How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
domingo, junho 01, 2008
Decadências e tristezas
Decadente país este que paga centenas de milhares a um “farrapo humano” de 24 anos de idade, ela que carregava uma imagem de “soul” e “R&B” brancos de primeira água, para vir apresentar tão triste espectáculo de degradação, sem “alma”, sem ritmo e sem “blues”.
Decadente país este em que mais de meia centena de milhar de adolescentes (“pitinhas”, na gíria da idade) grita histericamente, aclamando como heroína uma jovem prematuramente envelhecida pelo abuso de álcool e das drogas, com cara de cavalo, pernas de espantalho e corpo de faminta.
Triste país este em que um punhado de trabalhadores liderados por patrões sem escrúpulos agride outros trabalhadores e destrói os seus bens, perante a passividade espantosa das forças “de segurança” presentes.
Triste país este em que, no partido do governo, a única alternativa ao líder é o próprio líder e em que, no maior partido da oposição, somos forçados a reconhecer que o mal menor foi a eleição duma sexagenária com cara de pau, sem chama nem ideias de futuro.
Triste país este em que, à esquerda do partido da direita no poder, pontificam um sacristão armado em teólogo das virtudes e um dançarino popular sem qualquer capacidade para rebobinar a cassete.
Triste país este em que, por limite de idade, estou condenado a viver o resto dos meus dias, num modelo de sociedade com que não concordo, mas cujas regras e desgoverno sou obrigado a aceitar e financiar.
sábado, maio 31, 2008
Monólogo
Anseio por uma infância perdida.
Foi-se a sinceridade encontrada apenas
nos gestos imaturos,
e com ela minha alegria.
Almejo uma loucura incoerentemente sóbria,
que finalmente traga minha alma à tona
e desatole tantas emoções contidas.
Cultivo pequenos momentos de minha existência
e não sou exigente, pois sei que a mediocridade
é inerente a todos os sonhadores.
Busco minha própria sombra,
alguém que me complete.
Que me faça ver que valeu a pena encarar o desconhecido,
descobrir que não há nenhum prêmio
por bom comportamento...falsos ícones.
Só um jovem do outro lado da linha.
Ana Maria Ramiro*
*poetisa brasileira
sexta-feira, maio 30, 2008
João & Joaquim
Joaquim Maria Machado de Assis faleceu há 100 anos. João Guimarães Rosa nasceu há 100 anos. Os dois imprimiram dimensão estética ao enigma do feminino: Capitu, por Joaquim; Diadorim, por João. Os dois morreram no Rio, os dois em casa, os dois sozinhos. Joaquim no Cosme Velho, viúvo; João em Copacabana, a 19 de Novembro de 1967, quando a mulher saíra para a missa.
Carioca, autodidata, fundador da Academia Brasileira de Letras, Joaquim construiu uma obra de inesgotável polissemia. Seu estilo revela a leveza da pena, graças às suas crônicas para jornais. Seus textos parecem, à primeira vista, ao alcance de qualquer leitor. Porém, exigem acuidade para serem captados em sua profusão de símbolos, subterfúgios, entrelinhas e aparentes tautologias.
Mineiro de Cordisburgo - "cidade do coração" -, poliglota, médico e diplomata, João reinventou a língua portuguesa, abrasileirou-a, potencializou-a, implodiu as regras da narrativa convencional, fez do sertão uma epopéia.
João observa o mundo pela cerca do pasto; Joaquim, pela janela do sobrado. O primeiro é rural; o segundo, urbano. João se solta nas águas límpidas dos grandes rios para pescar, nas profundezas, as metafísicas interrogações do humano. Joaquim é intimista, realista, encontra nos salões, numa conversa banal, a matéria-prima que lhe permite desvelar recônditos segredos da alma.
João encara o mundo de baixo para cima, situado no lugar social dos anônimos; pisa em bosta de vaca para descrever infinitudes. Joaquim é quase dândi, apresenta-se de luvas e cartola e, aos poucos, rasga-nos a fantasia, perfura a pele, escancara o coração, expõe as vísceras.
João é teólogo, apocalíptico; Joaquim, filósofo, irreverente. João é assombro; Joaquim, ironia. Este ergue seu bico de pena e penetra nos meandros de nossa inelutável insensatez; João, mete a foice e desbasta, abre veredas em direções inesperadas.
Joaquim é cartesiano, explora a dúvida, o suspense, a ambigüidade, o contraditório. João é barroco, retorce a gramática, subverte a sintaxe, arranca o vocabulário de seu perfilar ordenado e o atira no corpo de baile dos entremeios do espírito.
Joaquim faz de sua literatura uma caprichosa renda; vista à distância, sua obra parece impecável toalha sobre a mesa, cuja beleza resulta de seus intrincáveis bordados, só apreciados pelo leitor arguto.
João prefere juntar os cacos espalhados pelo chão da vida e expor o vitral de tantas sagas e aventuras. Seu talento é inalcançável, pois isolou-se num universo vocabular e semântico único, singular; melhor comparando, apagou o idioma da lousa e nos labirintos da sintaxe reconstruiu-o letra por letra, palavra por palavra, num tecido radicalmente local, esplendorosamente universal.
Nos dois, o domínio impecável da língua, o estilo cativante, o ritmo preciso. Os dois são inimitáveis. Joaquim nos convida a um jogo repleto de surpresas; João a uma viagem através do misterioso sertão que cada um de nós traz dentro de si.
Este é um ano de muitas comemorações literárias. Há 400 anos nascia o Padre Vieira (6/2/1608), que nos ensinou a reverenciar o idioma português e, há 120 anos, Fernando Pessoa (13/6/1888), para quem "o poeta é um fingidor/ finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente". Há 60 anos nos deixava Monteiro Lobato, que encantou a minha infância e habituou-me aos livros.
Antonio Candido, o maior crítico literário vivo, autor do clássico Parceiros do Rio Bonito, faz 90 anos. E há 90 anos transvivenciou Olavo Bilac, que nos convida a ouvir estrelas. E Manuel Bandeira falecia há 40 anos, ele que nos induz a surfar na poesia: "A onda anda / aonde anda / a onda? / a onda ainda / ainda onda / ainda anda / aonde? / aonde? / a onda / a onda".
Frei Betto
Retirado daqui
quinta-feira, maio 29, 2008
Y yo me iré
Y yo me iré. Y se quedarán los pájaros
cantando;
y se quedará mi huerto, con su verde árbol,
y con su pozo blanco.
Todas la tardes, el cielo será azul y plácido;
y tocarán, como esta tarde están tocando,
las campanas del campanario.
Se morirán aquellos que me amaron;
y el pueblo se hará nuevo cada año;
y en el rincón aquel de mi huerto florido y encalado,
mi espíritu errará, nostálgico…
Y yo me iré; y estaré solo, sin hogar, sin árbol
verde, sin pozo blanco,
sin cielo azul y plácido…
Y se quedarán los pájaros cantando.
Juan Ramón Jiménez*
*no cinquentenário da sua morte
quarta-feira, maio 28, 2008
Especuladores e...especuladores!

O multi-milionário estado-unidense de origem húngara, George Soros, famoso pela sua actividade como especulador nos mercados financeiros, assegurou que os especuladores são os grandes responsáveis pelos altos preços do petróleo, em entrevista publicada na passada segunda feira pelo jornal inglês The Daily Telegraph.
O Sr. Soros disse que, embora o dólar fraco, o declínio no abastecimento do Médio Oriente e a procura da China talvez possam explicar algum do aumento nos preços da energia, o mercado petrolífero tem sido significativamente afectado pela especulação. “A especulação está a afectar crescentemente o preço do crude”, disse. “O preço tem esta forma parabólica que é característica das bolhas”, acrescentou.
Apesar de se tratar de uma realidade óbvia, mesmo para pessoas com escassa informação sobre os mecanismos de formação dos preços das mercadorias, não deixa de ser importante que o especulador mor venha fazer tal denúncia e que tenha instado os reguladores a que tomem medidas mais agressivas tendentes a uma melhor supervisão do mercado.

O multi-milionário estado-unidense de origem húngara, George Soros, famoso pela sua actividade como especulador nos mercados financeiros, assegurou que os especuladores são os grandes responsáveis pelos altos preços do petróleo, em entrevista publicada na passada segunda feira pelo jornal inglês The Daily Telegraph.
O Sr. Soros disse que, embora o dólar fraco, o declínio no abastecimento do Médio Oriente e a procura da China talvez possam explicar algum do aumento nos preços da energia, o mercado petrolífero tem sido significativamente afectado pela especulação. “A especulação está a afectar crescentemente o preço do crude”, disse. “O preço tem esta forma parabólica que é característica das bolhas”, acrescentou.
Apesar de se tratar de uma realidade óbvia, mesmo para pessoas com escassa informação sobre os mecanismos de formação dos preços das mercadorias, não deixa de ser importante que o especulador mor venha fazer tal denúncia e que tenha instado os reguladores a que tomem medidas mais agressivas tendentes a uma melhor supervisão do mercado.
terça-feira, maio 27, 2008
Primavera
a poesia não ancorou nesta tarde de primavera
ah, cansaço de não ser nada
nem inverno
nem garoa , nem céu azul
ter o cinza na alma
e nem assim poder ser completamente cinza
este canto esquisito de pássaro
estaria numa gaiola ?
como um pássaro pode ter um canto tão feio !
cansaço de também não ser pássaro !
a poesia recria, toma tudo emprestado e belo
viagem de onde se volta achando tudo engraçado
ah, e hoje nem a poesia ...
nem ancora nem naufraga
navio sem rumo
veleiro sem velas
ombros curvados
ah, que cansaço de também não ser poeta
serei passageiro
que não seja eu o comandante de nada ...
se nem ao menos a primavera
é primavera
Ana Lamanna*
*poetisa brasileira
segunda-feira, maio 26, 2008
Nem os deles escapam

Norman Gary Finkelstein, conhecido cientista político, escritor e historiador judeu estado-unidense, especializado em assuntos relacionados com os judeus, especialmente o Holocausto e o conflito Israelo-Palestiniano, cuja mãe, filha de um judeu ultra-ortodoxo, sobreviveu ao Gueto de Varsóvia e ao Campo de Concentração de Majdanek e cujo pai sobreviveu também ao Gueto de Varsóvia e ao Campo de Concentração de Auschwitz, viu recusada a sua entrada em Israel na passada sexta-feira, dia 23, por suspeita de ter tido contactos com elementos “hostis” a Israel, de acordo com agentes de segurança israelitas não identificados. Finkelstein foi interrogado após a sua chegada ao aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv, e recambiado num voo para Amesterdão, de onde tinha partido, tendo sido banido de entrar em Israel durante 10 anos.
É caso para dizer que nem aos seus perdoam as críticas.

