terça-feira, setembro 16, 2008

O vôo da garça pequena No final do dia abandonava a guarda. Encostava a arma no muro, limite entre a paisagem e o posto, para sacar a máquina escondida na mochila. Dava as costas para o pátio onde os detentos abasteciam-se de um pouco de luz, pitavam baganas gritando truco, coçavam o saco tramando fugas. Dava as costas ao portão por onde a esperança pouca das esposas circulava e firmando o fuzil entre os tijolos e a coxa – o calo do mingo latejando na botina – fotografava os restos do dia. O contorno alaranjado dos armazéns no cais. As embarcações talhando as águas em linhas paralelas afastarem-se sempre mais. Fotografava as ilhas. A densidade da vegetação escondendo os casebres e os casebres escondendo uma gente sem sustento. Sem consolo. Merda de vida. Foi há tanto tempo. Era moleque, ainda, quando a tia Cida entendeu por bem fazer negócio com a caçula. Três gurias, como é que eu faço? Vai tu que és a mais ajeitadinha, com essa pinta de atriz em cima da boca, esses tornozelos finos, diz que égua de tornozelo fino é boa de lida, e segurando-a pelas pontas dos dedos, óia que formosura, a fez girar em torno de si mesma. Vai, vai com o moço de chapéu branco, tens sorte, dono de tantos anéis, pode que seja de garantir futuro. Ela não disse sim. Nem disse não. Como de costume, obedeceu. Cravou os olhos no chão e desceu os cinco degraus que protegiam o barraco contra as cheias no quintal. Sentada no banco traseiro da caminhonete nem fez sinal, nenhum adeus, eu já tinha dezesseis anos, era o irmão mais velho, covarde, não mexeste um dedo pra impedir. Fotografava o rosa e o violeta contra o azul em degradê no céu. A ponte todinha rebordada de faróis. Nunca mais a vira. Nenhuma notícia. Em março ela completa 25 anos, se estiver viva... por que não evitaste a partida? Já não eras um rapaz? Um verme, isso sim... Daria qualquer coisa para reencontrá-la, poder sentar sob os eucaliptos e chupar laranja do céu, depois segurar firme sua mãozinha e correr até o trapiche, saltar sobre as águas, a garça pequena ensaiando o vôo, VOAR... De noite rir, baixinho / contra a luz da vela projetar sombras nas tábuas carcomidas / rir, apesar do frio que rompe as nossas peles desnutridas / rir, apesar da precocidade das feridas / rir, que rir é sina de criança mal nascida. De repente, tiros e gritaria devolvem-no ao presente. Parece que um dos detentos venceu o muro farpado e correu na direção do rio. Foge, por caridade, bate as asas pra bem longe do que te condena, volta pra casa! Deslizou as costas no muro, lentamente, até sentar sobre o cimento. Minha garça pequena. Dela guardo uma fotografia três por quatro: Atenção, olha o passarinho! Faltam estes dois dentes aqui na frente, mas se eu espremer um pouco a boca, assim, acho que ninguém percebe, né? Minha menina sem caninos. Beijou a imagem desgastada trancando de novo aquele tempo entre as dobras da carteira. Com os olhos apertados como quem reza por perdão, esperou a calmaria. Mais alguns minutos e haverá a troca da guarda. Um último registro: o diretor encarando-o, furioso. Close nas sobrancelhas de marandová. Myrian Beck Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

segunda-feira, setembro 15, 2008

Tão sutilmente ... Tão sutilmente em tantos breves anos foram se trocando sobre os muros mais que desigualdades, semelhanças, que aos poucos dois são um, sem que no entanto deixem de ser plurais: talvez as asas de um só anjo, inseparáveis. Presenças, solidões que vão tecendo a vida, o filho que se faz, uma árvore plantada, o tempo gotejando do telhado. Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe o pó de um cotidiano desencanto. Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos que uma em outra pode se trocar, sem que alguém de fora o percebesse nunca. Lya Luft* *poetisa e romancista brasileira

domingo, setembro 14, 2008

Visão, tempo e identidade No espaço de oito dias, perdi os óculos não sei onde, o relógio não sei quando e a carteira de identidade não sei por quê. Se poeta eu fosse, diria ter perdido a visão, o tempo e o meu próprio "eu". Como sou um "homem idiota", no sentido socrático da expressão, homem comum do qual só se pede a verdade, o certo seria providenciar uma segunda via da carteira de identidade, comprar outro relógio, mandar fazer outros óculos... Sem a visão, porém, deixei de ler e escrever. A linguagem escura me envolveu. Caverna sem fim, passagens estreitas, escorregão, queda, tropeço, queda. Como reencontrar a visão sem a visão necessária? A perda do tempo foi num minuto. As horas demoradas ou a década veloz, tudo parou de passar. Tudo não passa, não chega, não vem. O futuro não passa. O presente não se futuriza. O tempo não há. Sequer posso contemporizar... Como poderei agora reclamar do tempo, seja fugaz ou interminável? Tempo perdido, perco a noção do certo e do errado. Meus passatempos perdem sua função. Não há mais atrasos ou adiantamentos. Não preciso sofrer se o minuto de dor é longo, se a semana de prazer é num piscar de olhos... Sem tempo, esqueço a frase "estou sem tempo". O tempo se foi, sumiu, aquela algema no pulso esquerdo foi retirada sem eu perceber. A identidade era de 1978, rosto imberbe, seriedade adolescente. O que aconteceu comigo nesses últimos 30 anos? As idéias começam a ficar grisalhas. Trocaram de pele. Vou, no entanto, poupar meu tempo e buscar outra identidade. As impressões digitais são as mesmas. Mudaram as impressões mentais, são outras as tentações, as opiniões, as desilusões. Em algumas horas, ganhei novo tempo, nova identidade. Resta-me buscar nova visão. Hoje, em qualquer esquina, existem mil olhos à venda, pontos de vista ao alcance do bolso, horizontes bons e baratos. No começo, é difícil aceitar a nova identidade, essa outra visão, esse maldito... bendito tempo. Jamais serei o mesmo depois desses oito dias de liberdade, cegueira e anonimato. Identificado, de novo, sei que serei eu a dizer "eu", sem heterônimos a me ajudarem, sem pseudônimos a me protegerem, sem homônimos a me substituírem. De novo cronometrado, de novo correndo contra o tempo. De novo no caminho longo-curto. Correndo no túnel do tempo. Até o instante final. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

sábado, setembro 13, 2008

O voo do pinhão O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Voltou a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, livrou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista! Precipitado tão de alto do pinheiro solitário, balançou-se um instante e ensaiou um voo oblíquo. A meio caminho volteou, rodopiou, viu as nuvens ao largo, a terra em baixo e, saracoteando a fralda, desceu em espiral. Poisou em cima duma fraga, ligeiro como um tira-olhos. Mas novo pé-de-vento atirou com ele para a banda, quase de escantilhão, e a aleta, tomando-se de imprevisto fôlego, arrebatou-o para mais longe. Foi cair numa mancheia de terra, removida de fresco pelos roçadores do mato, e ali permaneceu à espera que pancada de água ou calcanhar de homem o mergulhasse no solo, dado que um pombo bravo o não avistasse e engolisse. Aquilino Ribeiro In A Casa Grande de Romarigães - Círculo de Leitores - 1983

sexta-feira, setembro 12, 2008

Retrato de si "Tenho quarenta e seis anos, moreno, cabelos pretos, com meia dúzia de fios brancos, um metro e 74 centímetros, casado, com três filhas e um genro, 86 quilos bem pesados, muita saúde e muito medo de morrer. Não gosto de trabalhar, não fumo, durmo com muitos sonhos, e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades do sol, se faz calor, tenho saudades da chuva. Vou ao futebol, e sofro como um pobre diabo. Jogo tênis, pessimamente, e daria tudo para ver meu clube campeão de tudo. Sou homem de paixões violentas. Temo os poderes de Deus, e fui devoto de Nossa Senhora da Conceição. Enfim, literato da cabeça aos pés, amigo de meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Não sou mau pagador. Se tenho, pago, mas se não tenho, não pago, e não perco o sono por isso. Afinal de contas, sou um homem como os outros. E Deus queira que assim continue." José Lins do Rego, escrevendo sobre si próprio em Dezembro de 1947

quinta-feira, setembro 11, 2008

Conservar a memória Há 35 anos Salvador Allende foi barbaramente assassinado a mando do torcionário Augusto Pinochet, o tal "democrata" elevado ao poder através de um golpe de estado patrocinado pela também "democrática" CIA. Perante a certeza da morte, deixou uma mensagem de coragem e esperança, consubstanciada nas suas últimas palavras transmitidas por rádio durante o cerco ao palácio de La Moneda: "Não vou renunciar. Colocado no caminho da História pagarei com a minha vida a lealdade do povo. E digo que tenho a certeza de que a semente que deixamos na consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser ceifada definitivamente. Eles têm a força, poderão submeter-nos, porém não deterão os processos sociais nem com crimes nem com a força. A história é nossa e é feita pelo povo". Depois de muitas dezenas de milhares de mortos e muitos mais desaparecidos, o futuro deu-lhe razão. Pena que o seu carrasco não tenha sido devidamente castigado.

quarta-feira, setembro 10, 2008

Sapatos novos A Situação estava razoavelmente sob controle: se minha condição de extramensalista do IAPC me sujeitava a um salário baixo, o cartão falso de estudante, que me permitia almoçar no Calabouço por dois cruzeiros, aliviava a barra. Uma vaga de quarto na pensão da rua Carlos Sampaio não custava muito. E ainda havia os trocados que pingavam da colaboração eventual no suplemento literário do Correio da Manhã ou do Diário de Notícias. O meu único terno, comprado a prestações num alfaiate da rua do Resende, estava pago. O problema grave no momento eram os sapatos, cujos solados gastos já me deixavam sentir diretamente no pé a aspereza das calçadas do Rio. Em bom português: estavam furados. Por isso mesmo, não resisti ao ver, na vitrine de uma sapataria da Lapa, um par de sapatos por 150 cruzeiros. Maravilha! Hoje, após tantos cortes de zeros no cruzeiro e até a mudança do nome da moeda, será difícil para o leitor avaliar o preço desses sapatos. Mas eram baratos, sem dúvida alguma. Entrei, experimentei-os e decidi que devia comprá-los, embora estivessem um pouco apertados. Um pouco, foi o que disse a mim mesmo, porque aquela pechincha era minha salvação. Estavam de fato muito apertados, tanto que, ao chegar à redação da revista do IAPC, onde trabalhava, ali na rua Alcindo Guanabara, meus pés ardiam em brasa. Com alívio, tirei-os dos pés e calcei de novo os sapatos furados que, providencialmente, trouxera comigo. Fui até o banheiro, molhei bem os sapatos novos e deixei-os ali, certo de que, quando secassem, estariam mais macios. Era verão e foi sob um sol de fogo que caminhei até o Calabouço para almoçar aquele dia. À tarde dei uma volta pelas livrarias, só pra ver os livros, e à noite tomei o meu cuba-libre com os amigos no então famoso Vermelhinho, em frente à ABI. Dormi pensando em meus sapatos novos. Acordei pensando neles. Certamente ia poder calçá-los agora. Quase aflito, rumei para o IAPC, subi de elevador, abri a porta da repartição, dirigi-me ao banheiro onde deixara os sapatos sobre a pia. E lá estavam eles, secos, melhor dizendo: ressequidos, isto é, duros, rijos como casco de burro. Mesmo assim, tratei de calçá-los, o que só consegui com enorme esforço. "Pronto", disse, terminando de lhes amarrar o cordão. Meu pé soltava faísca espremido ali dentro. Senti que não conseguiria dar um passo. Só há um jeito, pensei, e fui logo à prática: bati violentamente com o pé calçado no chão para forçar o couro a alargar-se. Foi uma patada só e o sapato explodiu. Ferreira Gullar* *crónica retirada do sítio do autor, no dia do seu 78º aniversário

