sábado, agosto 23, 2008

Noite As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem. Todos os rumores são postos em surdina, todas as luzes se apagam. Há um grande aparato de câmara funerária na paisagem do mundo. Os homens ficam rígidos, tomam a posição horizontal e ensaiam o próprio cadáver. Cada leito é a maquete de um túmulo. Cada sono em ensaio de morte. No cemitério da treva tudo morre provisoriamente. Menotti Del Picchia* *poeta ítalo-brasileiro

sexta-feira, agosto 22, 2008

Trema nunca mais Em breve, o trema deixará de ser uma preocupação. Muitos já nem davam importância à sua presença. Agora é oficial, e haverá comemoração: o novo acordo ortográfico prevê seu desaparecimento. Decreta, melhor dizendo, o seu desaparecimento, a sua extinção, a sua inexistência. Sentirei falta dele. Eu que, professor e escritor, lutei durante a vida inteira pelo trema sem temor já posso prever profundas mudanças ao nosso redor. Sem este duplo ponto, nada mais será como antes. O qüinqüênio ficará mais curto. O liqüidificador perderá força e eficiência. A nota de cinqüenta reais ficará desvalorizada. O poliglota qüinqüelíngüe não dominará tão bem os seus cinco idiomas. Os qüiproquós estarão para sempre resolvidos. O pingüim, perplexo, andará menos charmoso. O antiqüíssimo se tornará banalidade sem data, velharia sem graça. Quantas conseqüências serão esquecidas por aí, no banco de praça, dentro do táxi, no meio do caminho! A ambigüidade menos misteriosa, menos atraente, a arte se empobrecerá. A própria Lingüística deixará de ser aquela ciência que outrora foi. Os ungüentos abandonados, inúteis, inócuos, nas estantes e nos dicionários. Tudo o que era subseqüente não terá mais razão de viver. A lingüiça sem cor e sem gosto. A eqüidade arruinada. A tranqüilidade perdida. O alcagüete, envergonhado de fazer o que faz, murmura: "Sem trema... que pena!". Ninguém mais dará crédito ao eqüestre. Vamos rir do seqüestrador, finalmente desarmado. Nada mais deixará seqüelas, no corpo ou na alma, no papel ou na mente. Não haverá mais argüições, e redargüir a ninguém caberá. Contigüidade, coisa do passado. A delinqüência mais freqüente. A grandiloqüência desmoralizada, sem ter o que dizer. Meu tipo sangüíneo se esvairá. Ninguém agüentará coisa alguma. Deus perderá ubiqüidade. A iniqüidade ganhará mais espaço, na rua e na mídia. O aqüífero morrerá de sede. O eqüidistante inalcançável. O triângulo eqüilátero cairá no chão e se quebrará em mil pedaços. A eqüissonância desafinará. Como transitar pela Rodovia Anhangüera outra vez? Os sagüis se esconderão de nós, temendo que deles arranquemos mais alguma coisa, além do trema. Aliás, o fim do trema traz à mente alguns receios. Nada impede que, daqui a algumas décadas, a cedilha seja removida sem dó nem piedade. O til também. E o circunflexo... Desmilingüido, o trema se despede de todos. Alguns lhe dizem: "já vai tarde!". O trema estremece de medo. Abre a porta dos fundos, e some. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

quinta-feira, agosto 21, 2008

Cão Cão passageiro, cão estrito Cão rasteiro cor de luva amarela, Apara-lápis, fraldiqueiro, Cão liquefeito, cão estafado Cão de gravata pendente, Cão de orelhas engomadas, de remexido rabo ausente, Cão ululante, cão coruscante, Cão magro, tétrico, maldito, a desfazer-se num ganido, a refazer-se num latido, cão disparado: cão aqui, cão ali, e sempre cão. Cão marrado, preso a um fio de cheiro, cão a esburgar o osso essencial do dia a dia, cão estouvado de alegria, cão formal de poesia, cão-soneto de ão-ão bem martelado, cão moído de pancada e condoído do dono, cão: esfera do sono, cão de pura invenção, cão pré-fabricado, cão espelho, cão cinzeiro, cão botija, cão de olhos que afligem, cão problema... Sai depressa, ó cão, deste poema! Alexandre O’Neill in Abandono Vigiado

quarta-feira, agosto 20, 2008

Largura Santina largou tudo e foi para São Paulo, trabalhar em escritório, ganhar dinheiro, voltar rica e respeitada. Pelo menos era o que imaginava. Dois anos depois, estava de volta, mãe solteira e com a esperada riqueza reduzida a um automóvel velho, que para chegar a Santa Rita foi conhecendo todos os mecânicos do caminho. Seu tio não considerou um fracasso a sua ida para São Paulo. Ao contrário, achou que ela tinha era muita sorte: - Ô Santina, cê é larga mesmo, hem? Foi pra São Paulo, em pouco tempo arranjou um menino bonito e inda voltou com uma condução. Vai sê larga assim lá diante! Mouzar Benedito Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

terça-feira, agosto 19, 2008

A Ignorância O povo julga bem as coisas, porque está na ignorância natural, que é o verdadeiro lugar do homem. A ciência tem duas extremidades que se tocam. A primeira é a pura ignorância natural, na qual se encontram todos os homens ao nascer. A outra extremidade é aquela a que chegam as grandes almas que, tendo percorrido tudo quanto os homens podem saber, acham que nada sabem e voltam a encontrar-se nessa mesma ignorância da qual tinham partido; mas é uma ignorância sábia que se conhece. Os do meio, que saíram dessa ignorância natural e não puderam chegar à outra, têm umas pinceladas dessa ciência suficiente, e armam-se em entendidos. Esses perturbam o mundo e julgam mal de tudo. O povo e os verdadeiramente sábios compõem a ordem do mundo; estes desprezam-na e são desprezados. Blaise Pascal, in "Pensamentos"

segunda-feira, agosto 18, 2008

Templo dos desejos Era um lugar paradisíaco. Estaria eu a sonhar ou sob efeito de uma droga involuntariamente ingerida? Eu caminhava pausadamente naquele simulacro do Jardim do Éden. Ali não havia pecado e nenhum de seus efeitos: miséria, violência, fealdade, imundície ou medo. Tudo absolutamente clean: o brilho das luzes, a beleza dos objetos, o requinte high-tech dos equipamentos. À minha volta, todos pareciam felizes, traziam aspecto saudável. Ninguém descalço, desdentado, estendido em calçadas ou com o olhar precocemente ameaçador. Sentia-me inteiramente seguro naquela pirâmide dourada, cujos túneis me conduziam a nichos de esplendor. À minha disposição, os mais suaves calçados para os pés, roupas de colorido vivo, agasalhos de lã ou couro, camisas e ternos bem cortados, computadores de última geração, máquinas digitais, celulares de multiuso... No piso superior, iguarias importadas e refinados manjares, de sanduíches pantagruélicos a panquecas adocicadas, sem que se aspirasse o menor odor de gordura ou existissem pedintes ou gatos e cães vadios a espreitar sobras. Todos os veneráveis objetos eram acolitados por belíssimas sacerdotisas, e a contemplação de tão sofisticados artefatos enlevava a alma. Ao fundo, uma delicada música que não agredia os ouvidos e contribuía à paz de espírito. Não havia trânsito nem o cheiro asfixiante de gases emanados de motores. Desprovidas de ruídos, nas alamedas feericamente iluminadas os transeuntes caminhavam sem pressa, atentos às maravilhas circundantes. Podiam subir de um piso ao outro sem o menor esforço; bastava pousar os pés numa esteira que os içava ao topo sem desprenderem energia. O ambiente impregnava-se de leve odor de perfume; todos ali pareciam muito felizes, livres do assédio de crianças de rua, do espectro de maus encarados, da presença intimidadora de viaturas policiais. Viam-se expostos inúmeros talismãs capazes de nos imprimir valor e suscitar a inveja alheia. Bastava pagar por um deles e ver consagrada a felicidade de tornar-se portador daquelas preciosidades, como se o mago houvesse se desprendido da lâmpada de Aladim. Fascinava-me a inventividade dos seres humanos. Não que os artefatos fossem incomuns; pelo contrário, eram instrumentos para a escrita e equipamentos esportivos, objetos de cutelaria e precisão ótica, uma infinidade de frascos contendo o poder de, abertos, exalar beleza e fascínio. A diferença residia no designer arrojado, na estética atrativa, na sofisticação de peças como um simples abridor de garrafa. Estaria eu num conto de Borges? Estaria a sonhar ou seria eu o resultado de um sonho? Estar ali era como se todos os dias fossem domingo, momento de ócio e distração, seduzido por aquele espaço lúdico que me permitia evadir da realidade e acreditar pertencer ao seleto clube dos eleitos a penetrarem o nirvana. Eu não queria acordar, resistia a ser expulso do Paraíso e, como Lúcifer, precipitar-me na infernal rotina do trabalho árduo, da vida medíocre, da paisagem incolor, da insegurança das ruas e da atmosfera poluída contaminada pelo medo. Queria permanecer ali para sempre, guardado no ventre acrílico daquela imensa catedral habitada por ídolos de minha devoção, cultuados por desmedidas ambições. Ali eu me sentia próximo ao céu, ao mundo dos que foram poupados do sofrimento, à esfera dos premiados pela fortuna. Estava redimido dessa pobre humanidade que nos priva do encanto, da magia, do universo onírico onde se volatilizam todas as dores e angústias. Ali se me acercavam o Olimpo e todos os bens capazes de realçar uma pessoa acima de seus semelhantes. Contudo, chegou a hora de cerrar vitrines e baixar portas. Fui avisado pelo vigilante que dentro de cinco minutos o shopping seria fechado. Frei Betto* *escritor brasileiro Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

domingo, agosto 17, 2008

Cortar o Tempo Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente. Carlos Drummond de Andrade

