How many times must a man look up, Before he can see the sky? How many ears must one man have, Before he can hear people cry? The answer, my friend, is blowin' in the wind. The answer is blowin' in the wind.
sábado, fevereiro 06, 2016
sexta-feira, fevereiro 05, 2016
Canção de
Ndon Kishote
Fruste
silhueta
gáudio da
canalha
provocando o
riso, o choro e a troça
o soldado
veterano trazido pela guerra
é fardo de
palha
que a brisa
desconjunta
regressando
a casa no fundo da carroça.
velho
monumento que nada mais encerra,
como aquela
puta que já não presta,
que foi
marabunta,
que foi
cagalhoça.
fruste
silhueta
gáudio da
canalha.
o que te
resta ainda
da tua
gesta?
memória
d'arquivo
que nem
sequer comporta
o eco
evasivo que sonoriza a glória!
silêncio na
memória.
silêncio
imperativo.
mito que se
conta em língua morta,
feito que
desfeito perde a história.
memória duma
insólita fescura
nos nossos
afagos e carícias
que
ondularam a superfície dos lagos
e agitaram
as folhas das welwitchias.
memória
d'aventura que desperta
abrindo a
porta dos sonhos fugazes,
nas vozes
agudas,
nas palavras
estranhas
nos gestos
largos e sagazes
retumbando
na crista das montanhas
avante!
avante! que a vitória é certa!
que davam
coragem aos nossos rapazes
atrapalhando
os budas!...
mas deixando
sempre a porta aberta...
memória duma
fruste silhueta
a cavalo
numa nuvem temporária
à procura da
meta
pelo tempo
fora, pela extensa área
do sonho
rubro da nossa vida,
claudicando
no campo de batalha
na sua
montada feita de esperança,
um poema na
boca, na mão a longa lança,
e em toda
ela um suspiro de ternura.
não é o
cavaleiro da triste figura
duma velha
história, que não tem saída,
a fruste
silhueta, gáudio da canalha,
é o herdeiro
duma sagrada-esperança
noutra
aventura
mal
digerida...
(escritor
angolano, falecido faz hoje 10 anos)
quinta-feira, fevereiro 04, 2016
Para fazer o
retrato de um pássaro
Primeiro
pintar uma gaiola
com a porta
aberta
depois
pintar
qualquer
coisa de bonito
qualquer
coisa de simples
qualquer
coisa de belo
qualquer
coisa de útil...
para o
pássaro
depois
pendurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa
floresta
esconder-se
atrás da árvore
sem dar um
pio
sem mover um
dedo...
Às vezes o
pássaro chega sem demora
mas pode
também levar longos anos
até se
decidir
Não se
abater
esperar
esperar anos
e anos se preciso
pois a
rapidez ou a demora
do pássaro
não têm nada a ver
com o
sucesso do quadro
Quando o
pássaro chegar
se chegar
manter o
mais profundo silêncio
esperar que
o pássaro entre na gaiola
e quando
entrar
fechar
suavemente a porta com o pincel
depois
apagar uma a
uma todas as grades
tomando
cuidado para não tocar sem querer nas penas do pássaro
Fazer depois
o retrato da árvore
reservando o
galho mais belo de todos
para o
pássaro
pintar ainda
a folhagem verde e o frescor do vento
a poeira do
sol
e o rumor
dos insetos na relva no calor do verão
depois é só
esperar que o pássaro comece a cantar
Se o pássaro
não cantar
é mau sinal
sinal de que
o quadro é mau
mas se
cantar bom sinal
sinal de que
pode assiná-lo
então você
deve arrancar devagarinho
uma das
penas do pássaro
e escrever
seu nome num canto do quadro.
(Jacques
Prévert nasceu a 4 de Fevereiro de 1900)
quarta-feira, fevereiro 03, 2016
A Esmo
Eles não
sabem o que fazem:
mas eu fico
aqui
sem saber
sobre o rumo
sem conhecer
a saída
e apalpo o
vazio que intriga
e um peso
morto nos braços.
Vida dentro
da vida, tão lógica
como o
encaixe da peça
e sua
engrenagem de inferno
que mói, que
reduz, que incorpora.
Nós somos
assim - morrendo de medo.
E encenamos
que sabemos que fingimos
sem faixa de
pedestre, enquanto se aproxima
o muro.
Nós somos. A
esmo.
A luz que
sobe agora é de mentira?
O sangue que
percorre é de verdade?
Nasce um sol
à minha frente, que arrisca
uma viagem
suicida, algo que segue
e morre à
tarde, e ficamos
em susto e
contemplação.
Onde está
todo o clarão? Onde está a coragem
que me
queimou toda a vida?
Assim mesmo.
De arremedo.
(poeta
carioca que hoje faz 53 anos)
terça-feira, fevereiro 02, 2016
Campo de
batalha - I
A noite,
porém, rangeu e quebrou:
Viajantes
clandestinos,
à procura de
uma estrela mais distante,
quedaram-se
emudecidos.
Apodreceu a
carne, rangeram os ossos
e os dias
escorreram, viscosos, iguais.
Estéril, a
vida continuou:
a fome, a
peste, a guerra - a morte!
(poeta
angolano nascido faz hoje 101 anos)
segunda-feira, fevereiro 01, 2016
Preso Político
1
Quiseram
pôr-me inteiro numa ficha.
O dia e a
noite são iguais por dentro.
Não há papel
que conte a minha vida
mais que
estes versos de punhal à cinta.
A barba
cresce, e cresce a voz armada
descendo
pelos muros tão tranquila;
tão
tranquila que já nem desespera
de ser
apenas voz, não uma guerra.
Quiseram
pôr-me inteiro numa ficha.
Não há papel
que conte a minha vida.
Mais que
estes versos, esta mão estendida
por sobre os
muros só de medo e pedra.
2
Quando
saíres, amigo, não me esqueças.
Fico à
espera da tua novidade.
Olha bem que
farás da liberdade:
quando
saíres, amigo, não me esqueças.
Quero mais
fazimento que promessas.
São de prata
os enganos da cidade
com que
outros sujeitam a vontade.
Não me
esqueças, amigo, não me esqueças.
(Fernando
Assis Pacheco nasceu faz hoje 79 anos)
Subscrever:
Mensagens (Atom)