terça-feira, setembro 09, 2008

A vitória do Napoleão - Ô Dengo, vem beber uma cerveja aqui com a gente, estamos comemorando a vitória do Napoleão – gritou Tonho Rafante de dentro de uma venda, ao lado de Tião Péia. – Vitória do Napoleão? Que vitória? – Ele morreu ontem. – E isso é lá vitória? – É sim, uai, ele sofreu do coração a vida inteira e morreu de cirrose. Mouzar Benedito Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

segunda-feira, setembro 08, 2008

SER E NÃO SER Ser vaga nuvem ou pássaro liberto ter espumas asas ou condensações de infinito possuir todas as praias todos os espaços poder voar bem alto poder erguer os braços poder erguer a voz poder lançar um grito ou fosse apenas canto prece ou gargalhada amar só por amor só por amar mais nada ser nauta vagabundo menestrel cigano ou mesmo - que não mais - um cavaleiro andante poder viver um ano inteiro em cada instante e um século de vida viver em cada ano Não ser jamais algoz de um sonho ou de um anseio fazer da vida um fim e não somente um meio de alcançar um fim por todo meio incerto não ser jamais estéril e árido deserto onde não floresce sequer a flor selvagem não ser árvore seca despida de folhagem por onde o vento passe a murmurar baixinho onde a ave pouse e possa ter um ninho de onde brote o fruto rubro sumarento Não ser jamais a pedra fria do convento que mesmo ouvindo preces permanece fria não ser jamais a rocha abrupta sem harmonia não ser jamais o ódio a inveja o desengano poder ouvir no mar uma eterna sinfonia e no soprar dos ventos escutar um hino ser um pouco da terra para ser divino e ser dos céus um pouco para ser humano. Augusto Severo Netto* *poeta brasileiro

domingo, setembro 07, 2008

Camilo Pessanha: os mitos destruídos Que as histórias de vida de nossos grandes poetas sempre andaram mal contadas, ninguém duvida. Que muitos foram vítimas de historiadores literários apressados, que preencheram com a imaginação as lacunas que a falta de documentos deixava, também já se sabia. Agora, que outros foram alvo de picuínhas ou vinganças tardias de que já não puderam se defender só o tempo, senhor da razão, vai deixando perceber. No dia do aniversário do nascimento do autor da Clepsidra vale a pena ler este interessante artigo do jornalista, pesquisador e escritor brasileiro Adelto Gonçalves, especialista em Literatura Portuguesa.

sábado, setembro 06, 2008

A sombra das palavras As palavras nos recriam. Às vezes, belas, nos reconciliam com o vôo das cousas em mistério ou o magistério da solidão das nuvens do Sião. Elas guardam a prenhez de lobas solitárias. A lividez das cousas fontanárias. E as albas e os montes cobrindo o descolor de velhos horizontes. Ou de nossas feridas e súbitas partidas para o nunca mais. E tudo nelas é um velho cais onde tentamos amar. E ancorar. Podemos ir a Tebas, dançar em Babilônia, ou ter uma alma dórica ou jônia. E partir para o desconhecido. Ou sermos apenas um gemido por não havermos beijado os seios da Donzela em sua cidadela. As palavras são fendas de onde vemos palomas descerem sobre lendas e canções emoldurarem as moças nas varandas, ou as plumas da tarde, as cousas mais brandas e as pedras sagradas em que se escondem as cartas das Amadas. Em ritmo e verdade celebram a desventura de nosso desviver e a incessante loucura do entardecer fatal da Poesia. Às vezes, têm o cristal puríssimo do dia, mas chegam com leveza de pés de bailarinas ou de róseas algas vespertinas dormindo sobre espumas. E são brumas abrindo-se no verso como rosas, frágeis e formosas, quais luzes de estrelas num rondó. E mesmo poucas e loucas estão nos sete anos de Jacó. Os poetas são seus turiferários, que êxtases ofertam, nos itinerários, com um canto a prolongar por terras de Aragão, ou às margens do Jordão, fazendo do sonho uma estrela polar. Em seu ir e vir pelos campos desertos ou as tardes de Ofir, tentam limpar a pátina e o bolor do tempo interior. Ou fazem renascer o perfume e o lume da espera e da vida. E essa é sua glória. Sua lida. Seu barco, a descer, lento pelos rios de nosso pensamento, enquanto em sedução e solidão transformam-se em abismo ou alumbramento. Artur Eduardo Benevides* *poeta brasileiro

sexta-feira, setembro 05, 2008

A fome A fome age não apenas sobre os corpos das vítimas da seca, consumindo sua carne, corroendo seus órgãos e abrindo feridas em sua pele, mas também age sobre seu espírito, sobre sua estrutura mental, sobre sua conduta moral. Nenhuma calamidade pode desagregar a personalidade humana tão profundamente e num sentido tão nocivo quanto a fome, quando atinge os limites da verdadeira inanição. Excitados pela imperiosa necessidade de se alimentar, os instintos primários são despertados e o homem, como qualquer outro animal faminto, demonstra uma conduta mental que pode parecer das mais desconcertantes. Josué Apolônio de Castro, nascido no Recife há exactamente 100 anos, foi um influente médico, professor, nutricionista, antropólogo, geógrafo, sociólogo, escritor, político, intelectual, humanista e activista brasileiro, que se notabilizou, sobretudo, pela denúncia do fenómeno da fome. A passagem acima reproduzida faz parte do seu trabalho FOME COMO FORÇA SOCIAL: FOME E PAZ, publicado na revista francesa Pourquoi, número especial de Março de 1967, mas podia ter sido escrito em 2008, tal a sua aderência à realidade actual, já que todas as causas da fome denunciadas pelo grande humanista não só se mantêm como se agravaram. No dia do seu centenário, vale a pena visitar o sítio que lhe é dedicado.
Pássaro ferido O poeta magoado não luta não vive o dia não tece seus sonhos, vai em desfilada contra o tempo percorrido contra a corrente natural das coisas importantes que não param nem podem parar por razões algumas. Vai contra si mesmo quando se desama e faz disso pretexto de existência. O poeta magoado sofre a cada instante como uma necessidade e não como um castigo, até que suas chagas sangrentas se revelem a horas de sarar por si, qual pássaro ferido voando sem destino à procura de uma réstea de Sol promessa mais que redentora breve tão mais quanto possível mas desde logo esperança renovada. Um poeta, mesmo magoado, não chora, deixa antes que seu canto triste seu lamento mais profundo e doloroso tomem conta de sua alma sonhadora. E quem vir por essas ruas fora uns olhos mortiços e distantes, carregados de uma secular resignação, pode estar certo de que pertencem a um poeta magoado. António Pires Vicente* *poeta bragançano No dia do seu 45º aniversário

quinta-feira, setembro 04, 2008

A rua "... e há uma rua encantada, que nem em sonhos sonhei..." Mário Quintana Quatro andares de esquina, em frente ao arvoredo do Hospital Militar. Neste prédio dá-se fé da vida alheia. Uma mulher cheia de mistérios, alta pra caramba, pés quarenta ou quarenta e um, moradora do último andar; às vezes morena, às vezes loura, uma camaleoa que desce à noite pra circular. Dizem que há alguns meses voltou de mala e cuia do estrangeiro, que fazia strip-tease em Barcelona. Passa grande parte do tempo no banheiro, ouço as descargas enquanto assisto ao mundo na TV... qualquer hora eu bato lá pra perguntar “que tanta merda é essa, minha senhora”, mas e se eu topar com algum cenário de horror? Vai saber! Quatro andares de frente pra encruzilhada. Suspensa, no meio do nada, lá em cima, a sinaleira. Sozinha, fica vermelha, depois verde, e então volta a ser vermelha e assim pra sempre, insatisfeita, vai trocando a cor. Restos de despacho, chutados por quem despreza anseios, espalham-se pela calçada e com a chuva sufocam os bueiros. Eu acho isso uma ofensa grave aos orixás. Do outro lado, uma pastelaria pintadinha de amarelo, a cor do apetite. As luzes do letreiro invadem meu quarto tipo disco-voador. Quando há muitos pedidos, os motoboys disputam até a morte quem é o top gun da tele-entrega. Tem cliente que toda noite devora mais de dez variedades de pastéis. Volta e meia estão quebrando o asfalto pra livrar o encanamento da gordura. Qualquer dia a nossa rua sofre um AVC. De repente, ouvem-se tiros vindos da escadaria da Couto – PÁ!PÁ!PÁ! – e a gente fica com o coração na mão. Os hóspedes da petshop da outra quadra imediatamente dão sinal. Custam tanto a se aquietar...Nunca sei se os latidos abafam os estampidos ou vice-versa. Na lojinha do posto, a rapaziada faz plantão. Fica ali, curtindo o trabalho dos frentistas e o barato da gasolina, as portas dos automóveis abertas para as FMs, os trafis forrando o pala de dinheiro sob o olho branco da PM, mas será que ninguém dorme nesta porra de cidade? Quatro andares voltados para o nascente. Enquanto o sol rola na direção da cabeça da gente, os pássaros decolam dos ninhos. São inúmeros. Parecem felizes. Afinal, estão vivos. Milagrosamente, nós também estamos. Myrian Beck Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

quarta-feira, setembro 03, 2008

Ele quer voltar O Tribunal Cível da Catânia (Sicília) retirou a custódia de um rapaz de 16 anos (M.P.) à sua mãe, médica, para a entregar ao pai, com quem o jovem não quer viver. O principal motivo parece ser o facto de o menor se ter filiado na juventude do Partido Refundação Comunista (PRC). O pai do jovem encontrou entre os pertences do seu filho o cartão de membro da juventude do PRC e uma bandeira com a imagem do Che Guevara e entregou os objectos aos serviços sociais da Catânia, como prova da má influência da mãe. Os serviços sociais apresentaram-nos ao tribunal que devia decidir a qual dos progenitores entregar a custódia e entre os argumentos a favor da sua concessão ao pai foi assinalado o facto de o menor possuir o “cartão de membro de um grupo extremista”. A Refundação Comunista é um partido legal que fez parte da ampla coligação que apoiou o Governo de centro esquerda de Romano Prodi até à sua queda, no passado mês de Janeiro. Segundo os assistentes sociais, os comunistas “são extremistas e o secretário geral do grupo é um adulto que tem utilizado artimanhas para convencer outros jovens a inscreverem-se e a serem activistas”. “Para o meu pai os comunistas são todos drogados e perigosos”, explicou M.P. “Pensa que a minha mãe não está em condições de tomar conta de mim e para demonstrá-lo arranjou como pretexto o meu cartão de jovem comunista. Com eles sinto-me bem. E não me drogo”, acrescentou, manifestando a sua surpresa por se ter tornado um caso nacional. Para confirmá-lo, submeteu-se voluntariamente a um teste de despistagem de drogas, que deu negativo. Fausto Bertinotti, ex-secretario do PRC e ex-presidente do Congresso na legislatura anterior, já lhe expressou a sua solidariedade e o actual secretário, Paolo Ferrero, pediu ao presidente da República, Giorgio Napolitano, que intervenha fazendo uso da sua função de garante da Constituição. Informação recolhida aqui e confirmada a sua veracidade em vários jornais italianos.

