sete anos de Jacó.
Os poetas são seus turiferários,
que êxtases ofertam, nos itinerários,
com um canto a prolongar
por terras de Aragão, ou às margens do Jordão,
fazendo do sonho uma estrela polar.
Em seu ir e vir
pelos campos desertos ou as tardes de Ofir,
tentam limpar a pátina e o bolor
do tempo interior.
Ou fazem renascer o perfume e o lume
da espera e da vida.
E essa é sua glória. Sua lida.
Seu barco, a descer, lento
pelos rios de nosso pensamento,
enquanto em sedução e solidão
transformam-se em abismo ou alumbramento.
Artur Eduardo Benevides*
*poeta brasileiro
sexta-feira, setembro 05, 2008
A fome
A fome age não apenas sobre os corpos das vítimas da seca, consumindo sua carne, corroendo seus órgãos e abrindo feridas em sua pele, mas também age sobre seu espírito, sobre sua estrutura mental, sobre sua conduta moral. Nenhuma calamidade pode desagregar a personalidade humana tão profundamente e num sentido tão nocivo quanto a fome, quando atinge os limites da verdadeira inanição. Excitados pela imperiosa necessidade de se alimentar, os instintos primários são despertados e o homem, como qualquer outro animal faminto, demonstra uma conduta mental que pode parecer das mais desconcertantes.
Josué Apolônio de Castro, nascido no Recife há exactamente 100 anos, foi um influente médico, professor, nutricionista, antropólogo, geógrafo, sociólogo, escritor, político, intelectual, humanista e activista brasileiro, que se notabilizou, sobretudo, pela denúncia do fenómeno da fome.
A passagem acima reproduzida faz parte do seu trabalho FOME COMO FORÇA SOCIAL: FOME E PAZ, publicado na revista francesa Pourquoi, número especial de Março de 1967, mas podia ter sido escrito em 2008, tal a sua aderência à realidade actual, já que todas as causas da fome denunciadas pelo grande humanista não só se mantêm como se agravaram.
No dia do seu centenário, vale a pena visitar o sítio que lhe é dedicado.
Pássaro ferido
O poeta magoado não luta não vive o dia
não tece seus sonhos, vai em desfilada
contra o tempo percorrido contra a corrente
natural das coisas importantes que não param
nem podem parar por razões algumas.
Vai contra si mesmo quando se desama
e faz disso pretexto de existência.
O poeta magoado sofre a cada instante
como uma necessidade e não como um castigo,
até que suas chagas sangrentas se revelem
a horas de sarar por si, qual pássaro ferido
voando sem destino
à procura de uma réstea de Sol
promessa mais que redentora
breve tão mais quanto possível
mas desde logo esperança renovada.
Um poeta, mesmo magoado, não chora,
deixa antes que seu canto triste
seu lamento mais profundo e doloroso
tomem conta de sua alma sonhadora.
E quem vir por essas ruas fora
uns olhos mortiços e distantes,
carregados de uma secular resignação,
pode estar certo de que pertencem
a um poeta magoado.
António Pires Vicente*
*poeta bragançano
No dia do seu 45º aniversário
quinta-feira, setembro 04, 2008
A rua
"... e há uma rua encantada, que nem em sonhos sonhei..."
Mário Quintana
Quatro andares de esquina, em frente ao arvoredo do Hospital Militar. Neste prédio dá-se fé da vida alheia. Uma mulher cheia de mistérios, alta pra caramba, pés quarenta ou quarenta e um, moradora do último andar; às vezes morena, às vezes loura, uma camaleoa que desce à noite pra circular.
Dizem que há alguns meses voltou de mala e cuia do estrangeiro, que fazia strip-tease em Barcelona. Passa grande parte do tempo no banheiro, ouço as descargas enquanto assisto ao mundo na TV... qualquer hora eu bato lá pra perguntar “que tanta merda é essa, minha senhora”, mas e se eu topar com algum cenário de horror? Vai saber!
Quatro andares de frente pra encruzilhada. Suspensa, no meio do nada, lá em cima, a sinaleira. Sozinha, fica vermelha, depois verde, e então volta a ser vermelha e assim pra sempre, insatisfeita, vai trocando a cor. Restos de despacho, chutados por quem despreza anseios, espalham-se pela calçada e com a chuva sufocam os bueiros. Eu acho isso uma ofensa grave aos orixás.
Do outro lado, uma pastelaria pintadinha de amarelo, a cor do apetite. As luzes do letreiro invadem meu quarto tipo disco-voador. Quando há muitos pedidos, os motoboys disputam até a morte quem é o top gun da tele-entrega. Tem cliente que toda noite devora mais de dez variedades de pastéis. Volta e meia estão quebrando o asfalto pra livrar o encanamento da gordura. Qualquer dia a nossa rua sofre um AVC.