sábado, agosto 16, 2008

10 reflequições I - Todo mundo viaja. Poucos chegam Lá. II- As guerras acabam. Mas as ruas nunca ficam prontas. III- Tinha um ar soberbo. Totalmente poluído. IV- Dizia "Minha cara metade", como quem reclama do preço. V- Confesso: sou pior sozinho do que mal acompanhado. VI- Repara: quando você aprende uma palavra nova, ela aparece em todos os lugares. VII- Solitário dorme sozinho. Rejeitado acorda sozinho. VIII- Mostrei-lhe a lua no horizonte, redonda, linda. Mas ela prefere o Faustão. IX- Não há pessoa mais chata do que você mesmo. Fuja da solidão. X- Fica frio, amigo, não foi o brasileiro o inventor da corrupção. Baseado no mais profundo ensinamento da minha religião, a corrupção começou no Princípio dos Princípios, justamente no Jardim do Éden. Quando os dois proto-Safados, corrompidos pela Serpente, desrespeitaram a Lei do Senhor e comeram o Fruto da Ciência do Bem e do Mal, o desrespeito espantoso ficou conhecido como A Queda. Mas não passou assim pelo Todo (como era conhecido o Todo-Poderoso), que condenou os três culpados por uso indevido de bem público e formação de quadrilha. Logo o Anjo Gabriel, executor das ordens do Supremo, expulsou Adão e Eva do Paraíso, obrigando-os a viver na periferia, a leste do Éden. Mas a Serpente, misteriosamente, nunca foi punida. Millôr Fernandes

sexta-feira, agosto 15, 2008

O corpo Acrobata enredado Em clausura de pele Sem nenhuma ruptura Para aonde me leva Sua estrutura? Doce máquina Com engrenagem de músculos Suspiro e rangido O espaço devora Seu movimento (Braços e pernas sem explosão) Engenho de febre Sono e lembrança Que arma E desarma minha morte Em armadura de treva. Armando Freitas Filho* *poeta carioca

quinta-feira, agosto 14, 2008

Dificuldade de governar 1 Todos os dias os ministros dizem ao povo Como é difícil governar. Sem os ministros O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. Nem um pedaço de carvão sairia das minas Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol Sem a autorização do Führer? Não é nada provável e se o fosse Ele nasceria por certo fora do lugar. 2 E também difícil, ao que nos é dito, Dirigir uma fábrica. Sem o patrão As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem. Se algures fizessem um arado Ele nunca chegaria ao campo sem As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem, De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que Seria da propriedade rural sem o proprietário rural? Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas. 3 Se governar fosse fácil Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer. Se o operário soubesse usar a sua máquina E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários. É só porque toda a gente é tão estúpida Que há necessidade de alguns tão inteligentes. 4 Ou será que Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira São coisas que custam a aprender? Bertolt Brecht* *no 52º aniversário da sua morte (Tradução de Arnaldo Saraiva)

quarta-feira, agosto 13, 2008

Viagem Para habitar as planícies da ausência e escalar os montes de tempo que não vives eis a secreta viagem duma ave imaginária em busca do instante onde tudo recomeça Armando Artur* Poeta moçambicano

terça-feira, agosto 12, 2008

Auto-retrato O que eu fui sempre, o que eu sou, e o que eu serei, é um artista, um homem e um revolucionário. Na medida em que sou artista, quero um mundo onde a beleza seja o vértice da pirâmide. Na medida em que sou homem, quero que nesse mundo os indivíduos sejam livres e conscientes. E na medida em que sou revolucionário, quero que a revolução traga à tona as grandes massas, e que nunca acabe de percorrer o seu caminho perpétuo, sem estratificações e sem dogmas. Miguel Torga In Diário IV, 1979

segunda-feira, agosto 11, 2008

borboletas de luz esvoaçando de cadáver em cadáver colhem o fedor dos mortos em vão e pelos buracos da renda dos dias passam alacres do mundo do esquecimento ao país da indiferença levando consigo o pólen fatal das flores da guerra borboletas de luz Arlindo Barbeitos* *poeta angolano

sábado, agosto 09, 2008

As palavras As palavras saltitam, pululam, estão soltas, sem amarras. Palavras vivas. Sons, movimentos, sentimentos. Se não, estão petrificadas, feitas de letras - arquiteturas banais. As palavras não representam, elas são, estão além dos significados - ou seria, mais, bem, aquém? Libertadas dos dicionários pelos campos pelas fábricas, pelos lugares de sua gestação. Originárias, necessárias. Elas exercem um poder tanto porque podemos com elas apoderar-nos do mundo (ou conhecer) quanto elas nos governam e orientam. As palavras são a música das coisas nomináveis; as formas das coisas: o próprio som que elas emitem. Podemos dar às palavras o sentido que se queira aprisiona-las em obras de fina urdidura. Mas nem sempre -e felizmente – as palavras levam à Razão, vão ao imaginário à beleza de sua condição: as ondas equilibram o movimento do mar, marmorizado nas palavras. Podemos transformá-las em textos decifráveis. Esgarçá-las, montá-las sobre uma superfície limitante, e fria. Não obstante, as palavras estarão livres vivificadas quando poesia. António Miranda* *poeta brasileiro

sexta-feira, agosto 08, 2008

Oitos malucos As 8 horas e 8 minutos da tarde do dia 8 do mês 8 do ano 08 que assinalaram, hoje, a abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim têm sido motivo das mais variadas análises sobre a simbologia do número 8 na cultura chinesa. Quando estive em Hong Kong, há 10 anos, passámos ao lado da mansão de um chinês conhecido como “o rei do arroz” que, pelos vistos, era podre de rico. Informou-nos a guia que as matrículas dos automóveis eram leiloadas, sendo que as que continham o número 8 atingiam valores astronómicos. O tal “rei do arroz” tinha adquirido a matrícula 888 e a sua frota automóvel era constituída por 8 reluzentes Rolls Royce e parece que outros tantos Bentley. Quando estávamos numa estrada sobranceira à mansão, víamos mais de uma dezena de automóveis, todos topo de gama, e fomos informados de que os cozinheiros, mordomos e outros serviçais se deslocavam de e para o trabalho em Mercedes Classe E e que os seguranças do “rei do arroz” o acompanhavam em Ferraris e Porches. “Esquisitices” de um indivíduo que tinha nascido pobre e ganhou uma fortuna colossal à custa do “suor do rosto”...dos outros. Mas a mania dos 8 não é exclusiva dos chineses. O bizarro imperador romano Heliogábalo - tão bizarro que, tendo sido coroado imperador aos 14 anos e assassinado aos 18, teve tempo para violar uma virgem vestal, casar com cinco mulheres, ter um sem número de amantes masculinos e oferecer somas astronómicas a médicos para mudar de sexo -, tinha um prazer perverso relativamente aos 8 e presidia a festas para as quais convidava: 8 homens velhos 8 homens carecas 8 homens cegos de um olho 8 homens coxos por causa da gota 8 homens surdos 8 homens muito altos 8 homens negros 8 homens roucos 8 homens com nariz adunco 8 homens morbidamente obesos 8... Parece que gostava de se rir às gargalhadas porque os muito gordos ou muito altos, por exemplo, não cabiam nos divãs onde os romanos se reclinavam para comer. Também surpreendia frequentemente os seus convidados interesseiros com “chuva” de pétalas de rosas, em tal quantidade que muitos deles morriam sufocados. Várias outras curiosidades sobre o número 8 podem ser encontradas aqui.

quinta-feira, agosto 07, 2008

O quereres Onde queres revólver, sou coqueiro E onde queres dinheiro, sou paixão Onde queres descanso, sou desejo E onde sou só desejo, queres não E onde não queres nada, nada falta E onde voas bem alta, eu sou o chão E onde pisas o chão, minha alma salta E ganha liberdade na amplidão Onde queres família, sou maluco E onde queres romântico, burguês Onde queres Leblon, sou Pernambuco E onde queres eunuco, garanhão Onde queres o sim e o não, talvez E onde vês, eu não vislumbro razão Onde o queres o lobo, eu sou o irmão E onde queres cowboy, eu sou chinês Ah! bruta flor do querer Ah! bruta flor, bruta flor Onde queres o ato, eu sou o espírito E onde queres ternura, eu sou tesão Onde queres o livre, decassílabo E onde buscas o anjo, sou mulher Onde queres prazer, sou o que dói E onde queres tortura, mansidão Onde queres um lar, revolução E onde queres bandido, sou herói Eu queria querer-te amar o amor Construir-nos dulcíssima prisão Encontrar a mais justa adequação Tudo métrica e rima e nunca dor Mas a vida é real e de viés E vê só que cilada o amor me armou Eu te quero (e não queres) como sou Não te quero (e não queres) como és Ah! bruta flor do querer Ah! bruta flor, bruta flor Onde queres comício, flipper-vídeo E onde queres romance, rock’n roll Onde queres a lua, eu sou o sol E onde a pura natura, o inseticídio Onde queres mistério, eu sou a luz E onde queres um canto, o mundo inteiro Onde queres quaresma, fevereiro E onde queres coqueiro, eu sou obus O quereres e o estares sempre a fim Do que em mim é de mim tão desigual Faz-me querer-te bem, querer-te mal Bem a ti, mal ao quereres assim Infinitivamente pessoal E eu querendo querer-te sem ter fim E, querendo-te, aprender o total Do querer que há e do que não há em mim Caetano Veloso* *no dia do seu 66º aniversário

quarta-feira, agosto 06, 2008

A morte do folião Vadinho caiu no samba com aquele exemplar entusiasmo, característico de tudo quanto fazia, exceto trabalhar. Rodopiava em meio ao bloco, sapateava em frente à mulata, avançava para ela em floreios e umbigadas, quando, de súbito, soltou uma espécie de ronco surdo, vacilou nas pernas, adernou de um lado, rolou no chão, botando uma baba amarela pelo boca onde o esgar da morte não conseguia apagar de todo o satisfeito sorriso do folião definitivo que ele fora”. Jorge Amado Dona Flor e seus dois maridos (Colecção Mil Folhas – Junho de 2002)
A Rosa de Hiroshima
Foi há 63 anos, mas é imperioso não esquecer, por maioria de razão quando se fala de forma demente num novo holocausto nuclear que vitimaria dezenas de milhões de pessoas.
Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas, oh, não se esqueçam Da rosa da rosa Da rosa de Hiroshima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida e inválida A rosa com cirrose A anti-rosa atômica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada Vinícius de Moraes