terça-feira, setembro 02, 2008

as coisas As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido. As coisas não têm paz. Arnaldo Antunes* *poeta paulista (no dia do se 48º aniversário)

segunda-feira, setembro 01, 2008

Blasfémia?
Esta é a escultura em madeira do artista alemão Martin Kippenberger, representando um sapo crucificado com uma caneca de cerveja na mão direita e um ovo na esquerda, que tanto tem exaltado a Itália, ao ponto de levar Bento XVI a escrever à direcção do museu de Bolzano, cidade do norte da Itália onde se encontra exposta temporariamente, clamando contra a exibição da obra, que classificou de blasfema. Por mim, não entendo onde está a blasfémia. Vários países ostentam uma cruz na sua bandeira e já cometeram atrocidades sem que tenham sido apelidados de blasfemos. Os nazis também usavam uma cruz nas bandeiras e nos uniformes e foi o que se viu. E o que não se ouviu. Por cá, para já não falar das equipas nacionais, há um clube de futebol que até é alcunhado “da cruz de Cristo” e ostenta uma cruz bem visível na camisola dos seus atletas. Isto não os impede de dizerem palavrões, chamarem nomes aos árbitros, agredirem os adversários de vez em quanto, sem que daí advenha qualquer protesto do pároco de Belém - muito menos de Roma - por causa disso. Parece que o pobre do sapo verde crucificado nem sequer fala - quanto mais dizer impropérios, chamar nomes aos visitantes ou agredir as esculturas vizinhas - pelo que muito bem andou a direcção do museu de Bolzano ao não ceder totalmente às pressões, embora não devesse ter retirado a escultura da entrada para um terceiro andar.

domingo, agosto 31, 2008

Sisuda Acidez Escavacou abismos, Abriu-se à realidade, Morreu de impaciência. Viveu a insignificância Dos contratempos, Buscou-se no que Sobrou de si mesmo. Desentendeu-se, Se foi, serenamente, Para a terra dos Esquecidos. Entregou-se às Divergências, Desacelerou-se, Pensou nas atitudes Que o reduziram Às migalhas De toda solidão. Aroldo Ferreira Leão* *poeta brasileiro

sábado, agosto 30, 2008

Keep going Harriet Tubman, também conhecida como Moisés Negro, foi uma heroína estado-unidense, abolicionista e humanitarista, nascida escrava em 1822, no Maryland, e falecida como mulher livre, em 1913. Aos 35 anos conseguiu fugir para Filadélfia, mas rapidamente voltou à sua terra para libertar os seus familiares. Ao longo da sua vida trabalhou como criada de lavoura, lenhadora, lavadeira, cozinheira, organizadora de refugiados, líder de incursões, espia na guerra da secessão, enfermeira, curandeira, incentivadora, feminista, angariadora de fundos e condutora de escravos em fuga. Arriscou a sua vida centenas de vezes, conduzindo os escravos ao longo da célebre Underground Railroad, rota de fuga constituída por vias secretas e casas de acolhimento seguras utilizadas pelos escravos para escaparem dos Estados esclavagistas para os Estados livres e para o Canadá. Nas sua próprias palavras, “eu libertei milhares de escravos. E poderia ter libertado muitos milhares mais, se eles tivessem sabido que eram escravos”. Embora a citação seja disputada por uma das suas biógrafas, são-lhe atribuídas as seguintes palavras de incentivo aos fugitivos que conduzia: If you are tired, keep going; if you are scared, keep going; if you are hungry, keep going; if you want to taste freedom, keep going. No seu discurso de apoio sem reservas ao candidato democrata na passada terça-feira, outra mulher estado-unidense e admiradora incondicional da Harriet Tubman, parafraseou-a, dizendo: If you hear the dogs, keep going. If you see the torches in the woods, keep going. If they're shouting after you, keep going. Don't ever stop. Keep going. If you want a taste of freedom, keep going. No dia do teu 26º aniversário, minha filha, o que julgo mais apropriado para te dizer aqui, antes de ir pôr o avental de cozinha para as quase três horas que levará a preparar o almoço que me pediste, é que, contra todos as dificuldades e adversidades, continues a lutar pelos objectivos que desejas alcançar.

sexta-feira, agosto 29, 2008

Três trabalhos atraentes Ler é trabalho. Eleger um livro, livrar-se do tempo para ter tempo de percorrer suas linhas, penetrar nas entrelinhas. Ler é trabalho trabalhoso. Comer a carne da leitura, sugar-lhe o sangue, roer-lhe o osso. Suportar o que há de insosso até chegar ao poço de água viva. Mais: saborear o insosso. Sentir no insosso o gosto que poderia ter. Ler dá trabalho. Guardar da leitura a palavra exata, a frase contundente, a imagem certeira, a metáfora nova, a idéia paradoxal, o personagem mais vivo que os próprios vivos. Ler é trabalhar sem salário, sem recompensa material. Ler é trabalho puro, trabalho duro, trabalho divino. Ler é também trabalho sujo. Ler é lamber os séculos, digerir tudo o que há em outras mentes. Leitura suja. Leitura suja de vida. E por isso é trabalho limpo. Trabalho decente, atraente. Pensar é trabalho. Raciocinar é pouco, apenas racionar idéias, contar os passos, evitar falácias, economizar processos. Pensar mesmo, que cansa, é transbordamento, perda do tempo que não temos. Pensar é imaginar e relembrar, transgredir e transcender. Pensar dá trabalho. É virar do avesso o que já estava certo. Pensar é misturar. Bom senso com não-senso, senso prático com senso moral, senso comum com senso estético. Pensar é trabalhão. Emagrece a alma. É sempre hora extra, hora extensa, hora extrema. Pensar é pensar nas horas mortas e nas horas vivas, nas horas vagas e perdidas, em cima da hora, pela hora da morte. Escrever é outro trabalho e tanto! Escrever é ser escravo das letras. Trabalhar de sol a sol, de lua a lua, de segunda a segunda, de hora em hora, de chaga em chaga, de ano em ano, tudo e nada, com leitor ou sem, com editora ou sem, com dinheiro ou sem. Escrever dá trabalho. Dá medo, dá dor, dá dó. Catar palavras nas areias, correr atrás de algumas, que fogem. Ou fugir das que nos perseguem, repetidas, redundantes, replicantes. Escrever, trabalho braçal, trabalho de cão, trabalho de Hércules, trabalho de Sísifo, trabalho de parto que nos parte ao meio, trabalho forçado que liberta. Ler, pensar e escrever. Três trabalhos que atraem, subtraem, maltratam e enriquecem. Trabalhos ocultos, solitários. Trabalhos que aumentam a fome de trabalhar. Trabalhos impunes. Trabalhos sem perdão, sem a devida remuneração. Trabalhos que não têm preço. Que não têm fim. Que não têm jeito. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

quinta-feira, agosto 28, 2008

Cultura O girino é o peixinho do sapo. O silêncio é o começo do papo. O bigode é a antena do gato. O cavalo é o pasto do carrapato. O cabrito é o cordeiro da cabra. O pescoço é a barriga da cobra. O leitão é um porquinho mais novo. A galinha é um pouquinho do ovo. O desejo é o começo do corpo. Engordar é tarefa do porco. A cegonha é a girafa do ganso. O cachorro é um lobo mais manso. O escuro é a metade da zebra. As raízes são as veias da seiva. O camelo é um cavalo sem sede. Tartaruga por dentro é parede. O potrinho é o bezerro da égua. A batalha é o começo da trégua. Papagaio é um dragão miniatura. Bactéria num meio é cultura. Arnaldo Antunes* *poeta brasileiro

quarta-feira, agosto 27, 2008

Procurando Tu Quando foi a São Paulo, Zezinho Mutamba foi na primeira oportunidade conhecer a Rua Aurora, onde se concentravam as casas de prostituição. Estava parado numa esquina, vendo as mulheres, mexendo com uma, discutindo preço com outra, quando deu de cara com seu Jeremias, velho moralista que também tinha ido à capital paulista e aproveitava para comprar umas válvulas para rádio, por coincidência – mera coincidência mesmo – na região das prostitutas. Não deu tempo nem de desviar do velho. – Procurando uma vagabunda aí, né? – já foi falando seu Jeremias entre conselheiro e repreensor. – Não, não, tô não. Tô procurando uma bunda vaga. Mouzar Benedito Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

terça-feira, agosto 26, 2008

Agonia de uma noite infecunda Como a flor cortada rente e desfolhada ou os olhos vazados da criança e o seu fio de pranto tênue e impotente assim a noite caminha com os astros todos em vertigem até que se atinge o ponto da mudez a pesada mó triturando a sílaba a garganta com as cordas dilaceradas e uma lâmina ácida e pontiaguda enterrada ao nível da carótida Entenda-se isto como noite e o seu transe derradeiro tanto assim que a flor desfeita não embala o coração do poeta oh não porque a flor defunta se voa não sobe nunca e só dura o espaço breve duma nota Assim o canto se detém imóvel como se da flauta falhando súbito na boca do poeta ficasse o hiato ou a saliva de um tempo devassado por insectos cor de cinza A voz suspensa e negada cede a vez à letra amorfa inscrita no silêncio com seu peso de chumbo e olvido acaba o poema e um ponto final selando tudo. Arménio Vieira* *poeta cabo-verdiano

segunda-feira, agosto 25, 2008

A Mentira Porque é que, na maior parte das vezes, os homens na vida quotidiana dizem a verdade? Certamente, não porque um deus proibiu mentir. Mas sim, em primeiro lugar, porque é mais cómodo, pois a mentira exige invenção, dissimulação e memória. Por isso Swift diz: «Quem conta uma mentira raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; é que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte». Em seguida, porque, em circunstâncias simples, é vantajoso dizer directamente: quero isto, fiz aquilo, e outras coisas parecidas; portanto, porque a via da obrigação e da autoridade é mais segura que a do ardil. Se uma criança, porém, tiver sido educada em circunstâncias domésticas complicadas, então maneja a mentira com a mesma naturalidade e diz, involuntariamente, sempre aquilo que corresponde ao seu interesse; um sentido da verdade, uma repugnância ante a mentira em si, são-lhe completamente estranhos e inacessíveis, e, portanto, ela mente com toda a inocência. Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'