Norman Gary Finkelstein, conhecido cientista político, escritor e historiador judeu estado-unidense, especializado em assuntos relacionados com os judeus, especialmente o Holocausto e o conflito Israelo-Palestiniano, cuja mãe, filha de um judeu ultra-ortodoxo, sobreviveu ao Gueto de Varsóvia e ao Campo de Concentração de Majdanek e cujo pai sobreviveu também ao Gueto de Varsóvia e ao Campo de Concentração de Auschwitz, viu recusada a sua entrada em Israel na passada sexta-feira, dia 23, por suspeita de ter tido contactos com elementos “hostis” a Israel, de acordo com agentes de segurança israelitas não identificados. Finkelstein foi interrogado após a sua chegada ao aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv, e recambiado num voo para Amesterdão, de onde tinha partido, tendo sido banido de entrar em Israel durante 10 anos.
É caso para dizer que nem aos seus perdoam as críticas.
domingo, maio 25, 2008
Ignorâncias
Há muitos anos, tantos que apenas havia o canal público de televisão que prestava alguns serviços à cultura, uma jovem estrela em ascensão no nosso panorama televisivo, ao pretender anunciar a realização do festival de Bayreuth (pronuncia-se “bairróit”), cidade da Baviera onde viveu Richard Wagner e que todos os anos lhe dedica um festival de ópera, disse que na próxima semana se realizava o festival de Beirute. Tal não a impediu de vir a ser directora de programas e até adida cultural numa culta capital europeia.
Anos depois, um outro apresentador de televisão, ao informar-nos de que um determinado julgamento tinha sido adiado sine die, expressão latina que significa sem prazo marcado, disse alto e bom som que o tal julgamento fora adiado “sáinè dai”, como se a expressa latina fosse de origem inglesa.
Vários outros “letrados” no mesmo ou em lugares semelhantes, ao pretenderem pronunciar o portuguesíssimo vocábulo item, que por provir directamente do latim se lê tal como se escreve e tem como plural itens, foram falando em “áitem” e áitems”.
Há cerca de duas semanas, um outro jornalista, ao fazer uma reportagem sobre a feira do emprego realizada no Porto, informou alegremente que o primeiro passo na procura de emprego consistia na entrega do “curriculum vitái” (referia-se, certamente, ao “curriculum vitae”, outra expressão latina). Como se isso não fosse suficiente, o apresentador do telejornal falou dos vários tornados que assolaram os Estados Unidos, esclarecendo que as cidades mais atingidas tinham sido Missouri e Oklahoma. Ora Missouri e Oklahoma não são cidades mas sim Estados, não consta que haja qualquer cidade chamada Missouri e Oklahoma City, capital e maior cidade do Oklahoma, parece nem sequer ter sido atingida. Ninguém da RTP deu pelo tal “curriculum vitái”, pois a peça foi repetida no jornal das 20H00.
Agora, com o acordo da discórdia, é provável que passemos a ouvir dizer “mídia” a torto e a direito quando alguém quiser referir-se aos meios de comunicação social, dado que os crânios da linguística que fizeram o acordo à imagem do próprio umbigo devem desconhecer que os povos de fala inglesa foram pedir de empréstimo o plural da palavra latina “medium” (“media”), adaptando (ou será adatando?) a pronúncia à sua língua.
sábado, maio 24, 2008
Fazer poético
Meu fazer não é poético... lírico?
Fora um dia, não mais.
Agora a forma é áspera
E o fruto prima pelo amargor.
Poesia, amor, desejo, rebeldia... ficção!
Não passa de ironia...
Escrever às vezes é maçante
Como ler um livro entediado da leitura.
Deixo as palavras fluírem...
Assim, sem sentido aparente...
Postas, sobrepostas, pospostas, antepostas,
Vão aos poucos ganhando forma, justapostas.
Adquirem significados notórios
Desde que atinjam seu objetivo
Trancafiado no limiar do inconstante
No fluxo desvairado do inconsciente.
Alberto da Cruz*
*poeta brasileiro
sexta-feira, maio 23, 2008
Pobres contra pobres

No mundo em que vivemos, ver ricos contra pobres não constitui, infelizmente, novidade.
Os poderosos sempre estiveram contra os desfavorecidos e temo que assim continue a ser.
Por isso, quando Nicolas Sarkozy, então ministro do interior, chamou “canalha” aos imigrantes dos subúrbios pobres das grandes cidades francesas, apenas as consciências mais sensíveis se escandalizaram.
Quando o governo italiano começou a perseguir e a prender imigrantes, incluindo os oriundos dos novos países aderentes à União, os burocratas de Bruxelas, sempre tão rápidos a condenar a xenofobia quando ela “mora” longe, assobiaram para o lado e “varreram o lixo para debaixo do tapete”. E mesmo agora, com um deputado fascista italiano a propor a criação de um estado para os ciganos no leste da Europa como a solução que melhor os serve a “eles” e nos serve a “nós”, não se ouvem reacções condignas da parte das “elites” liberais europeias.
Mas já causa algum espanto quando são os pobres a manifestar sentimentos de extrema violenta xenófoba contra outros pobres, assassinando sem piedade os imigrantes dos países vizinhos que foram à procura de melhores condições de vida.
Algo tem de ir muito mal para, num país como a África do Sul, com um enorme potencial de desenvolvimento e que até já foi considerado rico, haver uma taxa de desemprego a rondar os 40%, grassar a fome e a doença e ocorrer uma autêntica caça mortífera ao imigrante.
Conhecendo-se as riquezas do país, os actos de desespero selvagem a que as autoridades se mostram incapazes de responder com a necessária eficácia só podem dever-se à incompetência e corrupção dos poderes instituídos. Não era este, certamente, o “espectáculo” a que Nelson Mandela esperava assistir no ocaso da sua vida dedicada a uma causa nobre.

No mundo em que vivemos, ver ricos contra pobres não constitui, infelizmente, novidade.
Os poderosos sempre estiveram contra os desfavorecidos e temo que assim continue a ser.
Por isso, quando Nicolas Sarkozy, então ministro do interior, chamou “canalha” aos imigrantes dos subúrbios pobres das grandes cidades francesas, apenas as consciências mais sensíveis se escandalizaram.
Quando o governo italiano começou a perseguir e a prender imigrantes, incluindo os oriundos dos novos países aderentes à União, os burocratas de Bruxelas, sempre tão rápidos a condenar a xenofobia quando ela “mora” longe, assobiaram para o lado e “varreram o lixo para debaixo do tapete”. E mesmo agora, com um deputado fascista italiano a propor a criação de um estado para os ciganos no leste da Europa como a solução que melhor os serve a “eles” e nos serve a “nós”, não se ouvem reacções condignas da parte das “elites” liberais europeias.
Mas já causa algum espanto quando são os pobres a manifestar sentimentos de extrema violenta xenófoba contra outros pobres, assassinando sem piedade os imigrantes dos países vizinhos que foram à procura de melhores condições de vida.
Algo tem de ir muito mal para, num país como a África do Sul, com um enorme potencial de desenvolvimento e que até já foi considerado rico, haver uma taxa de desemprego a rondar os 40%, grassar a fome e a doença e ocorrer uma autêntica caça mortífera ao imigrante.
Conhecendo-se as riquezas do país, os actos de desespero selvagem a que as autoridades se mostram incapazes de responder com a necessária eficácia só podem dever-se à incompetência e corrupção dos poderes instituídos. Não era este, certamente, o “espectáculo” a que Nelson Mandela esperava assistir no ocaso da sua vida dedicada a uma causa nobre.
quinta-feira, maio 22, 2008
O Sofrimento do Hipócrita
Ter mentido é ter sofrido. O hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A premeditação indefinida de uma acção ruim, acompanhada por doses de austeridade, a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, por açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso. O odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpetuamente a impostura. A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjoo em que o hipócrita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. 0 verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. 0 traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hipócrita é um titã-anão.
Victor Hugo, in "Os Trabalhadores do Mar"
Retirado daqui
quarta-feira, maio 21, 2008
Ábaco
Lembro-me como se fosse hoje:
no mato sem cachorro,
mesmo sem cão, não caço com gato
mas tiro meu cavalinho da chuva.
Tarde aprendi que mais vale
um pássaro na mão do que dois voando
e que uma andorinha só não faz verão.
Apanhando como boi ladrão,
o homem é o lobo do homem,
- Ah King Kong,
cada macaco no seu galho.
Sem jeito mandou lembranças.
Boa romaria faz
quem em sua casa fica em paz.
Esperarei sentada.
Vivaldi, vida vida,
Noves fora: nada
Olga Savary*
*poetisa brasileira que hoje celebra o 75º aniversário
terça-feira, maio 20, 2008
Persistência recompensada

Óscar Pistorius é um jovem sul-africano de 21 anos, que nasceu com uma ausência congénita do perónio em ambas as pernas, o que fez com que, aos 11 meses de idade, as mesmas tivessem de ser amputadas a uma altura equidistante dos tornozelos e dos joelhos.
Entre os 11 e os 13 anos jogou ténis, pólo aquático e râguebi até que, após uma lesão grave num joelho, foi iniciado no atletismo enquanto se sujeitava a reabilitação e “nunca mais olhou para trás”.
Conhecido como “Blade Runner” e o “homem mais rápido sem pernas”, participou nos Jogos Paralímpicos de Verão de 2004, em Atenas, e nas mais variadas provas no seu país e no estrangeiro, incluindo provas para atletas não deficientes, a convite da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), tendo chegado a ganhar um Grande Prémio de 400 metros em Inglaterra, o qual lhe foi retirado por correr fora da sua linha.
Começou a acalentar o sonho de correr nos Jogos Olímpicos de Pequim até que, em Junho de 2007, a IAAF alterou as suas regras de competição para banir o uso de “qualquer aparelho técnico que incorpore fibras, rodas ou outros elementos que proporcionem ao seu utilizador uma vantagem sobre outro atleta que não use tal aparelho”.
Garantindo que as alterações não eram especificamente dirigidas a Oscar Pistorius, que usa próteses de fibras de carbono, a IAAF submeteu-o a dois meses de testes na Alemanha, tenho concluído, em Janeiro de 2008, que as suas próteses lhe davam “vantagens consideráveis sobre os atletas que não usavam próteses”, isto é, sobre aqueles que não têm qualquer deficiência. Decidiu, pois, a IAAF, que Óscar Pistorius não podia correr ao lado dos não deficientes.
O atleta não se conformou e recorreu para o Tribunal Arbitral do Desporto em Lausane, na Suiça, o qual acabou por lhe dar razão, abrindo o caminho para que ele tente obter os mínimos para representar o seu país. Mesmo que o não consiga, mais um preconceito foi ultrapassado. Se o conseguir, será o primeiro atleta amputado a participar nuns Jogos Olímpicos.
Mais informação e reacções aqui, onde existem ligações para uma meia dúzia de artigos sobre esta luta de um deficiente por um lugar entre os "normais".