terça-feira, agosto 05, 2008

É preciso ler um pouco É preciso ler um pouco de tudo. É preciso ler um pouco de psicologia, para descobrir o poço sem fundo da alma. É preciso ler um pouco de poesia, para penetrar nesse poço sem fundo, e nele afundar até o gozo. É preciso ler um pouco de teologia, para descobrir que indo mais fundo no poço sem fundo encontraremos a Deus. É preciso ler um pouco do jornal do dia, para descobrir que o mundo já chegou ao fundo do poço, mas ainda continua descendo. É preciso ler um pouco de geologia, para descobrir novos poços sem fundo nesse mundo fecundo. É preciso ler um pouco de magia, para descobrir no fundo do poço mais fundo o enigma mais profundo. É preciso ler um pouco de filosofia, para descobrir que o mundo não é imundo, é apenas um poço sem fundo dentro de outro poço ainda mais fundo. É preciso ler um pouco de biologia, para descobrir a vida se debatendo no fundo, no fundo mais fundo do poço sem fundo. É preciso ler um pouco de antropologia, para descobrir que somos esse próprio poço sem fundo, fundamento de tudo o que somos. É preciso ler um pouco de arqueologia, para descobrir uma cidade no poço sem fundo. É preciso ler um pouco de astronomia, para descobrir que o céu é também um poço sem fundo, oceano negro em que nadam estrelas e interrogações. É preciso ler um pouco de espeleologia, para descobrir que a caverna sem fundo guarda outros tantos poços sem fundo. É preciso ler um pouco de filologia, para decifrar a linguagem do poço sem fundo. É preciso ler um pouco de metodologia, para descobrir os caminhos que há dentro do poço sem fundo. É preciso ler um pouco de etruscologia, grafologia, nefrologia, opsologia, ovniologia, papirologia, parapsicologia, piretologia, pomologia, psefologia, selenologia e todas as logias possíveis, para descobrir o poço sem fundo da nossa curiosidade. É preciso ler um pouco de tudo, embora seja muito pouco. Que esse pouco, porém, seja suficiente para nos fazer vislumbrar no poço sem fundo a ausência desse fundo. Ler um pouco de tudo, mas ler a fundo esse pouco. Ler um pouco, tendo como pano de fundo a sede de saber. Ler um pouco, mas, mesmo sendo pouco, ler contrafundo. Ler um pouco, a fundo perdido. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

segunda-feira, agosto 04, 2008

Não há Vagas Buscamos vagas nas casas, nas mágoas no ofício de Gente no prato do irmão Buscamos as vagas nos muros, na arte e nos arremates de vida e de sorte E na morte buscamos a paz e as chagas das vagas das quais poucas jazem Mas os senhores da ordem justos e prestos buscam informatizar as alas do inferno E, ao menos, poderemos morrer mais tranqüilos sem enfrentar filas nos barrancos, estradas, asilos Antônio Massa* *poeta brasileiro

domingo, agosto 03, 2008

Prematuro? Serafim foi ao cartório registrar seu primeiro filho. Precisava de duas testemunhas e chamou Pedro Fiscal e Orico do Bar, que iam passando. Os dois aceitaram o convite, mas Pedro Fiscal comentou malicioso: - Ô, Serafim, você casou só faz um mês. Esse teu filho não nasceu meio adiantado não? - Não, não. Ele nasceu no prazo certo, o casamento é que foi meio atrasado. Mouzar Benedito Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

sábado, agosto 02, 2008

Apologia do extermínio Benny Morris é um historiador israelita, que parece mover-se bem nos meios políticos e militares do estado judaico e ter acesso privilegiado aos planeadores estratégicos de Israel. Apesar de se considerar a si próprio politicamente de esquerda, publicou no jornal de referência estado-unidense The New York Times, em 18 de Julho passado, um artigo significativamente intitulado Utilizar Bombas para Evitar a Guerra, no qual advoga nada mais nada mesmo que o holocausto nuclear do Irão. A leitura do artigo é arrepiante, como o é o facto de ter sido publicado no respeitável jornal da elite bem pensante nova-iorquina, facto que constitui uma espécie de aval a todas as loucuras dos falcões israelitas. Não seria a primeira vez que as palavras de Benny Morris cheiram a premonição. Em entrevista publicada em 9 de Janeiro de 2004 no jornal israelita liberal Haaretz, curiosamente intitulada “A Sobrevivência dos mais Aptos? ”, o Sr. Morris afirmou, entre muitas outras enormidades acerca do povo palestino, o seguinte: algo como uma jaula tem de ser construído para eles. Eu sei que isso soa horrivelmente. Isso é realmente cruel. Mas não há escolha. Há um animal selvagem por aí que tem de ser enjaulado de uma forma ou de outra. Logo a seguir foi o que se viu e ainda vê: construção do muro da vergonha, bloqueio marítimo e terrestre, privação de electricidade... Depois de toda a campanha desenvolvida pelo inefável Sr. W. contra o Irão, com o apoio incondicional de Israel e a política da “Maria vai com as outras” do resto do ocidente, principalmente da União Europeia, é sintomático que a auto-proclamada imprensa “livre” não tenha feito qualquer abordagem crítica dos postulados de Morris, cujo alcance está bem patente neste artigo de David Bromwich, professor da universidade de Yale, ou neste outro do sociólogo James Petras. Por cá, moita carrasco! Ou os patrões habituais mandaram silenciar os arautos da "imprensa livre", ou a Maddie, a Quinta da Fonte e até mesmo a Esmeralda são bem mais importantes do que setenta milhões de iranianos ameaçados de extermínio.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Evocação Lembram-se do célebre programa O Planeta dos Homens, com os grandes Jô Soares, Paulo Silvino e Agildo Ribeiro, em que este último interpretava um professor de mitologia que falava “axim” e tinha um mordomo a quem insultava, chamando-o de "múmia paralítica" e outros impropérios, sempre que ele tocava uma sineta quando o professor se desviava frequentemente dos temas das suas aulas e começava a suspirar por uma tal Brrruunna? Pois parece que a Bruna, um espanto de modelo que virou actriz (excelente) e escritora (que dizem ser muito boa e injustamente ignorada), está bem e recomenda-se. Como testemunho de que uma cara bonita também pode saber escrever bem, no dia do seu 56º aniversário aqui fica o poema “Princípio”: Na paixão de um homem, na inquietude das feras, no vermelho que o fio da lâmina provoca o olho acostumado a perscrutar as máscaras, as almas, o que não se confessa. Na origem profunda do ser Onde tudo começa na sua luta contra o tempo e contra a natureza em tudo há o desgaste em tudo o conflito se apresenta raiz do ataque e defesa há o mar, a fúria do mar e a força da rocha que o enfrenta. Bruna Lombardi

quinta-feira, julho 31, 2008

LIBERDADE Liberdade! Palavras e gestos; feitos heróicos e todas as lutas, em defesa da justiça... Liberdade! Tradicionais templos, o homem, suas relíquias e suas verdades... Liberdade! A canção de todos os tempos da existência; as idéias dos gênios e a vida dadivosa de todos os santos... Liberdade! Amor sem limites, vôo de pássaro no espaço infinito! Antônio Castilho* *poeta brasileiro

quarta-feira, julho 30, 2008

Mário Quintana por Mário Quintana Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Há ! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas : ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a eternidade. Nasci do rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton ! Excusez du peu. Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, instrospectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros ? Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmacia durante 5 anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Veríssimo - que bem sabem ( ou souberam) , o que é a luta amorosa com as palavras. Mario Quintana ( texto escrito pelo poeta para a revista Isto É de 14/11/1984)

terça-feira, julho 29, 2008

Leitura cura tudo Leitura cura tudo. É bom para tudo, tudo ajuda, faz de tudo. Trabalha todas as dimensões intelectuais. Exercita a atenção, a memória recente, a conexão entre fatos e experiências passadas, a linguagem, a imaginação, a capacidade de prever, a capacidade de interpretar, a intuição. A leitura nos cura do dogmatismo e do ceticismo, do medo e da temeridade, do sentimentalismo e da insensibilidade, da falta de assunto e da verborragia, da indecisão e do fanatismo, da arrogância e da timidez. Leitura faz bem para os músculos, para os ossos, para os olhos, para os ouvidos, para a queda de cabelo, para os rins, para os intestinos, para as juntas, para as costas, para as pernas, para os pés, para as mãos, para os dedos, para as unhas, para tudo. Ler resolve problemas de visão, de solidão, de falta de recreação, de impotência, de sonolência, de implicância, de amargura, de cabeça dura, de alergia a fritura, de incultura, de postura, melhora a temperatura, aumenta a estatura, cola as fissuras, cura qualquer gastura, queima todas as gorduras. Durante a leitura o leitor esquece as torturas da vida, recupera o amor à vida, dá vida a novas idéias, revive vidas passadas, prevê vidas futuras, comunica vida à vida mesma. A cada leitura o leitor sai de si, reencontra-se, dá a volta ao mundo, mergulha oceanos, perfura a terra, entra em órbita, engole nuvens, desafia o Sol, abraça a lua... E tudo isso sem sair do lugar. O leitor que lê bebe o leite, bebe o vinho, bebe o café do vizinho, bebe a cerveja, bebe de todos os rios, bebe cicuta, bebe uísque, bebe muito, bebe e cala, bebe e ouve, bebe tudo e continua sóbrio. Leitura, sobretudo, é remédio para todos os males. Cura dor de cotovelo, dor aguda, dor cansada, dor surda, dor crônica, dor romântica, dor poética, dor dramática, dor trágica, dor da mente, dor demente, dor da alma, dor de barriga, dor de cabeça, dor de dente, dor de peito, dor que nada respeita, dor difusa, dor confusa, dor fantasma, dor fina, dor grossa, dor incausada, dor ousada, dor para todos os gostos e lamentos. Leitura cura tudo. E, claro, cura até mesmo o maior de todos os problemas. Cura a própria falta de leitura! Quem lê torna-se incuravelmente leitor. Isto afirmo sem o menor exagero. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

segunda-feira, julho 28, 2008

SEMPRE Não existem manhãs iguais. Sempre algo é diferente, é novo. Uma nuvem, um pássaro. Uma história, um povo. Não existem manhãs iguais. Sempre algo é diferente, é belo. Uma pessoa, um cão Uma guerra, um flagelo. Não existem manhãs iguais. Sempre algo é diferente, é bom. Uma canção, um fato. Uma esperança, um dom. Não existem manhãs iguais. Sempre algo é diferente, é semente. Uma caneta, um papel em branco. Uma trova, um repente. Mas se não mudam as manhãs, muda alguém dentro da gente. Antônio Carlos Tórtoro* *poeta brasileiro

domingo, julho 27, 2008

Da Leitura Não leiais para refutar ou contradizer, para aceitar ou aquiescer, para perorar ou discursar, mas para ponderar e considerar. Certos livros devem ser provados; outros engolidos; uns poucos mastigados e digeridos. Quer dizer: devemos ler certos livros apenas parceladamente; outros incuriosamente, e uns poucos da primeira à última página, com diligência e atenção. Alguns livros podem mesmo ser lidos por terceiros, que nos farão deles um apanhado, mas isso somente no caso de assuntos desimportantes, e de livros medíocres, pois livros resumidos são como água destilada: insípidos. O ler faz um homem completo, o conferir destro, o escrever exacto. Bem por isso, se alguém escreve pouco, deve ter boa memória; se confere pouco, muita sagacidade; se lê pouco, muita manha para afectar saber o que não sabe. Francis Bacon, in "Ensaios Civis e Morais" Retirado daqui