domingo, agosto 24, 2008

Bem no Fundo No fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto a partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela — silêncio perpétuo extinto por lei todo o remorso, maldito seja que olhas pra trás, lá pra trás não há nada, e nada mais mas problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos a passear o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas. Paulo Leminsk* *poeta brasileiro

sábado, agosto 23, 2008

Noite As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem. Todos os rumores são postos em surdina, todas as luzes se apagam. Há um grande aparato de câmara funerária na paisagem do mundo. Os homens ficam rígidos, tomam a posição horizontal e ensaiam o próprio cadáver. Cada leito é a maquete de um túmulo. Cada sono em ensaio de morte. No cemitério da treva tudo morre provisoriamente. Menotti Del Picchia* *poeta ítalo-brasileiro

sexta-feira, agosto 22, 2008

Trema nunca mais Em breve, o trema deixará de ser uma preocupação. Muitos já nem davam importância à sua presença. Agora é oficial, e haverá comemoração: o novo acordo ortográfico prevê seu desaparecimento. Decreta, melhor dizendo, o seu desaparecimento, a sua extinção, a sua inexistência. Sentirei falta dele. Eu que, professor e escritor, lutei durante a vida inteira pelo trema sem temor já posso prever profundas mudanças ao nosso redor. Sem este duplo ponto, nada mais será como antes. O qüinqüênio ficará mais curto. O liqüidificador perderá força e eficiência. A nota de cinqüenta reais ficará desvalorizada. O poliglota qüinqüelíngüe não dominará tão bem os seus cinco idiomas. Os qüiproquós estarão para sempre resolvidos. O pingüim, perplexo, andará menos charmoso. O antiqüíssimo se tornará banalidade sem data, velharia sem graça. Quantas conseqüências serão esquecidas por aí, no banco de praça, dentro do táxi, no meio do caminho! A ambigüidade menos misteriosa, menos atraente, a arte se empobrecerá. A própria Lingüística deixará de ser aquela ciência que outrora foi. Os ungüentos abandonados, inúteis, inócuos, nas estantes e nos dicionários. Tudo o que era subseqüente não terá mais razão de viver. A lingüiça sem cor e sem gosto. A eqüidade arruinada. A tranqüilidade perdida. O alcagüete, envergonhado de fazer o que faz, murmura: "Sem trema... que pena!". Ninguém mais dará crédito ao eqüestre. Vamos rir do seqüestrador, finalmente desarmado. Nada mais deixará seqüelas, no corpo ou na alma, no papel ou na mente. Não haverá mais argüições, e redargüir a ninguém caberá. Contigüidade, coisa do passado. A delinqüência mais freqüente. A grandiloqüência desmoralizada, sem ter o que dizer. Meu tipo sangüíneo se esvairá. Ninguém agüentará coisa alguma. Deus perderá ubiqüidade. A iniqüidade ganhará mais espaço, na rua e na mídia. O aqüífero morrerá de sede. O eqüidistante inalcançável. O triângulo eqüilátero cairá no chão e se quebrará em mil pedaços. A eqüissonância desafinará. Como transitar pela Rodovia Anhangüera outra vez? Os sagüis se esconderão de nós, temendo que deles arranquemos mais alguma coisa, além do trema. Aliás, o fim do trema traz à mente alguns receios. Nada impede que, daqui a algumas décadas, a cedilha seja removida sem dó nem piedade. O til também. E o circunflexo... Desmilingüido, o trema se despede de todos. Alguns lhe dizem: "já vai tarde!". O trema estremece de medo. Abre a porta dos fundos, e some. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

quinta-feira, agosto 21, 2008

Cão Cão passageiro, cão estrito Cão rasteiro cor de luva amarela, Apara-lápis, fraldiqueiro, Cão liquefeito, cão estafado Cão de gravata pendente, Cão de orelhas engomadas, de remexido rabo ausente, Cão ululante, cão coruscante, Cão magro, tétrico, maldito, a desfazer-se num ganido, a refazer-se num latido, cão disparado: cão aqui, cão ali, e sempre cão. Cão marrado, preso a um fio de cheiro, cão a esburgar o osso essencial do dia a dia, cão estouvado de alegria, cão formal de poesia, cão-soneto de ão-ão bem martelado, cão moído de pancada e condoído do dono, cão: esfera do sono, cão de pura invenção, cão pré-fabricado, cão espelho, cão cinzeiro, cão botija, cão de olhos que afligem, cão problema... Sai depressa, ó cão, deste poema! Alexandre O’Neill in Abandono Vigiado

quarta-feira, agosto 20, 2008

Largura Santina largou tudo e foi para São Paulo, trabalhar em escritório, ganhar dinheiro, voltar rica e respeitada. Pelo menos era o que imaginava. Dois anos depois, estava de volta, mãe solteira e com a esperada riqueza reduzida a um automóvel velho, que para chegar a Santa Rita foi conhecendo todos os mecânicos do caminho. Seu tio não considerou um fracasso a sua ida para São Paulo. Ao contrário, achou que ela tinha era muita sorte: - Ô Santina, cê é larga mesmo, hem? Foi pra São Paulo, em pouco tempo arranjou um menino bonito e inda voltou com uma condução. Vai sê larga assim lá diante! Mouzar Benedito Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

terça-feira, agosto 19, 2008

A Ignorância O povo julga bem as coisas, porque está na ignorância natural, que é o verdadeiro lugar do homem. A ciência tem duas extremidades que se tocam. A primeira é a pura ignorância natural, na qual se encontram todos os homens ao nascer. A outra extremidade é aquela a que chegam as grandes almas que, tendo percorrido tudo quanto os homens podem saber, acham que nada sabem e voltam a encontrar-se nessa mesma ignorância da qual tinham partido; mas é uma ignorância sábia que se conhece. Os do meio, que saíram dessa ignorância natural e não puderam chegar à outra, têm umas pinceladas dessa ciência suficiente, e armam-se em entendidos. Esses perturbam o mundo e julgam mal de tudo. O povo e os verdadeiramente sábios compõem a ordem do mundo; estes desprezam-na e são desprezados. Blaise Pascal, in "Pensamentos"

segunda-feira, agosto 18, 2008

Templo dos desejos Era um lugar paradisíaco. Estaria eu a sonhar ou sob efeito de uma droga involuntariamente ingerida? Eu caminhava pausadamente naquele simulacro do Jardim do Éden. Ali não havia pecado e nenhum de seus efeitos: miséria, violência, fealdade, imundície ou medo. Tudo absolutamente clean: o brilho das luzes, a beleza dos objetos, o requinte high-tech dos equipamentos. À minha volta, todos pareciam felizes, traziam aspecto saudável. Ninguém descalço, desdentado, estendido em calçadas ou com o olhar precocemente ameaçador. Sentia-me inteiramente seguro naquela pirâmide dourada, cujos túneis me conduziam a nichos de esplendor. À minha disposição, os mais suaves calçados para os pés, roupas de colorido vivo, agasalhos de lã ou couro, camisas e ternos bem cortados, computadores de última geração, máquinas digitais, celulares de multiuso... No piso superior, iguarias importadas e refinados manjares, de sanduíches pantagruélicos a panquecas adocicadas, sem que se aspirasse o menor odor de gordura ou existissem pedintes ou gatos e cães vadios a espreitar sobras. Todos os veneráveis objetos eram acolitados por belíssimas sacerdotisas, e a contemplação de tão sofisticados artefatos enlevava a alma. Ao fundo, uma delicada música que não agredia os ouvidos e contribuía à paz de espírito. Não havia trânsito nem o cheiro asfixiante de gases emanados de motores. Desprovidas de ruídos, nas alamedas feericamente iluminadas os transeuntes caminhavam sem pressa, atentos às maravilhas circundantes. Podiam subir de um piso ao outro sem o menor esforço; bastava pousar os pés numa esteira que os içava ao topo sem desprenderem energia. O ambiente impregnava-se de leve odor de perfume; todos ali pareciam muito felizes, livres do assédio de crianças de rua, do espectro de maus encarados, da presença intimidadora de viaturas policiais. Viam-se expostos inúmeros talismãs capazes de nos imprimir valor e suscitar a inveja alheia. Bastava pagar por um deles e ver consagrada a felicidade de tornar-se portador daquelas preciosidades, como se o mago houvesse se desprendido da lâmpada de Aladim. Fascinava-me a inventividade dos seres humanos. Não que os artefatos fossem incomuns; pelo contrário, eram instrumentos para a escrita e equipamentos esportivos, objetos de cutelaria e precisão ótica, uma infinidade de frascos contendo o poder de, abertos, exalar beleza e fascínio. A diferença residia no designer arrojado, na estética atrativa, na sofisticação de peças como um simples abridor de garrafa. Estaria eu num conto de Borges? Estaria a sonhar ou seria eu o resultado de um sonho? Estar ali era como se todos os dias fossem domingo, momento de ócio e distração, seduzido por aquele espaço lúdico que me permitia evadir da realidade e acreditar pertencer ao seleto clube dos eleitos a penetrarem o nirvana. Eu não queria acordar, resistia a ser expulso do Paraíso e, como Lúcifer, precipitar-me na infernal rotina do trabalho árduo, da vida medíocre, da paisagem incolor, da insegurança das ruas e da atmosfera poluída contaminada pelo medo. Queria permanecer ali para sempre, guardado no ventre acrílico daquela imensa catedral habitada por ídolos de minha devoção, cultuados por desmedidas ambições. Ali eu me sentia próximo ao céu, ao mundo dos que foram poupados do sofrimento, à esfera dos premiados pela fortuna. Estava redimido dessa pobre humanidade que nos priva do encanto, da magia, do universo onírico onde se volatilizam todas as dores e angústias. Ali se me acercavam o Olimpo e todos os bens capazes de realçar uma pessoa acima de seus semelhantes. Contudo, chegou a hora de cerrar vitrines e baixar portas. Fui avisado pelo vigilante que dentro de cinco minutos o shopping seria fechado. Frei Betto* *escritor brasileiro Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

domingo, agosto 17, 2008

Cortar o Tempo Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente. Carlos Drummond de Andrade

sábado, agosto 16, 2008

10 reflequições I - Todo mundo viaja. Poucos chegam Lá. II- As guerras acabam. Mas as ruas nunca ficam prontas. III- Tinha um ar soberbo. Totalmente poluído. IV- Dizia "Minha cara metade", como quem reclama do preço. V- Confesso: sou pior sozinho do que mal acompanhado. VI- Repara: quando você aprende uma palavra nova, ela aparece em todos os lugares. VII- Solitário dorme sozinho. Rejeitado acorda sozinho. VIII- Mostrei-lhe a lua no horizonte, redonda, linda. Mas ela prefere o Faustão. IX- Não há pessoa mais chata do que você mesmo. Fuja da solidão. X- Fica frio, amigo, não foi o brasileiro o inventor da corrupção. Baseado no mais profundo ensinamento da minha religião, a corrupção começou no Princípio dos Princípios, justamente no Jardim do Éden. Quando os dois proto-Safados, corrompidos pela Serpente, desrespeitaram a Lei do Senhor e comeram o Fruto da Ciência do Bem e do Mal, o desrespeito espantoso ficou conhecido como A Queda. Mas não passou assim pelo Todo (como era conhecido o Todo-Poderoso), que condenou os três culpados por uso indevido de bem público e formação de quadrilha. Logo o Anjo Gabriel, executor das ordens do Supremo, expulsou Adão e Eva do Paraíso, obrigando-os a viver na periferia, a leste do Éden. Mas a Serpente, misteriosamente, nunca foi punida. Millôr Fernandes