Óscar Pistorius é um jovem sul-africano de 21 anos, que nasceu com uma ausência congénita do perónio em ambas as pernas, o que fez com que, aos 11 meses de idade, as mesmas tivessem de ser amputadas a uma altura equidistante dos tornozelos e dos joelhos.
Entre os 11 e os 13 anos jogou ténis, pólo aquático e râguebi até que, após uma lesão grave num joelho, foi iniciado no atletismo enquanto se sujeitava a reabilitação e “nunca mais olhou para trás”.
Conhecido como “Blade Runner” e o “homem mais rápido sem pernas”, participou nos Jogos Paralímpicos de Verão de 2004, em Atenas, e nas mais variadas provas no seu país e no estrangeiro, incluindo provas para atletas não deficientes, a convite da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), tendo chegado a ganhar um Grande Prémio de 400 metros em Inglaterra, o qual lhe foi retirado por correr fora da sua linha.
Começou a acalentar o sonho de correr nos Jogos Olímpicos de Pequim até que, em Junho de 2007, a IAAF alterou as suas regras de competição para banir o uso de “qualquer aparelho técnico que incorpore fibras, rodas ou outros elementos que proporcionem ao seu utilizador uma vantagem sobre outro atleta que não use tal aparelho”.
Garantindo que as alterações não eram especificamente dirigidas a Oscar Pistorius, que usa próteses de fibras de carbono, a IAAF submeteu-o a dois meses de testes na Alemanha, tenho concluído, em Janeiro de 2008, que as suas próteses lhe davam “vantagens consideráveis sobre os atletas que não usavam próteses”, isto é, sobre aqueles que não têm qualquer deficiência. Decidiu, pois, a IAAF, que Óscar Pistorius não podia correr ao lado dos não deficientes.
O atleta não se conformou e recorreu para o Tribunal Arbitral do Desporto em Lausane, na Suiça, o qual acabou por lhe dar razão, abrindo o caminho para que ele tente obter os mínimos para representar o seu país. Mesmo que o não consiga, mais um preconceito foi ultrapassado. Se o conseguir, será o primeiro atleta amputado a participar nuns Jogos Olímpicos.
Mais informação e reacções aqui, onde existem ligações para uma meia dúzia de artigos sobre esta luta de um deficiente por um lugar entre os "normais".
segunda-feira, maio 19, 2008
Fim
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
Mário de Sá-Carneiro
domingo, maio 18, 2008
O Êxito e a Felicidade
A raiz do mal reside no facto de se insistir demasiadamente que no êxito da competição está a principal fonte da felicidade. Não nego que o sentimento do triunfo torna a vida mais agradável. Um pintor, por exemplo, que viveu obscuramente na juventude, decerto se sentirá feliz se o seu talento acabar por ser reconhecido. Não nego também que o dinheiro, até um certo limite, é capaz de aumentar a felicidade; para lá desse limite, julgo que não. O que eu afirmo é que o êxito só pode ser um dos vários elementos da felicidade e que é demasiado o preço pelo qual se obtém se a ele se sacrificam todos os outros.
Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"
sábado, maio 17, 2008
Desencanto
Tua silhueta
ainda arranha minha retina
contigo
ignorei o futuro
vislumbrei apenas o preciso
- um blefe do destino -
que seja!
Atravessei meus espinhos
perdi todas as defesas
hoje
imune à dor
refém de mim
lastimo a insistência da vida
Poderia ser tudo maior.
Sim! Poderia!
Mas era preciso muito...
Muito mais!
nessa paixão sem amanhãs
réstia de luz
refletida nessa taça de cristal trincada.
Ana Cristina Souto*
*poetisa brasileira
sexta-feira, maio 16, 2008
Descartáveis
Onde se fala da NATO no Afeganistão, de soldados polacos presos após a queda do governo de extrema direita, de vingança, do assassinato puro e duro de civis, incluindo mulheres e crianças, da ocultação, da normalidade da morte de civis, do silêncio cúmplice dos media ocidentais (com honrosa excepção da imprensa polaca) e de algumas coisas mais.
quinta-feira, maio 15, 2008
quarta-feira, maio 14, 2008
A invenção
Há 60 anos foi declarada a independência do estado de Israel.
Visitei a Palestina em 1994, integrado num grupo de cerca de cem pessoas que ocuparam, durante a permanência de uma semana, dois autocarros de turismo, cada um com o seu guia. Eram tempos de alguma descompressão, com os recém celebrados acordos de Oslo e Yitzhak Rabin no poder, se bem que a visita tenha coincidido com uma semana algo tensa, pois estava a ser negociado, creio que nos Estados Unidos sob os auspícios de Bill Clinton, o Tratado de Paz entre Israel e a Jordânia, que viria a ser assinado em Outubro desse ano.
No autocarro em que viajei calhou-nos uma guia nascida em Buenos Aires, casada com o guia do outro autocarro, ele nascido no Rio de Janeiro, ambos emigrados para Israel na adolescência. Senhores duma sólida formação histórica (na altura, os guias israelitas eram sujeitos a exames anuais para renovarem a sua licença), eram extremamente liberais e nada preocupados com os preceitos religiosos do judaísmo (confessaram gostar muito de presunto e salpicão, a que apenas tinham acesso quando visitavam Portugal ou Espanha ao serviço da agência).
Estranhei, por isso, a resposta que obtive quando abordei o problema do direito dos palestinos à terra. “Não têm”, disse-me a guia. “Esta terra pertence-nos há milhares de anos, enquanto eles (os palestinos) só cá estão desde o fim do século passado”. Ainda tentei argumentar, nas era como bater contra uma parede. Era o regresso do Egipto, o exílio de séculos provocado pelos romanos, o rol de perseguições e o regresso à “Terra Prometida”.
Fiquei a pensar como era possível que pessoas deveras inteligentes tivessem uma postura tão radical relativamente à questão do direito à terra. Até que deparei, recentemente, com um artigo do historiador e jornalista israelita Tom Segev, intitulado Uma invenção chamada “o povo judeu”, cuja versão original se encontra disponível aqui. Existe, também, a respectiva tradução em castelhano.
A doutrinação tem um enorme poder!
terça-feira, maio 13, 2008
Viver é perigoso
Viver é muito, muito perigoso, repetia o jagunço Riobaldo Tatarana, personagem inesquecível de Guimarães Rosa.
Para muitos, porém, a afirmação ultrapassa os limites literários e metafísicos. O próprio viver cotidiano, para os mais assustados, é cancerígeno, a acreditar no que lemos em jornais, revistas, sites, blogs, e também no que "aprendemos" em conversas sem melhor assunto.
Já li e ouvi de tudo a esse respeito.
Que o incenso é altamente cancerígeno, para desespero dos místicos de diferentes crenças.
Que o telefone celular é cancerígeno, para desespero de 45% da população mundial, o ouvido atento grudado nele.
Que o adoçante artificial é cancerígeno, para desespero de todos os que fazem a eterna dieta.
Vale a pena ler na íntegra este saboroso texto de Gabriel Perissé, escritor brasileiro, publicado no Correio da Cidadania.
segunda-feira, maio 12, 2008
Letra para um hino
É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.
É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
Manuel Alegre
domingo, maio 11, 2008
Sobre o poeta
o poeta sofre:
de falta de palavras
de falta de certezas
de falta de amores
que o tempo lhe rouba
enquanto busca a caneta: o papel
e os rascunhos pendurados
em si mesmo:
mas se a busca cessa
corre o risco de morrer
paralisado:
de falta de amores
de falta de certezas
de falta de palavras:
o poeta sofre
Ana Peluso*
*poetisa paulista
sábado, maio 10, 2008
Reféns
Nestes últimos dias tenho-me sentido muito em Baixo. Muito mais do que é habitual...
Falei com membros da família.
Radhee disse-me: “Eles [os Xiítas] estão a lutar uns contras os outros; porque é que estão a bombardear o nosso bairro outra vez?” Ele vive em Adhamiya. E acrescentou: “Nós somos novamente prisioneiros. Não apenas dentro deste gueto, mas dentro das nossas casas. Todos os dias há explosões. Porque é que precisam de atacar-nos? Bagdade está a arder outra vez...Isto nunca vai acabar...”
A tia Samira disse: “Layla, peço-te, di-lo ao mundo”. Não percebo porque é que me disse isso, ela não sabe nada acerca do meu blogue. E continuou: “Diz-lhes que não mais podemos suportar isto, não podemos. Que alguém tenha Piedade de nós”. E a ligação caiu.
Reféns da violência, da avidez, da brutalidade, de duplas ocupações. Reféns da pobreza, da doença, do desemprego, das fronteiras fechadas e do exílio...Reféns do sectarismo, do chauvinismo, da corrupção...Reféns de desfalcadores, de grupos criminosos, de ladrões, de assassinos, de sádicos, de violadores, de pervertidos e matadores...
Todos são culpados.
Mais um testemunho da poetisa e sobrevivente iraquiana Layla Anwar, para ler no seu blogue An Arab Woman Blues - Reflections in a sealed bottle....
sexta-feira, maio 09, 2008
No País dos Sacanas*
Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade da próstata ou das glandulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.
Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?
Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.
Jorge de Sena
*a propósito da "ratificação" definitiva de um tal tratado de lisboa (minúsculas intencionais)
quinta-feira, maio 08, 2008
Referências e preferências
O jornal da noite da RTP dedicou ontem longo espaço à demissão do Director da Polícia Judiciária.
Conhecendo Alípio Ribeiro apenas pelas barbaridades que foi deitando pela boca fora durante o pouco tempo em que permaneceu no cargo, não estranho que se tenha demitido, mas sim que se tenha aguentado até agora.
Já me espanto quando oiço o locutor da televisão pública a dizer que os principais jornais ingleses tinham dado destaque à notícia e fiquei de cara à banda quando ele identificou os tais jornais: News of The World, The Sun, Daily Mirror, .... Então, para o director de informação da RTP, os principais jornais ingleses são o lixo dos lixos? Gostava de saber o que é que José Alberto Carvalho chama a jornais verdadeiramente dignos desse nome, como o The Guardian, o Times ou o Independent. É caso para dizer que cada um tem as referências que merece, mas na vida privada. No serviço público, as referências não podem ser o lixo mediático.
Das referências às preferências foi um pequeno passo, com representantes dos magistrados a criticarem a escolha de um operacional da casa, em detrimento de um juiz, alegando a falta de independência do operacional, como se não houvesse mecanismos constitucionais para garantir tal independência.
Tendo nós assistido ao despudor (pelo menos para a grande maioria dos leigos como eu) com que vários elementos da magistratura têm feito da justiça gato sapato, numa irresponsabilidade total e sem nenhum controlo por parte dos órgãos (in)competentes, há corporações que nos querem comer por parvos ou não têm mesmo vergonha na cara. Provavelmente, nem cara têm para ter vergonha.
quarta-feira, maio 07, 2008
Conselhos sábios
Um homem que segue as suas inclinações ao escolher o curso da sua vida pode empregar meios muito mais seguros para atingir o sucesso do que um outro, que é levado pelas sua inclinação a seguir o mesmo caminho e persegue o mesmo objectivo. As riqueza são o principal objecto dos vossos desejos? Adquiri competência na vossa profissão; sede diligentes no exercício dessa profissão; ampliai o círculo dos vossos amigos e conhecidos; evitai os prazeres e as despesas; e nunca sejais generosos a não ser tendo em vista ganhar mais do que poderíeis economizar através da frugalidade. Desejais conquistar a admiração do público? Guardai-vos igualmente dos extremos da arrogância e do servilismo. Fazei notar que atribuís valor a vós mesmos, mas sem mostrar desprezo pelos outros. Se cairdes em algum dos extremos, ou ireis provocar o orgulho dos outros com a vossa insolência, ou ensiná-los a desprezar-vos por causa da vossa timorata submissão e por causa da baixa opinião que aparentais ter de vós mesmos.
David Hume, Ensaios Morais, Políticos e Literários, O Céptico
David Hume nasceu há 297 anos, mas as suas ideias continuam a ter enorme influência na actualidade. Como de pode ver pela passagem citada, há candidatos a ricos e candidatos a políticos a quem faria muito bem ler os seus Ensaios Morais, Políticos e Literários. Qualquer nível de inglês técnico, mesmo o elementar, é suficiente, tal a clareza da sua escrita.
terça-feira, maio 06, 2008
A noite de Pavese
Raras vezes me franquearam a porta
e me deixaram entrar. A febre
sitia-me a alma e quem me vê
assusta-se do aspecto do meu rosto,
esta barba por fazer onde um rouxinol
se esconde. E mais ainda assusta
a minha altura, este lugar de vertigem
e palavras poderosas, a presença
de ilimitados segredos que ninguém quer conhecer,
o estremecimento que corre nos meus ombros.
Embora nada peça, sabem que sou um pedinte.
E quando entro nas casas os meus gestos
afeiçoam-se a alguma coisa enigmática
que contorna o pavor e o entrega
por não se saber que espécie de vida ou de morte
vem comigo. Obviamente, eu abençoo
quem me deixa entrar, dou a entender
que alguma coisa brilha nas minhas mãos
e posso matar a fome com uma ou outra palavra
próxima do amor, um dedo nos cabelos
de quem me recebe. Subi as escadas que vão dar a esta casa
em silêncio e em silêncio aceitei que me aguardassem
com as inefáveis sombras que vejo nos outros
e tento decifrar para meu contentamento.
Mandaram-me sentar e deram-me de beber.
Esse álcool reconfortou-me a alma.
E a minha gratidão expressa-se deste modo, limpo
e nítido, observando a mulher nesse sem fim
das coisas, onde todos os mistérios avançam
para uma explicação que a qualquer momento
pode irromper do espírito como uma explosão.
Olho-te nos olhos e recebo as duas moedas
que me ofereces, o teu rosto é-me familiar
se recuar à infância e subitamente perceber
que também pertenci ao exercício desta árvore
que nesta sala se levanta. Em frente,
na fotografia que o meu olhar alcança
porque me alcança o olhar que dela se desprende,
inscreve-se o enigma que me fez aqui chegar,
mais que um rumor ou um fio ténue
com o nome de todas as coisas inesperadas
que me aconteceram na vida, sempre
que me franquearam a porta e me deixaram entrar.
Agora, com a memória de ter estado em tua casa
e ter recebido a graça de alguma atenção,
eu, que sou pedinte embora nada peça,
entrego-te este sulco da desordem
sobre a página em branco e agradeço-te
com o conhecimento de um outro mundo
ainda mais inexplicável.
Não tendo havido despedida, sabe que permaneço
e na encruzilhada das dores que me couberam viver
não esquecerei o teu nome no dia em que também tiver partido
e mais nenhuma luz houver além daquela
que ilumina o teu rosto na solidão da noite.
Os anjos esperam-me. Não me é possível demorar.
Que me seja a alba a tua tolerância.
Amadeu Baptista*
*poeta portuense que hoje completa 55 anos
segunda-feira, maio 05, 2008
A Arte da Recordação
A memória é não-mediada, e o que vem em seu auxílio vem directamente; a recordação é sempre reflectida. É por isso que recordar é uma arte. Como Temístocles, em vez de lembrar, desejo poder esquecer; porém, recordar e esquecer não são opostos. Não é fácil a arte de recordar, porque a recordação, no momento em que é preparada, pode modificar-se, enquanto a memória se limita a flutuar entre a lembrança certa e a lembrança errada. Por exemplo, o que é a saudade? É vir à recordação algo que está na memória. A saudade gera-se simplesmente pelo facto de se estar ausente. Arte seria conseguir sentir-se saudade sem se estar ausente. Para tanto é preciso estar-se treinado em matéria de ilusão. Viver numa ilusão, em que o crepúsculo é contínuo e nunca se faz dia, ou alguém ver-se reflectido numa ilusão, não é tão difícil como alguém reflectir-se para dentro de uma ilusão e ser capaz de deixá-la agir sobre si, com todo o poder que é o da ilusão, apesar de se ter pleno conhecimento disso. A magia de trazer até si o passado não é tão difícil como a de fazer desaparecer o que está presente em benefício da recordação. É aqui que reside no fundo a arte da recordação e a reflexão elevada à segunda potência.
Soren Kierkegaard, in 'In Vino Veritas'
Texto retirado do Citador
Os poemas
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Mário Quintana* - Esconderijos do tempo - Porto Alegre: L&PM, 1980.
*no 14º aniversário do falecimento
domingo, maio 04, 2008
Quando eu nasci
Quando eu nasci
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais ...
Somente,
esquecida das dores
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém ...
Para que o dia fosse enorme
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos da minha Mãe ...
Sebastião da Gama
sábado, maio 03, 2008
O embaixador
Amanhã, dia 4, haverá um referendo racista e ilegal na Bolívia, destinado a declarar a autonomia da região de Santa Cruz e anexos, referendo esse desenhado pelos oposicionistas ao presidente eleito, Evo Morales, com o apoio descarado do embaixador dos Estados Unidos, Philip Goldberg, e dos respectivos dólares de “ajuda humanitária”. Parece que os senhores da riqueza que, há vários séculos, vem sendo roubada aos nativos, não querem ser governados “por um índio ignorante”.
É uma situação potencialmente explosiva e susceptível de afogar num banho de sangue parte da Bolívia e dos países vizinhos, mas não há grandes surpresas, dado que o Sr. Goldberg foi, desde o brutal bombardeamento da Sérvia, em 1999, o homem de mão dos Estados Unidos no Kosovo, onde mexeu os necessários cordelinhos para que aquela província sérvia referendasse e declarasse unilateralmente a sua independência.
Com o Sr. Jardim a lutar pelo lugar de primeiro ministro cá do burgo, após a Bolívia deverá ser a vez de Portugal acolher o Sr. Goldberg. Depois, é só os “jardinistas” decidirem um referendo unilateral na Madeira, com vista à independência da Ilha, que terá o Sr. Jardim como imperador vitalício, com domínio férreo sobre Porto Santo, Selvagens e Desertas.
Mas o futuro presidente dos Estados Unidos terá de ser célere a nomear o novo embaixador porque, mesmo na hipótese burlesca de o Sr. Jardim vir a ser o “primeiro” do rectângulo, terá muito pouco tempo para organizar o tal referendo antes da sua fatal queda.
Consta que os serviços de informação da república já detectaram algum mal estar entre a fauna autóctone das Selvagens e das Desertas, que afirma em coro ser laica, republicana e socialista e ter os mesmo direitos das Berlengas, dos Farilhões e das Ilhas do Pessegueiro e da Armona.
sexta-feira, maio 02, 2008
Pesar dos pesares
Acabei de ouvir que a assembleia da república (minúsculas propositadas) aprovou hoje um voto de pesar pela morte de um dos maiores assassinos que Portugal conheceu no pós 25 de Abril, cónego Melo de seu nome. Eu, que até concordaria com um voto de pesar pela longevidade do facínora, tive de esfregar os olhos para confirmar que era mesmo um voto de pesar pela morte do bombista, que viveu mais de oitenta anos, quando a morte madrasta levou, na flor da vida, expoentes da liberdade como o Adriano ou o Zé Carlos, e não permitiu que outros, como o Zeca ou o Paredes, continuassem a iluminar-nos com a sua arte até tão provecta idade. E, como Pilatos, o partido socialista lavou as mãos, abstendo-se. Voto aprovado e, como escreveu Sophia,
Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.
Post Scriptum: rebentou a canalização cá em casa e estou a escrever no meio de um amontoado de cinco mil livros, outros tantos CD's e mais de mil DVD's, alcatifas encharcadas e um montão de coisa terminadas em "idas". Azar dos azares, poh!
quinta-feira, maio 01, 2008
O Nosso Mundo é Este ...
O nosso mundo é este
Vil suado
Dos dedos dos homens
Sujos de morte.
Um mundo forrado
De pele de mãos
Com pedras roídas
das nossas sombras.
Um mundo lodoso
Do suor dos outros
E sangue nos ecos
Colado aos passos…
Um mundo tocado
Dos nossos olhos
A chorarem musgo
De lágrimas podres…
Um mundo de cárceres
Com grades de súplica
E o vento a soprar
Nos muros de gritos.
Um mundo de látegos
E vielas negras
Com braços de fome
A saírem das pedras…
O nosso mundo é este
Suado de morte
E não o das árvores
Floridas de música
A ignorarem
Que vão morrer.
E se soubessem, dariam flor?
Pois os homens sabem
E cantam e cantam
Com morte e suor.
O nosso mundo é este….
( Mas há-de ser outro.)
José Gomes Ferreira
quarta-feira, abril 30, 2008
O Dólar Lama