sábado, julho 26, 2008

Palavra Palavra, nave da navalha, invente em mim o avesso do neutro. Preparo para o dia a fala, curva do finito num silêncio de âncora. Atalho onde me calo e colho, como a um galo, o intervalo do azul. Antônio Carlos Secchin* *poeta brasileiro

sexta-feira, julho 25, 2008

O legado de Auschwitz Parecia que os reiterados tributos oficiais às vítimas dos campos de concentração europeus, criados durante a Segunda Guerra Mundial, iam pôr um ponto final na sua lógica do genocídio. No início do século XXI é difícil acreditar que este seja o caso. As guerras dos Balcãs, as atrocidades que se sucederam na África e nas guerras do Iraque e do Afeganistão representaram, pelo contrário, uma espantosa regressão histórica. Os massacres e genocídios, os deslocamentos forçados de milhões de seres humanos, o confinamento maciço em campos de concentração ou de refugiados e, não por último, os movimentos migratórios provocados pela pobreza e pela destruição ecológica não têm parado de se multiplicar. Vale a pena ler na integra este artigo de Eduardo Subirats, ensaísta espanhol e professor de Filosofia, Teoria da Cultura e de Literatura na Universidade de Nova York.

quinta-feira, julho 24, 2008

Eu Aprendi a Dizer Sim Eu aprendi a dizer sim quando vi a natureza molhada na manhã alegre do primeiro dia novo. Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome no homem indefeso e não achei nenhuma razão. Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu e fiquei deslumbrado com a esperança renovada. Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse os princípios fundamentais da humanidade em luta. Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola de minha infância e corri, gritei e... aprendi. E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis durante todo o resto da vida, depois que aprendi. Antero Coelho Neto* *médico, professor e escritor brasileiro

quarta-feira, julho 23, 2008

...e a guitarra morreu com ele! Quando eu morrer, morre a guitarra também. O meu pai dizia que, quando morresse, queria que lhe partissem a guitarra e a enterrassem com ele. Eu desejaria fazer o mesmo. Se eu tiver de morrer, morrerá comigo a minha guitarra. Carlos Paredes

terça-feira, julho 22, 2008

Contracepção e teologia A objecção mais comum à contracepção é por esta ser contra a "natureza". (Por alguma razão não é permitido dizer que o celibato é contra a natureza; não vejo outra razão para isso senão o facto de não ser novidade). Malthus via apenas três formas de conter o crescimento demográfico; a abstenção, o vício e a miséria. A abstenção não era susceptível de ser praticada em larga escala. O "vício", isto é, a contracepção, encarava-a ele, enquanto clérigo, com horror. Restava a miséria. No conforto da sua casa paroquial, ponderava a miséria da grande maioria com equanimidade, salientando as falácias dos reformadores que esperavam aliviá-la. Os modernos inimigos teológicos da contracepção são menos honestos. Fingem pensar que Deus garante o sustento, não importa quantas bocas há para alimentar. Ignoram o facto de que Ele não o fez até agora, deixando a humanidade exposta a fomes periódicas durante as quais milhões sucumbiram. Devemos considerar que defendem, se é que acreditam no que dizem, que deste momento em diante Deus vai obrar continuamente o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, coisa que até à data Ele entendeu ser desnecessário. Ou talvez digam que o sofrimento cá em baixo é de pouca importância; o que importa é o além. Segundo a própria teologia que defendem, muitas das crianças que virão a existir graças à oposição ao controlo da natalidade vão parar ao inferno. Devemos supor, portanto, que se opõem à melhoria das condições de vida na terra pois acham bem que muitos milhões sofram a condenação eterna. Por comparação com eles, Malthus parece misericordioso. Bertrand Russell (publicado originalmente em 1943) Tradução de Vítor Guerreiro a partir Unpopular Essays (Routledge, 1995). Retirado da Crítica, revista digital de filosofia e ensino, que vale a pena subscrever.

segunda-feira, julho 21, 2008

Vocação de lume Há palavras que sem te aperceberes poisam nos lábios. Não sabes a direcção mas decerto vêm de sul. Deves soltá-las. Se o não fizeres encaminhar-se-ão para o interior queimando com seu lume primeiro a garganta. Agora tens que optar. Entre um incêndio. E outro. Antero Barbosa* *escritor duriense

domingo, julho 20, 2008

Aprender a soltar Soltar os cachorros. Sobre aqueles que nos manipulam. Sobre aqueles que nos tratam como animais. Soltar os pássaros. Pela janela. Em nome do infinito. Tendo ao longe o horizonte. Tendo por perto a vontade de voar também. Soltar os cavalos. Pelo mundo afora. Pela vida afora. Com a alegria de correr. Com a esperança de chegar. Com a velocidade do amor. Sem medo de ir. Sem medo de voltar. Soltar as árvores. De suas sementes esmagadas. Acompanhar-lhes o crescimento. Colher seus frutos na hora exata. Aprofundar suas raízes. E que suas folhas sejam muitas. Que sua sombra seja imensa. Soltar os filhos. De meus medos infundados. Deixá-los ser o que hão de ser. Soltá-los sem abandoná-los. Soltá-los sem esquecê-los. Soltá-los de amarras imaginárias. Soltá-los para a vida. Preparados para viver a sua própria vida, não a minha, não a de ninguém. Soltar as palavras. Libertá-las da sintaxe enrolada. Soltar as palavras no texto. Soltar as palavras dos falsos pretextos. Soltar as palavras aqui e agora. Soltá-las com força. Soltá-las com raiva. Soltá-las em lirismo. Soltá-las em drama. Soltá-las do dicionário-presídio. Soltá-las da gramática-exílio. Soltar as idéias dia a dia. Soltá-las em ordem, em desordem. Soltá-las na conversa, à mesa, na fila do banco, no banco de praça, na pressa e na calma. Soltá-las, servi-las. Entregá-las aos outros. Trocá-las por outras. Acrescentá-las a muitas outras idéias. Idéias soltas nos prendem à tarefa que nos cabe cumprir. Soltar os braços. Para trabalhar. Para nadar. Para lutar. Para criar. Soltá-los hoje. Soltá-los amanhã. Soltá-los do corpo. Deixar que se estendam. Que envolvam o mundo. Que dêem mil voltas ao planeta. Que alcancem as estrelas. Que acolham o divino. Que abracem, abracem. Soltar a voz. Cantando. Gritando. Chorando. Ensinando. Avisando. Por tudo e por nada. Em guerra, em paz. Por um motivo justo ou porque tanto faz. Estando com outros. Falando sozinho. Soltar as velas. Na hora de partir. Na hora do mar. As ondas. Os peixes. A terra não vista. A vista perdida. Soltar as velas de novo. De novo soltá-las. As velhas velas de novo. Soltar-me a mim mesmo. Ainda é bem cedo. Soltar-me de mim. Do inquisidor que eu sou. Do sinhozinho que eu sou. Do ditador que eu sou. Soltar o leitor. Soltá-lo de mim. Que ele seja o autor de sua própria leitura. Aprender a soltar-se. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

sexta-feira, julho 18, 2008

A guerra civil espanhola São incontáveis os testemunhos que tornam evidente que o objectivo dos golpistas contra o Governo da II República espanhola, em 18 de Julho de 1936, era exterminar propositadamente os adversários. O general Mola, em 19 de Julho, exigiu aos seus homens “é preciso semear o terror (...) eliminando sem escrúpulos e sem hesitação aqueles que não pensam como nós”. Na mesma linha, o capitão Aguilera, chefe de Imprensa de Franco durante a Guerra Civil, disse: “temos de matar, matar, matar. São como animais. Afinal de contas, ratazanas e os piolhos são portadores da peste. O nosso programa consiste em exterminar um terço da população masculina. Com isso limparíamos o país. Além disso também é conveniente do ponto de vista económico: não voltaria a haver desemprego na Espanha”. Na campanha também participaram numerosos membros da hierarquia da Igreja Católica, como o bispo de Vic, Joan Perello, que recomendava uma “profilaxia social” e pedia “um bisturi para tirar o pus das entranhas da Espanha”. O próprio Franco não escondia as suas intenções quando declarava à imprensa internacional que estava “disposto a exterminar, se fosse necessário, a metade da Espanha que não me é afecta. Preocupados com a nossa ditadura caseira, temos ligado pouca importância aos horrores que viveram os nossos vizinhos sob a bota franquista. Confesso que eu próprio, que tive um estreito contacto com a realidade espanhola durante a década de sessenta, quando a ditadura franquista parecia menos dura do que a salazarista, pelo menos no que toca a alguma liberdade de expressão, não fazia ideia de que a fúria sanguinária dos falangistas e seus apaniguados tinha atingido tais extremos de ódio e destruição. Até que dei de caras com um excelente artigo do filósofo Santos Ochoa Torres, intitulado Necessidade de saber: a Guerra Civil espanhola, de que faz parte o parágrafo acima e cuja leitura recomendo vivamente para que a memória não se apague também do outro lado da fronteira.