sexta-feira, agosto 15, 2008

O corpo Acrobata enredado Em clausura de pele Sem nenhuma ruptura Para aonde me leva Sua estrutura? Doce máquina Com engrenagem de músculos Suspiro e rangido O espaço devora Seu movimento (Braços e pernas sem explosão) Engenho de febre Sono e lembrança Que arma E desarma minha morte Em armadura de treva. Armando Freitas Filho* *poeta carioca

quinta-feira, agosto 14, 2008

Dificuldade de governar 1 Todos os dias os ministros dizem ao povo Como é difícil governar. Sem os ministros O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. Nem um pedaço de carvão sairia das minas Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol Sem a autorização do Führer? Não é nada provável e se o fosse Ele nasceria por certo fora do lugar. 2 E também difícil, ao que nos é dito, Dirigir uma fábrica. Sem o patrão As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem. Se algures fizessem um arado Ele nunca chegaria ao campo sem As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem, De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que Seria da propriedade rural sem o proprietário rural? Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas. 3 Se governar fosse fácil Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer. Se o operário soubesse usar a sua máquina E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários. É só porque toda a gente é tão estúpida Que há necessidade de alguns tão inteligentes. 4 Ou será que Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira São coisas que custam a aprender? Bertolt Brecht* *no 52º aniversário da sua morte (Tradução de Arnaldo Saraiva)

quarta-feira, agosto 13, 2008

Viagem Para habitar as planícies da ausência e escalar os montes de tempo que não vives eis a secreta viagem duma ave imaginária em busca do instante onde tudo recomeça Armando Artur* Poeta moçambicano

terça-feira, agosto 12, 2008

Auto-retrato O que eu fui sempre, o que eu sou, e o que eu serei, é um artista, um homem e um revolucionário. Na medida em que sou artista, quero um mundo onde a beleza seja o vértice da pirâmide. Na medida em que sou homem, quero que nesse mundo os indivíduos sejam livres e conscientes. E na medida em que sou revolucionário, quero que a revolução traga à tona as grandes massas, e que nunca acabe de percorrer o seu caminho perpétuo, sem estratificações e sem dogmas. Miguel Torga In Diário IV, 1979

segunda-feira, agosto 11, 2008

borboletas de luz esvoaçando de cadáver em cadáver colhem o fedor dos mortos em vão e pelos buracos da renda dos dias passam alacres do mundo do esquecimento ao país da indiferença levando consigo o pólen fatal das flores da guerra borboletas de luz Arlindo Barbeitos* *poeta angolano

sábado, agosto 09, 2008

As palavras As palavras saltitam, pululam, estão soltas, sem amarras. Palavras vivas. Sons, movimentos, sentimentos. Se não, estão petrificadas, feitas de letras - arquiteturas banais. As palavras não representam, elas são, estão além dos significados - ou seria, mais, bem, aquém? Libertadas dos dicionários pelos campos pelas fábricas, pelos lugares de sua gestação. Originárias, necessárias. Elas exercem um poder tanto porque podemos com elas apoderar-nos do mundo (ou conhecer) quanto elas nos governam e orientam. As palavras são a música das coisas nomináveis; as formas das coisas: o próprio som que elas emitem. Podemos dar às palavras o sentido que se queira aprisiona-las em obras de fina urdidura. Mas nem sempre -e felizmente – as palavras levam à Razão, vão ao imaginário à beleza de sua condição: as ondas equilibram o movimento do mar, marmorizado nas palavras. Podemos transformá-las em textos decifráveis. Esgarçá-las, montá-las sobre uma superfície limitante, e fria. Não obstante, as palavras estarão livres vivificadas quando poesia. António Miranda* *poeta brasileiro

sexta-feira, agosto 08, 2008

Oitos malucos As 8 horas e 8 minutos da tarde do dia 8 do mês 8 do ano 08 que assinalaram, hoje, a abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim têm sido motivo das mais variadas análises sobre a simbologia do número 8 na cultura chinesa. Quando estive em Hong Kong, há 10 anos, passámos ao lado da mansão de um chinês conhecido como “o rei do arroz” que, pelos vistos, era podre de rico. Informou-nos a guia que as matrículas dos automóveis eram leiloadas, sendo que as que continham o número 8 atingiam valores astronómicos. O tal “rei do arroz” tinha adquirido a matrícula 888 e a sua frota automóvel era constituída por 8 reluzentes Rolls Royce e parece que outros tantos Bentley. Quando estávamos numa estrada sobranceira à mansão, víamos mais de uma dezena de automóveis, todos topo de gama, e fomos informados de que os cozinheiros, mordomos e outros serviçais se deslocavam de e para o trabalho em Mercedes Classe E e que os seguranças do “rei do arroz” o acompanhavam em Ferraris e Porches. “Esquisitices” de um indivíduo que tinha nascido pobre e ganhou uma fortuna colossal à custa do “suor do rosto”...dos outros. Mas a mania dos 8 não é exclusiva dos chineses. O bizarro imperador romano Heliogábalo - tão bizarro que, tendo sido coroado imperador aos 14 anos e assassinado aos 18, teve tempo para violar uma virgem vestal, casar com cinco mulheres, ter um sem número de amantes masculinos e oferecer somas astronómicas a médicos para mudar de sexo -, tinha um prazer perverso relativamente aos 8 e presidia a festas para as quais convidava: 8 homens velhos 8 homens carecas 8 homens cegos de um olho 8 homens coxos por causa da gota 8 homens surdos 8 homens muito altos 8 homens negros 8 homens roucos 8 homens com nariz adunco 8 homens morbidamente obesos 8... Parece que gostava de se rir às gargalhadas porque os muito gordos ou muito altos, por exemplo, não cabiam nos divãs onde os romanos se reclinavam para comer. Também surpreendia frequentemente os seus convidados interesseiros com “chuva” de pétalas de rosas, em tal quantidade que muitos deles morriam sufocados. Várias outras curiosidades sobre o número 8 podem ser encontradas aqui.

quinta-feira, agosto 07, 2008

O quereres Onde queres revólver, sou coqueiro E onde queres dinheiro, sou paixão Onde queres descanso, sou desejo E onde sou só desejo, queres não E onde não queres nada, nada falta E onde voas bem alta, eu sou o chão E onde pisas o chão, minha alma salta E ganha liberdade na amplidão Onde queres família, sou maluco E onde queres romântico, burguês Onde queres Leblon, sou Pernambuco E onde queres eunuco, garanhão Onde queres o sim e o não, talvez E onde vês, eu não vislumbro razão Onde o queres o lobo, eu sou o irmão E onde queres cowboy, eu sou chinês Ah! bruta flor do querer Ah! bruta flor, bruta flor Onde queres o ato, eu sou o espírito E onde queres ternura, eu sou tesão Onde queres o livre, decassílabo E onde buscas o anjo, sou mulher Onde queres prazer, sou o que dói E onde queres tortura, mansidão Onde queres um lar, revolução E onde queres bandido, sou herói Eu queria querer-te amar o amor Construir-nos dulcíssima prisão Encontrar a mais justa adequação Tudo métrica e rima e nunca dor Mas a vida é real e de viés E vê só que cilada o amor me armou Eu te quero (e não queres) como sou Não te quero (e não queres) como és Ah! bruta flor do querer Ah! bruta flor, bruta flor Onde queres comício, flipper-vídeo E onde queres romance, rock’n roll Onde queres a lua, eu sou o sol E onde a pura natura, o inseticídio Onde queres mistério, eu sou a luz E onde queres um canto, o mundo inteiro Onde queres quaresma, fevereiro E onde queres coqueiro, eu sou obus O quereres e o estares sempre a fim Do que em mim é de mim tão desigual Faz-me querer-te bem, querer-te mal Bem a ti, mal ao quereres assim Infinitivamente pessoal E eu querendo querer-te sem ter fim E, querendo-te, aprender o total Do querer que há e do que não há em mim Caetano Veloso* *no dia do seu 66º aniversário

quarta-feira, agosto 06, 2008

A morte do folião Vadinho caiu no samba com aquele exemplar entusiasmo, característico de tudo quanto fazia, exceto trabalhar. Rodopiava em meio ao bloco, sapateava em frente à mulata, avançava para ela em floreios e umbigadas, quando, de súbito, soltou uma espécie de ronco surdo, vacilou nas pernas, adernou de um lado, rolou no chão, botando uma baba amarela pelo boca onde o esgar da morte não conseguia apagar de todo o satisfeito sorriso do folião definitivo que ele fora”. Jorge Amado Dona Flor e seus dois maridos (Colecção Mil Folhas – Junho de 2002)
A Rosa de Hiroshima
Foi há 63 anos, mas é imperioso não esquecer, por maioria de razão quando se fala de forma demente num novo holocausto nuclear que vitimaria dezenas de milhões de pessoas.
Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas, oh, não se esqueçam Da rosa da rosa Da rosa de Hiroshima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida e inválida A rosa com cirrose A anti-rosa atômica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada Vinícius de Moraes

terça-feira, agosto 05, 2008

É preciso ler um pouco É preciso ler um pouco de tudo. É preciso ler um pouco de psicologia, para descobrir o poço sem fundo da alma. É preciso ler um pouco de poesia, para penetrar nesse poço sem fundo, e nele afundar até o gozo. É preciso ler um pouco de teologia, para descobrir que indo mais fundo no poço sem fundo encontraremos a Deus. É preciso ler um pouco do jornal do dia, para descobrir que o mundo já chegou ao fundo do poço, mas ainda continua descendo. É preciso ler um pouco de geologia, para descobrir novos poços sem fundo nesse mundo fecundo. É preciso ler um pouco de magia, para descobrir no fundo do poço mais fundo o enigma mais profundo. É preciso ler um pouco de filosofia, para descobrir que o mundo não é imundo, é apenas um poço sem fundo dentro de outro poço ainda mais fundo. É preciso ler um pouco de biologia, para descobrir a vida se debatendo no fundo, no fundo mais fundo do poço sem fundo. É preciso ler um pouco de antropologia, para descobrir que somos esse próprio poço sem fundo, fundamento de tudo o que somos. É preciso ler um pouco de arqueologia, para descobrir uma cidade no poço sem fundo. É preciso ler um pouco de astronomia, para descobrir que o céu é também um poço sem fundo, oceano negro em que nadam estrelas e interrogações. É preciso ler um pouco de espeleologia, para descobrir que a caverna sem fundo guarda outros tantos poços sem fundo. É preciso ler um pouco de filologia, para decifrar a linguagem do poço sem fundo. É preciso ler um pouco de metodologia, para descobrir os caminhos que há dentro do poço sem fundo. É preciso ler um pouco de etruscologia, grafologia, nefrologia, opsologia, ovniologia, papirologia, parapsicologia, piretologia, pomologia, psefologia, selenologia e todas as logias possíveis, para descobrir o poço sem fundo da nossa curiosidade. É preciso ler um pouco de tudo, embora seja muito pouco. Que esse pouco, porém, seja suficiente para nos fazer vislumbrar no poço sem fundo a ausência desse fundo. Ler um pouco de tudo, mas ler a fundo esse pouco. Ler um pouco, tendo como pano de fundo a sede de saber. Ler um pouco, mas, mesmo sendo pouco, ler contrafundo. Ler um pouco, a fundo perdido. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