Nunca tive muita simpatia pelos políticos chineses. Apesar de, como grande parte da juventude da minha geração, ter comprado e lido o famoso “livro vermelho” do Mao, nunca senti qualquer atracção pelo maoísmo nem pelos maoístas e pelas suas “revoluções a todo o vapor”, considero que a chamada “revolução cultural” – que de revolução só teve o nome – constituiu um período negro da história da China, com as suas dezenas de milhares de mortos e uma espécie de genocídio cultural e, para mim, a política chinesa actual reúne o pior de dois sistemas: um socialismo completamente abastardado na sua essência e o capitalismo mais selvagem.
Deixei, há muito, de ter qualquer tipo de reverência pelo Dalai Lama, pela sua obra escrita e pelo que ele representa. Não compreendo como é que se pode atribuir qualquer credibilidade a alguém que, enquanto exerceu o poder político, tratava mais de 90% do seu povo como uma mera mercadoria livremente transaccionável pelos detentores da riqueza. Também não percebo como se pôde atribuir o Nobel da Paz a um urubu com penas de pavão, mas como o mesmo prémio foi atribuído a um facínora como Henry Kissinger já tenho de considerar tudo normal, até um “porco a andar de bicicleta” ou um elefante a “saltitar levemente de nenúfar em nenúfar”.
Faz parte do conhecimento comum que, no Tibete, os “monges” têm travado, ao longo do tempo, ferozes batalhas pelo poder, atitude que não tem paralelo noutros países de similar cultura no sudeste asiático. Considerar como “lutadores pela liberdade” um bando de assassinos que pilhou e queimou centenas de estabelecimentos apenas porque pertenciam a pacatos cidadãos chineses, dos quais várias dezenas foram barbaramente chacinados pelo "hediondo crime" de serem chineses, equivale a considerar como “lutador pela liberdade” um Pinochet ou um Videla. Cada qual fica com os heróis que merece.
Não sei se o Tibete tem razões históricas para reclamar a sua independência ou não. Mas, mesmo aceitando que as tenha, apoiar o regresso ao poder teocrático do Dalai Lama seria o mesmo que pugnar pelo regresso da Europa ao tempo dos Estados Pontifícios, com as leis cívicas de cada país a serem substituídas pelo Direito Canónico e os Tribunais pela Inquisição.
Por tudo isso e mais algumas coisas, tenho evitado referir-me à questão do Tibete. Mas, no meio do alarido ao redor da tocha olímpica, acho que anda muita gente a querer fazer lavagens ao cérebro, em exercícios descarados de hipocrisia e de uma ainda mais descarada manipulação. Aqui está um exemplo claro do que tem sido o comportamento da maioria dos órgãos de comunicação ocidentais, mas há dezenas de outros, se nos dermos ao trabalho de procurar.
Como refere Simon Barnes na sua coluna do Times do passado dia 11, “talvez os ocidentais pensem que há qualquer coisa de errado com as pessoas chinesas em si mesmas”. Se for assim, acho mesmo que “perdemos o fio à meada”.

Nunca tive muita simpatia pelos políticos chineses. Apesar de, como grande parte da juventude da minha geração, ter comprado e lido o famoso “livro vermelho” do Mao, nunca senti qualquer atracção pelo maoísmo nem pelos maoístas e pelas suas “revoluções a todo o vapor”, considero que a chamada “revolução cultural” – que de revolução só teve o nome – constituiu um período negro da história da China, com as suas dezenas de milhares de mortos e uma espécie de genocídio cultural e, para mim, a política chinesa actual reúne o pior de dois sistemas: um socialismo completamente abastardado na sua essência e o capitalismo mais selvagem.
Deixei, há muito, de ter qualquer tipo de reverência pelo Dalai Lama, pela sua obra escrita e pelo que ele representa. Não compreendo como é que se pode atribuir qualquer credibilidade a alguém que, enquanto exerceu o poder político, tratava mais de 90% do seu povo como uma mera mercadoria livremente transaccionável pelos detentores da riqueza. Também não percebo como se pôde atribuir o Nobel da Paz a um urubu com penas de pavão, mas como o mesmo prémio foi atribuído a um facínora como Henry Kissinger já tenho de considerar tudo normal, até um “porco a andar de bicicleta” ou um elefante a “saltitar levemente de nenúfar em nenúfar”.
Faz parte do conhecimento comum que, no Tibete, os “monges” têm travado, ao longo do tempo, ferozes batalhas pelo poder, atitude que não tem paralelo noutros países de similar cultura no sudeste asiático. Considerar como “lutadores pela liberdade” um bando de assassinos que pilhou e queimou centenas de estabelecimentos apenas porque pertenciam a pacatos cidadãos chineses, dos quais várias dezenas foram barbaramente chacinados pelo "hediondo crime" de serem chineses, equivale a considerar como “lutador pela liberdade” um Pinochet ou um Videla. Cada qual fica com os heróis que merece.
Não sei se o Tibete tem razões históricas para reclamar a sua independência ou não. Mas, mesmo aceitando que as tenha, apoiar o regresso ao poder teocrático do Dalai Lama seria o mesmo que pugnar pelo regresso da Europa ao tempo dos Estados Pontifícios, com as leis cívicas de cada país a serem substituídas pelo Direito Canónico e os Tribunais pela Inquisição.
Por tudo isso e mais algumas coisas, tenho evitado referir-me à questão do Tibete. Mas, no meio do alarido ao redor da tocha olímpica, acho que anda muita gente a querer fazer lavagens ao cérebro, em exercícios descarados de hipocrisia e de uma ainda mais descarada manipulação. Aqui está um exemplo claro do que tem sido o comportamento da maioria dos órgãos de comunicação ocidentais, mas há dezenas de outros, se nos dermos ao trabalho de procurar.
Como refere Simon Barnes na sua coluna do Times do passado dia 11, “talvez os ocidentais pensem que há qualquer coisa de errado com as pessoas chinesas em si mesmas”. Se for assim, acho mesmo que “perdemos o fio à meada”.
terça-feira, abril 29, 2008
A opção militar

Guerra com a Síria? Paz com a Síria?
Uma grande operação militar contra o Hamas e a Faixa de Gaza? Um cessar fogo com o Hamas?
Os nossos meios de comunicação discutem estas questões de uma forma desapaixonada, como se fossem opções equivalentes. Como uma pessoa num salão de exposições a escolher entre dois carros. Este é bom e este também é bom. Então, qual se deve comprar?
E ninguém grita: a guerra é o cúmulo da estupidez!
A análise é do jornalista e activista israelita Uri Avnery e pode ser lida no original em inglês ou, para quem preferir, numa tradução para castelhano.