quinta-feira, julho 17, 2008

Frio é isso O Bar do Pedrinho estava cheio de gente batendo o queixo de frio e tomando conhaque ou cachaça. Só Zé Luís fingia que era um friozinho à-toa: - Vocês não conhecem frio. Na roça, depois da Bituruna, é que faz frio mesmo. Meu pai tinha umas terras no Cafundó, um dia eu fui tomar conta dos camaradas que estavam capinando a roça, peguei uma cuia d’água e pendurei num galho de uma árvore... Fiquei olhando os camaradas capinando e, mais tarde, quando me deu sede, fui tomar um gole d’água. Quando cheguei lá, a água tinha congelado e os cupins comeram a cuia, ficou só uma bola de gelo pendurada no galho da árvore! - O Cafundó é frio mesmo, mas o Patrimônio é mais frio ainda – afirmou Zeca, que estava quieto, ouvindo tudo. - Mais frio do que isso?! - É. E antigamente era mais frio ainda. Em 1939 fui lá fazer umas cobranças pro meu pai, tava muito frio, fiquei pra dormir na casa de uma comadre. Ela me arrumou uma cama com seis cobertas... - E daí? - Daí eu falei pra ela: me arruma uma lamparina que eu não durmo sem ler. Ela não tinha lamparina, trouxe uma vela, e eu fiquei lendo até o sono chegar. Aí, deixei o livro de lado e soprei a vela pra dormir. Ela não apagou, soprei de novo. Continuei soprando e ela não apagava. Aí é que levei a mão pra apagar a vela com os dedos e descobri que a chama da vela tava era congelada! Mouzar Benedito Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

quarta-feira, julho 16, 2008

Poema a um saco de pão Todos os dias, Os homens experimentam e espreitam Aquelas inseguranças incondicionais. Todos os dias, os homens Pensam que desfrutam a vida Compram flores e lançam ao lixo Os sacos de pão. Queimam jornais. Escutam discos que jamais ouvirão Canções que não ouvirão jamais. Todos os dias, os homens acreditam E tornam alguns verbos mais intransitivos Pela sua carência de objetos. Tenacidade. Alicerces solidificados. E tu, saco de pão, Que como a minha alma se esvazia em solidão, Que rasga o ar e atira as laranjas pelo chão, Que encontra em seu silêncio a pobre forma de expressão, Aguarda, companheiro. Somos nós os pioneiros, vindos da cova mais funda, Pioneiros, como o Fusca, o ODD, o condicionador de ar, Os cotonetes da Johnson & Johnson's, Somos párias e deuses. Somos os últimos heróis da resistência espedaçada, Os soldados do exército que atravessa o oceano Rumo a um país desconhecido lutar com quem sabe quem. Cavaleiros do apocalipse. Somos nós que acordamos as crianças do sono, em cada noite, Os monstros habitando os túneis do metrô. E mais que eu, saco de pão, És feliz porque aproveitas a tua solidão, Não vives, És mudo, livre, tosco, pobre e só. André Ricardo Barreto de Oliveira* *poeta brasileiro

terça-feira, julho 15, 2008

Desgraças Regressado ao rectângulo na noite do passado Sábado, após duas semanas sem ver telejornais portugueses, poisei num estranho país. Primeiro, ao passar os olhos por um pasquim trambiqueiro chamado Público, cedido gratuitamente pela nossa transportadora, comecei a interrogar-me sobre se não teria havido um golpe de estado, com a usurpação do poder por uma clique de facínoras, tantas eram as malfeitorias do governo e os feitos de tudo o que cheirasse a oposição, nesta se incluindo o PGR que parecia ter ganho a batalha de uma vida sobre o parlamento - ou uma parte dele. No Domingo, o canal público de televisão dedicou 15 minutos do seu jornal da noite a um confronto que ocorreu na Quinta da Fonte, em Camarate, entre moradores de etnia cigana e residentes de origem africana. Não cheguei a perceber o que se passou, pois 15 minutos não terão sido suficientes para os vários intervenientes explicarem o que quer que fosse, a não ser que havia pessoas a abandonar as suas casas com medo. A título de contraste, quando há um ano houve um massacre de 9 crianças em São Paulo, os principais canais brasileiros dedicaram ao assunto não mais de dois minutos por jornal e toda a gente ficou esclarecida sobre o que acontecera. Depois, foi a notícia sobre um assalto à secretaria da maternidade Júlio Dinis, no Porto, como se se tivesse tratado de um golpe de mão às reservas de ouro do Banco de Portugal (pressupondo que há algumas). Não vi ninguém questionar-se sobre os propósitos peregrinos de um assalto a um lugar onde, à partida, o dinheiro não pode abundar. Finalmente, um confronto de bandos na praia da Torre, com a chamada de atenção para um célebre “arrastão” ocorrido no Estoril. Não se viu o que quer que fosse, apenas testemunhos de alguns (muitos) alegadamente presentes. A isto se resumiu o que de importante se passou no país durante o fim de semana. E, nada mais havendo a acrescentar, passou-se a antena ao comentador para vender a banha da cobra. Que tristeza!

segunda-feira, julho 14, 2008

ser O que pareço para além de mim não é o importante. Se pareço com o que certamente não sou, quem percebe? Sou. E ser já é muito. André Merez* *poeta paulista

domingo, julho 13, 2008

Homem culto O que é o homem culto? É aquele que: 1.º - Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence; 2.º - Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano; 3.º - Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior preocupação máxima e fim último da vida. Ser-se culto não implica ser-se sábio; há sábios que não são homens cultos e homens cultos que não são sábios; mas o que o ser culto implica, é um certo grau de saber, aquele precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas. A aquisição da cultura significa uma elevação constante, servida por um florescimento do que há de melhor no homem e por um desenvolvimento sempre crescente de todas as suas qualidades potenciais, consideradas do quádruplo ponto de vista físico, intelectual, moral e artístico; significa, numa palavra, a conquista da liberdade. E para atingir esse cume elevado, acessível a todo homem, como homem, e não apenas a uma classe ou grupo, não há sacrifício que não mereça fazer-se, não há canseira que deva evitar-se. A pureza que se respira no alto compensa bem fadiga da ladeira. Condição indispensável para que o homem possa trilhar a senda da cultura - que ele seja economicamente independente. Consequência - o problema económico é, de todos os problemas sociais, aquele que tem de ser resolvido em primeiro lugar. Tudo aquilo que for empreendido sem a resolução prévia, radical e séria, desse problema, não passará, ou duma tentativa ingénua, com vaga tinta filantrópica, destinada a perder-se na impotência, ou de uma mão-cheia de pó, atirada aos olhos dos incautos. Bento de Jesus Caraça, in A Cultura integral do Indivíduo

sábado, julho 12, 2008

A Mentira Agrada Mais do Que a Verdade O espírito do homem é feito de maneira que lhe agrada muito mais a mentira do que a verdade. Fazei a experiência: ide à igreja, quando aí estão a pregar. Se o pregador trata de assuntos sérios, o auditório dormita, boceja e enfada-se, mas se, de repente, o zurrador (perdão, o pregador), como aliás é frequente, começa a contar uma história de comadres, toda a gente desperta e presta a maior das atenções. Como é fácil essa felicidade! Os conhecimentos mais fúteis, como a gramática por exemplo, adquirem-se à custa de grande esforço, enquanto a opinião se forma com grande facilidade, contribuindo tanto ou talvez mais para a felicidade. Se um homem come toucinho rançoso, de que outro nem o cheiro pode suportar, com o mesmo prazer com que comeria ambrósia, que tem isso a ver com a felicidade? Se, pelo contrário, o esturjão causa náuseas a outro, que temos nós com isso? Se uma mulher, horrivelmente feia, parece aos olhos do marido semelhante a Vénus, para o marido é o mesmo do que se ela fosse bela. Se o dono de um mau quadro, besuntado de cinábrio e açafrão, o contempla e admira, convencido de que está a ver uma obra de Apeles ou de Zêuxis, não será mais feliz do que aquele que comprou por elevado preço uma obra destes pintores e que olhará para ela talvez com menos prazer? Erasmo de Roterdão, in "Elogio da Loucura" (fala a Loucura) Retirado daqui

sexta-feira, julho 11, 2008

O homem em pele e osso A pele é superfície, os ossos são entranha. A pele é o que se vê, os ossos o que escapa. A pele é uma casca, os ossos uma safra. A pele é entrega, o osso é arma. A pele é palma, o osso é clava. A pele é a pintura, os ossos são a casa. A pele é o acidente, o osso o permanente. A pele são as nuvens, os ossos são a água. A pele são os musgos, os ossos são as montanhas. A pele é o agora, os ossos são milênios. A pele é um orvalho, os ossos são invernos. Bandeira Tribuzi

quinta-feira, julho 10, 2008

O professor e seus nomes De quantas formas podemos chamar um professor? E o que isso tem a ver com nossa imagem, nossa mentalidade profissional? Maneira antiga era chamar a professora de "tia". Se a escola é continuação da família, a professora é a segunda mãe. Paulo Freire se revoltou: "tia não". Alunos não são parentes. Tia recebe presente, tia a gente não esquece, tia a gente respeita. Tia podia (hoje não pode mais) até dar umas palmadas, porque a mãe apoiava e até incentivava. É comum entre alunos mais velhos chamar o professor de mestre. Mesmo que não tenha mestrado. O mestre tem respostas, conta parábolas, transmite conteúdos e experiências. Mesmo com doutorado, mestre será sempre mestre. Mestre tem algo de maestro, de harmonizador. Mestres mostram o caminho, merecem homenagem. No internetês e no diálogo entre estudantes do ensino médio e universitários de hoje, professor é prof. Prof não é abreviatura. Não tem o ponto de prof., é interrupção abrupta, interrupção ou preguiça, ou então sinal de intimidade. Prof pode chegar ao mínimo, ao prô. Ser prô não diminui o professor. Prô vale para professora e professor, é unissex. Prô é do bem, é sangue bom. Com o prô ou com a prô a gente pode reclamar na boa. Há ainda os que chamam professor de teacher. Mesmo que o aluno não saiba inglês, pede ao teacher alguma explicação. Teacher não é deste país, nem deste mundo. Engraçado alguém se referir ao teacher que ministra aulas de língua portuguesa... E o professor que se chama professor. Professor porque sabe professar o que conhece. Há quem diga que professor é nome menor. O importante mesmo seria atuar como educador, porque educador vai mais longe, não está preso entre as quatro paredes da sala de aula. Ou então chamemos o professor pelo nome de batismo. É o João, o Marcos, a Beatriz, a Inês, cidadãos dedicados à tarefa de ensinar. Dispensam títulos. Não serão "senhor" ou "senhora". Informalmente serão o que são, pessoas que descobriram sua vocação. Não tenhamos medo da palavra "vocação". Vocare, no latim, é chamar. Professor é aquele que se sente chamado a dialogar com os alunos. Aluno, por sua vez, procede de outro verbo latino, alere, referente à alimentação. Aluno se alimenta das palavras do professor, de sua capacidade para transformar conhecimento próprio em descobrimento do outro. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

quarta-feira, julho 09, 2008

Liberdade Aqui nesta praia onde Não há nenhum vestígio de impureza, Aqui onde há somente Ondas tombando ininterruptamente, Puro espaço e lúcida unidade, Aqui o tempo apaixonadamente Encontra a própria liberdade. Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, julho 08, 2008