segunda-feira, agosto 04, 2008

Não há Vagas Buscamos vagas nas casas, nas mágoas no ofício de Gente no prato do irmão Buscamos as vagas nos muros, na arte e nos arremates de vida e de sorte E na morte buscamos a paz e as chagas das vagas das quais poucas jazem Mas os senhores da ordem justos e prestos buscam informatizar as alas do inferno E, ao menos, poderemos morrer mais tranqüilos sem enfrentar filas nos barrancos, estradas, asilos Antônio Massa* *poeta brasileiro

domingo, agosto 03, 2008

Prematuro? Serafim foi ao cartório registrar seu primeiro filho. Precisava de duas testemunhas e chamou Pedro Fiscal e Orico do Bar, que iam passando. Os dois aceitaram o convite, mas Pedro Fiscal comentou malicioso: - Ô, Serafim, você casou só faz um mês. Esse teu filho não nasceu meio adiantado não? - Não, não. Ele nasceu no prazo certo, o casamento é que foi meio atrasado. Mouzar Benedito Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

sábado, agosto 02, 2008

Apologia do extermínio Benny Morris é um historiador israelita, que parece mover-se bem nos meios políticos e militares do estado judaico e ter acesso privilegiado aos planeadores estratégicos de Israel. Apesar de se considerar a si próprio politicamente de esquerda, publicou no jornal de referência estado-unidense The New York Times, em 18 de Julho passado, um artigo significativamente intitulado Utilizar Bombas para Evitar a Guerra, no qual advoga nada mais nada mesmo que o holocausto nuclear do Irão. A leitura do artigo é arrepiante, como o é o facto de ter sido publicado no respeitável jornal da elite bem pensante nova-iorquina, facto que constitui uma espécie de aval a todas as loucuras dos falcões israelitas. Não seria a primeira vez que as palavras de Benny Morris cheiram a premonição. Em entrevista publicada em 9 de Janeiro de 2004 no jornal israelita liberal Haaretz, curiosamente intitulada “A Sobrevivência dos mais Aptos? ”, o Sr. Morris afirmou, entre muitas outras enormidades acerca do povo palestino, o seguinte: algo como uma jaula tem de ser construído para eles. Eu sei que isso soa horrivelmente. Isso é realmente cruel. Mas não há escolha. Há um animal selvagem por aí que tem de ser enjaulado de uma forma ou de outra. Logo a seguir foi o que se viu e ainda vê: construção do muro da vergonha, bloqueio marítimo e terrestre, privação de electricidade... Depois de toda a campanha desenvolvida pelo inefável Sr. W. contra o Irão, com o apoio incondicional de Israel e a política da “Maria vai com as outras” do resto do ocidente, principalmente da União Europeia, é sintomático que a auto-proclamada imprensa “livre” não tenha feito qualquer abordagem crítica dos postulados de Morris, cujo alcance está bem patente neste artigo de David Bromwich, professor da universidade de Yale, ou neste outro do sociólogo James Petras. Por cá, moita carrasco! Ou os patrões habituais mandaram silenciar os arautos da "imprensa livre", ou a Maddie, a Quinta da Fonte e até mesmo a Esmeralda são bem mais importantes do que setenta milhões de iranianos ameaçados de extermínio.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Evocação Lembram-se do célebre programa O Planeta dos Homens, com os grandes Jô Soares, Paulo Silvino e Agildo Ribeiro, em que este último interpretava um professor de mitologia que falava “axim” e tinha um mordomo a quem insultava, chamando-o de "múmia paralítica" e outros impropérios, sempre que ele tocava uma sineta quando o professor se desviava frequentemente dos temas das suas aulas e começava a suspirar por uma tal Brrruunna? Pois parece que a Bruna, um espanto de modelo que virou actriz (excelente) e escritora (que dizem ser muito boa e injustamente ignorada), está bem e recomenda-se. Como testemunho de que uma cara bonita também pode saber escrever bem, no dia do seu 56º aniversário aqui fica o poema “Princípio”: Na paixão de um homem, na inquietude das feras, no vermelho que o fio da lâmina provoca o olho acostumado a perscrutar as máscaras, as almas, o que não se confessa. Na origem profunda do ser Onde tudo começa na sua luta contra o tempo e contra a natureza em tudo há o desgaste em tudo o conflito se apresenta raiz do ataque e defesa há o mar, a fúria do mar e a força da rocha que o enfrenta. Bruna Lombardi

quinta-feira, julho 31, 2008

LIBERDADE Liberdade! Palavras e gestos; feitos heróicos e todas as lutas, em defesa da justiça... Liberdade! Tradicionais templos, o homem, suas relíquias e suas verdades... Liberdade! A canção de todos os tempos da existência; as idéias dos gênios e a vida dadivosa de todos os santos... Liberdade! Amor sem limites, vôo de pássaro no espaço infinito! Antônio Castilho* *poeta brasileiro

quarta-feira, julho 30, 2008

Mário Quintana por Mário Quintana Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Há ! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas : ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a eternidade. Nasci do rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton ! Excusez du peu. Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, instrospectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros ? Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmacia durante 5 anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Veríssimo - que bem sabem ( ou souberam) , o que é a luta amorosa com as palavras. Mario Quintana ( texto escrito pelo poeta para a revista Isto É de 14/11/1984)

terça-feira, julho 29, 2008

Leitura cura tudo Leitura cura tudo. É bom para tudo, tudo ajuda, faz de tudo. Trabalha todas as dimensões intelectuais. Exercita a atenção, a memória recente, a conexão entre fatos e experiências passadas, a linguagem, a imaginação, a capacidade de prever, a capacidade de interpretar, a intuição. A leitura nos cura do dogmatismo e do ceticismo, do medo e da temeridade, do sentimentalismo e da insensibilidade, da falta de assunto e da verborragia, da indecisão e do fanatismo, da arrogância e da timidez. Leitura faz bem para os músculos, para os ossos, para os olhos, para os ouvidos, para a queda de cabelo, para os rins, para os intestinos, para as juntas, para as costas, para as pernas, para os pés, para as mãos, para os dedos, para as unhas, para tudo. Ler resolve problemas de visão, de solidão, de falta de recreação, de impotência, de sonolência, de implicância, de amargura, de cabeça dura, de alergia a fritura, de incultura, de postura, melhora a temperatura, aumenta a estatura, cola as fissuras, cura qualquer gastura, queima todas as gorduras. Durante a leitura o leitor esquece as torturas da vida, recupera o amor à vida, dá vida a novas idéias, revive vidas passadas, prevê vidas futuras, comunica vida à vida mesma. A cada leitura o leitor sai de si, reencontra-se, dá a volta ao mundo, mergulha oceanos, perfura a terra, entra em órbita, engole nuvens, desafia o Sol, abraça a lua... E tudo isso sem sair do lugar. O leitor que lê bebe o leite, bebe o vinho, bebe o café do vizinho, bebe a cerveja, bebe de todos os rios, bebe cicuta, bebe uísque, bebe muito, bebe e cala, bebe e ouve, bebe tudo e continua sóbrio. Leitura, sobretudo, é remédio para todos os males. Cura dor de cotovelo, dor aguda, dor cansada, dor surda, dor crônica, dor romântica, dor poética, dor dramática, dor trágica, dor da mente, dor demente, dor da alma, dor de barriga, dor de cabeça, dor de dente, dor de peito, dor que nada respeita, dor difusa, dor confusa, dor fantasma, dor fina, dor grossa, dor incausada, dor ousada, dor para todos os gostos e lamentos. Leitura cura tudo. E, claro, cura até mesmo o maior de todos os problemas. Cura a própria falta de leitura! Quem lê torna-se incuravelmente leitor. Isto afirmo sem o menor exagero. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

segunda-feira, julho 28, 2008

SEMPRE Não existem manhãs iguais. Sempre algo é diferente, é novo. Uma nuvem, um pássaro. Uma história, um povo. Não existem manhãs iguais. Sempre algo é diferente, é belo. Uma pessoa, um cão Uma guerra, um flagelo. Não existem manhãs iguais. Sempre algo é diferente, é bom. Uma canção, um fato. Uma esperança, um dom. Não existem manhãs iguais. Sempre algo é diferente, é semente. Uma caneta, um papel em branco. Uma trova, um repente. Mas se não mudam as manhãs, muda alguém dentro da gente. Antônio Carlos Tórtoro* *poeta brasileiro

domingo, julho 27, 2008

Da Leitura Não leiais para refutar ou contradizer, para aceitar ou aquiescer, para perorar ou discursar, mas para ponderar e considerar. Certos livros devem ser provados; outros engolidos; uns poucos mastigados e digeridos. Quer dizer: devemos ler certos livros apenas parceladamente; outros incuriosamente, e uns poucos da primeira à última página, com diligência e atenção. Alguns livros podem mesmo ser lidos por terceiros, que nos farão deles um apanhado, mas isso somente no caso de assuntos desimportantes, e de livros medíocres, pois livros resumidos são como água destilada: insípidos. O ler faz um homem completo, o conferir destro, o escrever exacto. Bem por isso, se alguém escreve pouco, deve ter boa memória; se confere pouco, muita sagacidade; se lê pouco, muita manha para afectar saber o que não sabe. Francis Bacon, in "Ensaios Civis e Morais" Retirado daqui

sábado, julho 26, 2008

Palavra Palavra, nave da navalha, invente em mim o avesso do neutro. Preparo para o dia a fala, curva do finito num silêncio de âncora. Atalho onde me calo e colho, como a um galo, o intervalo do azul. Antônio Carlos Secchin* *poeta brasileiro

sexta-feira, julho 25, 2008

O legado de Auschwitz Parecia que os reiterados tributos oficiais às vítimas dos campos de concentração europeus, criados durante a Segunda Guerra Mundial, iam pôr um ponto final na sua lógica do genocídio. No início do século XXI é difícil acreditar que este seja o caso. As guerras dos Balcãs, as atrocidades que se sucederam na África e nas guerras do Iraque e do Afeganistão representaram, pelo contrário, uma espantosa regressão histórica. Os massacres e genocídios, os deslocamentos forçados de milhões de seres humanos, o confinamento maciço em campos de concentração ou de refugiados e, não por último, os movimentos migratórios provocados pela pobreza e pela destruição ecológica não têm parado de se multiplicar. Vale a pena ler na integra este artigo de Eduardo Subirats, ensaísta espanhol e professor de Filosofia, Teoria da Cultura e de Literatura na Universidade de Nova York.