Guerra com a Síria? Paz com a Síria?
Uma grande operação militar contra o Hamas e a Faixa de Gaza? Um cessar fogo com o Hamas?
Os nossos meios de comunicação discutem estas questões de uma forma desapaixonada, como se fossem opções equivalentes. Como uma pessoa num salão de exposições a escolher entre dois carros. Este é bom e este também é bom. Então, qual se deve comprar?
E ninguém grita: a guerra é o cúmulo da estupidez!
A análise é do jornalista e activista israelita Uri Avnery e pode ser lida no original em inglês ou, para quem preferir, numa tradução para castelhano.
segunda-feira, abril 28, 2008
Prevenção e Segurança no Trabalho


Hoje é o Dia Mundial da Segurança e da Saúde no Trabalho, criado por Resolução da OIT (Organização Internacional do Trabalho) de 1996; este ano, entre nós, é celebrado como o Dia Nacional de Prevenção e Segurança no Trabalho.
Apesar das medidas que têm sido tomadas em muitos países do mundo, os acidentes de trabalho e os novos casos de doenças profissionais não param de aumentar, estimando-se que ocorram anualmente, em todo o mundo, 270 milhões de acidentes de trabalho (não mortais) e 160 milhões de novos casos de doenças profissionais.
É imperioso que todos - entidades empregadoras e trabalhadores - tomem consciência da dimensão do problema e assumam uma atitude e um comportamento adequados de PREVENÇÃO e SEGURANÇA, com vista à minimização permanente dos riscos nos locais de trabalho.
O uso de capacetes protectores em várias actividades de risco, desde as minas à construção civil, de meios de segurança por parte de quem tem de subir a andaimes, telhados ou terraços, de óculos adequados para quem trabalha em ambientes propícios a danos oculares (soldadores, rebarbadores, etc.), de máscaras por parte de quem trabalha com produtos que emanam gases, fumos ou poeiras prejudiciais à saúde (pintores de automóveis ou outros, cortadores de relva, varredores de chãos, recolectores de lixo e outros), de ventilação eficaz, de protectores para os ouvidos em situações de ruído assinalável, de luvas e calçado próprio, são tudo medidas que podem fazer diminuir a “factura” dos Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais.
Todos nós, mesmo aqueles que trabalham em profissões de menor risco, podemos contribuir com o nosso esforço para um mundo mais são, adoptando posturas corporais correctas, eliminando ruídos desnecessários, mantendo limpos os locais de trabalho e os espaços públicos que utilizamos (não esquecendo que os donos de animais domésticos são obrigados por lei a apanhar os excrementos dos seus bichinhos, o que a grande maioria não faz).
Devemos, também, ter sempre presente que o Seguro de Acidentes de Trabalho é obrigatório e que, embora não restitua um membro amputado ou dilacerado, pagas as despesas dos tratamentos, proporciona a reabilitação até onde ela for possível e garante pensões de reforma. Se todos, ao adjudicarmos uma obra no nosso condomínio ou na nossa residência, exigirmos a exibição de uma apólice válida, já estaremos a dar um grande passo em frente.


Hoje é o Dia Mundial da Segurança e da Saúde no Trabalho, criado por Resolução da OIT (Organização Internacional do Trabalho) de 1996; este ano, entre nós, é celebrado como o Dia Nacional de Prevenção e Segurança no Trabalho.
Apesar das medidas que têm sido tomadas em muitos países do mundo, os acidentes de trabalho e os novos casos de doenças profissionais não param de aumentar, estimando-se que ocorram anualmente, em todo o mundo, 270 milhões de acidentes de trabalho (não mortais) e 160 milhões de novos casos de doenças profissionais.
É imperioso que todos - entidades empregadoras e trabalhadores - tomem consciência da dimensão do problema e assumam uma atitude e um comportamento adequados de PREVENÇÃO e SEGURANÇA, com vista à minimização permanente dos riscos nos locais de trabalho.
O uso de capacetes protectores em várias actividades de risco, desde as minas à construção civil, de meios de segurança por parte de quem tem de subir a andaimes, telhados ou terraços, de óculos adequados para quem trabalha em ambientes propícios a danos oculares (soldadores, rebarbadores, etc.), de máscaras por parte de quem trabalha com produtos que emanam gases, fumos ou poeiras prejudiciais à saúde (pintores de automóveis ou outros, cortadores de relva, varredores de chãos, recolectores de lixo e outros), de ventilação eficaz, de protectores para os ouvidos em situações de ruído assinalável, de luvas e calçado próprio, são tudo medidas que podem fazer diminuir a “factura” dos Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais.
Todos nós, mesmo aqueles que trabalham em profissões de menor risco, podemos contribuir com o nosso esforço para um mundo mais são, adoptando posturas corporais correctas, eliminando ruídos desnecessários, mantendo limpos os locais de trabalho e os espaços públicos que utilizamos (não esquecendo que os donos de animais domésticos são obrigados por lei a apanhar os excrementos dos seus bichinhos, o que a grande maioria não faz).
Devemos, também, ter sempre presente que o Seguro de Acidentes de Trabalho é obrigatório e que, embora não restitua um membro amputado ou dilacerado, pagas as despesas dos tratamentos, proporciona a reabilitação até onde ela for possível e garante pensões de reforma. Se todos, ao adjudicarmos uma obra no nosso condomínio ou na nossa residência, exigirmos a exibição de uma apólice válida, já estaremos a dar um grande passo em frente.
domingo, abril 27, 2008
Pequena fábula imoral
Era uma vez nos Estados Unidos, país da abundância, onde bondosos filantropos acorreram em auxílio dos pobres (não demasiado, mas bastante pobres, ainda assim), para lhes oferecer ajuda para comprarem uma casa. Esses benfeitores emprestavam dinheiro, quase sem contrapartidas, àqueles que o não tinham. Os pobres apenas teriam que reembolsá-lo em suaves prestações, da forma e no momento em que pudessem, ao mesmo tempo que desfrutavam, de imediato, da sua nova casa e do seu jardinzinho, recompensa inesperada após uma longa via de trabalho.
Mas tudo era demasiado bonito para ser verdade! E o generoso doador não era mais do que um gatuno.
Esta fábula moderna, da autoria do jornalista francês Denis Sieffert, pode ser lida na íntegra, aqui.
sábado, abril 26, 2008
Pergunta
Será realmente a face do universo
a face da Medusa,
esta geral destruição confusa,
este criar perverso,
ou será a máscara, álgida e estrelada,
onde os cometas passam,
turva de treva, rútila de nada,
e onde olhos se espedaçam?
Alexei Bueno
Feliz 45º aniversário, Alexei!
sexta-feira, abril 25, 2008
O Futuro
Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente
Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.
O que é preciso é termos confiança
se fizermos de maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.
José Carlos Ary dos Santos
quinta-feira, abril 24, 2008
Não (me) importo
Não me importo de aceitar o desafio
Não me importo de não saber que fazer
Não me importo se me sai ao arrepio
Não me importo se me fizer entender
Não me importo pois tenho amigos de Abril
Não me importo dos cadáveres adiados
Não me importo somos não sei quantos mil
Não me importo de ter milhões de aliados
Não me importo de passar a amigos meus
Sejam crentes ou agnósticos ou ateus…
Jardim de Luz
CANTIGUEIRO
Coisa de Vidas
O VENTO CONTRA A CARA
ATREVER(ME)OUTRA VEZ
Corpos sob Ocupação
Carne, carnal, corpos… Corpos humanos. Corpos masculinos, corpos femininos… corpos ocupados, carne ocupada, conhecimento carnal da Ocupação.
O Corpo, a Conduta, o Veículo…
Bombardeia, arresta, detém, encarcera, acorrenta: constringe o espaço. Depois, dirige o teu ataque pessoal contra o “outro”, essa “besta vivente” - espanca, açoita, golpeia, fustiga, fere, queima, rasga, esmaga, sodomiza, viola, mija-lhe, defeca em cima dele, dispara, mata: o Corpo.
O corpo. O ponto Central. Carne da carne. Escava no pus da Carne…
Testemunho lancinante da poetisa e sobrevivente iraquiana Layla Anwar, para ler no seu blogue An Arab Woman Blues - Reflections in a sealed bottle.... Este e todos os outros.
quarta-feira, abril 23, 2008
Requiem por um povo desprezado
Por uma daquelas coincidências em que a história não é fértil, William Shakespeare nasceu e faleceu no mesmo dia do mesmo mês.
Com efeito, quando nasceu em 23 de Abril de 1564, vigorava em todo o mundo ocidental o calendário juliano; como o calendário gregoriano foi promulgado pelo Papa Gregório XIII em 1582, apenas alguns países católicos o adoptaram de imediato, enquanto a Grã-Bretanha e outros países protestantes começaram a utilizá-lo só no século XVIII. A Grã-Bretanha adoptou-o em 1752, pelo que o grande escritor faleceu em 23 de Abril de 1616, segundo o calendário então em vigor no seu país.
Também por uma coincidência, mas desta vez uma daquelas em que os nossos políticos são useiros e vezeiros, o dia 23 de Abril de 2008 ficará na história cá do burgo como o dia do desprezo pela capacidade intelectual de todo um povo, inapto para entender os meandros de uma Constituição morta e ressuscitada com outro nome. E não venham dizer-me que a nossa Constituição também não foi referendada (e não podia sê-lo, pois é ela que consagra o estatuto do referendo), pois quem podia e quis votar em 1975 (e foram muitos mais do que actualmente é hábito), fizeram-no exclusivamente para escolher quem iria elaborar e aprovar a Constituição.
Ser ou não ser respeitado, ser ou não ser ouvido, ser ou não ser um povo livre, ser ou não ser..., eis a questão:
Ser ou não ser, eis a questão.
Será mais nobre em espírito viver
Sofrendo os golpes e as frechadas da afrontosa sorte
Ou armas tomar contra um mar de penas.
Dar-lhes um fim: morrer, dormir...
Só isso e, por tal sono, dizer que acabaram
Penas do coração e os milhões de choques naturais
Herdados com a carne? Será final
A desejar ardentemente... Morrer, dormir;
Dormir, sonhar talvez... Mas há um contra,
Pois nesse mortal sonho outros podem vir,
Libertos já do mortal abraço da vida...
Deve ser um intervalo... É o respeito
Que de tal longa vida faz calamidade
Pois quem pode suportar do tempo azorrague e chufas,
Os erros do tirano, ultrajes do orgulho,
As angústias de amor desprezado, a lei tardia,
A insolência das repartições e o coice destinado
Pelos inúteis aos meritórios pacientes?
Para quê se pode aquietar-se, acomodar-se,
Com um simples punhal? Quem suportará,
Suando e resmungando, vida de fadigas
Senão quem teme o horror de qualquer coisa após a morte,
País desconhecido, a descobrir, cujas fronteiras
Não há quem volte a atravessar e nos intriga
E nos faz continuar a suportar os nossos males
Em vez de fugir para outros que desconhecemos?...
Assim a todos nos faz covardes nossa consciência,
Assim o grito natural do ânimo mais resoluto
Se afoga na pálida sombra do pensar
E as empresas de mor peso e alto fim,
Tal vendo mudam o seu rumo errando
E nada conseguindo! Sossega agora...
Ofélia gentil! Ninfa, em tuas orações
Sejam sempre lembrados meus pecados.
(Hamlet - tradução de José Blanc de Portugal, Editorial Presença, 3ª. ed., 1997)*
*Pedido “emprestado” aqui
terça-feira, abril 22, 2008
A arma decisiva da elite dominante