Sexquicentenário Passaram há uma semana 150 anos sobre o primeiro anúncio público da descoberta da selecção natural, a base da teoria da evolução. Com efeito, foi no dia 1 de Julho de 1958 que alguns amigos da Charles Darwin organizaram um encontro na Linnean Society de Londres com vista a estabelecer a primazia na descoberta, encontro esse onde foram lidos alguns documentos de Darwin e um manuscrito de Alfred Russel Wallace sobre o princípio da evolução por selecção natural. Nos próximos 18 meses celebrar-se-ão os 200 do nascimento de Charles Darwin (12 de Fevereiro de 2009) e os 150 anos da publicação da sua obra prima, “A Origem das Espécies” (24 de Novembro de 2009). Embora estes acontecimentos seja grandemente reconhecidos, um excelente resumo da sua importância pode ser encontrado aqui, pela pena da célebre bióloga evolucionista Olivia Judson, autora de “O Consultório Sexual da Drª. Tatiana”, disponível em tradução portuguesa desde 2006.
Pássaros Longe Gorjeiam com sede De afeto. Perto Acarinham O alento incerto O afago gracejo feto De um amor, alma, ímã. Os pássaros e a latitude A longitude e os hiatos Das palavras não ditas. Perto Embarcações em seco Duelam com a luz do sol E o fio da navalha azul do tempo. Pássaros Vivem em mim E voam até imantar em ti Minha verve. Pássaros. O Passado, passará Ocaso, o presente nascerá E o futuro, amanhecerá Passarinhando. Pássaros. Passarei, passarinho. Anand Rao* *poeta brasileiro

sábado, julho 05, 2008

Acaso Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui outra. Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, mas não vai só nem nos deixa sós. Leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo. Há os que levam muito, mas há os que não levam nada. Essa é a maior responsabilidade de nossa vida, e a prova de que duas almas não se encontram ao acaso. Antoine de Saint-Exupéry

quinta-feira, julho 03, 2008

Vicissitudes de um viajante

Depois de, no Domingo passado, ter demorado dezoito horas e meia para vir de Lisboa até Lanzarote (tudo porque a nossa TAP, por motivos técnicos, resolveu atrasar o voo das 7H35 para as 8H45, com um posterior atraso de mais uma hora, o que levou a que perdêssemos o voo da Spain Air das 10H50, obrigando-nos a esperar pelo das 20H20 que, por sua vez, se atrasou mais duas horas, também por motivos técnicos), só hoje consegui ver resolvido o acesso Wi-Fi no complexo turístico de Playa Blanca onde me encontro. Depois de várias reclamações, a conclusão inevitável foi de que o problema não era do meu computador (que já funcionou desde o Montenegro ao Novo México, sem problemas), mas sim do fornecedor do serviço, incluído no pacote pago há três meses atrás.

Solucionado este problema, espero que definitivamente, até ao dia 11 vou manter-me por aqui, com as minhas mulheres:















Ou por aqui




sábado, junho 28, 2008

Nós Nunca Nos Entendemos Após uma boa hora de conversa, entendemo-nos perfeitamente. Amanhã vem ter comigo com as mãos na cabeça, gritando: - Como é possível? O que é que você percebeu? Não me disse isto e isto? Isto e isto, perfeitamente. Mas o problema é que você, meu caro, nunca saberá nem eu lhe poderei nunca dizer como se traduz, em mim, aquilo que você me disse. Não falou turco, não. Eu e você usámos a mesma língua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos nós de que as palavras, em si, sejam vazias? Vazias, meu caro. Ao dizê-las a mim, você preenche-as com o seu sentido; e eu, ao recebê-las, inevitavelmente preencho-as com o meu sentido. Pensámos que nos entendíamos; de facto, não nos entendemos. E conto velho também é o facto de o sabermos. Eu não pretendo dizer nada de novo. Apenas volto a perguntar-lhe: - Porque continua, então, a proceder como se não o soubesse? Porque continua a falar-me de si se sabe que para ser para mim como é para você mesmo e para eu ser, para si, como sou para mim, seria preciso que eu, dentro de mim, lhe desse a mesma realidade que você dá a si mesmo, e vice-versa, e isso não é possível? Infelizmente, meu caro, faça o que fizer, dar-me-á sempre uma realidade à sua maneira, mesmo acreditando de boa-fé que é à minha maneira; e será, não digo que não; talvez seja; mas um «à minha maneira» que eu não conheço nem poderei nunca conhecer; que apenas você, que me vê de fora, conhecerá: portanto, um «à minha maneira» para si, não um «à minha maneira para mim». Luigi Pirandello, in "Um, Ninguém e Cem Mil" Retirado daqui

sexta-feira, junho 27, 2008

A língua de Guimarães Rosa Escrevo, e creio que este é o meu aparelho de controle: o idioma português, tal como o usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros idiomas. Disso resultam meus livros, escritos em idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros. Se tem de haver uma frase feita, eu preferia que me chamassem de reacionário da língua, pois quero voltar a cada dia à origem da língua, lá onde a palavra ainda está nas entranhas da alma, para poder lhe dar luz segundo a minha imagem. Eu quero tudo: o mineiro, o brasileiro, o português, o latim, talvez até o esquimó e o tártaro. Queria a linguagem que se falava antes de Babel. Amo a língua, realmente a amo como se ama uma pessoa. Isto é importante, pois sem esse amor pessoal, por assim dizer, não funciona. Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz, 1965

quinta-feira, junho 26, 2008

Os sete peqados da leitura Peqados com "q", porque "c" tem som de "cê", e "q" tem som de "quê". Por isso o certo é o errado. A inveja da leitura. O outro leu mais do que eu? Leu melhor do que eu? Tem mais livros do que eu? O olho gordo da leitura. Quero ser o leitor que o outro é. Quero ler nos idiomas que não leio. Quero imitar e superar quem leu desde cedo, quem lê dia e noite, quem lerá para sempre. A gula da leitura. Comer o livro com capa e tudo. Cheirar, lamber, morder, mastigar, engolir. Livros suculentos, temperados, cozidos e assados. Livro aperitivo, livro prato principal, livro sobremesa. Do livro me servir duas, três vezes. Acordar no meio da noite para assaltar a biblioteca. A preguiça da leitura. Leitura lenta, sonolenta, que não sai do lugar. O mesmo capítulo, o mesmo livro nunca terminado. A mesma página, olhar parado, contemplando o infinito, o nome do autor, o nome da editora, o título, o subtítulo, o índice, a dedicatória, a epígrafe, o sumário, o prefácio, a introdução... A luxúria da leitura. A leitura desejada, imaginada em mil e uma posições. Sugestiva, insinuante, tentadora. Prazer entre as páginas, entre as capas, entre as letras. Beijar o texto e ser por ele abraçado. Dormir com mais de um livro, a todos trair e a todos procurar, gemendo, tremendo, relendo. A soberba da leitura. Vangloriar-me de cada livro lido, de cada autor por mim conhecido, por mim descoberto, por mim, por mim, por mim! Supero em muito cada autor porque sou mais do que um só. Sou Guimarães e Bandeira, sou Goethe e Kafka, sou Homero e Dante. Sou tudo o que leio. Sou mais. Sou melhor. A avareza da leitura. Guardar todos os livros para mim, para mim, para mim! Não empresto meus livros e os livros que alguém me empresta tornam-se meus para sempre. Os livros são todos meus. Deles extraio lucro, juros, vantagens, privilégios, poder. Livros para ter, para acumular. Pilhas de livros. Livros que levarei para o túmulo. A ira da leitura. O verso lido com raiva, gritado, indignado com tudo e com todos. O romance fazendo guerra às nossas idéias. A leitura, pura raiva de viver. Bater, apanhar, brigar, xingar. Leitura dura. De todos me orgulho. De cada teimoso peqado, com "q". Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

quarta-feira, junho 25, 2008

AUTO-RETRATO Entre a espuma e a navalha sou legenda O espelho neutraliza o ângulo da morte, a barba estrangulou a metafísica e o problema do mal é bem remoto. Aqui sim! Aqui resistirei à mímica, ao dicionário e ao laboratório! - a herança do punhal brilha de novo - o fantasma de Abel não me intimida. Vejo a testa crescer entre espirais de fumo, o olhar que não vacila, da ruga a pré-história e o peito rasgado pela fúria do poema. Aqui sim, aqui iniciarei a espécie nova, aqui derrotarei o homem-harpa e pronto estou para a descoberta do sexo. O pincel dá-me o poder do patriarca, a navalha redua a timidez e o medo, o palavrão rola na boca e salva o mundo. Ruy Guilherme Paranatinga Barata* *poeta brasileiro

terça-feira, junho 24, 2008

A fúria dos eurocratas No dia em que os irlandeses rejeitaram o Tratado de Lisboa num referendo, os Eurocratas em Bruxelas enlouqueceram de fúria. Esta é a última vez, devem eles ter estado a pensar com seus botões; esses irlandeses nunca serão autorizados a votar outra vez. Vamos acabar com esses referendos. Eles são complicados demais para pessoas comuns. A artigo, para mim antológico, de Hans-Jürgen Schlamp, no Spiegel International, de que faz parte a passagem acima reproduzida, mostra o desconcerto que grassa entre os burocratas de Bruxelas e seus apoiantes incondicionais, com os ataques mais soezes à soberania alheira, de que foi exemplo a triste tirada do homem do bolo rei. Depois de terem legislado sobre tudo e mais alguma coisa, desde a curvatura das bananas ao diâmetro das maçãs, das cerejas e das azeitonas, passando pelo achatamento dos tremoços, pela grossura dos pepinos, pela dimensão dos tomates e pela largura das ervilhas tortas, quiseram os políticos falhados que nos desgovernam impor uma manta de retalhos a quase 500 milhões de cidadãos, mas o 1% a quem teve de ser dada a oportunidade de dizer da sua justiça achou que era muita fruta podre junta o facto de quererem, sub-repticiamente, pôr em vigor um reembrulho intragável daquilo que tinha sido recusado por franceses e holandeses. As exéquias estão a decorrer e o funeral segue dentro de momentos. A União é ingovernável pelos tratados de Roma e Nice? Pode ser que assim seja, mas deviam ter pensado nisso antes de duplicarem, apressadamente, o número de Estados Membros, em obediência a impulsos políticos discutíveis e a reboque dos interesses estratégicos do império, sem pensarem no futuro. Como o não fizeram, tenham agora a capacidade equacionar o que se quer para a Europa, de perguntar aos cidadãos se é isso que pretendem e de elaborar um Tratado simples, que trace apenas as grandes linhas do que é ou deve ser comum a todos, deixando as coisas domésticas a cargo dos governos eleitos de cada Estado. E, já agora, façam isso antes da entrada em vigor do (des)acordo ortográfico, para que nós, os portugueses, ainda possamos entender o que vier a ser escrito.