quinta-feira, julho 24, 2008

Eu Aprendi a Dizer Sim Eu aprendi a dizer sim quando vi a natureza molhada na manhã alegre do primeiro dia novo. Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome no homem indefeso e não achei nenhuma razão. Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu e fiquei deslumbrado com a esperança renovada. Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse os princípios fundamentais da humanidade em luta. Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola de minha infância e corri, gritei e... aprendi. E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis durante todo o resto da vida, depois que aprendi. Antero Coelho Neto* *médico, professor e escritor brasileiro

quarta-feira, julho 23, 2008

...e a guitarra morreu com ele! Quando eu morrer, morre a guitarra também. O meu pai dizia que, quando morresse, queria que lhe partissem a guitarra e a enterrassem com ele. Eu desejaria fazer o mesmo. Se eu tiver de morrer, morrerá comigo a minha guitarra. Carlos Paredes

terça-feira, julho 22, 2008

Contracepção e teologia A objecção mais comum à contracepção é por esta ser contra a "natureza". (Por alguma razão não é permitido dizer que o celibato é contra a natureza; não vejo outra razão para isso senão o facto de não ser novidade). Malthus via apenas três formas de conter o crescimento demográfico; a abstenção, o vício e a miséria. A abstenção não era susceptível de ser praticada em larga escala. O "vício", isto é, a contracepção, encarava-a ele, enquanto clérigo, com horror. Restava a miséria. No conforto da sua casa paroquial, ponderava a miséria da grande maioria com equanimidade, salientando as falácias dos reformadores que esperavam aliviá-la. Os modernos inimigos teológicos da contracepção são menos honestos. Fingem pensar que Deus garante o sustento, não importa quantas bocas há para alimentar. Ignoram o facto de que Ele não o fez até agora, deixando a humanidade exposta a fomes periódicas durante as quais milhões sucumbiram. Devemos considerar que defendem, se é que acreditam no que dizem, que deste momento em diante Deus vai obrar continuamente o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, coisa que até à data Ele entendeu ser desnecessário. Ou talvez digam que o sofrimento cá em baixo é de pouca importância; o que importa é o além. Segundo a própria teologia que defendem, muitas das crianças que virão a existir graças à oposição ao controlo da natalidade vão parar ao inferno. Devemos supor, portanto, que se opõem à melhoria das condições de vida na terra pois acham bem que muitos milhões sofram a condenação eterna. Por comparação com eles, Malthus parece misericordioso. Bertrand Russell (publicado originalmente em 1943) Tradução de Vítor Guerreiro a partir Unpopular Essays (Routledge, 1995). Retirado da Crítica, revista digital de filosofia e ensino, que vale a pena subscrever.

segunda-feira, julho 21, 2008

Vocação de lume Há palavras que sem te aperceberes poisam nos lábios. Não sabes a direcção mas decerto vêm de sul. Deves soltá-las. Se o não fizeres encaminhar-se-ão para o interior queimando com seu lume primeiro a garganta. Agora tens que optar. Entre um incêndio. E outro. Antero Barbosa* *escritor duriense

domingo, julho 20, 2008

Aprender a soltar Soltar os cachorros. Sobre aqueles que nos manipulam. Sobre aqueles que nos tratam como animais. Soltar os pássaros. Pela janela. Em nome do infinito. Tendo ao longe o horizonte. Tendo por perto a vontade de voar também. Soltar os cavalos. Pelo mundo afora. Pela vida afora. Com a alegria de correr. Com a esperança de chegar. Com a velocidade do amor. Sem medo de ir. Sem medo de voltar. Soltar as árvores. De suas sementes esmagadas. Acompanhar-lhes o crescimento. Colher seus frutos na hora exata. Aprofundar suas raízes. E que suas folhas sejam muitas. Que sua sombra seja imensa. Soltar os filhos. De meus medos infundados. Deixá-los ser o que hão de ser. Soltá-los sem abandoná-los. Soltá-los sem esquecê-los. Soltá-los de amarras imaginárias. Soltá-los para a vida. Preparados para viver a sua própria vida, não a minha, não a de ninguém. Soltar as palavras. Libertá-las da sintaxe enrolada. Soltar as palavras no texto. Soltar as palavras dos falsos pretextos. Soltar as palavras aqui e agora. Soltá-las com força. Soltá-las com raiva. Soltá-las em lirismo. Soltá-las em drama. Soltá-las do dicionário-presídio. Soltá-las da gramática-exílio. Soltar as idéias dia a dia. Soltá-las em ordem, em desordem. Soltá-las na conversa, à mesa, na fila do banco, no banco de praça, na pressa e na calma. Soltá-las, servi-las. Entregá-las aos outros. Trocá-las por outras. Acrescentá-las a muitas outras idéias. Idéias soltas nos prendem à tarefa que nos cabe cumprir. Soltar os braços. Para trabalhar. Para nadar. Para lutar. Para criar. Soltá-los hoje. Soltá-los amanhã. Soltá-los do corpo. Deixar que se estendam. Que envolvam o mundo. Que dêem mil voltas ao planeta. Que alcancem as estrelas. Que acolham o divino. Que abracem, abracem. Soltar a voz. Cantando. Gritando. Chorando. Ensinando. Avisando. Por tudo e por nada. Em guerra, em paz. Por um motivo justo ou porque tanto faz. Estando com outros. Falando sozinho. Soltar as velas. Na hora de partir. Na hora do mar. As ondas. Os peixes. A terra não vista. A vista perdida. Soltar as velas de novo. De novo soltá-las. As velhas velas de novo. Soltar-me a mim mesmo. Ainda é bem cedo. Soltar-me de mim. Do inquisidor que eu sou. Do sinhozinho que eu sou. Do ditador que eu sou. Soltar o leitor. Soltá-lo de mim. Que ele seja o autor de sua própria leitura. Aprender a soltar-se. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

sexta-feira, julho 18, 2008

A guerra civil espanhola São incontáveis os testemunhos que tornam evidente que o objectivo dos golpistas contra o Governo da II República espanhola, em 18 de Julho de 1936, era exterminar propositadamente os adversários. O general Mola, em 19 de Julho, exigiu aos seus homens “é preciso semear o terror (...) eliminando sem escrúpulos e sem hesitação aqueles que não pensam como nós”. Na mesma linha, o capitão Aguilera, chefe de Imprensa de Franco durante a Guerra Civil, disse: “temos de matar, matar, matar. São como animais. Afinal de contas, ratazanas e os piolhos são portadores da peste. O nosso programa consiste em exterminar um terço da população masculina. Com isso limparíamos o país. Além disso também é conveniente do ponto de vista económico: não voltaria a haver desemprego na Espanha”. Na campanha também participaram numerosos membros da hierarquia da Igreja Católica, como o bispo de Vic, Joan Perello, que recomendava uma “profilaxia social” e pedia “um bisturi para tirar o pus das entranhas da Espanha”. O próprio Franco não escondia as suas intenções quando declarava à imprensa internacional que estava “disposto a exterminar, se fosse necessário, a metade da Espanha que não me é afecta. Preocupados com a nossa ditadura caseira, temos ligado pouca importância aos horrores que viveram os nossos vizinhos sob a bota franquista. Confesso que eu próprio, que tive um estreito contacto com a realidade espanhola durante a década de sessenta, quando a ditadura franquista parecia menos dura do que a salazarista, pelo menos no que toca a alguma liberdade de expressão, não fazia ideia de que a fúria sanguinária dos falangistas e seus apaniguados tinha atingido tais extremos de ódio e destruição. Até que dei de caras com um excelente artigo do filósofo Santos Ochoa Torres, intitulado Necessidade de saber: a Guerra Civil espanhola, de que faz parte o parágrafo acima e cuja leitura recomendo vivamente para que a memória não se apague também do outro lado da fronteira.

quinta-feira, julho 17, 2008

Frio é isso O Bar do Pedrinho estava cheio de gente batendo o queixo de frio e tomando conhaque ou cachaça. Só Zé Luís fingia que era um friozinho à-toa: - Vocês não conhecem frio. Na roça, depois da Bituruna, é que faz frio mesmo. Meu pai tinha umas terras no Cafundó, um dia eu fui tomar conta dos camaradas que estavam capinando a roça, peguei uma cuia d’água e pendurei num galho de uma árvore... Fiquei olhando os camaradas capinando e, mais tarde, quando me deu sede, fui tomar um gole d’água. Quando cheguei lá, a água tinha congelado e os cupins comeram a cuia, ficou só uma bola de gelo pendurada no galho da árvore! - O Cafundó é frio mesmo, mas o Patrimônio é mais frio ainda – afirmou Zeca, que estava quieto, ouvindo tudo. - Mais frio do que isso?! - É. E antigamente era mais frio ainda. Em 1939 fui lá fazer umas cobranças pro meu pai, tava muito frio, fiquei pra dormir na casa de uma comadre. Ela me arrumou uma cama com seis cobertas... - E daí? - Daí eu falei pra ela: me arruma uma lamparina que eu não durmo sem ler. Ela não tinha lamparina, trouxe uma vela, e eu fiquei lendo até o sono chegar. Aí, deixei o livro de lado e soprei a vela pra dormir. Ela não apagou, soprei de novo. Continuei soprando e ela não apagava. Aí é que levei a mão pra apagar a vela com os dedos e descobri que a chama da vela tava era congelada! Mouzar Benedito Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

quarta-feira, julho 16, 2008

Poema a um saco de pão Todos os dias, Os homens experimentam e espreitam Aquelas inseguranças incondicionais. Todos os dias, os homens Pensam que desfrutam a vida Compram flores e lançam ao lixo Os sacos de pão. Queimam jornais. Escutam discos que jamais ouvirão Canções que não ouvirão jamais. Todos os dias, os homens acreditam E tornam alguns verbos mais intransitivos Pela sua carência de objetos. Tenacidade. Alicerces solidificados. E tu, saco de pão, Que como a minha alma se esvazia em solidão, Que rasga o ar e atira as laranjas pelo chão, Que encontra em seu silêncio a pobre forma de expressão, Aguarda, companheiro. Somos nós os pioneiros, vindos da cova mais funda, Pioneiros, como o Fusca, o ODD, o condicionador de ar, Os cotonetes da Johnson & Johnson's, Somos párias e deuses. Somos os últimos heróis da resistência espedaçada, Os soldados do exército que atravessa o oceano Rumo a um país desconhecido lutar com quem sabe quem. Cavaleiros do apocalipse. Somos nós que acordamos as crianças do sono, em cada noite, Os monstros habitando os túneis do metrô. E mais que eu, saco de pão, És feliz porque aproveitas a tua solidão, Não vives, És mudo, livre, tosco, pobre e só. André Ricardo Barreto de Oliveira* *poeta brasileiro