“…Só há duas formas possíveis de evitarmos ter um mundo de 10 mil milhões de pessoas. Ou a actual taxa de natalidade desce rapidamente, ou a actual taxa de mortalidade tem de subir. Não há outra forma. Há, claro, muitas maneiras de subir as taxas de mortalidade. Numa era termonuclear, a guerra pode consegui-lo de forma rápida e decisiva. A fome e as doenças são a tradicional forma da natureza regular o crescimento populacional, e nenhuma delas desapareceu de cena… Em termos simples: o crescimento excessivo da população é o maior obstáculo ao avanço económico e social das sociedades em vias de desenvolvimento.” - Discurso de Robert McNamara, perante o Clube de Roma, 2 de Outubro de 1979
“A sobrepopulação e o rápido crescimento demográfico do México são, hoje em dia, uma das maiores ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos. A não ser que a fronteira EUA-México seja selada, ficaremos com mexicanos até ao pescoço para os quais não arranjamos empregos.” - Robert McNamara, na época, presidente do Banco Mundial, 19 de Março de 1982
As propostas genocidas veladas de McNamara foram feitas há trinta anos, dando eco ao medo das ‘grandes massas’ por parte de ricos e privilegiados quando ‘sobrepopulação’ era o tema de que se falava. Por isso não mudou muita coisa, pois não? Estamos mais uma vez a ouvir as mesmas mensagens serem difundidas pelas elites dominantes e pelos seus profissionais da persuasão, os 'spin doctors'. Os prantos de medo de McNamara de estar cheio de mexicanos até ao pescoço são comparáveis ao que se passa na Europa, só que agora são africanos.
A análise de William Bowles, que pode ser lida no original ou em tradução portuguesa de Alexandre Leite para a Tlaxcala.
“A sobrepopulação e o rápido crescimento demográfico do México são, hoje em dia, uma das maiores ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos. A não ser que a fronteira EUA-México seja selada, ficaremos com mexicanos até ao pescoço para os quais não arranjamos empregos.” - Robert McNamara, na época, presidente do Banco Mundial, 19 de Março de 1982
As propostas genocidas veladas de McNamara foram feitas há trinta anos, dando eco ao medo das ‘grandes massas’ por parte de ricos e privilegiados quando ‘sobrepopulação’ era o tema de que se falava. Por isso não mudou muita coisa, pois não? Estamos mais uma vez a ouvir as mesmas mensagens serem difundidas pelas elites dominantes e pelos seus profissionais da persuasão, os 'spin doctors'. Os prantos de medo de McNamara de estar cheio de mexicanos até ao pescoço são comparáveis ao que se passa na Europa, só que agora são africanos.
A análise de William Bowles, que pode ser lida no original ou em tradução portuguesa de Alexandre Leite para a Tlaxcala.
segunda-feira, abril 21, 2008
Serviços não confiáveis – reclamação
Hartford, 12 de Fevereiro de 1891.
Caros senhores,
Haverá dia em que os senhores me farão atingir as raias da irritação graças à maldita e cabeçuda forma de interromper o fornecimento do seu maldito gás sem qualquer aviso aos malditos usuários. Por um triz, a metade dos moradores desta casa não se asfixiou várias vezes na cama e a outra metade não explodiu devido a esse idiota (para não dizer criminoso) hábito dos senhores.
Hoje, isso ocorreu mais uma vez. Os senhores não têm um telefone?
Seu,
S. L. Clemens (Mark Twain)
Alcoólicas
É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.
(Alcoólicas - I)
Hilda Hilst*
*Poetisa brasileira
domingo, abril 20, 2008
Quem é o relativista moral?
ou
A cruz e a espada

Eu sou guiado por Deus para uma missão. Deus dir-me-ia : “George, vai e combate aqueles terroristas no Afeganistão”. E eu fui. E depois Deus dir-me-ia: “George, vai e acaba com a tirania no Iraque”. E eu fui.
Bush em Sharm el-Sheikh, Agosto de 2003
Eu acredito que Deus fala através de mim. Sem isso, eu não poderia fazer o meu trabalho.
Bush na visita à comunidade Amish de Lancarter Coury, Pensilvânia, 9 de Julho de 2004
Eu penso que é importante que as pessoas entendam que uma cultura de vida é no nosso interesse nacional.
Bush em entrevista televiviva à EWTN, 12 de Abril de 2008
Nós damo-vos as boas vindas com as antigas palavras recomendadas por Santo Agostinho: Pax tecum.
Bush nas boas vindas a Bento XVI, 15 de Abril de 2008
Num mundo onde alguns invocam o nome de Deus para justificar actos de terrorismo, assassínio e ódio, nós precisamos da vossa mensagem de que Deus é amos.
Idem, ibidem
Num mundo em que alguns já não acreditam que podemos distinguir entre certo e errado, nós precisamos da vossa mensagem para rejeitar esta ditadura do relativismo.
Bush na Casa Branca, no 81º aniversário do Papa, 16 de Abril de 2008
A busca da América pela liberdade tem sido guiada pela convicção de que os princípios que governam a vida social e política estão intimamente ligados a uma ordem moral baseada na autoridade de Deus, o Criador.
Bento XVI na Casa Branca, 16 de Abril de 2008
Deve ser por isso que os Founding Fathers estabeleceram a separação entre a religião e o estado.
lino no the sound of silence, 20 de Abril de 2008
ou
A cruz e a espada