segunda-feira, junho 23, 2008

Réquiem para Dorothy Stang Dias irae Dias de ira virão quando a floresta for somente cinzas. Dias de ira virão quando a vida na floresta for somente cinzas. Assim diz o canto do acauã. Assim diz a voz de Dorothy. Dias de ira virão na terra vã. Ai! Dias de lágrimas por Dorothy Stang, Chico Mendes Pe. Josino, Canuto, Mártires da Terra. Dias de lágrimas por Dorothy Stang, nossa irmã, que por ela já não canta o acauã. Tudo acabou. Tambaramã. Tudo Acabou. Tambaramã. João de Jesus Paes Loureiro* *poeta paraense que hoje celebra o 69º aniversário

domingo, junho 22, 2008

O triunfo da loucura Nos Estados Unidos o público não gosta do que esta a acontecer e 81% pensam que o país está a caminhar na direcção errada. Mas não parece que o público possa fazer grande coisa a esse respeito. Houve um sentimento generalizado de que as eleições de 2006 foram um voto contra a guerra do Iraque, mas os democratas vencedores não desenvolveram qualquer acção significativa para deter a guerra ou mesmo fazer uma paragem - quanto mais revertê-los – nos ataques de Bush contra o governo constitucional, e deixaram o incapaz e desacreditado Decisor com a responsabilidade da supervisão de um fluxo contínuo de fundos adicionais para escalar a guerra do Iraque. Edward S. Herman, escritor, professor emérito de finanças na Warton School, Universidade da Pensilvânia e especialista em economia política e análise dos media, faz um retrato muito acutilante da loucura que grassa no executivo estado-unidense, o qual pode ser lido no original na Z Magazine ou, para quem preferir, numa tradução para castelhano.

sábado, junho 21, 2008

O pavão e o vaqueiro


Lembre-se disto, Sr. Presidente dos Estados Unidos da América: o senhor talvez possa ter pena de coisas que não conseguiu levar a cabo no seu cargo. Mas somente os vencedores, como o senhor e eu, têm alguma vez a possibilidade de modificar as suas nações.

Palavras de Nicholas Sarkozy, a terminar o brinde de despedida ao Sr. W., num jantar informal realizado na sexta feira, 13 de Junho de 2008.

Lá diz o velho ditado português: presunção e água benta cada um toma a que quer!

Caricaturas de John S. Pritchett

sexta-feira, junho 20, 2008

O tempo o homem O tempo faz o homem que faz o tempo Faz tempo O homem que constrói o tempo Que destrói o homem Só a Era faz-se Heras destruindo o tempo o homem a casa velhas paredes azulejos limo A Ampulheta: o testemunho, a arte Os ciclos, os séculos A hera decora o muro O tempo decora o homem que colora o tempo descolora Só o artista faz a Hora Max Martins* *poeta paranaense

quinta-feira, junho 19, 2008

O Espírito Coxo Porque será que um coxo não nos irrita e um espírito coxo nos irrita? Porque um coxo reconhece que andamos direito, enquanto um espírito coxo diz que somos nós que coxeamos; se assim não fosse, teríamos pena e não raiva. Epicteto pergunta com muito mais força: «Porque é que não nos zangamos se se diz que nos dói a cabeça, e nos zangamos se se diz que raciocinamos mal, ou que escolhemos mal?». O que origina isto é o estarmos certos de que não nos dói a cabeça e de que não somos coxos; mas não estamos assim tão seguros de que escolhemos a verdade. De maneira que, não estando certos senão porque o vemos com os nossos olhos, quando outro vê com os seus olhos o contrário, pomo-nos em suspenso e espantamo-nos, e ainda mais quando mil outros se riem da nossa escolha; pois é preciso preferir as nossas luzes às de tantos outros, o que é temerário e difícil. Nunca há esta contradição no que concerne a um coxo. Blaise Pascal, in "Pensamentos" Retirado daqui
Construção O Grande Chico Buarque completa hoje 64 anos de idade. Com votos de que seja “bonita a festa, pá!”, aqui fica um dos seus poemas/canção de que mais gosto: Construção Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego Amou daquela vez como se fosse o último Beijou sua mulher como se fosse a única E cada filho seu como se fosse o pródigo E atravessou a rua com seu passo bêbado Subiu a construção como se fosse sólido Ergueu no patamar quatro paredes mágicas Tijolo com tijolo num desenho lógico Seus olhos embotados de cimento e tráfego Sentou pra descansar como se fosse um príncipe Comeu feijão com arroz como se fosse máquina Dançou e gargalhou como se fosse o próximo E tropeçou no céu como se ouvisse música E flutuou no ar como se fosse sábado E se acabou no chão feito um pacote tímido Agonizou no meio do passeio náufrago Morreu na contramão atrapalhando o público Amou daquela vez como se fosse máquina Beijou sua mulher como se fosse lógico Ergueu no patamar quatro paredes flácidas Sentou pra descansar como se fosse um pássaro E flutuou no ar como se fosse um príncipe E se acabou no chão feito um pacote bêbado Morreu na contramão atrapalhando o sábado Escreveu, compôs e cantou Chico Buarque de Hollanda

quarta-feira, junho 18, 2008

Bushismos Acossado por todos os lados no seu próprio país, com um nível de popularidade na casa dos 30% e a sofrer ainda os ecos das bombásticas revelações de Scott McClellan, (seu) antigo Secretário de Imprensa da Casa Branca, o Sr. W. veio fazer uma última viagem oficial à Europa, na qual demonstrou não ter aprendido nada com a história. Desde a visita ao Vaticano à recepção do velho Caimão, dos elogios e auto-elogios do homenzinho dos saltos altos que desgoverna o hexágono que já foi grande até à recepção do encolhido Brown que a custo sobrevive às barbaridades da sua governação, o Sr. W. foi pontilhando a sua visita de político garnisé de ares imperiais com os costumeiros desatinos de linguagem. Nada arrependido da sua guerra contra os infiéis e gracejando sobre “armas de destruição maciça”, acusou um jornalista da Sky News que o questionou sobre Guantanamo e Abu Ghraid de “caluniar a América”, como se o estatuto do país se medisse pela sua incompetência. Dan Froomkin, na sua coluna White House Watch de segunda feira na versão digital do The Washington Post, traça um retrato da viagem digno de ser lido, até porque, entre muitas outras coisas, levanta o véu sobre a realidade de autênticos campos de concentração que o exército estado-unidense mantém no Afeganistão, realidade essa que os nossos media servilmente ignoram.

terça-feira, junho 17, 2008

O senhor Fatuec Chico Vilela, criança de Itajubá, conhecia praticamente toda a população da cidade. Só não conhecia o que julgava ser a criatura mais inteligente, um tal de Fatuec. Admirava platonicamente o senhor Fatuec, tão citado pelo pai. Toda vez que o seu José ia fazer uma afirmação incontestável, citava o Fatuec. Pelo nome, o Chico achava que devia ser alguém da colônia árabe. Sem perguntar para ninguém, vasculhou os nomes dos “turcos”, e não achou nenhum Fatuec. Cresceu sem conhecer esse gênio. Só depois de adulto é que descobriu, decepcionado, que não existia nenhum Fatuec. O negócio é que seu pai, quando ia concluir uma conversa, começava assim: “O fato é que...”. Segundo consta, quando Chico foi tirar a coisa a limpo, seu pai teria encerrado o papo assim: - O fato é que não existe nenhum Fatuec. Mouzar Benedito Publicado no jornal digital VIAPOLÍTICA

segunda-feira, junho 16, 2008

Crepúsculo É quando um espelho, no quarto, se enfastia; quando a noite se destaca da cortina; quando a carne tem o travo da saliva, e a saliva sabe a carne dissolvida; quando a força de vontade ressuscita; quando o pé sobre o sapato se equilibra... e quando às sete da tarde morre o dia - que dentro de nossas almas se ilumina, com luz lívida, a palavra despedida. David Mourão-Ferreira

domingo, junho 15, 2008

Eu confesso Confesso e não nego que sou carioca. Da gema. Do bairro do Estácio. E também do subúrbio carioca. Carioca do Rio ex-capital. Da ex-Guanabara. Carioca apaulistado agora. Carioca sem sotaque agora. Carioca descariocado agora. Confesso que sou professor. Professor que gosta de ensinar mais do que explicar. Sugerir mais do que proibir. Elogiar a leitura mais do que a obrigatória tortura. Professor no falar e no agir, no sorrir e no pensar, no calar e no sentir. Confesso que sou leitor compulsivo, fanático, inveterado. Confesso que gasto dinheiro demais com os livros. Que sinto prazer em entrar num sebo, numa livraria, numa biblioteca. Que os livros são o meu tormento e o meu céu. Confesso e não nego que sou escritor. Escritor escravo do escrever. Escritor que passa o dia escrevendo mentalmente o que há de escrever no papel ou na tela. Escritor que elogia a leitura, o leitor criativo, a arte da palavra. Confesso que sou católico. Católico por um triz. Que dorme ao ouvir sermões cansativos. Católico apostólico romântico. Católico sem eira nem beira, sem carteirinha, sem ligação oficial com movimentos e outros elementos. Confesso que gosto de falar. Na palestra, no debate, na mesa-redonda, no palco, na padaria, no barbeiro. E gosto de calar-me, recluir-me, fugir, enterrar-me vivo no meio dos livros. Confesso que não gosto de me confessar, de revelar quem sou, o que faço, o que penso, em que acredito. Confesso que gosto de me expor, contar o segredo, confidenciar, abrir o coração. Confesso que não gosto de futebol na terra do futebol. Que não gosto de carnaval na terra do carnaval. Que não gosto de praia na terra das muitas praias. Confesso e peço perdão. Confesso que gosto do Brasil, com todas as suas... As nossas contradições e limitações, sua carga tributária e suas festas, seus políticos e seus apresentadores de TV, seu calor e seu frio, sua seca e sua enchente, suas belezas e misérias. Confesso e não nego que muito pouco do Brasil conheço, mas guardo com carinho um caminhar nas calçadas de Manaus, uma partida de xadrez nas calçadas de Florianópolis, rápidos passeios de carro nas ruas de Porto Alegre, Campo Grande, Natal, Belo Horizonte, Recife, Curitiba, Campinas, Ribeirão Preto, Bauru, São Luís, Salvador, Palmas... Confesso. Não nego. Confesso dizer a verdade. E um pouco mais do que isso. Gabriel Perissé* *professor e escritor Publicado no jornal digital Correio da Cidadania