terça-feira, julho 15, 2008

Desgraças Regressado ao rectângulo na noite do passado Sábado, após duas semanas sem ver telejornais portugueses, poisei num estranho país. Primeiro, ao passar os olhos por um pasquim trambiqueiro chamado Público, cedido gratuitamente pela nossa transportadora, comecei a interrogar-me sobre se não teria havido um golpe de estado, com a usurpação do poder por uma clique de facínoras, tantas eram as malfeitorias do governo e os feitos de tudo o que cheirasse a oposição, nesta se incluindo o PGR que parecia ter ganho a batalha de uma vida sobre o parlamento - ou uma parte dele. No Domingo, o canal público de televisão dedicou 15 minutos do seu jornal da noite a um confronto que ocorreu na Quinta da Fonte, em Camarate, entre moradores de etnia cigana e residentes de origem africana. Não cheguei a perceber o que se passou, pois 15 minutos não terão sido suficientes para os vários intervenientes explicarem o que quer que fosse, a não ser que havia pessoas a abandonar as suas casas com medo. A título de contraste, quando há um ano houve um massacre de 9 crianças em São Paulo, os principais canais brasileiros dedicaram ao assunto não mais de dois minutos por jornal e toda a gente ficou esclarecida sobre o que acontecera. Depois, foi a notícia sobre um assalto à secretaria da maternidade Júlio Dinis, no Porto, como se se tivesse tratado de um golpe de mão às reservas de ouro do Banco de Portugal (pressupondo que há algumas). Não vi ninguém questionar-se sobre os propósitos peregrinos de um assalto a um lugar onde, à partida, o dinheiro não pode abundar. Finalmente, um confronto de bandos na praia da Torre, com a chamada de atenção para um célebre “arrastão” ocorrido no Estoril. Não se viu o que quer que fosse, apenas testemunhos de alguns (muitos) alegadamente presentes. A isto se resumiu o que de importante se passou no país durante o fim de semana. E, nada mais havendo a acrescentar, passou-se a antena ao comentador para vender a banha da cobra. Que tristeza!

segunda-feira, julho 14, 2008

ser O que pareço para além de mim não é o importante. Se pareço com o que certamente não sou, quem percebe? Sou. E ser já é muito. André Merez* *poeta paulista

domingo, julho 13, 2008

Homem culto O que é o homem culto? É aquele que: 1.º - Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence; 2.º - Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano; 3.º - Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior preocupação máxima e fim último da vida. Ser-se culto não implica ser-se sábio; há sábios que não são homens cultos e homens cultos que não são sábios; mas o que o ser culto implica, é um certo grau de saber, aquele precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas. A aquisição da cultura significa uma elevação constante, servida por um florescimento do que há de melhor no homem e por um desenvolvimento sempre crescente de todas as suas qualidades potenciais, consideradas do quádruplo ponto de vista físico, intelectual, moral e artístico; significa, numa palavra, a conquista da liberdade. E para atingir esse cume elevado, acessível a todo homem, como homem, e não apenas a uma classe ou grupo, não há sacrifício que não mereça fazer-se, não há canseira que deva evitar-se. A pureza que se respira no alto compensa bem fadiga da ladeira. Condição indispensável para que o homem possa trilhar a senda da cultura - que ele seja economicamente independente. Consequência - o problema económico é, de todos os problemas sociais, aquele que tem de ser resolvido em primeiro lugar. Tudo aquilo que for empreendido sem a resolução prévia, radical e séria, desse problema, não passará, ou duma tentativa ingénua, com vaga tinta filantrópica, destinada a perder-se na impotência, ou de uma mão-cheia de pó, atirada aos olhos dos incautos. Bento de Jesus Caraça, in A Cultura integral do Indivíduo

sábado, julho 12, 2008

A Mentira Agrada Mais do Que a Verdade O espírito do homem é feito de maneira que lhe agrada muito mais a mentira do que a verdade. Fazei a experiência: ide à igreja, quando aí estão a pregar. Se o pregador trata de assuntos sérios, o auditório dormita, boceja e enfada-se, mas se, de repente, o zurrador (perdão, o pregador), como aliás é frequente, começa a contar uma história de comadres, toda a gente desperta e presta a maior das atenções. Como é fácil essa felicidade! Os conhecimentos mais fúteis, como a gramática por exemplo, adquirem-se à custa de grande esforço, enquanto a opinião se forma com grande facilidade, contribuindo tanto ou talvez mais para a felicidade. Se um homem come toucinho rançoso, de que outro nem o cheiro pode suportar, com o mesmo prazer com que comeria ambrósia, que tem isso a ver com a felicidade? Se, pelo contrário, o esturjão causa náuseas a outro, que temos nós com isso? Se uma mulher, horrivelmente feia, parece aos olhos do marido semelhante a Vénus, para o marido é o mesmo do que se ela fosse bela. Se o dono de um mau quadro, besuntado de cinábrio e açafrão, o contempla e admira, convencido de que está a ver uma obra de Apeles ou de Zêuxis, não será mais feliz do que aquele que comprou por elevado preço uma obra destes pintores e que olhará para ela talvez com menos prazer? Erasmo de Roterdão, in "Elogio da Loucura" (fala a Loucura) Retirado daqui

sexta-feira, julho 11, 2008

O homem em pele e osso A pele é superfície, os ossos são entranha. A pele é o que se vê, os ossos o que escapa. A pele é uma casca, os ossos uma safra. A pele é entrega, o osso é arma. A pele é palma, o osso é clava. A pele é a pintura, os ossos são a casa. A pele é o acidente, o osso o permanente. A pele são as nuvens, os ossos são a água. A pele são os musgos, os ossos são as montanhas. A pele é o agora, os ossos são milênios. A pele é um orvalho, os ossos são invernos. Bandeira Tribuzi

quinta-feira, julho 10, 2008

O professor e seus nomes De quantas formas podemos chamar um professor? E o que isso tem a ver com nossa imagem, nossa mentalidade profissional? Maneira antiga era chamar a professora de "tia". Se a escola é continuação da família, a professora é a segunda mãe. Paulo Freire se revoltou: "tia não". Alunos não são parentes. Tia recebe presente, tia a gente não esquece, tia a gente respeita. Tia podia (hoje não pode mais) até dar umas palmadas, porque a mãe apoiava e até incentivava. É comum entre alunos mais velhos chamar o professor de mestre. Mesmo que não tenha mestrado. O mestre tem respostas, conta parábolas, transmite conteúdos e experiências. Mesmo com doutorado, mestre será sempre mestre. Mestre tem algo de maestro, de harmonizador. Mestres mostram o caminho, merecem homenagem. No internetês e no diálogo entre estudantes do ensino médio e universitários de hoje, professor é prof. Prof não é abreviatura. Não tem o ponto de prof., é interrupção abrupta, interrupção ou preguiça, ou então sinal de intimidade. Prof pode chegar ao mínimo, ao prô. Ser prô não diminui o professor. Prô vale para professora e professor, é unissex. Prô é do bem, é sangue bom. Com o prô ou com a prô a gente pode reclamar na boa. Há ainda os que chamam professor de teacher. Mesmo que o aluno não saiba inglês, pede ao teacher alguma explicação. Teacher não é deste país, nem deste mundo. Engraçado alguém se referir ao teacher que ministra aulas de língua portuguesa... E o professor que se chama professor. Professor porque sabe professar o que conhece. Há quem diga que professor é nome menor. O importante mesmo seria atuar como educador, porque educador vai mais longe, não está preso entre as quatro paredes da sala de aula. Ou então chamemos o professor pelo nome de batismo. É o João, o Marcos, a Beatriz, a Inês, cidadãos dedicados à tarefa de ensinar. Dispensam títulos. Não serão "senhor" ou "senhora". Informalmente serão o que são, pessoas que descobriram sua vocação. Não tenhamos medo da palavra "vocação". Vocare, no latim, é chamar. Professor é aquele que se sente chamado a dialogar com os alunos. Aluno, por sua vez, procede de outro verbo latino, alere, referente à alimentação. Aluno se alimenta das palavras do professor, de sua capacidade para transformar conhecimento próprio em descobrimento do outro. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

quarta-feira, julho 09, 2008

Liberdade Aqui nesta praia onde Não há nenhum vestígio de impureza, Aqui onde há somente Ondas tombando ininterruptamente, Puro espaço e lúcida unidade, Aqui o tempo apaixonadamente Encontra a própria liberdade. Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, julho 08, 2008

Sexquicentenário Passaram há uma semana 150 anos sobre o primeiro anúncio público da descoberta da selecção natural, a base da teoria da evolução. Com efeito, foi no dia 1 de Julho de 1958 que alguns amigos da Charles Darwin organizaram um encontro na Linnean Society de Londres com vista a estabelecer a primazia na descoberta, encontro esse onde foram lidos alguns documentos de Darwin e um manuscrito de Alfred Russel Wallace sobre o princípio da evolução por selecção natural. Nos próximos 18 meses celebrar-se-ão os 200 do nascimento de Charles Darwin (12 de Fevereiro de 2009) e os 150 anos da publicação da sua obra prima, “A Origem das Espécies” (24 de Novembro de 2009). Embora estes acontecimentos seja grandemente reconhecidos, um excelente resumo da sua importância pode ser encontrado aqui, pela pena da célebre bióloga evolucionista Olivia Judson, autora de “O Consultório Sexual da Drª. Tatiana”, disponível em tradução portuguesa desde 2006.
Pássaros Longe Gorjeiam com sede De afeto. Perto Acarinham O alento incerto O afago gracejo feto De um amor, alma, ímã. Os pássaros e a latitude A longitude e os hiatos Das palavras não ditas. Perto Embarcações em seco Duelam com a luz do sol E o fio da navalha azul do tempo. Pássaros Vivem em mim E voam até imantar em ti Minha verve. Pássaros. O Passado, passará Ocaso, o presente nascerá E o futuro, amanhecerá Passarinhando. Pássaros. Passarei, passarinho. Anand Rao* *poeta brasileiro

sábado, julho 05, 2008

Acaso Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui outra. Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, mas não vai só nem nos deixa sós. Leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo. Há os que levam muito, mas há os que não levam nada. Essa é a maior responsabilidade de nossa vida, e a prova de que duas almas não se encontram ao acaso. Antoine de Saint-Exupéry

quinta-feira, julho 03, 2008

Vicissitudes de um viajante

Depois de, no Domingo passado, ter demorado dezoito horas e meia para vir de Lisboa até Lanzarote (tudo porque a nossa TAP, por motivos técnicos, resolveu atrasar o voo das 7H35 para as 8H45, com um posterior atraso de mais uma hora, o que levou a que perdêssemos o voo da Spain Air das 10H50, obrigando-nos a esperar pelo das 20H20 que, por sua vez, se atrasou mais duas horas, também por motivos técnicos), só hoje consegui ver resolvido o acesso Wi-Fi no complexo turístico de Playa Blanca onde me encontro. Depois de várias reclamações, a conclusão inevitável foi de que o problema não era do meu computador (que já funcionou desde o Montenegro ao Novo México, sem problemas), mas sim do fornecedor do serviço, incluído no pacote pago há três meses atrás.

Solucionado este problema, espero que definitivamente, até ao dia 11 vou manter-me por aqui, com as minhas mulheres:















Ou por aqui