Eu sou guiado por Deus para uma missão. Deus dir-me-ia : “George, vai e combate aqueles terroristas no Afeganistão”. E eu fui. E depois Deus dir-me-ia: “George, vai e acaba com a tirania no Iraque”. E eu fui.
Bush em Sharm el-Sheikh, Agosto de 2003
Eu acredito que Deus fala através de mim. Sem isso, eu não poderia fazer o meu trabalho.
Bush na visita à comunidade Amish de Lancarter Coury, Pensilvânia, 9 de Julho de 2004
Eu penso que é importante que as pessoas entendam que uma cultura de vida é no nosso interesse nacional.
Bush em entrevista televiviva à EWTN, 12 de Abril de 2008
Nós damo-vos as boas vindas com as antigas palavras recomendadas por Santo Agostinho: Pax tecum.
Bush nas boas vindas a Bento XVI, 15 de Abril de 2008
Num mundo onde alguns invocam o nome de Deus para justificar actos de terrorismo, assassínio e ódio, nós precisamos da vossa mensagem de que Deus é amos.
Idem, ibidem
Num mundo em que alguns já não acreditam que podemos distinguir entre certo e errado, nós precisamos da vossa mensagem para rejeitar esta ditadura do relativismo.
Bush na Casa Branca, no 81º aniversário do Papa, 16 de Abril de 2008
A busca da América pela liberdade tem sido guiada pela convicção de que os princípios que governam a vida social e política estão intimamente ligados a uma ordem moral baseada na autoridade de Deus, o Criador.
Bento XVI na Casa Branca, 16 de Abril de 2008
Deve ser por isso que os Founding Fathers estabeleceram a separação entre a religião e o estado.
lino no the sound of silence, 20 de Abril de 2008
sábado, abril 19, 2008
O último poema
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Manuel Bandeira
sexta-feira, abril 18, 2008
Ingenuidades...
Pensava eu, na minha ingenuidade quase sexagenária, que as farmacêuticas (pelo menos as grandes) estavam sujeitas a um código deontológico bastante sólido, considerando o risco que os seus produtos representam para a saúde.
Imaginava eu, na minha candura martirizada por décadas de atentados à minha boa fé, que a FDA, apesar das frequentes queixas de falta de meios, exercia um controlo eficaz sobre os produtores de medicamentos da, até ver, maior potência económica mundial.
Estava eu convencido, pois, de que um medicamento produzido por uma multinacional estado-unidense ou, ao menos, sob a sua supervisão técnica, era relativamente seguro, ou pelo menos mais seguro, do que os produzidos por um qualquer laboratório da África do Sul, da China ou da Índia.
Estava, mas é mais prudente deixar de estar.
Primeiro foi a reputação da Lilly que andou pelas ruas da amargura, com a denúncia de que o Prozac, também conhecido como “pílula da felicidade”, não tinha mais efeitos benéficos do que um vulgar placebo.
Agora é a integridade da Merck que é posta em causa. Esta multinacional farmacêutica é produtora de vários medicamentos líderes de vendas, entre os quais o Vioxx, medicamento largamente utilizado para aliviar as dores da artrite devido a ser inofensivo para o estômago do doente, que teve de retirar do mercado em 2004, após o aparecimento de provas que o ligavam a ataques cardíacos. No último Outono, a Merck acordou pagar o montante de quatro mil e oitocentos e cinquenta milhões de dólares para pôr termo a dezenas de milhares de processos intentados por antigos pacientes ou pelas suas famílias.
A edição de anteontem do JAMA (The Journal of the American Medical Association), um jornal médico líder, publicou um estudo, liderado por dois especialistas que foram peritos da acusação em vários processos relacionados com o Vioxx, no qual se revela que a Merck redigiu dezenas de estudos de pesquisa para este medicamento, conseguindo depois obter o reconhecimento e a assinatura de médicos prestigiados antes de os relatórios serem publicados.
O artigo, baseado em documentos vindos a lume durante os processos e aos quais os dois especialistas tiveram livre acesso como peritos, fornece um detalhado panorama da prática de “escrita fantasma” nos artigos de investigação médica que depois são publicados em jornais académicos. A “escrita fantasma” (ghostwriting em inglês), consiste em alguém, sem credenciais científicas adequadas, elaborar o rascunho de um artigo de investigação, o qual depois é subscrito por especialistas que pouco ou nenhum contributo deram para o mesmo. No caso das farmacêuticas, os “redactores fantasma” são empregados das empresas.
Parece que a prática está bastante disseminada no meio farmacêutico, o que, para além de provocar sérios danos à credibilidade da investigação científica como um todo, coloca em causa a vida de centenas de milhões de doentes em todo o mundo, o que é muito mais grave. Embora alguns dos tais médicos prestigiados já tenham vindo dizer que as afirmações são falsas, esperemos que a verdade seja devidamente apurada e, se for caso disso, os responsáveis sejam exemplarmente punidos. A justiça estado-unidense é algo complexa mas, em situações semelhantes, não costuma brincar em serviço. Basta ver os anos de prisão a que foram condenados os responsáveis pela falência da Enron.
Informação mais pormenorizada pode ser lida aqui, onde também se encontra a ligação para o estudo publicado no JAMA.
O Colocador de Pronomes
Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gramática.
Durante sessenta anos de vida terrena pererecou como um peru em cima da gramática.
E morreu, afinal, vítima dum novo erro de gramática.
Mártir da gramática, fique este documento da sua vida como pedra angular para uma futura e bem merecida canonização.
Vale a pena despender alguns minutos para ler na íntegra este saboroso texto de Monteiro Lobato, o criador do Sítio do Picapau Amarelo, entre muitas outras coisa boas.
quinta-feira, abril 17, 2008
Massacre de Eldorado dos Carajás
Foi no dia 17 de Abril de 1996 que a Polícia Militar do Estado do Pará assassinou 19 camponeses do Movimento dos Sem Terra, no município de Eldorado dos Carajás, no sul do Estado do Pará, no Brasil.
A partir de então, o dia 17 de Abril de cada ano converteu-se numa jornada mundial de luta camponesa. A propósito da jornada deste ano, Marina dos Santos, 33 anos, membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil, organização a que se juntou quando tinha apenas 15 anos, ao integrar-se, com o seu pai, num acampamento do MST, deu uma entrevista exclusiva ao jornal digital Adital, que pode ser lida na íntegra aqui.
quarta-feira, abril 16, 2008
O que (não) é o jantar?
Alguns especialistas vinham há muito tempo a chamar a atenção para o problema, mas os poderosos apelidaram-nos de fanáticos, encolheram os ombros e assobiaram para o lado.
O contínuo aumento do preço dos cereais já tinha provocado uma greve em Itália por causa do preço da pasta, motins no México contra o aumento do preço do milho, base da tortilha, o prato tradicional dos mais pobres e protestos em vários países - Guiné, Mauritânia, Marrocos, Senegal, Uzbequistão e Iémen, entre outros - mas a União Europeia e os Estados Unidos continuaram a subsidiar alegremente as culturas destinadas aos biocombustíveis, enquanto em países em desenvolvimento se assistia à destruição da floresta para culturas intensivas de soja, palma oleaginosa ou cana de açúcar, todas destinadas à produção de combustíveis.
Na última semana de Março tinha sido o alarme mundial por causa do aumento exponencial do preço do arroz, com grandes produtores (Vietname, Índia, Egipto, Cambodja) a limitarem ou interromperem as suas exportações com vista a salvaguardarem algumas reservas para os seus cidadãos.
Depois surgiram os motins em vários países, quer por causa dos cereais quer por causa dos óleos alimentares, da Indonésia ao Egipto, passando pelo Haiti, onde se verificaram várias mortes e houve notícia de pessoas que apenas tinham para comer biscoitos feitos de terra e óleo alimentar. A China decretou o congelamento dos preços dos óleos de cozinhar, dos cereais, da carne, do leite e dos ovos, e a presidente das Filipinas deu ordens aos investigadores governamentais para localizarem os açambarcadores, a fim de serem punidos.
Este fim de semana foi a reunião dos ministros das finanças dos países ricos, com os dirigentes do Banco Mundial e do FMI a acordarem para a dura realidade que é a fome que grassa por todo o mundo e põe ainda mais em risco o desenvolvimento físico e intelectual de centenas de milhões de crianças.
Ontem, sessenta países, apoiados pelo Banco Mundial e pela maioria das agências da ONU, apelaram a mudanças radicais na agricultura mundial para evitar uma crescente escassez de comida em algumas regiões, a escalada dos preços e o aumento dos problemas ambientais. O Banco Mundial estima que pelo menos 33 países estão actualmente em risco de desestabilização política e de conflitos internos devido à inflação do preço da comida.
No fim do século passado considerava-se que, se nada fosse feito, seria inevitável uma guerra global por causa da água: que se saiba, ninguém se incomodou muito com isso, talvez porque os decisores, nessa altura, já não andarão por cá. Confrontados com uma grave crise financeira a nível mundial, serão os dirigentes capazes de fazer face a uma crise muito mais grave, que é a fome de quase metade da humanidade?
Nota: o título desta posta não pretende fazer humor negro. Cá em casa, na sequência do acidente sofrido pela minha companheira em Agosto passado e dando cumprimento a anteriores recomendações médicas, o jantar passou a ser sopa, um copo de tinto e fruta.
Para já, apenas por opção porque, felizmente, ainda faço parte da metade da humanidade que pode ter várias refeições quentes por dia.
O contínuo aumento do preço dos cereais já tinha provocado uma greve em Itália por causa do preço da pasta, motins no México contra o aumento do preço do milho, base da tortilha, o prato tradicional dos mais pobres e protestos em vários países - Guiné, Mauritânia, Marrocos, Senegal, Uzbequistão e Iémen, entre outros - mas a União Europeia e os Estados Unidos continuaram a subsidiar alegremente as culturas destinadas aos biocombustíveis, enquanto em países em desenvolvimento se assistia à destruição da floresta para culturas intensivas de soja, palma oleaginosa ou cana de açúcar, todas destinadas à produção de combustíveis.
Na última semana de Março tinha sido o alarme mundial por causa do aumento exponencial do preço do arroz, com grandes produtores (Vietname, Índia, Egipto, Cambodja) a limitarem ou interromperem as suas exportações com vista a salvaguardarem algumas reservas para os seus cidadãos.
Depois surgiram os motins em vários países, quer por causa dos cereais quer por causa dos óleos alimentares, da Indonésia ao Egipto, passando pelo Haiti, onde se verificaram várias mortes e houve notícia de pessoas que apenas tinham para comer biscoitos feitos de terra e óleo alimentar. A China decretou o congelamento dos preços dos óleos de cozinhar, dos cereais, da carne, do leite e dos ovos, e a presidente das Filipinas deu ordens aos investigadores governamentais para localizarem os açambarcadores, a fim de serem punidos.
Este fim de semana foi a reunião dos ministros das finanças dos países ricos, com os dirigentes do Banco Mundial e do FMI a acordarem para a dura realidade que é a fome que grassa por todo o mundo e põe ainda mais em risco o desenvolvimento físico e intelectual de centenas de milhões de crianças.
Ontem, sessenta países, apoiados pelo Banco Mundial e pela maioria das agências da ONU, apelaram a mudanças radicais na agricultura mundial para evitar uma crescente escassez de comida em algumas regiões, a escalada dos preços e o aumento dos problemas ambientais. O Banco Mundial estima que pelo menos 33 países estão actualmente em risco de desestabilização política e de conflitos internos devido à inflação do preço da comida.
No fim do século passado considerava-se que, se nada fosse feito, seria inevitável uma guerra global por causa da água: que se saiba, ninguém se incomodou muito com isso, talvez porque os decisores, nessa altura, já não andarão por cá. Confrontados com uma grave crise financeira a nível mundial, serão os dirigentes capazes de fazer face a uma crise muito mais grave, que é a fome de quase metade da humanidade?
Nota: o título desta posta não pretende fazer humor negro. Cá em casa, na sequência do acidente sofrido pela minha companheira em Agosto passado e dando cumprimento a anteriores recomendações médicas, o jantar passou a ser sopa, um copo de tinto e fruta.
Para já, apenas por opção porque, felizmente, ainda faço parte da metade da humanidade que pode ter várias refeições quentes por dia.
terça-feira, abril 15, 2008
Twilight Zone / Taxi Driver
Isto aconteceu depois do carro ter sido oficialmente confiscado ao seu dono pelas forças de segurança israelitas, que o transferiram para a custódia de uma base militar. Isto passou-se depois de soldados israelitas terem disparado, sem qualquer motivo, contra a viatura, quando os membros de uma família palestina - incluindo um bebé de três meses - viajavam no seu interior, de regresso de um encontro familiar.
Esta é mais uma cena arrepiante da vida quotidiana nos territórios ocupados, contada por Gideon Levy, jornalista israelita e antigo porta-voz de Shimon Peres, nas páginas do diário Haaretz. Para quem preferir, tem aqui uma tradução para castelhano.
segunda-feira, abril 14, 2008
Dinheiro, poder e sexo
É velha como a história conhecida da espécie humana a relação entre dinheiro, poder e sexo.
Com efeito, já na fase primitiva dos nossos antepassados recoletores e caçadores, os homens competiam entre si para ver quem recolhia a maior quantidade de “dinheiro” da altura (frutos e presas) para assim terem mais influência e melhor conquistarem as mulheres da tribo.
Em fases civilizacionais mais avançadas, a posse de mais meios de troca (dinheiro ou mercadorias, incluindo os escravos e os servos da gleba) e, portanto, de mais riqueza, conduzia iniludivelmente a mais poder e ao desfrute de mais sexo. E na sociedade contemporânea, tal realidade mantêm-se.
Recentemente, um estudo científico publicado no jornal, sujeito a revisão por pares, NeuroReport (acesso limitado a assinantes), no passado dia 26 de Março, concluiu que o sexo e o risco financeiro estão ligados à mesma área cerebral.
Com efeito, imagens de ressonância magnética cerebrais revelaram que, quando a homens jovens eram mostradas imagens eróticas, eles eram mais propensos a fazer especulações financeiras mais ousadas do que quando lhes eram mostradas imagens aterradoras – como cobras – ou neutrais – como, por exemplo, um agrafador, e que as imagens excitantes iluminavam a mesma parte do cérebro que brilha quando se assumem riscos financeiros – o nucleus accumbens, que se situa próximo da base do cérebro e que tem um papel central naquilo que cada um sente como prazer.
O estudo, conduzido por Camelia Kuhnen, professora de finanças na Northwestern University, em conjunto com o psicólogo de Stanford, Brian Knutson, e outros cientistas, foi realizado na Stanford University e envolveu 15 jovens heterossexuais do sexo masculino que fizeram mais de 50 apostas cada um durante as ressonâncias magnéticas. O facto de apenas terem sido observados homens ter-se-á devido a uma maior dificuldade em encontrar imagens eróticas que “entusiasmassem” tantas mulheres heterossexuais diferentes como acontece com os homens heterossexuais.
Apesar da amostra algo reduzida, o estudo veio confirmar resultados anteriores.
De qualquer modo, não deixa de ter piada imaginar que o Sílvio Berlusconi terá construído o seu império ao ver filmes pornográficos da Cicciolina, que o grande especulador George Soros terá feito fortuna a acompanhar as aventuras eróticas de Martina Navratilova com Judy Nelson, ou que Warren Buffet terá acumulado a sua imensa fortuna olhando para as fotografias ousadas de Marilyn Monroe. Já os novos bilionários do Google, do YouTube, do MySpace ou do Facebook, provavelmente tiveram as suas brilhantes ideias a verem e reverem o cruzar de pernas da Sharon Stone em Instinto Fatal.
Dos portugueses, mais vale não fazer palpites. O único que ouso fazer é sobre o Berardo que, muito provavelmente, comprou em primeiro lugar as telas mais ousadas da sua colecção com os primeiros trocados, enriquecendo, depois, a olhar para elas.
domingo, abril 13, 2008
O Significado das Palavras
Apenas as palavras quebram o silêncio, todos os outros sons cessaram. Se eu estivesse silencioso, não ouviria nada. Mas se eu me mantivesse silencioso, os outros sons recomeçariam, aqueles a que as palavras me tornaram surdo, ou que realmente cessaram. Mas estou silencioso, por vezes acontece, não, nunca, nem um segundo. Também choro sem interrupção. É um fluxo incessante de palavras e lágrimas. Sem pausa para reflexão. Mas falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez. Também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. É-me difícil avaliar. Se assim fosse, as pausas seriam mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo-as, palavras e lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos a minha boca. E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa, se é o silêncio que eu digo quando digo que apenas as palavras o quebram. Mas nada disso, não é assim que acontece, é sempre o mesmo murmúrio, fluindo ininterruptamente, como uma única palavra infindável e, por isso, sem significado, porque é o fim que confere o significado às palavras.
Samuel Beckett, in 'Textos para Nada'
Retirado daqui
sábado, abril 12, 2008
O Empolar dos Conflitos
A maior parte dos conflitos são forjados, baseados em falsas suspeições ou exageram coisas sem importância. Umas vezes, a ira vem até nós, outras somos nós que vamos ao seu encontro. Nunca devemos invocar a ira e, mesmo quando ela surge, devemos afastá-la. Ninguém diz para si mesmo: «Já fiz ou poderei vir a fazer o que me está agora a causar ira»; ninguém tem em conta a intenção do autor, mas apenas o acto em si. Ora, é o autor que se deve ter em conta: teve ele intenção de fazer o que fez ou fê-lo sem querer, foi coagido ou estava enganado, seguiu o ódio ou procurou lucrar com o seu acto, fê-lo por sua conta ou prestou um serviço a alguém? A idade de quem errou e a sua situação devem ser ponderadas, para que saibamos se devemos suportar e perdoar a sua ofensa com benevolência ou com humildade.
Coloquemo-nos no lugar daquele que nos suscita ira: então, percebemos que o que nos torna iracundos é uma má avaliação de nós mesmos e não queremos sofrer algo que nós próprios queremos fazer. Ninguém faz uma pausa: ora, a pausa é o maior remédio para a ira, ela permite que o fervor inicial diminua e que a névoa que obscurece a mente se dissipe ou se torne menos densa. Alguns impulsos que te agitavam por uma hora, não direi por um dia, desaparecerão totalmente; se sentirmos que este recurso não sortiu efeito, isso prova, pelo menos, que já estamos a obedecer à razão e não à ira. Cada vez que quiseres conhecer alguma coisa, confia-a ao tempo: é difícil discernir algo que esteja em movimento.
Séneca, in 'Da Ira'
Retirado daqui
sexta-feira, abril 11, 2008
“Camisinhas” da Amazónia
Vinte anos após o a assassinato de Chico Mendes, Xapuri, a cidade do estado Do Acre, bem no coração da Amazónia, que viu o Chico nascer, crescer, lutar e morrer à mão de fazendeiros, voltou a ser notícia, desta vez por razões bem melhores.
Embora “fazer amor” possa não parecer a forma mais óbvia de salvar a maior floresta tropical do planeta – e de combater a ameaça da SIDA, de acordo com o governo brasileiro pode ser uma arma efectiva na batalha para silenciar as motoserras na Amazónia.
Na tarde da passada segunda feira, 7 de Abril e Dia Mundial da Saúde, a ministra do ambiente, Marina Silva, acompanhada de representantes do Ministério da Saúde, do Governador do Estado, de Senadores e de todo um rol de individualidades e activistas, inaugurou a fábrica Natex, num investimento de cerca 31 milhões de reais, para uma fábrica de preservativos de látex de seringueiras nativas de Xapuri.
O facto de o método de extracção do látex ser manual permitirá o desenvolvimento sustentável da floresta, gerando 150 empregos directos e envolvendo cerca a 550 famílias da Reserva Extrativista Chico Mendes, a quem proporcionará um rendimento mensal superior a 400 reais (acima do salário mínimo do Brasil).
Além da protecção da floresta tropical, o governo espera que a fábrica, com capacidade de produção de 100 milhões de unidades por ano, reduza a dependência do Brasil relativamente aos preservativos importados da Ásia, já que em 2007 houve uma distribuição gratuita de 120 milhões de unidades como parte de uma intensa campanha para diminuir as taxas de infecção com o vírus da SIDA.
É caso para dizer: sexo seguro, Amazónia com futuro!
quinta-feira, abril 10, 2008
Amai-vos...
Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um grilhão.
Que haja, antes, um mar ondulante
entre as praias de vossa alma.
Enchei a taça um do outro,
mas não bebais da mesma taça.
Dai do vosso pão um ao outro,
mas não comais do mesmo pedaço.
Cantai e dançai juntos,
e sede alegres,
mas deixai
cada um de vós estar sozinho.
Assim como as cordas da lira
são separadas e,
no entanto,
vibram na mesma harmonia.
Dai vosso coração,
mas não o confieis à guarda um do outro.
Pois somente a mão da Vida
pode conter vosso coração.
E vivei juntos,
mas não vos aconchegueis demasiadamente.
Pois as colunas do templo
erguem-se separadamente.
E o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro.
Gibran Kahlil Gibran
quarta-feira, abril 09, 2008
9 de Abril
Há cinco anos, muitos de nós acordámos para ver a estátua de Saddam Hussein, em Bagdade, a ser derrubada. Os média devoraram essa imagem. Segundo afirmou George Bush, foi um feito comparável à queda do muro de Berlim. O Iraque era livre, escreveram ou disseram a maior parte dos especialistas. Os Estados Unidos tinham demonstrando que os seus detractores estavam errados. Bagdade tinha caído com uma perda irrisória de vidas estado-unidenses. Um Iraque democrático acabava de aparecer no horizonte.
O que viram não era real. A estátua de Saddam no foi demolida pelos iraquianos. O evento foi organizado e bem ensaiado pelos militares dos Estados Unidos.
A análise é de Malcom Lagauche, escritor e jornalista estado-unidense.
terça-feira, abril 08, 2008
In Memoriam