De repente, ouvem-se tiros vindos da escadaria da Couto – PÁ!PÁ!PÁ! – e a gente fica com o coração na mão. Os hóspedes da petshop da outra quadra imediatamente dão sinal. Custam tanto a se aquietar...Nunca sei se os latidos abafam os estampidos ou vice-versa.
Na lojinha do posto, a rapaziada faz plantão. Fica ali, curtindo o trabalho dos frentistas e o barato da gasolina, as portas dos automóveis abertas para as FMs, os trafis forrando o pala de dinheiro sob o olho branco da PM, mas será que ninguém dorme nesta porra de cidade?
Quatro andares voltados para o nascente. Enquanto o sol rola na direção da cabeça da gente, os pássaros decolam dos ninhos. São inúmeros. Parecem felizes. Afinal, estão vivos. Milagrosamente, nós também estamos.
Myrian Beck
Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA
quarta-feira, setembro 03, 2008
Ele quer voltar
O Tribunal Cível da Catânia (Sicília) retirou a custódia de um rapaz de 16 anos (M.P.) à sua mãe, médica, para a entregar ao pai, com quem o jovem não quer viver. O principal motivo parece ser o facto de o menor se ter filiado na juventude do Partido Refundação Comunista (PRC).
O pai do jovem encontrou entre os pertences do seu filho o cartão de membro da juventude do PRC e uma bandeira com a imagem do Che Guevara e entregou os objectos aos serviços sociais da Catânia, como prova da má influência da mãe. Os serviços sociais apresentaram-nos ao tribunal que devia decidir a qual dos progenitores entregar a custódia e entre os argumentos a favor da sua concessão ao pai foi assinalado o facto de o menor possuir o “cartão de membro de um grupo extremista”. A Refundação Comunista é um partido legal que fez parte da ampla coligação que apoiou o Governo de centro esquerda de Romano Prodi até à sua queda, no passado mês de Janeiro.
Segundo os assistentes sociais, os comunistas “são extremistas e o secretário geral do grupo é um adulto que tem utilizado artimanhas para convencer outros jovens a inscreverem-se e a serem activistas”.
“Para o meu pai os comunistas são todos drogados e perigosos”, explicou M.P. “Pensa que a minha mãe não está em condições de tomar conta de mim e para demonstrá-lo arranjou como pretexto o meu cartão de jovem comunista. Com eles sinto-me bem. E não me drogo”, acrescentou, manifestando a sua surpresa por se ter tornado um caso nacional. Para confirmá-lo, submeteu-se voluntariamente a um teste de despistagem de drogas, que deu negativo.
Fausto Bertinotti, ex-secretario do PRC e ex-presidente do Congresso na legislatura anterior, já lhe expressou a sua solidariedade e o actual secretário, Paolo Ferrero, pediu ao presidente da República, Giorgio Napolitano, que intervenha fazendo uso da sua função de garante da Constituição.
Informação recolhida aqui e confirmada a sua veracidade em vários jornais italianos.
terça-feira, setembro 02, 2008
as coisas
As coisas têm peso,
massa,
volume,
tamanho,
tempo,
forma,
cor,
posição,
textura,
duração,
densidade,
cheiro,
valor,
consistência,
profundidade,
contorno,
temperatura,
função,
aparência,
preço,
destino,
idade,
sentido.
As coisas não têm paz.
Arnaldo Antunes*
*poeta paulista
(no dia do se 48º aniversário)
segunda-feira, setembro 01, 2008
Blasfémia?
Esta é a escultura em madeira do artista alemão Martin Kippenberger, representando um sapo crucificado com uma caneca de cerveja na mão direita e um ovo na esquerda, que tanto tem exaltado a Itália, ao ponto de levar Bento XVI a escrever à direcção do museu de Bolzano, cidade do norte da Itália onde se encontra exposta temporariamente, clamando contra a exibição da obra, que classificou de blasfema.
Por mim, não entendo onde está a blasfémia. Vários países ostentam uma cruz na sua bandeira e já cometeram atrocidades sem que tenham sido apelidados de blasfemos. Os nazis também usavam uma cruz nas bandeiras e nos uniformes e foi o que se viu. E o que não se ouviu.
Por cá, para já não falar das equipas nacionais, há um clube de futebol que até é alcunhado “da cruz de Cristo” e ostenta uma cruz bem visível na camisola dos seus atletas. Isto não os impede de dizerem palavrões, chamarem nomes aos árbitros, agredirem os adversários de vez em quanto, sem que daí advenha qualquer protesto do pároco de Belém - muito menos de Roma - por causa disso.
Parece que o pobre do sapo verde crucificado nem sequer fala - quanto mais dizer impropérios, chamar nomes aos visitantes ou agredir as esculturas vizinhas - pelo que muito bem andou a direcção do museu de Bolzano ao não ceder totalmente às pressões, embora não devesse ter retirado a escultura da entrada para um terceiro andar.
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