sábado, junho 14, 2008

Feitiço Sinto-me como um Mago de uma magia menor. Coloco as palavras desordenadamente em ordem. Versos tolos, fúteis e inúteis. Não quero enfeitiçar ninguém. Só eu mesmo e o papel. Guto Graça* *poeta carioca

sexta-feira, junho 13, 2008

Nascido para Mandar Os homens dividem-se, na vida prática, em três categorias - os que nasceram para mandar, os que nasceram para obedecer, e os que não nasceram nem para uma coisa nem para outra. Estes últimos julgam sempre que nasceram para mandar; julgam-no mesmo mais frequentemente que os que efectivamente nasceram para o mando. O característico principal do homem que nasceu para mandar é que sabe mandar em si mesmo. O característico distintivo do homem que nasceu para obedecer é que sabe mandar só nos outros, sabendo obedecer também. O homem que não nasceu nem para uma coisa nem para outra distingue-se por saber mandar nos outros mas não saber obedecer. O homem que nasceu para mandar é o homem que impõe deveres a si mesmo. O homem que nasceu para obedecer é incapaz de se impor deveres, mas é capaz de executar os deveres que lhe são impostos (seja por superiores, seja por fórmulas sociais), e de transmitir aos outros a sua obediência; manda, não porque mande, mas porque é um transmissor de obediência. O homem que não nasceu nem para mandar nem para obedecer sabe só mandar, mas como nem manda por índole nem por transmissão de obediência, só é obedecido por qualquer circunstância externa - o cargo que exerce, a posição social que ocupa, a fortuna que tem... Fernando Pessoa, in Teoria e Prática do Comércio Retirado daqui

quinta-feira, junho 12, 2008

Persigo... Persigo sem descanso um horizonte estranho alheio a tudo o que já fui ou sou Sei que os meus passos seguem um desenho que não alcanço mas que algo em mim já viu ou já sonhou Desconheço a razão de cada avanço Só sei que tenho de ir por onde vou… Ana Vidal* *poetisa lisboeta

quarta-feira, junho 11, 2008

Haja (algum) decoro! Como habitualmente sucede nesta época do ano, utilizo um ou dois dias de férias e vou passar o aniversário da companheira fora de portas; nos últimos anos temos juntado o agradável ao útil, “indo às cerejas” ali para os lados do Fundão. Tendo estado alguns dias sem ligar aos telejornais, com a excepção de umas espreitadelas furtivas ao espectáculo degradante dos bloqueios de estradas por parte de camionistas europeus a mando dos respectivos patrões, sofri um baque quando ontem cheguei a casa a tempo do jornal das 13H00 e ouvi que os ministros do desemprego e da insegurança social dos 27 países que desgovernam esta Europa que alguns ainda pensam que é um oásis tinham aprovado uma estranha lei que permite aumentar o período de trabalho semanal de 48 para 65 horas. Alegam uns que é um passo em frente para os trabalhadores (mas não dizem que são mais de vinte para trás) e outros dizem que o novo período só é aplicável com o acordo dos trabalhadores (mas não dizem que nesta “guerra” de bombardeiros contra fisgas estas últimas estão sempre condenadas a perder). Se é (fosse) assim, quais as razões para Espanha, Bélgica, Chipre, Grécia e Hungria terem apresentado uma declaração em que asseguram não poder aceitar o texto pelo “retrocesso social” que pressupõe? Por este andar, regredimos à época da revolução industrial não tarda nada. Será que os irlandeses vão dar uma bem merecida tampa aos eurocratas no referendo de amanhã?

terça-feira, junho 10, 2008

Alegres campos, verdes arvoredos Alegres campos, verdes arvoredos, Claras e frescas águas de cristal, Que em vós os debuxais ao natural, Discorrendo da altura dos rochedos; Silvestres montes, ásperos penedos, Compostos em concerto desigual, Sabei que, sem licença de meu mal, Já não podeis fazer meus olhos ledos. E, pois me já não vedes como vistes, Não me alegrem verduras deleitosas, Nem águas que correndo alegres vêm. Semearei em vós lembranças tristes, Regando-vos com lágrimas saudosas, E nascerão saudades de meu bem. Luís Vaz de Camões

segunda-feira, junho 09, 2008

O Verdadeiro Gesto de Amor Aquilo que de verdadeiramente significativo podemos dar a alguém é o que nunca demos a outra pessoa, porque nasceu e se inventou por obra do afecto. O gesto mais amoroso deixa de o ser se, mesmo bem sentido, representa a repetição de incontáveis gestos anteriores numa situação semelhante. O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável. Fundamentalmente, uma inocência. Fernando Namora, in “Jornal sem Data” Dedicado à minha companheira, de quem hoje celebramos o 60º aniversário.

domingo, junho 08, 2008

Um só Zé Ana foi ser chefe de serviços gerais num centro social de São Paulo e queria conhecer melhor todos os funcionários. Antes de conversar com cada um, para dizer o que pretendia fazer e o que esperava dos subordinados, pediu as fichas dos trabalhadores de sua área, no Departamento de Pessoal. Queria saber tudo sobre eles, desde as mulheres que serviam café até o chefe da segurança. Quando pegou as fichas dos dois porteiros, achou muito esquisito: um chamava-se José de Souza e o outro José de Souza Irmão. Olhou de novo para ver se não estava tendo alguma alucinação. E não estava. Ambos nasceram na mesma cidade baiana, o pai era o mesmo, a mãe também... Ficou muito curiosa, chamou os dois à sua sala. Primeiro foi o José de Souza, enquanto o José de Souza Irmão ficava cuidando da portaria, que não podia ficar desguardada. Logo que ele entrou, ela foi falando: - Ô, rapaz, mas o seu pai não tinha imaginação, hem? Tem tanto nome no mundo, um de vocês podia se chamar João, Antônio, Joaquim, Severino, Jorge ou qualquer outra coisa, mas ele pôs nos dois filhos o nome de Zé... - Não, dona, Zé sou só eu. O meu irmão é Zeca. Mouzar Benedito (in “Memória vagabunda”, editora Publisher Brasil) Retirado daqui

sábado, junho 07, 2008

Aço e Flor Quem nunca viu que a flor, a faca e a fera tanto fez como tanto faz, e a forte flor que a faca faz na fraca carne, um pouco menos, um pouco mais, quem nunca viu a ternura que vai no fio da lâmina samurai, esse, nunca vai ser capaz. Paulo Leminski* *poeta paranaense

sexta-feira, junho 06, 2008

Ideias arejadas O Cardeal Carlo Maria Martini, antigo Arcebispo da diocese de Milão e figura papável no conclave de 2005 (há quem diga que até teve a maioria dos votos), actualmente retirado do seu múnus pastoral e a residir em Jerusalém, onde se dedica ao estudo e à escrita, acaba de publicar na Alemanha o livro “Colóquios Nocturnos de Jerusalém”, coligido pelo seu confrade jesuíta George Sporschill. Enquanto não chega cá - se é que chegará alguma vez, vale a pena tomar conhecimento de algumas das ideias arejadas que propõe que a Igreja Católica adopte, através de um artigo do jornalista Juan G. Bedoya publicado em vários órgãos de informação e que foi afixado, em tradução para português do Brasil, no sítio do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (Brasíla).

quinta-feira, junho 05, 2008

O intelectual raivoso Ele é agressivo, prepotente, escandaloso. Sem qualquer pudor, anuncia absurdos inomináveis, sempre conservadores, é claro. Faz apologia da desigualdade, da desumanidade, da riqueza escandalosa, do ódio aos pobres e da opressão dos fracos. Defende os crimes ambientais, a inferioridade da mulher, a superioridade do capitalismo, a violência imperialista. Ataca a educação sexual, o compromisso social e, sobretudo, tudo que é público. Nada lhe é mais bonito que o privado. Vale a pena ler na íntegra este interessante artigo do Historiador e Professor Universitário brasileiro Mário Maestri, publicado no jornal digital Via Política.

quarta-feira, junho 04, 2008

Pensando A vida passa, entre domingos aniversários e datas. Arranco melancolicamente as folhas do pequeno calendário. Penso na velhice, na solidão. O tempo não tem pena e cada um segue seu rumo. Exercito metodicamente músculos e cérebro. Temo a paralisia, a inanição. O que pára primeiro? As mãos que escrevem, a mente que cria? Preciso fazer poesia! Crio uma fórmula secreta: Quando morrer, serei fantasma, ficarei vagando nas bibliotecas misturado aos poemas. Andando pelos parques sentindo as flores, as cores. Serei espírito poeta. Ana Maria de Souza Mello* *poetisa brasileira

terça-feira, junho 03, 2008

O Obstáculo Invisível As forças do homem não são concebidas como uma orquestra. No homem é necessário que todos os instrumentos toquem constantemente com toda a sua força. Não foram destinados a ouvidos humanos e não dispõem da duração de uma noite de concerto durante a qual cada instrumento pode esperar para se fazer valer. Por vezes parece que as coisas serão assim: tu tens tal tarefa a cumprir, dispões de tantas forças quantas são necessárias para a levar a bom termo (nem muito, nem muito pouco, sem dúvida te é necessário concentrares-te, mas não tens que estar ansioso); com bastante tempo teu e boa vontade para o trabalho, onde está o obstáculo ao êxito da imensa tarefa? Não percas tempo a procurá-lo, talvez não exista. Franz Kafka, in "Meditações" Retirado daqui

segunda-feira, junho 02, 2008

Exageros


Num dia de Maio de 1897 Mark Twain terá sido visitado, na sua casa de Londres, pelo afogueado correspondente do The New York Jornal, o qual tinha recebido da sede do jornal o seguinte pedido: "Se Mark Twain está a morrer na miséria, envia um artigo de 500 palavras; se Mark Twain morreu na miséria, envia um artigo de 1.000 palavras".

O grande escritor, que estava na miséria mas de boa saúde e não tinha falta de senso de humor, rabiscou a nota que se vê na imagem e que foi publicada pelo The New York Jornal do dia 2 de Junho: “James Ross Clemens, um primo meu, esteve gravemente doente há duas ou três semanas, em Londres, mas agora está bem. O relato da minha doença surgiu a partir da doença dele, mas a notícia da minha morte foi um exagero”.