(Imagem: Pablo Picasso - A morte do toureiro- 1933)

(Imagem: Pablo Picasso - A morte do toureiro- 1933)
Não há, na arte, nem passado nem futuro. A arte que não estiver no presente jamais será arte.
Não, a pintura não é feita para decorar os apartamentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo.
Pablo Picasso*
*no 35º aniversário da sua morte
Não, a pintura não é feita para decorar os apartamentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo.
Pablo Picasso*
*no 35º aniversário da sua morte
segunda-feira, abril 07, 2008
E se simplificássemos tudo isto?
Quais são exactamente as regras que regem o direito à secessão e, em geral, àquilo que se chama de auto-determinação? Alguns dizem-nos que estão um pouco confusos. E, na verdade, a acreditarmos nos grandes meios de comunicação...
Na Ásia, os Tibetanos têm o direito. Mas não os Iraquianos nem os Afegãos.
No Médio Oriente, os Israelitas têm o direito. Mas não os Palestinos nem os Curdos.
Na África, os generais mafiosos do Congo Oriental têm o direito. Mas não o Sahara Ocidental.
Na América Latina, as províncias ricas (e de direita) da Bolívia e da Venezuela têm o direito. Mas já não o têm os índios do Chile, do México, etc...
Nos Balcãs, os Albaneses do Kosovo têm o direito. Mas não os Sérvios do Kosovo nem os da Bósnia.
Na Europa ocidental, os Flamengos teriam o direito, mas não os Irlandeses do Norte ou os Bascos.
Complicado, na verdade. E se simplificássemos tudo isto? Apenas teriam direito à auto-determinação aqueles que estão “connosco”. Os outros, não.
E, já que estamos com a mão na massa, substituamos, também, a palavra “democrata” por “connosco” e a palavra “terrorista" por “contra nós”.
Aí está! A política, quando se quer, é simples.
Texto original de Michel Collon
Tradução minha
domingo, abril 06, 2008
Encruzilhada
Pode haver
um ponto de partida.
Um epicentro de onde
soe
alguma palavra exata.
Como o encaixe
de duas bocas.
Se via de passagem
ou gozo de fuga
por derrocadas, desertos, que
acolha e multiplique
saídas, estiagens,
emergências.
Hora de partir. Pura
fantasia. Um corpo
que empurra o vento,
que ilumina a luz,
amarrota o mar, coberto de
pó. Que
possa dobrar,
passo a passo,
o risco do caminho.
Ronald Polito*
*poeta mineiro
sábado, abril 05, 2008
Vestígios
Estranha pulsão, esta:
derramar no caderno porções de alma.
A mão, captando sinais invisíveis.
Lenta, no formigueiro em marcha.
Absolutamente só,
enquanto todos perseguem a sagrada hora do trabalho
e dos compromissos bancários.
E depois, palavras escondidas em oculto caderno,
papel rasgado, para que delas não sobrem
vestígios.
Ana Cecília de Souza Bastos*
*poetisa brasileira
sexta-feira, abril 04, 2008
EU TENHO UM SONHO
No processo de conquista do nosso legítimo lugar, nós não devemos ser culpados de acções iníquas. Não vamos procurar satisfazer a nossa sede de liberdade bebendo da chávena da amargura e do ódio. Nós temos constantemente de conduzir a nossa luta num patamar elevado de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que o nosso protesto criativo degenere em violência física. E uma vez e outra nós temos de subir às majestosas alturas de contrapor à força física a força da alma. A nova e maravilhosa combatividade que se tem entranhado na comunidade Negra não deve levar-nos a uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, já que muitos dos nossos irmãos brancos, como se comprova pela presença deles aqui hoje, já compreenderam que o destino deles está ligado ao nosso destino. E já perceberam que a sua liberdade está inextrincavelmente ligada à nossa liberdade. Nós não podemos caminhar sozinhos.
No dia em que se cumprem 40 sobre o assassinato de Martin Luther King e quando passam quase 45 anos sobre o seu discurso I Have a Dream (do qual retirei o trecho acima), pronunciado no dia 28 de Agosto de 1963 nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C., como parte da Marcha de Washington pelo Emprego e pela Liberdade e que constituiu um momento decisivo na história do Movimento Americano pelos Direitos Civis, discurso esse feito em frente a uma plateia de mais de duzentas mil pessoas que apoiavam a causa e que é considerado um dos maiores na história e foi eleito o melhor discurso estado-unidense do século XX numa pesquisa feita no ano de 1999, que bom seria que o governo dos Estados Unidos o lesse, nem que fosse uma só vez, com a atenção suficiente para entender a sua mensagem.
quinta-feira, abril 03, 2008
"Havaianas"


14 anos e alguns milhares de milhões de euros depois, o Grande Colisor de Hádrons, construído no Conselho Europeu para Pesquisa Nuclear e com data de inauguração prevista inicialmente para Novembro de 2007, parece que estará pronto para começar a operar no verão deste ano com vista a recriar as condições e energias verificadas um bilionésimo de segundo após o Big Bang, com todas as consequências que daí poderão advir em termos de conhecimento.
De positrões, electrões, protões, câmaras de vácuo, acelerações de partículas, teoria das cordas, teoria dos campos e outras coisas do género não percebo mais do que o cidadão leigo medianamente informado, mas tenho, habitualmente, uma boa dose de confiança nos especialistas do ramo que, todos juntos, devem saber razoavelmente aquilo que andam a fazer. E no CERN já fizeram muitas coisas úteis, entre as quais a criação da World Wide Web.
Mas há sempre uns “maduros” apostados em colocar umas areias na engrenagem, e estes parece que calçam "havaianas". Walter Wagner - residente no Havai e que terá estudado física e feito investigação de raios cósmicos em Berkeley - e Luis Sancho - que se intitula investigador em “teoria do tempo” e reside em Espanha, estão convencidos de que a actividade do LHC talvez possa provocar um buraco negro que engolirá a Terra e, possivelmente, todo o Universo.
Portanto, não estiveram com meias medidas e, literalmente, pediram a um Juiz para Salvar o Mundo, metendo um processo no Tribunal Federal de Honolulu com vista a impedir o CERN de operar o acelerador até que apresente um relatório sobre a segurança e a avaliação ambiental. Claro que há vários relatórios elaborados, mas os queixosos ainda não estão convencidos, pelo que o “programa segue no próximo dia 16 de Junho”, no meio do Pacífico.
De positrões, electrões, protões, câmaras de vácuo, acelerações de partículas, teoria das cordas, teoria dos campos e outras coisas do género não percebo mais do que o cidadão leigo medianamente informado, mas tenho, habitualmente, uma boa dose de confiança nos especialistas do ramo que, todos juntos, devem saber razoavelmente aquilo que andam a fazer. E no CERN já fizeram muitas coisas úteis, entre as quais a criação da World Wide Web.
Mas há sempre uns “maduros” apostados em colocar umas areias na engrenagem, e estes parece que calçam "havaianas". Walter Wagner - residente no Havai e que terá estudado física e feito investigação de raios cósmicos em Berkeley - e Luis Sancho - que se intitula investigador em “teoria do tempo” e reside em Espanha, estão convencidos de que a actividade do LHC talvez possa provocar um buraco negro que engolirá a Terra e, possivelmente, todo o Universo.
Portanto, não estiveram com meias medidas e, literalmente, pediram a um Juiz para Salvar o Mundo, metendo um processo no Tribunal Federal de Honolulu com vista a impedir o CERN de operar o acelerador até que apresente um relatório sobre a segurança e a avaliação ambiental. Claro que há vários relatórios elaborados, mas os queixosos ainda não estão convencidos, pelo que o “programa segue no próximo dia 16 de Junho”, no meio do Pacífico.
quarta-feira, abril 02, 2008
Dos ventos
Não há, nos ventos,
a liberdade da morte,
embora sejam implacáveis e
jamais perdoem as folhas secas.
Todos os ventos têm nome
mas não se conhece nenhum
de perto, embora
se agarrem a você
e desorganizem a harmonia.
Os ventos não têm forma
mas sabemos todas as suas aspirações
e os seus amores com o mar e as árvores.
Os ventos não têm a liberdade da morte
diluídos na essência
do que nunca aconteceu
Álvaro Pacheco*
*poeta brasileiro
terça-feira, abril 01, 2008
A Nostalgia da Europa
Na Idade Média, a unidade europeia repousava na religião comum. Nos Tempos Modernos, ela cedeu o lugar à cultura (à criação cultural) que se tornou na realização dos valores supremos pelos quais os Europeus se reconhecem, se definem, se identificam. Ora, hoje, a cultura cede, por sua vez, o lugar.
Mas, a quê e a quem? Qual é o domínio onde se realizaram valores supremos susceptíveis de unir a Europa? As conquistas técnicas? O mercado? A política com o ideal de democracia, com o princípio da tolerância? Mas, essa tolerância, que já não protege nenhuma criação rica nem nenhum pensamento forte, não se tornará oca e inútil? Ou então, será que podemos entender a demissão da cultura como uma espécie de libertação à qual nos devemos abandonar com euforia? Não sei. A única coisa que julgo saber é que a cultura já cedeu o seu lugar. Assim, a imagem da identidade europeia afasta-se do passado.
Europeu: aquele que tem a nostalgia da Europa.
Milan Kundera, in "A Arte do Romance"
Subscrever:
Mensagens (Atom)